Domenico Losurdo, um crítico da hipocrisia liberal

25/11/2019

Por
David Broder

Tradução
Marianna Braghini

Falecido ano passado, marxista italiano era contundente em suas críticas, expondo as falsas assimetrias que liberais, e alguns pensadores da esquerda ocidental, se utilizavam para reescrever a História.

Domenico Losurdo, data desconhecida. lvsl.fr

Pode parecer estranho começar o obituário de alguém de 77 anos de idade dizendo que ele foi levado de nós em seu apogeu. Antes de Domenico Losurdo ser atingido por um tumor cerebral, o marxista italiano estava no auge de sua capacidade. Somente ano passado ele publicou uma polêmica contra as pretensões do marxismo ocidental, seguindo um trabalho de 2016, no qual ele lançou um olhar crítico aos projetos de paz através da história.

Como professor emérito na Universidade de Urbino e presidente da Associazione Marx XXI, Losurdo, mesmo em idade avançada, manteve suas atividades ao redor do mundo em conferências e apresentações de livros. Sempre entusiasmado em promover seu pensamento no âmbito internacional, até mesmo logo antes de sua morte, ele estava trabalhando em um novo capítulo para a versão em inglês de seu livro “Antonio Gramsci: From Liberalism to Critical Communism.”

Esta é apenas uma das três obras de Losurdo em inglês previstas para serem publicados, continuando o esforço em tornar seu trabalho conhecido para camadas de leitores ainda mais amplas. Ele já estava entre os mais reconhecidos marxistas italianos em âmbito internacional, enquanto um robusto militante e historiador de filosofia, sempre atento em expor as realidades materiais, as condições históricas e sociais, que estiveram por trás de todos os ideais e sistemas filosóficos.

Particularmente, isso tomou a forma de um ataque perfurante à hipocrisia liberal, mais notadamente expresso em um trabalho inicialmente publicado em italiano, em 2005, depois traduzido para o inglês pela Verso em 2011, como “Liberalism: A Counter History” [“Contra-História do Liberalismo“]. Losurdo expôs a violência colonial e a posse de escravos que passaram de mão em mão com a ascensão do projeto liberal no século XVIII, apontando acidamente seus limites, a exclusão e a hipocrisia no coração do alegado universalismo do liberalismo.

Isso, inclusive, auxiliou os esforços de Losurdo, na defesa das experiências soviética e chinesa de construção do socialismo. Ele não explicou meramente seus crimes e erros (os quais ele admitia livremente) como uma resposta ao clima de guerra sob as quais emergiram. Além disso, ele expôs as falsas assimetrias que levaram os liberais a comparar a violência comunista e nazista, como se o colonialismo ocidental pudesse de alguma forma ser separado.

Revisionismo e anti-revisionismo

Domenico Losurdo foi, de fato, um escritor marcadamente político. Nascido no ano em que a Itália fascista se uniu à Alemanha nazista em sua guerra contra a URSS, ele foi parte de uma geração radicalizada nos anos 1960, na qual o “anti-revisionismo” maoísta exerceu uma forte influência em figuras da extrema esquerda. A partir deste contexto marxista-leninista, nos anos 1980 ele se juntou ao Partido Comunista Italiano (PCI) e posteriormente, após sua dissolução em 1991, ao esforço de refundação do partido, o Rifondazione Comunista (PRC).

Professor de filosofia da história na Universidade Urbino e um reconhecido estudioso de Hegel, em décadas mais recentes, o trabalho de Losurdo adotou um particular caráter proferidamente “militante”. Deparado com o colapso da União Soviética e com a corrida do triunfalismo liberal, Losurdo construiu críticas devastadoras àqueles que pintaram esta última ideologia como o prenúncio de um abrangente progresso humano.

Isso estava mais expresso, particularmente, em seu livro “Contra-História do Liberalismo”. Contrário à sua própria auto-hagiografia, Losurdo explorou o lado obscuro do afloramento do liberalismo em potências industriais como Inglaterra, Holanda e os Estados Unidos. Não somente estas sociedades construíram um legado de escravidão e expansão dos circuitos comerciais de escravos, bem como radicalizaram e formalizaram suas premissas na supremacia branca.

Para esta Contra-História, como também para seu estudo de “Democracia ou bonapartismo”, Losurdo revelou a dependência essencial do liberalismo com a segregação, criando barreiras de propriedade e raça. O liberalismo não só herdou as hierarquias do mundo pré-capitalista, como também criou outras novas; ele não apenas subverteu a monarquia e a regra hereditária, bem como impôs novas formas de divisão e exclusão nas massas coloniais e metropolitanas.

Aqui, Losurdo obteve maior sucesso ao expor as sombrias origens do liberalismo e os crimes nele engendrados, do que ao apresentar sua necessidade fundamental e permanente de formas particulares de exclusão (como a escravidão). Suas acusações à hipocrisia liberal frequentemente aparecem como se fossem uma demanda para o fim das falsas assimetrias e pontos cegos; o que significa dizer, a completa realização de um proclamado universalismo, mais do que sua simples destruição.

