“‘As pessoas conseguem pagar o aluguel desse mês?’ O consenso foi que não”

08/09/2020

Uma entrevista com
Lucy Piccochi e Fox Rinne

Tradução
Tatiana Roveran e Deborah Almeida

Milhões de pessoas não conseguem pagar seu aluguel devido à recessão induzida pelo coronavírus. Nos EUA, na ausência de ações do governo para ajuda-las, muitas pessoas estão fazendo uma “greve de aluguéis”. Conversamos com dois grevistas para saber como eles se organizaram em seus prédios para reter o pagamento de aluguel e como outros inquilinos podem fazer o mesmo.

Cartaz com os dizeres “Cancele o aluguel, [Governador] Cuomo” no alto de um condomínio de apartamentos no Brooklyn, Nova Iorque. (Foto: Twitter)

 O aumento do custo de moradia tem sido um sério problema para os trabalhadores dos EUA por décadas. Mas a chegada do COVID-19 expôs ainda mais essa crise, deixando milhares de trabalhadores desempregados e sem condições de pagar o aluguel.

Os pedidos por algum tipo de legislação sobre perdão de aluguéis têm aumentado: políticos como Ilhan Omar apresentaram projetos de lei para perdoar aluguéis e hipotecas, enquanto os representantes estaduais, como a senadora de Nova Iorque Julia Salazar, apresentaram medidas similares aos órgãos estaduais. Porém, nenhuma dessas leis foi aprovada. Embora Nova Iorque tenha aprovado uma moratória temporária de despejo e suspensão temporária de hipotecas, nenhuma ação suspendendo os aluguéis foi tomada. Enquanto isso, os locatários têm lidado com o problema a sua própria maneira.  

Moradores de um condomínio de quatro andares e 30 apartamentos na Goodwin Pl., no extremo sul do bairro Bushwick, no Brooklyn, fizeram exatamente isso. Os moradores formaram um sindicato de locatários e estão em greve de aluguel desde abril, enquanto negociam suas demandas com a Dome Property Management (a locadora), que também possui cerca de outros 40 prédios na região do Brooklyn.

Em primeiro de maio, o designer da Jacobin, Benjamin Koditschek, que também mora no mesmo prédio, entrevistou duas das organizadoras do sindicato, Fox Rinne e Lucy Piccochi, sobre o andamento da greve e como ela se liga ao ativismo na cidade de Nova Iorque.


BK

O que os levou a decisão de que a greve era necessária já em abril e como vocês organizaram o prédio?

FR

Eu era professora de pré-escola, mas quando as escolas foram fechadas, perdi meu emprego, porque eles não fariam a pré-escola pelo Zoom.   Meu empregador me disse para solicitar o auxílio desemprego, e foi o que fiz. Mas após dois meses, eu não recebi nenhum auxílio, e não sou elegível para o “stimulus check” (um auxílio emergencial pago pelo governo dos EUA sob determinadas condições). Então estou sem nenhuma renda desde o início da pandemia. E eu vi muitas outras pessoas pela cidade que também perderam o acesso à uma renda estável.

Então entrei no modo de organização. Meus companheiros de casa e eu colocamos uma placa nos corredores do nosso prédio, perguntando se algum de nossos vizinhos precisasse de ajuda ou acesso a comida, ou se alguém ficasse doente, era para avisar as pessoas. E isso levou ao início de um bate-papo em grupo.

Uma das primeiras coisas mencionadas na roda de conversa foi: “Ei, como as pessoas estão realmente pagando o aluguel este mês? As pessoas estão conseguindo fazer isso?” E o amplo consenso era não.

LP

Eu fiz muito ativismo na minha vida antes desta crise. Além disso, fui guia turística no Tenement Museum e me interesso muito pela história dos movimentos sociais. Também dou passeios a pé com um coletivo chamado Social Justice Tours, onde contamos a história do ativismo na cidade de Nova York. O Tenement Museum teve que fechar temporariamente e eu fui liberada. Também me disseram para pedir o seguro-desemprego, e foi o que fiz. Originalmente, não era muito dinheiro, mas tenho os US$ 600 adicionais por semana que o governo federal vem emitindo. Muitos dos meus colegas de trabalho estão tendo extrema dificuldade em conseguir. Eu fui uma das pessoas que tiveram sorte.  

Através de minhas experiências anteriores com ativismo e conhecendo a história dos movimentos sociais, pensei que a greve de aluguel e a organização dos inquilinos seriam as coisas certas a se fazer em uma situação como essa, nos unindo para apoiar uns aos outros e criar redes de ajuda mútua e solidariedade.

