Os socialistas inventaram as férias de verão

25/12/2019

Por
David Broder

Tradução
Cauê Seigner Ameni

O trabalho no verão é insuportável, sobretudo quando não temos a perspectiva de um tempo de folga mais à frente. Na França dos anos 30, o movimento trabalhista fez da luta por férias remuneradas uma prioridade – e obrigou os patrões a pagar pelo nosso lazer na praia.

A Riviera Francesa. Paul Rysz / Flickr

O sol não brilhava para a França burguesa no verão de 1936. As senhoras da alta sociedade queixavam-se que as hordas invasoras com suas proles estavam ocupando muito espaço em suas praias favoritas; os donos de restaurantes da Côte d’Azur até se preocupavam se os operários que chegavam em seus resorts saberiam usar uma faca e um garfo. Em junho daquele ano, o governo socialista tinha acabado de garantir a todos os trabalhadores duas semanas de férias pagas, tornando as férias de verão uma realidade para milhões. Agora, os trabalhadores podiam parar de fabricar bicicletas e baguetes por duas semanas e começar a construir castelos de areia – e seus chefes tinham que pagá-los por isso.

A lei que deu férias aos trabalhadores foi aprovada pelo primeiro-ministro socialista judeu Léon Blum, eleito em maio. No entanto, a mudança aconteceu, principalmente, devido ao poderoso movimento de greve que se seguiu à sua eleição. Em todo o mundo, os sindicatos resistiram por muito tempo à dominação da vida pelo trabalho: a greve geral iniciada em Chicago no dia 1 maio de 1886 iniciou a exigência de “oito horas para o trabalho, oito horas para o descanso, oito horas para o que quisermos”. Após a conquista dos limites legais do horário de trabalho e, em seguida, a invenção dos fins de semana, no século XX, a cruzada trabalhista pelo tempo livre começou a brigar por férias remuneradas.

Tendo as raízes fincadas primeiramente na França, o período de férias remuneradas foi logo alcançado em outros lugares, em muitos casos complementados por direitos como salário por doença e licença maternidade. A luta pelas férias não era apenas para dar aos trabalhadores uma quinzena de liberdade por ano para que marchassem em seguida de volta ao chão de fábrica. Impulsionada por uma nova cultura de massa, a luta para expandir o campo do lazer também tinha como objetivo democratizar as sociedades em que vivemos. Os trabalhadores franceses não apenas conquistaram o direito às férias, como construíram albergues, acampamentos e clubes sociais pelos quais poderiam passar melhor seu tempo, juntos.

Construindo uma barraca ampla

O tempo livre sempre foi um campo de batalha político. O movimento trabalhista inicial era uma colmeia de sociedades e cooperativas amistosas, por meio das quais os trabalhadores reuniam seus recursos para fazer melhor uso de seu tempo livre. Desde 1919, os prefeitos socialistas e comunistas de Ivry-sur-Seine, um subúrbio de Paris, administravam um fundo de solidariedade para proporcionar aos filhos dos trabalhadores viagens às praias. Assim como organismos como o YMCA promoviam formas de recreação compatíveis com os valores cristãos, os partidos dos trabalhadores criavam atividades de lazer, esportes e sociais – dentro de todo tempo livre que pudessem encontrar.

No verão de 1936, foi revindicada uma ação governamental para universalizar o pagamento de férias anteriormente alcançado por uma pequena minoria de trabalhadores. Entretanto, o sucesso dessa ideia não é mérito apenas de Léon Blum, ou da Frente Popular que uniu os socialistas aos liberais radicais e comunistas. O programa que a Frente Popular anunciou antes das eleições de maio de 1936 foi cauteloso: prometeu nacionalizar as indústrias de guerra e dar maior liberdade aos sindicatos, mas seu pedido por “uma redução na semana de trabalho sem redução nos salários semanais” não indicava quando, como e quanto de redução poderia ser feita.

O triunfo eleitoral da Frente Popular em 3 de maio de 1936 – com 57% dos votos – inspirou um clima de mudança mais amplo. Em 11 de maio, trabalhadores ocuparam uma fábrica de aeronaves para exigir a reintegração de dois colegas demitidos na greve; isso levou a uma ação solidária dos estivadores, iluminando o caminho para um movimento mais amplo. A greve se espalhou por milhares de locais por toda a França, abrangendo cerca de 2 milhões de trabalhadores. A atmosfera festiva nas fábricas ocupadas mostrava não apenas que os trabalhadores se sentiam encorajados, mas também que tinham grandes expectativas em relação ao que viria a seguir.

