Fantasmas de Junho

30/06/2020

Por
Thiago Ferreira

Junho de 2013 rompeu com os consensos da política institucional na democracia liberal e a lógica do dissenso voltou a se impor. Enquanto forças bolsonaristas e liberais recorrem ao medo para que um outro mundo não seja desejado, a tarefa da esquerda deve ser a de superar o imobilismo. Nossa obrigação é propor outros mundos e lutar por eles.

Topo do Congresso Nacional, em Brasília, ocupado por manifestantes no dia 17 de junho. Foto do Mídia Ninja.

Os eventos de Junho de 2013 ainda gera polêmicas apaixonadas, especialmente quando se tenta explicar o Brasil hoje. Basta o calendário retornar ao fatídico mês, ou eclodirem manifestações de rua como as que agora aparecem contra o racismo, o fascismo e o governo Bolsonaro, que as controversas “Jornadas” retornam ao centro do debate sobre como interpretar a sucessão de fatos que nos trouxe até aqui. Por si só, isso já seria evidência da importância do acontecimento para a história recente do país. No entanto, até hoje não há consenso – sobretudo nas esquerdas – de como caracterizá-lo. Enquanto uns lançam a culpa em 2013 pelo golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, e a subsequente eleição de Jair Bolsonaro, outros continuam a ansiar por um novo Junho a cada esquina.

De saída, é preciso compreender que Junho de 2013 incidiu nos modos pelos quais experimentamos a própria política. É inútil olhar para as manifestações como algo apartado de movimentos e disputas históricas. O que precisamos, ao contrário, é de uma compreensão da política como algo para além do Estado e da institucionalidade, atravessando como as pessoas vivem suas vidas, cruzadas por distintos modos de engajamentos.

Ao considerarmos a política como um espaço atravessado por disputas e antagonismos, é possível ver como os dissensos explicitados a partir de Junho apontam para os limites da democracia liberal ou do “neoliberalismo progressista”, como classifica Nancy Fraser, evidenciando o esgotamento de um modelo de conciliação que, já tendo aparecido no Brasil em diversos momentos, encontrou no “lulismo” sua mais recente versão. O modelo, conforme aparecia no próprio discurso oficial dos governos petistas, era marcado por um jogo de “ganha-ganha”: os pobres finalmente ganharam algum acesso às universidades e a classe C ampliou seu poder de consumo, mas os banqueiros “nunca antes na história desse país” ganharam tanto dinheiro. Foi para esse modelo, baseado em um esforço de conciliação de interesses contrapostos e na aposta na formação de amplos consensos, que junho significou o beijo da morte. 

De súbito, 2013 desperta a política institucional de seus sonhos consensuais: a lógica do dissenso volta a se impor. É o próprio Lula quem tem agora, após sair da prisão, constantemente recordado o lugar das rebeliões populares na história brasileira, e como foram tradicionalmente massacradas pelas classes dominantes. Reconhecer o dissenso é olhar para esse passado de lutas como formas potentes de exercitar a política – como uma herança a ser mobilizada pelas lutas do nosso tempo.

Um entorno tecnocomunicativo

Olhar para as novas formas de comunicação oferece um ângulo privilegiado para entendermos o dissenso como modo crucial de caracterização da política. Quais foram as imagens que marcaram esteticamente as Jornadas de Junho? Aquelas gravadas por manifestantes. Em particular, ganhou considerável espaço na época o coletivo de comunicação e cultura “Mídia Ninja”, que surge, inicialmente, disputando os sentidos de jornalismo. Em um segundo momento, o coletivo amplia sua área de atuação, passa a incorporar novos tipos de atividades – “repórteres-ninja” e colunistas – e se aproxima de quadros da esquerda institucional, cobrindo eventos organizados por esse campo. A repercussão da Mídia Ninja foi tão grande que as imagens tremidas gravadas pelo grupo, com seu modo de narrar por dentro das manifestações, acabaram parando no Jornal Nacional, e dois de seus articuladores, Pablo Capilé e Bruno Torturra, foram chamados para o Roda Viva, mais antigo programa de entrevistas da TV brasileira.

