O futuro pode ser socialista

31/10/2019

Por
John McDonnell

Tradução
Victor Marques

Antes das próximas eleições gerais no Reino Unido, John McDonnell pede aos militantes do partido Trabalhista que estejam preparados para “uma enorme resistência contra uma elite que está apavorada frente a possibilidade de um governo socialista”.

Saudação de John McDonnell, ministro da economia no gabinete paralelo da oposição, à Conferência do Partido Trabalhista de 2019 (setembro).

Ao que parece, em breve estaremos em campanha por toda a Grã-Bretanha para uma eleição geral que será a mais importante em pelo menos uma geração.

Faz um bom tempo que a frase “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburgo não descreve tão bem a escolha que os eleitores do Reino Unido enfrentarão nas urnas.

Até as formas institucionais que os defensores da ordem estabelecida reverenciam como o ápice da democracia estão ameaçadas por uma forma de populismo de direita que mal tenta esconder suas conexões com movimentos ainda mais à direita.

Os parlamentares conservadores, geralmente tão entusiasmados em cantar louvores às instituições políticas britânicas, ficaram repentinamente, e suspeitosamente, quietos enquanto essas mesmas instituições são atacadas por um primeiro-ministro que faz o possível para imitar Donald Trump.

Uma citação de Karl Marx tem circulado bastante desde que Johnson suspendeu o parlamento e passou a ameaçar ignorar as leis aprovadas ali:

“Os conservadores da Inglaterra há tempos se pensavam como entusiastas da monarquia, da igreja e das belezas da antiga Constituição inglesa, até o dia em que o perigo lhes arrancou a confissão de, na verdade, só serem entusiastas mesmo da renda fundiária”.

Como socialistas, devemos defender a democracia em todas as suas formas, resistindo às tentativas de contornar o escrutínio e bloquear o debate.

O saudoso Paul Foot, em seu livro “O Voto” (The Vote), descreveu vividamente a luta pelo sufrágio universal e sua importância, ainda quando os oponentes políticos da democracia se esforçavam para enfraquecer seu poder e significado.

Mas precisamos ir além de defender o que foi ganho. Os socialistas acreditam que a democracia é algo a ser expandido, sempre e em toda parte, inclusive para a esfera econômica.

A democracia é, portanto, algo maior do que apenas uma eleição a cada 4 ou 5 anos – ou, como parece ser neste período de alta instabilidade, a cada 2 anos – ainda que esses direitos políticos sejam fundamentais.

Por que o poder sobre nossas próprias vidas, que a democracia deveria trazer, teria que parar quando adentramos o lugar de trabalho? Por que os trabalhadores de setores-chave, e as pessoas que usam seus serviços, não podem se encarregar de geri-los coletivamente?

Nossa democracia vai muito além de Westminster [a sede do governo inglês]. Ela foi fortalecida e impelida à ação pelas táticas extra-parlamentares dos ativistas climáticos, estudantes grevistas e aqueles que lutam contra a expansão dos aeroportos, que têm forçado os políticos a adotar, tardiamente, políticas para enfrentar a emergência climática.

Essas emergências constituem o cenário aterrorizante para as decisões políticas de hoje e exigem o tipo de políticas ousadas com as quais o Partido Trabalhista se compromete para as próximas eleições.

Somente o movimento trabalhista pode oferecer as soluções coletivas que nos permitam evitar mudanças climáticas catastróficas por meio da transição para uma economia sustentável, e sem infligir a dor neoliberal às comunidades da classe trabalhadora.

Ao vincular a luta pela justiça econômica à luta pela justiça ambiental em todo o mundo, podemos ganhar apoios necessários para mudanças transformadoras.

Como mostrou a última eleição geral, podemos ganhar milhões de pessoas para políticas radicais quando Jeremy e o resto de nós tivermos a chance de fazer campanha em todo o país e combater a desinformação divulgada por grande parte da mídia.

Já fizemos isso antes e – embora não devamos cometer o erro de supor que a história se repete – acreditamos que uma audiência justa e regras mais equilibradas para a mídia permitirão que as políticas trabalhistas cheguem às pessoas.

Mas se o Partido Trabalhista vencer uma eleição nos próximos meses, todos nós devemos resistir a qualquer tentação de considerar o trabalho como terminado. Ganhar o poder é apenas o começo da luta para nós.

Enfrentaremos uma enorme resistência por parte da ordem estabelecida e daqueles que têm pavor a um governo socialista que colocará fim a décadas de roubo legalizado por alguns poucos da elite.

Como eu disse na Conferência do nosso partido ano passado: quanto maior o estrago que herdarmos, mais radicais teremos que ser.

Assim como estamos comprometidos para as próximas eleições a fortalecer e ir além do programa eleitoral de 2017, teremos que tomar o novo programa como o ponto de partida para a transformação radical que precisamos realizar.

Essa transformação será realizada não pelos políticos, mas por todo o nosso movimento agindo em conjunto para pôr o mercado em seu lugar e ampliar a democracia.

É hora de direcionar nosso olhar para um outro mundo: uma sociedade radicalmente transformada, radicalmente mais justa, mais igualitária e mais democrática; uma sociedade baseada em uma economia próspera, mas uma economia sustentável econômica e ambientalmente, e onde essa prosperidade seja compartilhada por todos.

Esse outro mundo não é apenas possível, agora está à vista. E se continuarmos juntos, teremos a chance de começar a construí-lo antes de nos encontrarmos novamente na Conferência do próximo ano.

Publicado na Tribune

Sobre o autor

é o Chanceler Sombra do Tesouro e membro do Parlamento do Partido Trabalhista em Hayes e Harlington.