Mesmo que eu não esteja em uma posição muito ruim financeiramente, estou fazendo isso para ser solidário com meus vizinhos, meus colegas de casa, as pessoas no prédio que estão tendo problemas, que não estão ganhando nenhum dinheiro agora, nem recebendo qualquer tipo de ajuda ou seguro desemprego.

BK

Como as coisas se desenvolveram depois disso?

FR

Depois que começamos a conversar com as pessoas do prédio em um chat em grupo, a conversa levou alguns de nós a ir de porta em porta de forma segura e com distanciamento social. Tínhamos nos mudado recentemente para o prédio, então estávamos conhecendo a maioria das pessoas pela primeira vez. Perguntamos se as pessoas perderam o trabalho, como elas estão, se podem ou não pagar pelo mês de abril e se estão dispostas a fazer uma greve solidária para proteger aqueles que não puderam pagar e evitar que tenham que negociar com os proprietários sozinhos.

LP

Eu conversei com um de nossos vizinhos sobre enviar uma carta ao proprietário, o que nos levou a escrever uma carta em colaboração. Começamos explicando a situação – que muitas pessoas no prédio estão desempregadas e não vão conseguir pagar o aluguel. Mencionamos uma legislação que estava sendo proposta para ajudar as pessoas que não podem pagar aluguel e incentivamos o proprietário a pressionar o governo para aprovar essa legislação. E dissemos a eles que, a menos que o governo aprove a legislação, não pagaremos o aluguel de abril, e pedimos ao proprietário para negociar conosco.

Conseguimos assinaturas, fizemos várias reuniões no Zoom, bate-papos no WhatsApp e conseguimos garantir que todos estavam a bordo. Especialmente porque somos novos inquilinos, não queríamos apenas empurrar qualquer coisa para as pessoas. Queríamos ter certeza de que todos estavam consentindo e concordando. E queríamos saber quais são as experiências anteriores das pessoas vivendo aqui com o proprietário e seus problemas e como se comunicar melhor com a administração.

Algumas pessoas não conseguiram realmente entrar em greve porque estavam no meio de um processo judicial com o proprietário, ou porque estavam preocupadas porque estavam renovando um contrato de aluguel. Então, eles sentiram que precisavam pagar o aluguel, mas ainda assim nos apoiaram e concordaram com o que estávamos fazendo. Mas, no geral, tivemos muito apoio e, por causa disso, percebemos que estávamos saindo muito fortes com essa greve.

FR

Haviam pessoas que ainda tinham emprego, mas estavam trabalhando em casa e estavam dispostas a fazer greve em solidariedade. Conseguimos 43 assinaturas na carta e estimamos um total de cinquenta pessoas no prédio, então cerca de 80 por cento do prédio assinou a carta.

BK

Então isso foi no final de março e início de abril. Como o proprietário respondeu?

LP

No início, quase não recebemos comunicação do proprietário. Eles se recusaram a reconhecer nossa carta e apenas enviaram e-mails gerais para as pessoas nos lembrando de pagar o aluguel, como se estivessem totalmente alheios ao que estávamos fazendo. Então, elaboramos um e-mail de resposta uniforme, com o qual todos responderam, que incluía a carta original com todas as assinaturas em anexo.

FR

Nossa resposta solicitava que eles consultassem o endereço do Gmail do nosso sindicato de locatários e se comunicassem conosco apenas por meio dele. Antes de enviá-lo para o proprietário, postamos aquela carta inicial de exigências no corredor para que outros moradores vissem, mas ela foi rasgada quase que imediatamente.

LP

Não sabemos quem rasgou, mas a carta sumiu em todas as três entradas separadas do nosso edifício.

FR

E imediatamente depois disso nós recebemos telefonemas da gerência. Também fomos contatados por nosso corretor, que recebeu a orientação do proprietário para nos desencorajar de nos organizarmos.

LP

O proprietário insistia em que eles apenas faziam negociações individuais. E é por isso que eu dizia que eles estavam ignorando nosso sindicato de inquilinos. Eles sempre diziam que iriam negociar um plano de pagamento individual para todos. Um de nossos vizinhos falou por telefone com eles, onde eles fizeram um acordo sobre o aluguel de abril, onde poderiam escolher que o proprietário dispensaria a taxa menor de processamento ou lhe daria cinco dias extras para pagar o aluguel integralmente. Esse era o plano de pagamento deles.

Sabíamos que, se não nos uníssemos, se cada um de nós tentasse negociar com eles individualmente, não haveria uma negociação de verdade. E percebemos que teríamos que fazer negociações coletivas. Então essa foi a tática deles por um tempo, ligar para as pessoas individualmente. Claro, não está documentado e eles podem dizer qualquer coisa por telefone. Não há registro escrito.

FR

Eles podem fazer ameaças, e foi o que fizeram.

