Sim, o poder corrompe – é por isso que os socialistas querem democratizar a sociedade

13/09/2020

Por
Ben Burgis

Tradução
Everton Lourenço

É extremamente comum ouvirmos que os socialistas são sonhadores ingênuos, utópicos e irrealistas. Mas a verdade é exatamente o oposto: sabemos que a concentração de poder corrompe, e é por isso que queremos democratizar todas as esferas da sociedade.

Festival, por Daniel Celentano, 1934. (Smithsonian American Art Museum)

Recentemente, debati com o YouTuber canadense de extrema direita (e autodescrito “libertário”) Stefan Molyneux. Embora Molyneux mantenha algumas posições distintamente não-“libertárias” em relação a Donald Trump ou restrições à imigração, e tenha passado a maior parte do debate tentando escapar dessa óbvia contradição, ele apresentou todos os argumentos padrão contra o socialismo usados pelos “libertários”.

Um deles tem a ver com o efeito corruptor do poder político. Em sua declaração de abertura, Molyneux argumentou que:

Os seres humanos não são capazes, de maneira nenhuma, de dar forma ou de lidar com o poder. O poder é muito ruim para nós. Sabe, quando eu era criança, às vezes tínhamos que fazer gambiarras com moedas na caixa de fusíveis […] e era um grande risco de incêndio e assim por diante, mas […] os seres humanos não conseguem lidar com grandes tensões de poder político, assim como as moedas da minha infância não conseguiam lidar com a energia elétrica – elas normalmente derretiam, meio que chegavam a pingar. Os seres humanos são dominados por completo, eles racham, são corrompidos pelo poder.

Eu concordo inteiramente. No entanto, como indiquei na minha resposta, as preocupações de Molyneux não nos dão uma razão para nos opor ao socialismo, e sim um motivo poderoso para apoiá-lo.

O argumento da natureza humana

Pode ser útil começar com um argumento relacionado: a natureza humana, nos dizem muitas vezes, seria egoísta e cruel. Tentar forçar os humanos a um modo cooperativo e altruísta seria perigosamente utópico – como tentar transformar tigres em vegetarianos. Alguns socialistas recuam dizendo que a natureza humana é cooperativa e altruísta ou que os humanos simplesmente não possuem uma natureza fixa.

Determinar qual dessas três posições é a certa é uma questão complicada e confusa. David Hume diz em seu ensaio sobre o céu e o inferno que a maioria de nós “flutua entre o vício e a virtude”. Isso provavelmente é o mais próximo de uma boa resposta que você pode chegar sem fazer um mergulho profundo na psicologia empírica, na antropologia, na sociologia e até mesmo na biologia evolutiva. Como já discuti em outro lugar, no entanto, você não precisa se comprometer com nenhuma resposta específica a essas perguntas para ver que o argumento anti-socialista sobre a natureza humana não é convincente.

Por quê? Porque se estivermos preocupados sobre os seres humanos agirem com crueldade ou egoísmo indevidos, temos de projetar uma ordem econômica que não incentive e nem recompense esses impulsos. Isso não tem nada a ver com um impulso utópico para eliminar as características negativas da psicologia humana. Os socialistas não estão interessados em tentar mudar os corações – estamos interessados em mudar as instituições políticas e econômicas. Acreditar que algumas pessoas sempre terão um impulso de dirigir muito rápido não é uma razão para não termos limites de velocidade.

O poder econômico corrompe

A mesma resposta básica se aplica ao argumento de Molyneux sobre como as tentações do poder político podem atropelar nossas inibições sobre o abuso desse poder. A melhor versão do argumento do “poder corrompe” contra o socialismo pode soar mais ou menos assim:

Premissa um: No socialismo, todo o poder político e econômico estará concentrado nas mãos dos burocratas do governo.

Premissa dois: se os burocratas receberem um poder enorme, vão abusar dele.

Premissa três: Qualquer forma de organização social que previsivelmente leve a tais abusos de poder é inaceitável.

Conclusão: o socialismo é inaceitável.

Horrores como os expurgos de Stalin e o Grande Salto em Frente de Mao demonstram vividamente a verdade da Premissa Dois. É por isso que os socialistas democráticos pensam que precisamos limitar o poder dos burocratas do governo por meio de instituições políticas democráticas e restrições constitucionais para proteger direitos importantes como a liberdade de expressão.

Mas se for usado como um argumento contra o socialismo em geral, incluindo o tipo de sociedade que os socialistas democráticos defendem, tudo isso desmorona. Não queremos entregar o poder a uma nova classe dominante de burocratas estatais. Como já escrevi antes, queremos expandir a democracia para o domínio econômico.

Uma das principais motivações para a política socialista democrática é o reconhecimento de que a Premissa Dois é igualmente verdadeira se trocarmos “burocratas” por “capitalistas”. Concentrar o poder econômico nas mãos de indivíduos ricos e empresas capitalistas gera horrores que vão desde o tratamento predatório de Harvey Weinstein às atrizes até o trabalho extenuante nos depósitos de Jeff Bezos.

Sindicatos e um Estado regulador podem conter parte dessa pilhagem, mas as concentrações de poder econômico sempre encontram uma maneira de acumular poder político. Os interesses empresariais capturam as agências reguladoras e as enfraquecem, cooptam ou mesmo esmagam a mão de obra organizada.

Na verdade, os socialistas democráticos é que são os realistas: pensamos que a melhor garantia contra seres humanos falíveis que podem abusar de seu poder sobre os outros é distribuir o poder de forma justa entre os indivíduos. E como achamos que não se pode confiar em ninguém com o tipo de poder que um CEO corporativo possui sobre os trabalhadores comuns, lutamos para empoderar as maiorias e abolir os privilégios de poucos.

Sobre os autores

é professor de filosofia e autor de Give Them An Argument: Logic for the Left. Ele faz um quadro semanal chamado "The Debunk", no The Michael Brooks Show.

Sobre o autor

Ben Burgis é professor de filosofia e autor de Give Them An Argument: Logic for the Left. Ele faz um quadro semanal chamado "The Debunk", no The Michael Brooks Show.