Assata Shakur me ensinou a lutar

16/07/2020

Por
Karen Anisia

Revolucionária, escritora e poetisa, a militante negra Assata Shakur, que vive hoje no exílio em Cuba, nasceu neste dia em 1947. Perseguida pelo FBI por seu engajamento nos movimentos radicais de libertação negra, fez uma fuga cinematográfica da prisão e se engajou na luta internacional anti-imperialista. Seu legado ecoa nos protestos do Black Lives Matter, nas favelas do Brasil, nas revoltas antirracistas.

Assata Shakur algemada sendo levado a julgamento em 1976 / Getty Imagens.

A vida de Assata Shakur, cujo nascimento em 16 de julho de 1947 hoje comemoramos, é um poderoso testemunho da luta por liberdade. Natural de Nova York, Assata, além de madrinha do rapper Tupac Shakur, militou nos Panteras Negras, no Exército de Libertação Negra, foi alvo do programa de contrainteligência do governo norte-americano contra os movimentos radicais negros, foi presa, fugiu da prisão, entrou na lista de “terroristas mais procurados” do FBI, e hoje vive em Cuba – acolhida como exilada política há cerca de 4 décadas. Sua história de vida e seus poemas – com frequência declamados nas recentes manifestações organizadas por militantes do Black Lives Matter – inspiram agora uma nova geração na luta contra o racismo e o capitalismo.

A recusa ao nome de batismo, e a adoção de outro que representasse seu espírito subversivo, foi expressão, em meio aos conturbados acontecimentos do final dos anos 60, de sua escolha política em se definir militante em antagonismo contra um sistema que perpetuava desigualdades e opressões – não lhe cabia o nome que lhe fora legado pela escravidão. A liberdade que Assata buscava, no entanto, não poderia ser apenas uma conquista individual, mas necessariamente uma prática coletiva: a emancipação de todo o povo oprimido. 

Ainda jovem, se aproximou dos movimentos de libertação e se somou à luta organizada. Em sua autobiografia, publicada em 1999 com um prefácio de Angela Davis, Assata descreve o caminho que traçou até se tornar uma revolucionária, primeiro se libertando das concepções anticomunistas disseminadas pelos aparelhos ideológicos midiáticos dos EUA e em seguida estudando os teóricos revolucionários do socialismo africano. Sua conclusão, afinal, foi a de que não bastaria apenas buscar “enegrecer” a estrutura econômica capitalista: é necessário derrubá-la.

“O lugar de uma mulher é na luta”

O primeiro contato de Assata Shakur com a política radical foi com a Golden Drums Society, grupo estudantil do qual participou quando estudava na Faculdade Comunitária de Manhattan. Sua subsequente aproximação com o Partido dos Panteras Negras (fundado poucos anos antes, em outubro de 1966) se deu a partir da crescente percepção de que não bastaria movimentos reformistas, dentro da ordem, para mudar significativamente a realidade social. Assata estava então em busca de uma organização que se alinhasse com seu desejo de transformação completa da sociedade, encontrando no programa de 10 pontos dos Panteras Negras o projeto político que a contemplava. Como militante do partido, chegou a participar na distribuição do jornal da organização, do projeto café da manhã gratuito para crianças (as cozinhas comunitárias dos panteras chegaram a alimentar diariamente 10 mil crianças) e nas atividades da clínica de saúde e educação comunitária.

Desde que se engajou na luta socialista, o cotidiano de Assata foi marcado por tensões e ameaças, passando a viver sempre em alerta, sabendo que sua escolha política a impossibilitaria de ter uma vida normal. Abraçando essa condição, Assata logo decide se somar às fileiras do Exército de Libertação Negra, uma organização inspirada nas guerrilhas de libertação nacional do terceiro mundo, que promovia, em pleno solo norte-americano, intervenções como operações armadas contra a polícia e contra traficantes, assaltos a bancos e resgates de presos políticos. 

As duas organizações, movimentos organizados anticapitalistas no coração do sistema imperialista, surgiram no contexto da luta pelos direitos civis dos anos 60–70 contra a segregação racial, da radicalização do movimento estudantil contra a guerra do Vietnã e da inspiração internacionalista trazida pelas lutas anti-coloniais na África e na Ásia, assim como pelo exemplo próximo do processo revolucionário cubano (que toma o poder em 1959).

A postura combativa que esses grupos passam a adotar os colocam no topo da lista de inimigos oficiais do Estado, sendo duramente reprimidos e perseguidos. Para lidar com o clima de insurgência interna, os serviços secretos dos EUA criam programas como a COINTELPRO, um conjunto de operações secretas conduzidas ilegalmente pelo FBI cujo objetivo era vigiar, infiltrar e destruir os núcleos organizados de oposição radical ao sistema político. Esse programa tinha como uma das táticas atacar a integridade e credibilidade dos líderes e militantes, acusando-os de crimes comuns, utilizando falsas acusações e provas plantadas para prendê-los ou desmoralizá-los, mobilizando a mídia para campanhas de assassinato de reputação. No interior dos movimentos essa tática tinha o efeito planejado de minar a eficiência em organizar a comunidade, fazendo-os gastar tempo, energia e recursos para libertar ativistas, ou dirimir crises internas de confiança.