Esta determinação em historicizar o pensamento político é também chave para a defesa de Losurdo do socialismo ao estilo soviético. Contra aqueles que diriam que comunismo funciona em teoria, mas não na prática, seu trabalho coloca a questão de que o mesmo também poderia ser dito do liberalismo. A Contra-História pergunta, “assim como com qualquer outro grande movimento histórico,” não apenas o que o liberalismo pretende em sua “pureza abstrata,” mas em suas relações sociais reais.

Assim que a polêmica pesquisa de Losurdo sobre liberalismo estabeleceu os valores que reivindica, sob a áspera luz de sua realidade histórica, seus escritos sobre as críticas à URSS buscaram destacar o contexto histórico que os liberais preferem ignorar. Particularmente, Losurdo era incisivamente crítico à escola “totalitária” representada por Hannah Arendt e uma manada de historiadores anticomunistas, que por sua vez reduziram Stalin e Hitler à “irmãos gêmeos.”

Enquadrando o liberalismo nos termos da exclusão, Losurdo buscou reformular nossa visão do século XX, ao centralizá-la no colonialismo. A guerra nazista por “espaço habitável no Oriente” foi uma guerra colonial de agressão contra a URSS: ela pegou as ferramentas que a Grã-Bretanha, Bélgica e França utilizaram na África e Ásia, modernizando-as e reclinando-as para o continente europeu. Mesmo tal empreendimento assassino poderia assegurar a fidelidade de um pensador como Martin Heidegger, pois, sua cultura não era, de fato, tão inovadora assim. 

Neste sentido, Losurdo argumenta que o rótulo do “totalitarismos” difamou deliberadamente a URSS, enquanto reduzia à um plano secundário a violência massiva que já vinha sendo perpetrada por poderes coloniais nas décadas recentes. Por que nós ouvimos muito mais sobre o Massacre de Katyn e Holodomor do que sobre a carnificina dos Mau Mau ou da Fome em Bengala? Na visão de Losurdo, comparar Stalin a Hitler era como colocar Toussaint Louverture, líder da rebelião dos escravos haitianos, na mesma base moral que os proprietários de escravos franceses, simplesmente porque ambos os lados tinham lideranças “autoritárias”.

Foi sem dúvida uma reformulação provocativa. Losurdo estava tranquilo em pisar nos dedos dos pés, mas algumas vezes era tonalizado como alguém que queria contrariar. Embora ele reconhecesse os aspectos exorbitantes e paranoicos da liderança de Stalin, seus esforços para relativizá-lo eram frequentemente governados por um zelo polêmico injustificado pelas evidências reunidas. Isso tornou sua reformulação do stalinismo mais “interessante” do que necessariamente persuasiva.

Construindo o socialismo

Losurdo há muito tempo desafia a esquerda que, em sua visão, criticava abstratamente esforços reais de construção do socialismo sem sentir a necessidade de sujar suas mãos com escolhas pragmáticas. Isso foi resumido pelo seu recente estudo sobre o marxismo ocidental. Insistindo que, longe da URSS estar “degenerando-se” por conta de seu isolamento, a esquerda da Europa Ocidental que atrofiou-se em uma gama de debates por conta de seu isolamento dos processos reais de mudança social.

Nesta veneração da URSS e, verdade, da China (a qual ele continuava a ver como um país no caminho rumo ao socialismo, por meio de um tipo moderno de Nova Economia Política), Losurdo rejeitou agudamente qualquer inutilidade da história do século XX. Ele era mordaz com teóricos modelados na esquerda ocidental, de Theodor Adorno a Michel Foucault, e buscou expor os pontos cegos e mesmo o racismo alicerçado na rejeição dos esforços orientais de “construção do socialismo”.

O engajamento político de Losurdo foi uma ponte na divisão entre a história do século XX e o presente. O pequeno Partido Comunista no qual ele era envolvido nos anos recentes, autodenominado em homenagem ao PCI de Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, buscou reviver o partido que se dissolveu após a queda do Muro de Berlim. Entretanto, o trabalho de Losurdo tendia a evitar qualquer exame dos processos específicos que levaram o histórico PCI à destruição. 

Atualmente, a esquerda italiana ainda precisa se recuperar da morte do PCI, ou talvez, de sua vida. Suas estruturas zumbis ainda permanecem conosco, como no neoliberal Partido Democrata; sua residual influência cultural incorpora a nostalgia de uma grande esquerda de outrora que é incapaz de dar vida à qualquer coisa nova. A extrema-direita está na ofensiva e parece faltar esperança; talvez seja mais fácil agarrar-se à velhas certezas do que iniciar um projeto comunista do zero.

Os esforços de Losurdo em recuperar esta herança eram frequentemente questionáveis, mas sempre estimulantes. E seu pensamento ainda está conosco. O ano de 2019 viu edições de seu livro “Democracia ou bonapartismo” (Unesp), sua vasta biografia de Nietzsche e seu estudo de Antonio Gramsci (ambos com Brill). Outras traduções previstas incluem estudos de Hegel e de Kant. Por meio destes títulos e da descoberta de seus trabalhos por novos leitores, o pensamento penetrante de Losurdo irá sobreviver ao tumor que o matou. 

Sobre os autores

é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.