Quando o capitalismo vai responder pelos seus crimes?

28/06/2019

Por
Paul Heideman

Tradução
Choldraboldra e Talita Oliveira

As pessoas não se voltam para o socialismo porque são ingênuas. Elas se voltam para o socialismo porque sabem que não temos que viver na miséria.

Uma sem-teto sentada em Wall Street, do lado de fora da Bolsa de Valores de Nova York em 2017. Spencer Platt / Getty Images

O capitalismo é um sistema social excepcional. Apesar de todos os esforços de centenas de milhões de socialistas no último século e meio, ele ainda é o sistema hegemônico que governa a produção e a política em todo o mundo. Esse domínio explica, pelo menos em parte, a sensação de choque que é palpável nas publicações de figuras da mídia que, aos poucos, têm despertado para o crescente ressurgimento do socialismo nos Estados Unidos. Fica muito aparente, na leitura desses textos, que os autores simplesmente não conseguem acreditar que alguém possa ainda estar questionando o capitalismo.

O artigo de Connor Friedersdorf no Atlantic é um exemplo emblemático desse gênero. Em seu artigo, Friedersdorf tenta empilhar o maior número possível de corpos aos pés do socialismo, através de uma conhecida viagem pelos números de mortos atribuídos a regimes em países como a URSS, a China e o Camboja.

Essas mortes, segundo ele, estariam sendo ignoradas pelos defensores contemporâneos do socialismo, como Mathieu Desan e Mike McCarthy, os autores do artigo da Jacobin que ele critica. Para Friedersdorf, o atual ressurgimento do socialismo nos Estados Unidos estaria “baseado principalmente numa (…) ignorância sobre a história do século XX, tão míope quanto o negacionismo do Holocausto na extrema direita”.

No entanto, para quem estiver buscando conhecer melhor o histórico das experiências dos regimes comunistas do século XX, o artigo de Friedersdorf com certeza será uma decepção. De fato, é um tanto irônico que ele tente pintar os socialistas como historicamente ignorantes quando o seu próprio texto revela uma quase total falta de compreensão de qualquer coisa envolvendo essas sociedades. Assim como a máquina de guerra estadunidense que Friedersdorf tanto critica, ele só está interessado em contar corpos.

Por exemplo, Friedersdorf cita o regime do Khmer Vermelho no Camboja, que governou o país de 1975 a 1979 e que exerceu violência contra a população do país num nível genocida. Para Friedersdorf, o Camboja era governado pelo “mesmo sistema econômico” que a Rússia ou a China.

Tal afirmação expõe uma ignorância quase completa a respeito da história real do Khmer Vermelho, cuja conexão com o socialismo era mais ou menos análoga à conexão de Donald Trump com o cristianismo.

Desde muito antes de tomarem o poder em 1975, o Khmer Vermelho já era um movimento etno-supremacista dedicado a restaurar a glória da nação cambojana e a usar os vietnamitas e chineses como bodes expiatórios étnicos. A fraseologia socialista servia como mera fachada.

Ao tomar o poder, o regime esvaziou as cidades para impulsionar a agricultura rural, aboliu o dinheiro e, para completar de maneira grandiosa, explodiu o banco central do país. É claro que a economia entrou em colapso, e o regime teve vida curta.

Esse fato por si só já deveria servir como um indício de que se tratava de uma sociedade bem diferente da China ou da Rússia após as suas revoluções – até porque, quaisquer que tenham sido os crimes cometidos nesses regimes e seus consideráveis ​​problemas econômicos, ambos os países alcançaram níveis relativamente altos de crescimento econômico que elevaram consideravelmente o padrão de vida de suas populações ao longo de décadas.

Para completar, o Khmer Vermelho nunca teria nem mesmo chegado ao poder sem a selvageria da intervenção estadunidense no Camboja, principalmente a campanha de bombardeio que devastou o campo. Somente a brutalidade da principal potência capitalista no mundo, agindo em nome do combate ao comunismo, poderia criar as condições nas quais um regime como o Khmer Vermelho seria capaz de conquistar o poder do Estado.