Sujeitos políticos tão diversos quanto a Mídia Ninja e o Movimento Brasil Livre (MBL) têm em Junho de 2013 um marco. O MBL, pela direita liberal, procura surfar na onda do sentimento anti-establishment, se apresentando também como contrário às forças políticas dominantes, adotando inclusive uma sigla de sonoridade semelhante ao MPL (Movimento Passe Livre). A estratégia do MBL, no entanto, foi identificar o establishment ao PT, principalmente a partir das manifestações pelo impeachment. Logo em seguida, se colocam em diálogo explícito com o conservadorismo, se engajando em “guerras culturais” contra a “ideologia de gênero”, como no famigerado caso do Queer Museum

Youtubers e artistas de diversas minorias, muitas vezes ignorados por aqueles que restringem a política ao espaço institucional, jogam nesse momento também um papel importante. Se antes já víamos pessoas de minorias políticas tendo visibilidade na esfera pública, a tendência pós-julho é que esses sujeitos passem a reivindicar uma presença antagônica, que não busca apaziguamentos conciliatórios, mas afirma justamente o dissenso. É o caso, por exemplo, de artistas como Linn da Quebrada, que se apresenta como “terrorista de gênero” e disputa os limites da ideia de representação, propondo tecnologias de participação política diretas. Mas é também o caso do crescimento de youtubers declaradamente marxistas ou socialistas, como Sabrina Fernandes, do Tese Onze, que não apenas abordam a questão das pautas econômicas, mas as articulam com as questões identitárias, de mulheres, LGBTQIs e negros. 

Devemos, portanto, olhar o avanço do conservadorismo no entorno tecnocomunicativo também como uma atitude reativa, como a construção de um backlash contra a emergência dessas novas vozes. Explica-se dessa maneira o espaço ocupado por figuras como o youtuber Nando Moura, bolsonarista da linha de frente – recentemente rompido com Bolsonaro. Vista assim, a onda conservadora e sua estratégica comunicativa aparecem menos como um efeito direto 2013 – como nas narrativas que veem junho como uma conspiração da direita – e mais como uma tentativa de responder à liberação desses energias, de interditar as transformações almejadas por esses novos  atores que entram em cena. Um exemplo: nos dias após a execução brutal da vereadora socialista Marielle Franco, Nando Moura buscou se articular com os afetos daqueles que desejavam relativizar o crime – sugeriu que Marielle contava com a simpatia da TV Globo e questionou a repercussão do atentado. O youtuber bolsonarista se contrapôs a youtubers como Nátaly Neri e Spartakus que, por sua vez, demonstram engajamentos identitários em torno de corpos de negros, gays, periféricos.

Das jornadas de junho ao bolsonarismo

É possível dizer que Junho de 2013 tem algum vínculo com a eleição de Bolsonaro? Possivelmente sim, mas não seria uma boa explicação: seria o equivalente a pôr a ascensão do neoliberalismo na conta do maio de 1968. Pensar processos culturais e políticos complexos em termos de uma única causa não é apenas uma má análise, mas também uma péssima política. Nesse caso, a consequência é liberar as esquerdas de discutir criticamente sobre suas contradições e limites. A conjuntura é sempre o encontro contingente de tendências, processos e ritmos históricos diversos, heterogêneos, cujo entrelaçamento produz efeitos imprevisíveis e, em alguma medida, abertos. “Quando uma conjuntura se desenrola”, dizia Stuart Hall, “não há como voltar atrás”: a história troca de marcha, o terreno muda – e,  de repente, você está em um novo momento. Ao invés da inútil lamentação sobre a mudança de terreno, ou a culpabilização moralista dos eventos que a desencadearam, devemos assumir ativamente a responsabilidade de construir outros futuros, atuando conscientemente no desenrolar da conjuntura, articulando crítica teórica e crítica prática. Ou seja, intervindo politicamente. 

É verdade que Bolsonaro, de fato, dialogou com afetos anti-establishment, com o sentimento de que uma época histórica havia se encerrado. Mas como falar em causas e consequências únicas na emergência de um fenômeno tão complexo como a eleição de alguém que historicamente se opôs à própria ideia de democracia? Como deixar de lado a relevância de todos os outros afetos, e interesses, com os quais Bolsonaro se associou? 

O bolsonarismo é filho da quebra de viabilidade da nossa eterna conciliação, que ofereceu a oportunidade para uma tempestade perfeita, associando fake news ao conservadorismo de parte significativa da população, o financiamento empresarial direcionado para o disparo de mensagens em massa no submundo do Whastapp, a campanha de lawfare orquestrada contra lideranças populares como Lula, a fragilização institucional resultante no golpe contra Dilma, o crescimento do fundamentalismo neopentecostal com sua organização comunitária e relação com camadas populares, e a incapacidade de uma esquerda institucional, acostumada ao governo, em dialogar com as potências de transformações que se associam a Junho.

Da rede-rua ao poder

Dá pra dizer, contudo, que Bolsonaro foi o único a dialogar com as transformações pós Junho de 2013? Mesmo olhando somente para a institucionalidade (que, como argumentamos, é somente parte da história), fica óbvio também que não. Muitas, Juntas, Bancada Ativista, Gabinetona: são experimentações políticas que partem desse engajamento, trazendo conceitos pouco comuns à política institucional, como mandatos coletivos e mandatos quilombos.