Encorajado pela onda de greves – mas também cauteloso sobre conflitos sociais prolongados – Blum buscou um acordo com os empregadores que também satisfizesse os ativistas nos principais partidos de esquerda. Nos dias 7 e 8 de junho, o primeiro-ministro socialista, os sindicatos e os empregadores selaram os Acordos de Matignon, promulgando uma versão mais detalhada – e, de fato, mais radical – das promessas do manifesto da Frente Popular. Os chefes tiveram que engolir um limite de quarenta horas semanais de trabalho (sem redução no pagamento), maiores liberdades sindicais e pelo menos duas semanas de férias remuneradas para cada trabalhador.

República da juventude

Os trabalhadores conquistaram o direito de férias remuneradas por meio de ações grevistas solidárias. Isso também foi moldado pelos debates anteriores sobre o que realmente significava férias. Na época de Karl Marx, uma viagem à praia era frequentemente vista em termos de restauração da saúde, longe da sujeira e da fumaça da cidade – a historiadora Yvonne Kapp observa como ele era obcecado sobre os benefícios de viagens à beira-mar “tanto na opinião médica quanto leiga, uma panaceia perdendo apenas para o álcool“. Mas o que os trabalhadores realmente faziam no período de folga continuava sendo uma questão um tanto quanto disputada no início do século XX.

Como observa o historiador Gary Cross, muitos socialistas denunciavam o efeito prejudicial que a rotina da fábrica tem sobre a mente dos trabalhadores, privando-os da energia e disposição intelectual para exercer outras atividades além do consumo passivo de entretenimento. As críticas ao uso do tempo como espectadores de esportes e com jogos de azar eram comuns no movimento trabalhista. Os ativistas da “temperança” expressavam não apenas o moralismo cristão, mas o reconhecimento de que os trabalhadores não deveriam desperdiçar a renda da família com bebidas. Os partidos de esquerda se concentravam em promover a educação política, mas também em atividades mais lúdicas, como bandas musicais e trilhas, buscando atrair trabalhadores para atividades mais “iluminadas”.

No entanto, a esquerda queria fazer mais do que integrar os trabalhadores mais politizados – especialmente conforme a extrema-direita promovia sua própria visão de lazer de massa. Desde 1925, as organizações “Depois do Trabalho” e “Balilla” do fascismo italiano forneciam atividades de lazer subsidiadas pelo Estado e, a partir de 1935, o programa “Força através da alegria” da Alemanha nazista usava recursos do Estado para promover atividades esportivas e feriados coletivos que exaltavam “valores nacionais”, atravessando as divisões de classe. A Frente Popular procurou, assim, promover sua própria visão democrática do que poderia ser o lazer.

Isso ficou especialmente evidente no trabalho de Léo Lagrange como subsecretário de Estado para esportes e lazer sob Blum. Refletindo os diferentes objetivos da política de lazer, esse papel criado pelo governo da Frente Popular foi inicialmente vinculado ao Ministério da Saúde, mas depois foi transferido para o Ministério da Educação. As escolhas de Lagrange também refletiam a diferença entre imperativos socialistas e fascistas. Como ele dizia, a preocupação da Frente Popular não era apenas o relaxamento, mas promover a dignidade dos trabalhadores. Por exemplo, em contraste com o esporte de elite exibido nas Olimpíadas de Berlim, Lagrange pretendia “menos criar campeões e levar 22 jogadores ao estádio diante de 40.000 ou 100.000 espectadores, do que convidar os jovens de nosso país a ir regularmente para a quadra, o campo de jogo e a piscina”.

A chave aqui era o foco na capacidade do lazer para superar as divisões de classe – Lagrange não apenas patrocinou as “Olimpíadas Populares” em Barcelona, alternativas às Olimpíadas de Hitler, mas ele mesmo também proporcionava passeios guiados em Paris aos trabalhadores agrícolas de outras regiões. O apoio do governo às associações dirigidas pelos próprios membros visava promover uma gestão coletiva do tempo de lazer, livre do patrocínio associado a iniciativas da igreja ou de caridade: para Lagrange, isso permitiria ao “mineiro, artesão, camponês, pedreiro, balconista e ao professor entender gradualmente a unidade do trabalho humano”.

Esse foco encontrava eco nas iniciativas de base. De 1935 a 1938, o “Sindicato do Esporte e Ginástica Laboral” da CGT aumentou de 42.000 para 100.000 membros, ao adotar a exigência de um “clube para cada fábrica”. Obviamente, assim como os trabalhadores não podiam se dar ao luxo de sair de férias sem licença remunerada, eles também precisavam gastar seu tempo de uma forma economicamente viável. As viagens de trem subsidiadas (com desconto de 40%) forneciam as bases para uma parte dessa política, mas também eram essenciais os comitês locais da Frente Popular, organizações como a “Feriados para Todos” (que prometiam “mais do que uma versão mais barata do turismo burguês”) e a associação de albergues da juventude CLAJ.

Como o próprio nome sugeria, o CLAJ – o “Centro Secular de Albergues da Juventude” – era uma alternativa às associações religiosas de lazer, estando em grande parte sob o domínio comunista. Sua presença aumentou bastante durante a época da Frente Popular, de 45 albergues em 1933 para 90 em 1935 e 450 em 1938. Fornecer acomodações baratas para dezenas de milhares de pessoas também alimentava uma liberalização dos costumes sociais. Se a política formal era desencorajada, a revista Le Cri des Auberges do CLAJ proclamava “todo albergue é uma república da juventude”, rompendo com o modelo de “férias em família” em parte das propagandas da Frente Popular.

Como observa o historiador Siân Reynolds, o papel do CLAJ foi particularmente importante por causa dos costumes sociais mais livres que promovia e, em particular, pelo fato de não ser segregado por gênero (embora os dormitórios o fossem). A socialização coletiva entre homem e mulher, a disseminação do “você” ou “tu” coloquial ao invés da formalidade do “vós” e a falta de códigos de vestimenta para as mulheres se baseavam nas práticas existentes na Juventude Comunista, enquanto minavam as hierarquias de gênero: para Lucette Heller-Goldenberg, eles “pararam as relações falsas entre uma jovem que se esforça para conseguir um marido e um jovem que procura uma vítima”.

Um raio de luz

A Frente Popular não era apenas sobre sorrisos e sol – afinal, foi criada como uma muralha defensiva contra a ascensão do fascismo, e alguns dos colegas de Lagrange encaravam com mais simpatia os benefícios “patrióticos” da mistura cultural do que sua capacidade de minar os costumes familiares. No entanto, a política de Blum teve grandes efeitos, inclusive no surgimento de práticas semelhantes na Grã-Bretanha. Embora os esforços legislativos em Westminster tenham falhado em 1929 e 1936, a crescente demanda dos sindicatos por férias remuneradas, inspirada no exemplo francês, viu o número de trabalhadores que conseguiram tais licenças subir de 1,5 milhão em 1935 para 7,75 milhões em março de 1938.

A pressão financeira e a Guerra Civil na Espanha encerraram a Frente Popular naquele outono. Os radicais liberais se voltaram para os conservadores, implodindo as principais medidas de Blum, que foram completamente destruídas sob a ocupação alemã. O próprio Lagrange foi morto em junho de 1940. Blum, enquanto isso, foi julgado por traição em 1942. Defendendo seu histórico, ele usou o tribunal para defender sua política de lazer, subvertendo a retórica dos valores familiares do regime de Vichy. Para o socialista judeu, as férias pagas ofereciam um “raio de luz às vidas sombrias e difíceis”, não apenas para “proprocionar facilidades para a vida familiar, mas para proporcionar uma promessa para o futuro – uma esperança”.

Este raio de luz seria lembrado por muito tempo. As notas da música de 1936 de Charles Trenet “Y’a d’la joie ecoaram ao longo dos anos, enquanto os fotógrafos Henri Cartier-Bresson e Pierre Jamet, membro do CLAJ, imortalizaram a alegria de viver da carona e dos acampamentos rudimentares. A luz do verão de 1936 foi, sem dúvida, atenuada pela escuridão do que se seguiu sob o domínio de Vichy. Alguns historiadores a retrataram como um mito reconfortante – para Julian Jackson, imagens de “multidões acenando de trens partindo se tornaram tanto um símbolo de 1936 quanto as barricadas o foram para 1968“.

No verão de 1940, as famílias parisienses fizeram as malas para um tipo diferente de jornada – por causa da evacuação da capital diante da invasão alemã. No entanto, mesmo nos dias sombrios da ocupação, o verão que aconteceu quatro anos antes deixou mais do que boas lembranças. Os partidos comunista e socialista ainda estavam de pé, mesmo que banidos pelos conservadores e por Vichy, respectivamente. No entanto, as estruturas que os trabalhadores criaram para fazer o melhor uso do tempo livre conquistado também foram usadas como uma rede de solidariedade para os militantes sobreviverem ao período da ocupação. Após a invasão alemã, a rede do CLAJ tornou-se uma das bases da resistência armada.

Hoje, nosso tempo livre enfrenta outros inimigos que não as tropas de assalto nazistas. Os chefes estão usando nossas condições precárias e nossos telefones celulares para nos manter constantemente de plantão, acorrentados ao trabalho e desesperados com a possibilidade de novos turnos-surpresa. Mas o pagamento das férias é justamente sobre nos libertar da escolha entre tempo livre e o emprego de que precisamos – é uma obrigação de todos os empregadores nos pagar uma parte do tempo livre, independentemente de suas circunstâncias particulares. Na França dos anos 30, a luta por férias remuneradas criou uma estrutura para dar suporte e condições aos trabalhadores, às custas de seus chefes. É exatamente disso que precisamos hoje.

Sobre os autores

é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

Sobre o autor

David é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.