Para Friedersdorf, no entanto, evitar a miopia histórica aparentemente significa ignorar esse tipo de contexto histórico, desde que isso permita acumular mais cadáveres aos pés do socialismo.

Mas e quanto à China? Nesse caso, Friedersdorf passa mais perto do alvo. A fome chinesa de 1958-61 foi uma das maiores catástrofes em tempos de paz no século XX, e não há dúvida de que as formas específicas de planejamento estatal adotadas pelo Estado chinês contribuíram para isso.

Porém, novamente, com um pouco mais de contexto histórico, as coisas começam a parecer bem diferentes: enquanto em meados do século XX a China viveu três anos de catástrofe num nível histórico para os padrões mundiais, outros países que não tinham sistemas de apoio alimentar como os da China experimentaram fome constante se arrastando em câmera lenta por décadas. Ao redor de todo o mundo, a capacidade dos proprietários de excluir as populações rurais de sua propriedade privada deixou os pobres da zona rural em total privação.

No livro “Fome e Ação Pública”, os economistas Jean Dreze e Amartya Sen trazem à tona essa questão de maneira especialmente vigorosa em uma comparação entre a Índia – onde, apesar de toda a discussão sobre socialismo, os latifundiários ainda mantiveram o seu domínio – e a China, onde não havia mais latifundiários:

“É importante observar que, apesar do nível gigantesco de mortalidade excessiva na crise de fome na China, a mortalidade extra na Índia pela privação comum, em tempos normais, lança sombras sobre a primeira. Comparando a taxa de mortalidade da Índia, de 12 a cada mil, com a da China, de 7 a cada mil, e aplicando essa diferença à população indiana de 781 milhões em 1986, temos uma estimativa de excesso na taxa normal de mortalidade na Índia de 3.9 milhões por ano. Isso significa que, aproximadamente, a cada oito anos morrem mais pessoas na Índia, por causa da sua taxa padrão de mortalidade mais alta, do que morreram na gigantesca fome chinesa de 1958-61. Parece que a Índia consegue encher seus armários com mais esqueletos a cada oito anos do que a China o fez em seus três anos lastimáveis.”

Em outras palavras, embora a Índia não tenha vivido nenhum período concentrado de fome que possa ser facilmente identificado e colocado na conta de uma ideologia específica, suas péssimas condições normais durante a segunda metade do século XX, em que prevaleceu uma desigualdade exorbitante na distribuição da terra, criou um excesso de mortalidade que, no longo prazo, superou e muito o da pior fome do século.

Esse exemplo acerta em cheio o motivo pelo qual o artigo de Friedersdorf é tão insatisfatório: A maior parte das mortes e do sofrimento resultantes do capitalismo permanece teimosamente como algo banal.

Quando diabéticos racionam sua insulina por causa do aumento dos custos, e alguns deles morrem, isso é uma consequência da distribuição dos direitos de propriedade que existe em nossa sociedade. Quando os pobres e os não-brancos sofrem com o aumento da mortalidade pela poluição do ar, isso também é uma consequência do nosso atual sistema econômico.

Este exercício pode ser expandido com incontáveis exemplos. As pessoas cujas vidas são devastadas porque a nossa sociedade prioriza os direitos de propriedade dos ricos em detrimento das necessidades dos pobres são tão vítimas de injustiça quanto aquelas que morreram em catástrofes concentradas sob Estados que se diziam socialistas.

É claro que alguém poderia inverter essa lógica e apontar para o potencial humano desperdiçado nas ineficiências cotidianas dos regimes socialistas de Estado e para a dignidade humana violada pela sua corrupção política. Mas qual seria o ponto em se fazer isso?

Dada a escolha entre viver em uma democracia capitalista avançada como a dos EUA e em um Estado desenvolvimentista autoritário como o da China ou da URSS, poucos hoje diriam honestamente que escolheriam a segunda opção. Mas esta não é a escolha oferecida hoje nos Estados Unidos – não é essa a visão de socialismo que McCarthy e Desan descreveram em seu artigo original, que se baseia na centralidade da democracia para a libertação humana.

Sobre o Autor

Paul Heideman
é doutor em estudos americanos pela Rutgers University-Newark.