O último discurso de Salvador Allende

11/09/2019

Por
Salvador Allende

Tradução
Gustavo Racy

Presidente socialista chileno foi assinado há 46 anos, em um golpe apoiado pelos EUA. Aqui estão suas últimas palavras, transmitidas pela rádio enquanto ele estava entrincheirado no palácio presidencial.

A última fotografia de Salvador Allende inspecionando o palácio presidencial pouco antes de ser bombardeado.

Meus amigos, seguramente esta será a última oportunidade em que posso vos dirigir a palavra. A Força Aérea bombardeou as torres da Rádio Portales e da Rádio Corporação.

Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. E serão o castigo moral para os que traíram o juramento que fizeram: soldados do Chile, comandantes em chefe titulares, Almirante Merino, que se auto-designou comandante da Marinha, mais o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou Diretor Geral dos Carabineros [a polícia nacional]. 

Frente a estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: eu não renunciarei!

Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida pela lealdade ao povo. E vos digo que tenho certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser negada definitivamente.  Eles detém a força, poderão nos avassalar; mas não se pode deter os processos sociais. Nem com o crime, nem com a força. A história é nossa, e os povos a fazem.

Trabalhadores da minha pátria. Quero vos agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que sempre depositaram em um homem que foi somente intérprete de grandes anseios por justiça; que deu sua palavra de que respeitaria a constituição e a lei e assim o fez. 

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro e o imperialismo, unidos à reação, criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Eu me dirijo, acima de tudo, à modesta mulher de nossa terra, à campesina que acreditou em nós, à avó que trabalhou mais, à mãe que soube de nossa preocupação pelas crianças. Eu me dirijo aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que há dias estiveram trabalhando contra a sedição patrocinada pelas associações profissionais; associações classistas que também defenderam os lucros de poucos de uma sociedade capitalista.

Me dirijo à juventude, àqueles que cantaram e entregaram sua alegria e seu espírito de luta. Me dirijo ao homem do Chile, ao trabalhador, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo já está há tempos presente: nos atentados terroristas, explodindo pontes, cortando as linhas férreas, destruindo oleodutos e gasodutos perante o silêncio daqueles cuja obrigação era protegê-los. Estavam comprometidos. A História os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será silenciada e o metal tranquilo da minha voz já não vos alcançará. Não importa. Continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vós. Pelo menos minha memória será a de um homem digno, que foi leal à Pátria. 

O povo deve se defender, mas não deve se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens superarão este momento cinza e amargo sobre o qual a traição pretende se impor. Sigais sabendo que muito mais cedo do que se espera, se abrirão novamente as grandes alamedas pelas quais passarão homens livres para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

Sobre o autor

(1908–1973) foi o presidente do Chile de 1970 a 1973.