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Os ricos e poderosos sabem que, independentemente do tamanho da queda da economia real, podem contar com o Estado para resgatar os mercados financeiros. Chris Hondros / Getty Images.

Não estamos entrando em recuperação econômica e o próximo colapso financeiro está chegando

Tradução
Letícia Bergamini e Giuliana Almada

Mercados de ações no mundo todo estão aquecendo com o fim dos lockdowns e a injeção de dinheiro que os Bancos Centrais estão fazendo na economia. Mas a economia não está se recuperando — pelo contrário, isso parece ser apenas a calmaria antes de uma tempestade devastadora.

As bolsas de valores do mundo todo vêm se recuperando nas últimas semanas, impulsionadas em parte pelas medidas sem precedentes dos maiores Bancos Centrais mundiais. Nos EUA, o S&P 500 voltou para onde estava no início do ano. Essa recuperação, combinada com a flexibilização das medidas de isolamento ao redor do mundo, está gerando muito otimismo entre os analistas do mercado. Infelizmente, a realidade não é tão otimista quanto parece.

A alta do mercado de ações foi impulsionada principalmente pelas medidas dos Bancos Centrais — particularmente as do Sistema de Reserva Federal dos EUA. O Fed prometeu implementar um “quantitative easing infinito” — em outras palavras, não interromperá a compra de ativos (usando o dinheiro recém-criado pelo Banco Central) até que esteja convencido de que não haja mais risco para os mercados financeiros.

Temos também a sopa de letrinhas dos novos programas de compra e liquidez de ativos que estão apoiando outros mercados. Por meio do Commercial Paper Funding Facility (CPFF), do Primary Market Corporate Facility (PMCCF) e do Secondary Market Corporate Facility (SMCCF), o Fed está comprando a dívida de empresas privadas — prestando pouca atenção à sua solvabilidade e absolutamente nenhuma atenção ao seu impacto ambiental ou histórico de direitos trabalhistas. Enquanto isso, o governo está apoiando o mercado de empréstimos para compra de automóveis, crédito estudantil e títulos municipais por meio de programas como o Term Asset Loan Facility Loan Facility (TALF; usado pela primeira vez após a crise financeira de 2008), o Primary Dealer Credit Facility (PDCF) e o empréstimo a médio prazo (MLF).

Mais importante do que entender os detalhes de cada um desses programas (muitos dos quais são realmente extensos) é entender seu significado: o governo dos EUA está demonstrando sua disposição para comprar as dívidas dos consumidores, empresas e unidades federativas a fim de prevenir insolvências e aumentar os preços dos ativos.

Por um lado, isso parece uma medida de curto prazo positiva —  ninguém está sugerindo que o Fed simplesmente cruze os braços diante do aumento de falências pessoais, corporativas, estaduais e municipais. Mas também representa uma mudança profunda na natureza do capitalismo moderno. Os EUA estão dizendo às empresas que, independentemente da quantidade de dívida que acumulem durante a alta econômica — e para quais fins essa dívida seja utilizada — quando a crise bater à porta, elas serão resgatadas.

As implicações dessa mensagem — que também está sendo enviada por muitos outros Bancos Centrais ao redor do mundo — são profundas. Os riscos da administração corporativa foram socializados, enquanto os ganhos permaneceram privados. As empresas são livres para poluir, cortar salários e evadir impostos na busca do lucro, e ainda podem contar com a ajuda do Estado quando as coisas acabam mal. Os investidores são protegidos enquanto o público e o planeta pagam o pato. A longo prazo, o quantitative easing infinito simplesmente elevará os preços dos ativos — incluindo os de moradia — exacerbando a desigualdade de riqueza.

A constatação de que os Bancos Centrais estão dispostos a fazer quase tudo para apoiar o setor corporativo doméstico e proteger a riqueza privada é o que tem impulsionado a subida do mercado de ações. Os ricos e poderosos sabem que, independentemente do tamanho da queda da economia real, podem contar com o Estado para resgatar os mercados financeiros.

Ao mesmo tempo, os consumidores comuns — sem falar das pequenas empresas — foram deixados de fora. Enquanto as estatísticas de emprego dos EUA publicadas no início de junho foram surpreendentemente positivas, os comentaristas rapidamente detectaram um erro flagrante nos números: a maioria concorda que o desemprego está em torno de 20 milhões — quase 20% da população estadunidense ativa, o mais alto da história. No Reino Unido, o emprego está atualmente sendo protegido por meio do esquema de licença paga, mas a maioria das estimativas de médio prazo prevê que o desemprego possa atingir proporções semelhantes.

As pequenas empresas receberam auxílio financeiro e empréstimos, mas é improvável que eles continuem para sempre. Além disso, são apenas um band-aid sobre um problema estrutural muito mais profundo — o aumento maciço da dívida corporativa que ocorreu em grande parte do mundo nos últimos doze anos, após o colapso financeiro de 2008.

Antes da crise, muitos observadores alertaram para formação de uma bolha na dívida corporativa dos EUA — e o Reino Unido não estava muito longe. Os bancos alertaram o governo do Reino Unido que, quando seus chamados “empréstimos rápidos” terminassem, entre 40% e 50% das empresas poderiam falir.

Em suma, a alta do mercado de ações nos diz pouco sobre o destino da economia real. Essa primeira está sendo, em parte, impulsionada pelas medidas coordenadas tomadas pelos Bancos Centrais no mundo todo a fim de conter a queda dos preços dos ativos. Mas a existência de uma alta no meio da crise é normal: o mercado de ações aqueceu em meados de 2007, quando os políticos menosprezaram os riscos associados ao aumento da inadimplência das hipotecas subprime dos EUA.

Hoje, a bomba que está prestes a explodir não é dívida hipotecária, mas a dívida corporativa. Nem mesmo o Fed será capaz de salvar a economia global do colapso se uma parte significativa das empresas dos EUA — na verdade, do mundo — falirem ao mesmo tempo. Mas isso não significa que não tentará. Quando essa crise finalmente terminar — o que é improvável nos próximos 9 a 12 meses — os Estados provavelmente possuirão parcelas significativas dos ativos em suas economias domésticas. A questão que eles enfrentarão é o que fazer com esse poder: usá-lo para reconstituir o status quo ou para construir uma economia mais justa, mais resiliente e mais sustentável.

Sobre os autores

escreve na Tribune Magazin e é apresentadora do podcast semanal A World to Win.

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Published in América do Norte, Análise, Economia and Europa

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