LP

Sim. Eles podem fazer promessas vazias. Nossos vizinhos nos contaram que há um histórico deles fazendo isso, forçando as pessoas a conversarem pelo telefone, sem um registro escrito. Outro vizinho nosso estava ao telefone com alguém da administração, que disse a eles que fazer essa greve e não pagar o aluguel prejudicaria seu histórico de locatário, arruinaria seu crédito.

FR

Que isso lhes daria problemas para encontrar outra casa no futuro, o que sugere a existência de uma lista negra.

LP

E que eles começaríam a receber propostas de aluguel de outras pessoas, o que é uma forma velada de dizer: “Vamos te despejar”.

FR

E então vinha um e-mail de acompanhamento que era como, “Ótimo falar com você. Mal posso esperar para continuar nossa excelente relação locatário-locador.”

Mas então houve um dia em que vários inquilinos do prédio relataram que estavam sentindo cheiro de gás. Então, um inquilino ligou para a administradora para dizer que poderia haver um vazamento de gás. E a única resposta – o primeiro reconhecimento de nossa greve de aluguel – foi “Bem, onde está o pagamento do seu aluguel? O proprietário não está aceitando sua greve de aluguel.” E então isso trouxe reconhecimento real de que estávamos de greve. 

Eventualmente, um vizinho ligou pra National Grid. Eles vieram, inspecionaram a sala da caldeira e confirmaram que havia um vazamento de gás, que os proprietários haviam ignorado por causa da greve.

BK

Como vocês responderam aos esforços do proprietário de evasão e intimidação?

FR

Fizemos uma lista de violações, como violações de código de construção e coisas assim, então há evidências por escrito.

LP

Se tivermos negociações com o proprietário sobre reparos, apresentaremos esta lista e basicamente diremos: “se você quiser nosso aluguel, também terá que atender a essas demandas de reparos”. Estamos documentando suas várias táticas no papel e a esperança é mantê-las reservadas para o caso de irmos ao tribunal para mostrar que o proprietário não agiu de boa fé e se recusou a negociar conosco. E também poderíamos usar para mostrar ao senhorio e dizer, se você quiser levar isso ao tribunal, vamos apresentar essas coisas ao juiz, e isso não faz você ficar bem.

Estamos apenas documentando mais evidências para o nosso lado e se precisarmos realmente usá-las, iremos. Mas esperamos que, só ter as evidências impedirá que a situação vá tão longe a ponto de termos de ir a um tribunal.

BK

Isso foi em abril. Qual era a estratégia em maio? O que vocês esperam de como essa greve de aluguel termine?

LP

Falamos com um advogado algumas vezes sobre o que devemos fazer, quais são nossos direitos, quais podem ser nossas táticas. E também recentemente tivemos uma conversa com nossa senadora estadual, Julia Salazar, sobre a legislação que ela está tentando aprovar.

FR

Ela disse que é espera conseguir avançar com a legislação em cerca de duas semanas, assim que o próximo projeto de lei federal for aprovado. Mas ela disse que passar pelo escritório de Cuomo provavelmente será um gargalo.

LP

É bom ter políticos que se sentem sinceramente conectados às suas comunidades e compartilham nossas críticas ao governo atual. Mas ela não podia fazer nenhuma promessa, por isso precisamos estar preparados para a provável possibilidade de que nenhuma legislação seja aprovada. Se não for dessa vez, continuaremos a pressionar para isso acontecer. Mas também continuaremos a nossa organização de inquilinos.

FR

Em abril, esperávamos que, ao reter o aluguel, estivéssemos pressionando nossos senhorios para que eles pressionassem os legisladores. Mas agora nossas demandas estão mais claras. Quer a legislação seja aprovada ou não, queremos o perdão do aluguel para todos os afetados pelo COVID-19, o perdão de todas as taxas atrasadas, sem repercussões legais ou retaliação, a conclusão de reparos pendentes (que são numerosos), uma limpeza completa do edifício e o reconhecimento do nosso sindicato de inquilinos.

LP

E que a administração pare de insistir na comunicação individual e, em vez disso, se comunique por meio de nossa associação oficial de inquilinos.

FR

Nossa esperança com nossa greve é ​​que, como estamos alavancando nosso poder como inquilinos e retendo aluguel, e como há um número suficiente de pessoas que estão fazendo isso em solidariedade, nossas demandas serão atendidas.

Mas sentimos que nossa associação de inquilinos não é apenas para esta greve de aluguel. Surgiu a partir disso, mas é algo que pretendemos manter por um tempo. Todos nós nos conhecemos agora como inquilinos e como pessoas que protegem uns dos outros.