Assim como Martin Luther King, Malcolm X, Muhammad Ali, e Fred Hampton, Assata foi alvo da COINTELPRO. Espalhou-se a acusação de que ela teria participado de um assalto a um banco no Bronx e sua imagem foi estampada em jornais e cartazes com letras garrafais de “procura-se”. Foragida, em fuga permanente, Assata estava na companhia de outros dois camaradas do Exército de Libertação Negra, Sundiata Acoli e Zayd Shakur, quando seu grupo foi interceptado pela polícia em 2 de maio de 1973. Iniciou-se ali o tiroteio que tirou a vida de um dos policiais e de Zayd Shakur. Assata foi baleada nas costas e no braço. No hospital foi acorrentada à cama, espancada, torturada e proibida de receber visitas por cinco dias. 

Levada a tribunal, um júri branco e conservador, a condenou com sentença perpétua. Como muitos militantes do movimento negro radical da época, Assata foi deixada em confinamento solitário. Depois de mais de dois anos e meio em completo isolamento em uma prisão masculina, foi transferida para uma prisão feminina de segurança máxima, junta com psicopatas e supremacistas brancas. Foram seis anos e meio de cárcere, até que em 2 de novembro de 1979 seus camaradas a arrancaram da prisão, em uma fuga cinematográfica. Assata descrevia a si mesma como “escrava fugitiva”, referindo-se ao sistema prisional norte-americano como uma “nova plantação colonial”: o perfil – racial e de classe – dos presidiários, assim como as condições degradantes a quais estavam submetidos (incluindo, muitas vezes, o trabalho forçado) convertia o processo de encarceramento em massa nos EUA em uma forma escravidão moderna. Após cinco anos na clandestinidade, em que literalmente some do mapa, Assata reaparece publicamente em Cuba, onde encontra asilo político. 

Assata é bem vinda em Cuba

Acolhida pela solidariedade internacional do povo cubano e por um governo com uma política abertamente anti-imperialista oferecendo refúgio a militantes revolucionários do mundo inteiro, Assata pôde enfim viver livre da perseguição daqueles que a queriam morta. O Estado norte-americano, no entanto, nunca desistiu de persegui-la. Em 2005, é anunciada uma recompensa de 1 milhão de dólares para qualquer informação que leve à sua captura e, em 2013, torna-se a primeira mulher a ser incluída na lista dos 10 “terroristas” mais procurados pelo FBI. As pressões sobre o governo cubano para fazer com que ela fosse extraditada aos EUA foram todas mal sucedidas. Questionado sobre a entrega de Assata, no contexto do distensionamento das relações entre EUA e Cuba durante o governo Obama, o então ministro das relações exteriores cubano foi categórico: “posso dizer que isto está fora de questão”. 

No exílio, Assata recebeu visitas de amigos e familiares, fez graduação e mestrado, escreveu sua autobiografia e concedeu entrevistas. Em 1997, no Festival Mundial da Juventude, questionada sobre a questão do racismo em Cuba, responde:

“A primeira coisa que eu entendi é que precisava aprender sobre a história e desenvolvimento de Cuba, que eu não poderia transferir as experiências dos EUA para Cuba, porque eram realidades e histórias diferentes.[…] Ainda existem pessoas com pensamentos racistas, sexistas, classistas. Mas a diferença é que essas pessoas não estão no poder para determinar as prioridades políticas e econômicas. […] Quando chegou a hora de lutar contra o racismo em Angola, na África do Sul, as pessoas deram suas vidas aqui.”

A experiência de Assata Shakur em Cuba foi além da possibilidade de sobrevivência – foi uma experiência de cura, que reforçou sua fé na humanidade e sua convicção na força da solidariedade. Com a ajuda do povo latino-americano, confraternizando com exilados políticos de várias nações, conhecendo as vítimas mutiladas pela guerra civil em El Salvador ou Guatemala, vivenciou uma realidade que se opunha à dominação imperialista dos corpos e das ideias, uma cultura que preservava suas raízes e se mantinha forte, que aliava um orgulho patriótico com um profundo senso de dever internacionalista, de amor com os povos do mundo em luta. Imersa nessa nova atmosfera, conseguiu ainda analisar sob outra perspectiva o que o capitalismo e seus países centrais representavam para a periferia do sistema, desenvolvendo um olhar cada vez mais crítico aos efeitos do imperialismo e fortalecendo seus ideais radicais de libertação. 

