Estamos vivendo uma "Primavera Vermelha"

07/06/2020

Por
Robert Greene II

Tradução
Fábio Fernandes

Assim como o “Verão Vermelho” de 1919, enquanto a violência racista atingia os EUA após a “Gripe Espanhola” devastar o país, estamos vendo protestos antirracista de massas contra a brutalidade policial varrendo o país no meio da pandemia do coronavírus.

Um protesto, desencadeado pela recente morte de George Floyd pela polícia, em Lafayette Square Park em 30 de maio de 2020 em Washington, DC. (Tasos Katopodis / Getty Images).

Uma onda de violência racista contra os negros atingiu os EUA. Por todo o país, movimento negro e organizações de esquerda tentam se organizar ou até mesmo combater essa violência. Enquanto isso, uma pandemia devasta o país e o mundo. Crises internacionais ameaçam destruir o país ainda mais.

Esse era o estado das coisas no verão de 1919.

Os EUA se revoltaram com os tumultos do “Verão Vermelho”, onde centenas de negros foram chacinados em cidades e vilas pequenas. Muitos dos “tumultos” eram pouco mais que pogroms anti-negros, travados em reação às crescentes demandas por direitos civis, direitos trabalhistas e moradia adequada. Tudo isso aconteceu enquanto o país lutava para retornar a uma economia de tempos de paz em meio à incerteza internacional, e a pandemia de influenza – popularmente conhecida como “Gripe Espanhola” – atingiu o país com força total. No fim, 675 mil norte-americanos morreriam de influenza, contabilizando mais de 50 milhões de mortes em todo o mundo.

Os historiadores tendem a dizer que a história não se repete. Mas, neste caso, pelo menos parece que se repete sim.

Quando comecei a trabalhar neste artigo na semana passada, pessoas de todo o país estavam indignadas com o mais recente assassinato de um negro registrado em frente a uma câmera. Ahmaud Arbery foi baleado e morto na cidade de Brunswick, no sul da Geórgia, no início deste ano, ao sair para correr. Seus assassinos disseram às autoridades que temiam que Arbery se encaixasse na descrição de um ladrão local e argumentaram que estavam simplesmente se defendendo pela lei da Geórgia – um argumento apoiado pelo promotor local, que se recusou a prosseguir com o caso. A polícia prendeu mais tarde dois homens, acusando-os de assassinato e lesão corporal qualificada.

Desde então, em um período radicalmente curto de tempo, mais assassinatos de negros – homens e mulheres – pelas mãos da polícia levaram um longo debate sobre racismo e policiamento a um possível ponto de ruptura. Na quinta-feira, 28 de maio, manifestantes em Minneapolis incendiaram uma delegacia após o assassinato, registrado novamente por uma câmera, de um negro de 46 anos de idade, George Floyd, e sete pessoas foram baleadas em Louisville durante protestos após o assassinato de uma mulher negra de 26 anos, Breonna Taylor, por policiais à paisana. Na sexta e no sábado, manifestações explodiram em todo o país, enquanto a conflagração continuava em Minneapolis.

Os assassinatos capturados nas câmeras oferecem um lembrete perturbador das numerosas fotografias de linchamentos espalhados por todo o país no início do século XX. Alguns foram catalogados pela NAACP e exibidos como exemplos de brutalidade e barbárie nos EUA. Outros, entretanto, foram exibidos em cartões postais e enviados a norte-americanos brancos por todo o país, lembrancinhas do terror branco.

A onda mais sangrenta de violência durante o “Verão Vermelho” ocorreu em Elaine, no Arkansas, enquanto agricultores negros que arrendavam terras para seu uso lutavam para se organizar. Diante da devastadora oposição dos latifundiários e dos constantes boatos da imprensa local de que os negros estariam se organizando para matar pessoas brancas, os comerciantes negros foram perseguidos e assassinados por soldados e capangas. Pelo menos duzentas pessoas – homens, mulheres e crianças – foram chacinadas; o número exato ainda é desconhecido hoje.

A morte de Arbery é um reflexo desse legado de vigilantismo dos supremacistas brancos e a mais recente versão do esforço racista para controlar o movimento e o trabalho dos negros. A própria ideia de onde uma pessoa negra deveria ou não deveria estar tem sido profundamente política, enraizada em hierarquias racistas.

Os locais dos recentes assassinatos também estão ligados às lutas do passado. Brunswick fica na costa da Geórgia, perto do Cinturão Negro – uma região predominantemente negra famosa por seu solo rico. Nas décadas de 1920 e 1930, comunistas como Harry Haywood argumentaram que a faixa de terra que atravessava vários Estados era uma “nação dentro de uma nação” onde o povo negro tinha um direito à autodeterminação comparável à de outros movimentos de independência. O medo que os supremacistas brancos têm da liberdade negra alimentou ameaças durante o “Verão Vermelho” e ao longo das décadas para suprimir movimentos negros, que muitas vezes estavam ligados à esquerda.

No norte, a morte brutal de George Floyd ocorreu em Minneapolis, uma cidade que gosta de se orgulhar de seu liberalismo racial, mas que, como muitas áreas urbanas progressistas dos EUA, tem uma história profundamente complicada de violência policial. Em 1948, o prefeito de Minneapolis, Hubert Humphrey, declarou que estava na hora do Partido Democrata “sair da sombra dos direitos dos Estados” e sair declaradamente à luz do sol dos direitos humanos”. No entanto, de 2009 a 2019, os negros representaram 60% das vítimas de tiroteios em Minneapolis, apesar de constituírem menos de 20% da população da cidade.

A morte de Breonna Taylor em Louisville, Kentucky, pelas mãos da polícia, chamou menos atenção que as mortes de Arbery e Floyd, mas é igualmente importante. Morto porque a polícia cumpriu um mandado de prisão em sua casa após procedimentos “no-knock” (entrar sem bater), o namorado de Taylor, Kenneth Walker, disparou sua arma acreditando que a casa deles estava sendo roubada. Louisville tem seu próprio passado de divisões racistas. A tentativa de Anne e Carl Braden em 1954 de ajudar Andrew e Charlotte Wade, um casal negro, a comprar uma casa nos subúrbios provocou acusações de simpatia comunista e, no caso de Carl Braden, uma condenação por perturbação da ordem pública.

Hoje, enquanto os manifestantes saem às ruas em Louisville e em outros lugares, carregados com essa história, eles também estão enfrentando a pandemia da COVID-19 que – devido à austeridade e pauperização econômica – está provocando um golpe especialmente duro nos negros. O grito de guerra “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) assumiu um tom novo e radicalmente urgente.

Em 1919, os negros tentaram, em vários lugares, revidar durante o “Verão Vermelho”. Em 2020, manifestantes em Minneapolis e em todo os EUA estão lutando para derrubar uma ordem social brutalmente racista.

Agora estamos vivendo, ao que parece, uma “Primavera Vermelha”.

Sobre os autores

Professor assistente de história na Claflin University e editor de resenhas de livros no blog da Society of US Intellectual Historians.

Sobre o autor

Professor assistente de história na Claflin University e editor de resenhas de livros no blog da Society of US Intellectual Historians.