As Jornadas de Junho se relacionam às movimentações políticas que ocuparam as institucionalidades parlamentares nas eleições de 2016, como o Ocupa Política, Marielle Franco, o Muitas, Áurea Carolina, Talíria Petrone, Erica Malunguinho, Renata Souza, Monica Francisco e Dani Monteiro (as três últimas consideradas as sementes diretas de Marielle, por terem sido assessoras da vereadora). A Gabinetona, em Minas Gerais, montou uma estrutura que retira suas paredes e partilha seus assessores, reunindo mandatos de diferentes esferas legislativas – Áurea Carolina (deputada federal), Cida Falabella (vereadora), Bella Gonçalves (deputada estadual) e Andréia de Jesus (deputada estadual) – recupera o espírito de Junho em busca de modos mais democráticos e menos verticais de ocupar a política institucional.

Apesar de estarem nos espaços institucionais, essas militantes utilizam a tribuna legislativa para disputar a ideia de representação e reforçar as lutas de onde vieram, articulando múltiplas identidades – negros, trans, jovens, periféricos, do hip-hop, feminista, socialista, entre outras. 

Junho, portanto, não foi uma coisa só: se apresentou de modos distintos em diferentes cidades, e foi experimentado de maneira distinta por diferentes setores sociais. Como não notar, por exemplo, a centralidade da questão étnica no Rio, a partir da importância da discussão sobre a preservação da Aldeia Maracanã, ameaçada pelo projeto de modernização do estádio?

O que Junho de 2013 nos mostra é que é necessário reconhecer essas multiplicidades para que possamos pensar como construir coletivamente outros mundos – e outros projetos de socialismo, que superem a armadilha do consenso como único modo de fazer democracia. Para as esquerdas está colocado o desafio de polemizar a ideia de universal, a fim, inclusive, de superar uma individualização excessiva incapaz de compor coletividades mais amplas, para além da essencialização das identidades.

De volta para o futuro

As manifestações recentes reavivaram o fantasma de Junho. À época, não faltaram identificações de “Junho de 2013” como um novo “Maio de 1968”. São fetichizações que de pouco ajudam e abstraem o caráter conjuntural desses acontecimentos. O fato é que, como realidades vivas, em curso, tudo isso são transformações em disputa. Para a análise de conjuntura, o fundamental é compreender as condições históricas, políticas, econômicas e culturais que fazem emergir as grandes transformações. Para além das possíveis analogias entre as manifestações desse ano e as Jornadas, há questões específicas que marcam a eclosão da nova onda de protestos: de um lado, o conteúdo ostensivamente antirracista, denunciando a gestão necropolítica típica da construção nacional do Brasil, e, de outro, a reação ao fascismo, que se espraia na sociedade e se instala no Palácio do Planalto. 

O espectro de “um outro junho” desperta em alguns medo, uma vez que a disrupção e instabilidade deflagrada em 2013 abriu espaço para a conformação de uma extrema-direita politicamente na ofensiva. O medo alimenta um imobilismo: é melhor não sair às ruas, para não sofrer mais golpes. Lawrence Grossberg, herdeiro intelectual de Stuart Hall nos estudos culturais dos EUA, aponta o niilismo passivo como um afeto central na configuração da sociedade estadunidense sob Trump. O medo como afeto político paralisante é algo poderoso. As forças bolsonaristas – mas também as liberais – recorrem ao medo para que um outro mundo não seja desejado. A essa chantagem não devemos sucumbir: mantendo o pé sempre fincado na realidade, nos é obrigatório  propor outros mundos e lutar por eles. 
“O mar da história”, sugere Maiakovski, “é agitado. Haveremos de atravessar as ameaças ― como uma quilha corta as ondas”. Para atravessar esse mar é necessário superar a imobilidade imposta pelo medo. Será possível elaborar um socialismo que altere nossas condições sociais tão desiguais – de classe, de gênero, e de raça – para superar o colonialismo e a modernidade capitalista? Se conseguirmos produzir alianças entre distintos engajamentos, sem perder de vista a radicalidade sugerida pela ideia do dissenso, daí poderão nascer outros futuros possíveis.

Sobre os autores

é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo Póscom-UFBA e pesquisador associado ao Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na Comunicação (TRACC-UFBA).

Sobre o autor

Thiago Ferreira é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo Póscom-UFBA e pesquisador associado ao Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na Comunicação (TRACC-UFBA).