Em Cuba, a poesia de Assata passa a pregar uma “revolução amorosa”. A revolução, vai dizer Assata, é sexy, é bonita, é criativa: “parte de ser uma revolucionária é criar uma visão de mundo que é mais humana. Mais divertida também. Que seja mais amorosa. Ser revolucionário é trabalhar para criar algo bonito”. 

Foi a ajuda dos camaradas do Exército de Libertação Negra, o acolhimento de Cuba e a solidariedade dos povos oprimidos que auxiliou Assata a viver em liberdade, fiel ao reconhecimento de que a liberdade universal de todos os povos é condição para a liberdade de cada povo:

“Também estava claro para mim que sem um componente verdadeiramente internacionalista, o nacionalismo era reacionário. Não há nada de revolucionário no nacionalismo por si só – Hitler e Mussolini eram nacionalistas. Qualquer comunidade seriamente preocupada com sua própria liberdade precisa estar preocupada também com a liberdade dos outros povos. A vitória do povo oprimido em qualquer lugar do mundo é uma vitória para o povo Negro. Cada vez que um dos tentáculos do imperialismo é cortado, estamos mais próximos da libertação. […] O imperialismo é um sistema internacional de exploração e, nós, revolucionários, precisamos ser internacionalistas para derrotá-lo”.

Militante do movimento. Black Lives Matter com moletom escrito “Assata me ensinou”.

“Assata me ensinou a lutar”

Em sua autobiografia, Assata narra o que sentiu ao reencontrar a família em Cuba:

“Por quanta coisa todas nós passamos. Nossa luta começou em um navio negreiro, anos antes de nascermos. ´Venceremos´, minha palavra favorita em espanhol, me veio à mente. Dez milhões de pessoas [cubanas] se levantaram contra o monstro. Dez milhões de pessoas, há apenas noventa milhas de distância. Nós estávamos aqui juntas, na terra delas, minha pequena família, nos abraçando depois de tanto tempo. Não havia dúvidas para nós: nosso povo será livre um dia.”

Ao contrário do que pretendia o governo estadunidense com o esforço em demonizar a imagem de Assata, apresentando-a como terrorista e inimiga pública, sua trajetória combativa tem inspirado uma nova geração de lutadores em todo mundo. Seja em novos coletivos e movimentos no próprio EUA, como As Filhas de Assata, grupo de mulheres criado em 2015 na cidade de Chicago com o objetivo continuar a tradição política radical da luta negra, ou na periferia de São Paulo, com projetos como Biblioteca comunitária Assata Shakur, que desenvolve um trabalho de educação e democratização do acesso à leitura focando em autores negros, sua chama continua a se espalhar. 

Assata nos ensina a acreditar, como ela, “no fogo do amor e no suor da verdade”. Honrar seu legado significa se colocar a serviço da luta, não se deixar desanimar, dar força às camaradas com as quais queremos construir, aqui e agora, um outro mundo. Seja nos lembrando que “ninguém na história jamais conquistou sua liberdade apelando para o senso moral de seus opressores” ou fortalecendo nossa autoconfiança ao proclamar a eterna verdade de que “onde houver opressão haverá resistência”, Assata se faz uma voz cada dia mais presente. Nas suas palavras encontramos a brisa que se transforma em furacão e nos permite sentir o cheiro da liberdade. Nas recentes manifestações anti-racistas nos EUA é comum se deparar com pixações de frases de Assata Shakur ou militantes vestindo camisetas estampadas com “Assata me ensinou” e “Assata é bem vinda aqui”. Um de seus poemas, apelidado agora de “o canto de Assata”, tem sido declamado coletivamente nas manifestações, para horror das mídias conservadoras, que se referem a ele (corretamente, por sinal) como um “hino marxista”:

É nosso dever lutar por nossa liberdade
É nosso dever vencer
Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros
Não temos nada a perder além de nossas correntes”

Como observou um artigo na Left Voice, potência do “canto de Assata” está em fundir o chamado do feminismo negro por “cuidado coletivo” com o chamado às armas para a guerra de classes, tirado da célebre conclusão do Manifesto Comunista. Assata Shakur continua vivendo em paz em Cuba, professando seu amor à vida e à revolução. Nenhuma tentativa de negociação, nem mesmo os 2 milhões oferecidos por sua captura compraram sua liberdade, conseguiram apagar sua história ou neutralizar sua voz. Seu grito ecoa nos protestos do Black Lives Matter, nas favelas do Brasil, nas revoltas anti-imperialistas. Em todo o lugar em que vive um revolucionário, Assata é bem vinda também.

Sobre os autores

é graduanda em Têxtil e Moda pela USP e integrante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira.

Sobre o autor

Karen Anisia é graduanda em Têxtil e Moda pela USP e integrante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira.