A ética do trabalho no socialismo

30/12/2019

Por
Meagan Day

Tradução
Everton Lourenço

A ética do trabalho vai diminuir no socialismo? Não, o socialismo empodera as pessoas comuns para que sejam participantes ativas na formação da economia – e isso gera muito mais motivação do que o medo de perder o emprego.

Trabalhador move caixa com material de compostagem durante a coleta de materiais recicláveis em São Francisco, California, nos EUA. Foto: Justin Sullivan / Getty Images

Temos a sorte de viver em uma época em que a palavra “socialismo” deixou de ser um anátema nos Estados Unidos, o coração pulsante do capitalismo global. Uma nova pesquisa do Centro de Pesquisa Pew revela que 42% dos estadunidenses têm uma visão positiva do socialismo. Aqueles que têm uma visão negativa ainda constituem a maioria, mas uma maioria magra: 55%.

Outras pesquisas mostraram resultados semelhantes nos últimos anos, desde que Bernie Sanders se candidatou à presidência como socialista democrático e Alexandria Ocasio-Cortez conquistou o cargo se declarando da mesma maneira. Essa pesquisa é particularmente interessante, porque também foi solicitado aos entrevistados que identificassem os motivos pelos quais gostam ou não do socialismo. Entre os 55% dos entrevistados que tinham uma visão negativa do socialismo, a principal razão que deram foi que ele “prejudica a ética do trabalho”. Isso nos convida a uma discussão sobre a natureza do trabalho atualmente e sobre o que ela poderia se tornar.

A ética do trabalho é um valor que os estadunidenses sempre mantiveram perto de seus corações – uma mistura, como muitos já apontaram, de ideologias protestante e capitalista nos seus estágios iniciais. Há exceções, é claro, mas muitos estadunidenses acreditam que há algo inerentemente virtuoso em trabalhar feito um cachorro; e é isso que eles fazem. Pelo menos 134 países têm leis que estabelecem a duração máxima da semana de trabalho, mas os Estados Unidos não. E, diferentemente de muitos outros países, os trabalhadores estadunidenses não têm direito federal a feriados e férias remunerados, licença médica ou licença parental. Como resultado, “os estadunidenses trabalham 137 horas a mais por ano do que os trabalhadores japoneses, 260 horas a mais do que os trabalhadores britânicos e 499 horas a mais que os trabalhadores franceses”.

Cada hora trabalhada é uma hora que nunca poderá ser recuperada. É também uma hora a partir da qual as elites econômicas lucram, e elas não estão compartilhando esses lucros. A ideologia que valoriza a “ética do trabalho” ajuda a manter de pé esse sistema desigual. Ela acusa os trabalhadores de serem preguiçosos se registrarem uma objeção em relação a quanto tempo se espera que eles trabalhem, e também recompensa os trabalhadores com um sentimento de orgulho se gastam seus dias dando lucro para alguém sem reclamar (pense nesse orgulho como uma espécie de prêmio de consolação). Portanto, ela beneficia uma minoria rica e minúscula às custas da grande maioria das pessoas.

Devemos abandonar a “ética do trabalho” como é atualmente compreendida, e substituí-la por algo muito melhor: orgulhar-se e extrair significado da natureza do nosso trabalho em si, não da mera capacidade de realizá-lo sem reclamar.

No capitalismo, muitos trabalhadores odeiam seus empregos, mas precisam executá-los de qualquer maneira, a fim de suprir as necessidades básicas da vida. Karl Marx se preocupava com a maneira como o capitalismo “aliena” o trabalho – como o trabalho transforma o trabalhador em um robô, desconectado dos bens que estão produzindo ou dos serviços que estão prestando, sem controle sobre como passam a maior parte de suas horas acordados e sem nenhum senso claro de propósito. Marx concluiu que a alienação dos trabalhadores é uma conseqüência natural de um sistema em que o trabalho é alocado não com base naquilo que a sociedade precisa, mas naquilo que é rentável para poucas pessoas. No capitalismo, tudo o que as empresas fazem é ganhar dinheiro – e é isso. O resultado é uma proliferação de empregos tão inúteis socialmente quanto são exigentes, e bilhões de pessoas por todo o mundo realizando esses trabalhos sem nenhum direito à voz nas decisões ou senso de conexão com o trabalho em si.

Os socialistas propõem uma transformação completa da natureza do trabalho. Em uma sociedade socialista verdadeiramente democrática, ninguém poderia lucrar sem levantar um dedo por si mesmo, nem usar sua riqueza e poder para definir os termos e condições da jornada de trabalho de todos os outros. Em vez disso, as pessoas se reuniriam democraticamente para decidir em que tipo de sociedade desejam viver – quais necessidades devem ser atendidas, quais problemas devem ser resolvidos – e, à partir dessas decisões, fariam o trabalho de engenharia reversa para identificar que tipo de trabalho precisaria ser feito para tornar nossa sonhos coletivos uma realidade.

Essa sociedade então capacitaria as agências de planejamento democrático (que precisariam prestar contas às população e responder às suas demandas) para descobrir como proceder para treinar e atrair as pessoas para esses empregos. Uma vez contratados, os trabalhadores teriam a capacidade de tomar decisões coletivamente sobre como as empresas operam, incluindo o quanto compensam internamente cada tipo de trabalho. Isso seria muito menos caótico e mais lógico do que o arranjo atual, em que a grande maioria das decisões sobre economia e produção é tomada por pessoas ricas, motivadas pela única ambição de adquirir mais riqueza. Seria também muito mais empoderador para os próprios trabalhadores, que realmente operariam como uma equipe – um sentimento que as empresas hoje tentam imitar usando clichês gerenciais, e sempre falhando de maneira ridícula.

É claro que haverá trabalho no socialismo – embora certamente menos trabalho – e queremos que as pessoas se sintam motivadas a realizá-lo e se orgulhem dele. Mas, em vez de encher os trabalhadores de culpa para que deem o sangue em nome do lucro de outra pessoa e de castigá-los por não sentirem que isso lhes traz alguma satisfação ou realização especial, devemos nos esforçar para criarmos deliberadamente um sistema econômico e político que motive os trabalhadores, por meio do seu empoderamento como tomadores de decisão, tanto na esfera cívica quanto no local de trabalho.

Nosso objetivo deve ser promover todo um novo tipo de “ética do trabalho”, que não se traduza apenas num vigor do tipo “sorria-e-aguente”, mas que, em vez disso promova uma fome pela participação ativa e por caminhos para se exercer agência. No socialismo democrático, os trabalhadores não apenas seriam capazes de explicar como seu trabalho contribui para a sociedade, mas também se empenhariam para fazer mudanças se considerassem suficientes as razões para isso – caminhos que estão completamente bloqueados para a maioria dos trabalhadores hoje em dia.

Considerações sobre o relacionamento das pessoas com o trabalho não precisam afastar as pessoas do socialismo – pelo contrário, elas devem entusiasmar as pessoas sobre o potencial do socialismo. Sob o capitalismo, pessoas demais estão simplesmente gastando seu tempo, olhando para o relógio, com a cabeça no fim de semana. Podemos ter um novo tipo de sociedade, na qual as pessoas trabalhem não apenas para sobreviver enquanto os patrões vivem no luxo, mas na qual nós possamos trabalhar para atender às nossas necessidades coletivas – e na qual possamos encontrar uma satisfação muito maior nesse processo.

Sobre os autores

faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

Sobre o autor

Meagan Day faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.