BK

Como você vê essa greve de todo o edifício conectada a lutas semelhantes na cidade?

FR

Houve uma convocação em toda a cidade para uma greve de aluguel em abril, mas agora é maior.

LP

Estamos juntos de outras greves também. Há greves trabalhistas e, claro, o 1º de maio sendo o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de greves. Agora tudo está unido a um movimento maior. Há muito mais organizações e políticos apoiando isso. É uma coisa maravilhosa e parece que está se tornando mais forte. Esperançosamente, toda essa pressão e a continuação da greve de abril a maio, e dizendo que enquanto for necessário, vamos continuar a greve – espero que isso ajude a aprovar algum tipo de legislação, ou pressione o senhorios a se comprometerem conosco.

FR

Mas levou dois meses para os legisladores não fazerem nada. Não podemos ficar esperando que o Estado faça algo. O que podemos esperar disso não é apenas a legislação estatal, mas também um maior reconhecimento dos trabalhadores e inquilinos de seu próprio poder.

Outra coisa emocionante para mim foi ver o tipo de interconexões claras entre os movimentos que estão acontecendo hoje por causa do COVID-19. Portanto, vemos um chamado para o Moradia para Todos (Housing for All). Você vê um impulso para abolir as prisões e cadeias e para libertar as pessoas que estão atualmente encarceradas por conta das suas  condições de vida e da incapacidade de se distanciar socialmente. E, portanto, a moradia é extremamente relevante lá, porque as pessoas precisam de acesso a uma habitação segura quando forem libertadas. E você também tem as conexões com o movimento dos trabalhadores, se as pessoas não tem acesso seguro ao trabalho ou estão sem conseguir trabalhar quando estão doentes, [sem nenhuma licença médica remunerada] então não podem pagar o aluguel.

LP

E o fato de que muitas pessoas estão colocando suas vidas em risco, mas continuam trabalhando porque precisam pagar o aluguel. E a situação do aluguel sendo a mesma das últimas décadas em Nova York, ficando cada vez mais caro e inacessível. Essa pandemia revelou todas as injustiças que vêm acontecendo com a moradia, com o trabalho, nas prisões e com a saúde. Nesse sentido, não é nada realmente novo. São problemas que já existiam. Eles só ficaram piores.

FR

Embora pareça que estamos agindo em modo de crise, na verdade estamos apenas nos preparando para nos organizarmos no futuro, durante as mudanças climáticas e conforme as crises continuarem a piorar.

LP

E espero que, não importa o que aconteça, se alguma legislação for aprovada, os inquilinos percebam seu poder quando se unem e participam de ação direta. Essa é a grande lição do estudo da história do ativismo dos inquilinos. No início do século XX, as pessoas perceberam que, embora os proprietários de terras tivessem muito dinheiro, eram poucos. Os inquilinos têm força em número. Eles sabiam que não podiam esperar que o Estado aprovasse a legislação. Em vez disso, eles se reuniram e exigiram aluguel acessível, reparos e bons aluguéis.

Tudo isso veio de inquilinos na cidade de Nova York, criando um movimento em massa de greves de aluguel e protestos contra a injustiça imobiliária que acabou colocando pressão suficiente não apenas sobre os proprietários, mas também nos tribunais e na legislatura estadual para aprovar leis de controle de aluguel e proteção aos inquilinos. Se não fosse por milhares de pessoas no início do século fazendo todas essas enormes greves de aluguel e movimentos em massa, não teríamos nenhum controle de aluguel ou nenhuma proteção ao inquilino.

FR

Uma esperança é que sindicatos de inquilinos possam ser formados em todos os bairros. Alguns bairros já têm sindicatos de inquilinos históricos, como o sindicato de inquilinos de Ridgewood. Mas poderia haver todo um sindicato de inquilinos do Brooklyn, para realmente termos sindicatos de inquilinos em massa pressionando os proprietários de seus edifícios e exercendo pressão sobre suas empresas de gestão, e então construindo solidariedade entre os bairros.

LP

Se isso acontecer, Nova York pode se tornar uma cidade mais acessível e amigável aos inquilinos. Isso ajudaria muito o movimento a capacitar comunidades de vizinhos e trabalhadores em toda a cidade.

Sobre os autores

é artista, educadora de museu, guia de turismo histórico, e jardineira comunitária.

é professora, escritora e militante pelo abolicionismo penal, justiça transformativa, e poder comunitário.

é designer gráfico na Jacobin.

Sobre os autores

Lucy Piccochi é artista, educadora de museu, guia de turismo histórico, e jardineira comunitária.

Fox Rinne é professora, escritora e militante pelo abolicionismo penal, justiça transformativa, e poder comunitário.

Ben Koditschek é designer gráfico na Jacobin.