Após golear em Nevada, Bernie Sanders assume o Partido Democrata

24/02/2020

Por
Connor Kilpatrick e Dustin Guastella

Tradução
José Carlos Ruy

A decisiva vitória de Bernie Sanders em Nevada mostra que ele tem uma base da classe trabalhadora disposta em transformar radicalmente a política e a economia. Ele está a caminho não apenas da indicação como candidato do Partido Democrata, mas da Casa Branca.

O senador Bernie Sanders no palco durante um evento de campanha em 21 de fevereiro de 2020 em Las Vegas, Nevada. (Joe Buglewicz / Bloomberg via Getty Images)

A esmagadora vitória de Bernie Sanders nas primárias de Nevada é muito mais do que um salto gigantesco em direção à indicação ao Partido Democrata.

Bernie Sanders é, obviamente, o favorito para ganhar na convenção em Milwaukee. Uma análise atenta dos números e da demografia do “Estado Prata” [como Nevada é conhecido] revela algo muito maior – as sementes de um novo eleitorado que se levanta e um realinhamento fundamental da política dos EUA. Um novo partido, fortemente operário e comprometido com a política igualitária, rapidamente floresce sob a casca do antigo.

Enquanto pesquisas recentes mostram Donald Trump reforçando seu controle sobre o Rust Belt [Cinturão de Ferrugem, a região industrializada e de forte presença operária no nordeste dos EUA, entre os Grandes Lagos e o meio-oeste], a vitória de Bernie Sanders em Nevada aponta para um novo mapa eleitoral que pode ser a chave não apenas para derrotar Trump em novembro – mas para reconstruir o movimento da classe trabalhadora nos EUA.

Em Nevada, ao contrário de Iowa e New Hampshire, não domina um eleitorado mais velho, rico e branco – é um reduto trabalhista com densidade sindical maior que a média nacional, graças em grande parte ao poderoso Sindicato dos Trabalhadores da Culinária, que representa 60 mil membros e tem o tipo de mobilidade social da classe trabalhadora quase desaparecido em outros lugares nos EUA.

Mas, após a crise econômica de 2007/08, Nevada foi o estado mais atingido pelas execuções de hipotecas e os despejos que as acompanham – e desde então, o crescimento salarial tem sido inferior ao do país como um todo. De muitas maneiras, representa perfeitamente o dinamismo social frustrado.

Ao contrário das regiões metropolitanas mais ricas, que encontram conforto em banalidades absurdas, os nevadenses são imunes ao feitiço anti-Sanders lançado pela elite do Partido Democrata. A necessidade de uma insurgência de esquerda dentro do Partido Democrata no Estado de Prata claramente não é apenas incontroversa: é um senso comum.

Com os eleitores latinos representando um quinto do eleitorado de Nevada, o estado também tem uma grande população de imigrantes da classe trabalhadora concentrada no setor de serviços. Com Bernie Sanders ganhando esses eleitores (de forma espetacular), ele provou que é o único candidato que pode reconstruir a maioria democrata em meio à mudança do eleitorado.

Como a coalizão do New Deal antes dele [na década de 1930], o sucesso de Bernie Sanders é baseado em sua capacidade de atrair grande número de trabalhadores imigrantes, que geralmente são novos eleitores. E esses eleitores parecem cada vez mais leais à mudança política.

De fato, em uma série de medições, Nevada se parece muito mais com um microcosmo dos EUA do que qualquer eleição já vista. Não apenas em termos de origem e demografia étnicas, mas em termos de composição política. Considere-se que o Estado de Prata tem um grande número de eleitores descontentes com o Partido Democrata. Somente na última década, o número de não partidários autoidentificados – ou seja, nem republicanos nem democratas – cresceu 89%, representando mais de 20% no eleitorado de Nevada.

Embora os não partidários não possam votar no sistema fechado de caucus de Nevada, eles refletem uma tendência mais ampla de eleitores que rejeitam os dois principais partidos, mas são disputados por candidatos como Sanders. Como o país em geral – diferentemente dos subúrbios ricos em Washington e Nova York –, os nevadenses querem grandes mudanças.

Em uma pesquisa da Universidade de Suffolk, feita em janeiro, 58% dos potenciais optantes pelo Partido Democrata classificaram o apoio ao Medicare for All como muito importante para o candidato democrata, 52% classificaram da mesma forma o ensino universitário gratuito e 61% querem que o candidato democrata aumente os impostos sobre os ricos. Essas fortes maiorias são exatamente o motivo pelo qual o “Presidente Bernie” parece tão atraente.

Embora o poder de Trump no Centro-Oeste seja inegável, com Nevada como o prenúncio de um novo eleitorado da classe trabalhadora se pode começar a ver como o caminho de Bernie Sanders para a Casa Branca pode ser tão distinto de seus rivais quanto sua política – o Sun Belt [Cinturão do Sol, região dos EUA que, entre o sul e sudoeste], com Bernie Sanders na cédula, poderia estar no jogo de uma maneira que não se vê há décadas.

O New Deal foi possível com um novo eleitorado. Assim como, no passado, a entrada em massa na política dos imigrantes vindos da Europa Oriental, de primeira e segunda geração, levou Roosevelt (e o CIO) ao poder, agora os latinos – que estão solidamente por trás de Bernie Sanders – poderiam muito bem ser a força que ajude a trazer a socialdemocracia para os EUA.

O forte apelo de Bernie Sanders contra o establishment e sua plataforma focada nas questões dos trabalhadores estão conquistando não partidários, novos eleitores, jovens eleitores e imigrantes da classe trabalhadora. Não é apenas uma coalizão para ganhar em Nevada; é como Bernie Sanders pode se tornar presidente.

Os democratas do establishment precisam encarar isso – agora o partido é dele.

Sobre os autores

é editor da Jacobin US.

é um sindicalista na Filadélfia (EUA).

Sobre os autores

Connor Kilpatrick é editor da Jacobin US.

Dustin Guastella é um sindicalista na Filadélfia (EUA).