As bases militares dos EUA estimulam intermináveis guerras e intervenções

23/10/2020

Por
Sarah Lazare

Tradução
Marianna Braghini

Não ouvimos delas com frequência, mas cerca de 800 bases militares dos EUA espalhadas pelo mundo transformaram alguns países em colônias supremacistas e enormes regiões em um sangrento campo de batalha. Além de incentivarem agressões militares, elas dão apoio logístico para golpes em outros países. Para acabar com o imperialismo, precisamos desativá-las.

Base naval dos EUA em Apra Harbor, Guam. (Marinha dos EUA / Codie L. Soule / Flickr).

Com cerca de 800 bases em mais de 70 países ao redor do mundo, a intensidade bélica da presença militar dos EUA não tem precedentes, e mesmo assim, é raramente reconhecida em seu discurso político. 

A base do Corpo de Fuzileiros Navais de Futenma, em Okinawa, por vezes chega às manchetes, graças aos constantes protestos contra sua existência. Bases militares dos EUA em Guam também aparecem brevemente nas notícias devido à oposição pública contra os exercícios de guerra “Valiant Shield”, exercícios que integram Marinha, Exército, Força Aérea e Fuzileiros Navais, que ocorreram na colônia norte-americana durante a pandemia. Entretanto, as bases no estrangeiro simplesmente não estão em discussão.

Parecem fatos banais, raramente considerados, mesmo durante uma corrida eleitoral que invoca repetidas vezes conceitos como “democracia” e “guerras intermináveis”, e em virtude da pandemia e da crise climática, levanta questões existenciais sobre o que é a “América” e o que ela deveria ser.

As pessoas vivendo em países e colônias dos EUA afetadas por estas bases militares – trabalhadores que constroem seus sistemas de encanamento, suas latrinas, que estão sujeitos ao tráfico sexual que frequentemente surge ao redor das bases, os residentes sujeitos aos agentes tóxicos ambientais e exercícios militares – simplesmente não existem. 

Ainda assim, de acordo com David Vine, um antropólogo político na American University, estas bases militares são fundamentais para compreender por que os EUA permanecem consistentemente em algum estado de guerra ou envolvidos em invasões militares, durante quase todos os anos desde sua existência enquanto país.

Em seu novo livro “The United States of War: A Global History of America’s Endless Conflicts, from Columbus to the Islamic State, Vine parte de uma simples premissa: as bases militares dos EUA ao redor do mundo, desde Diego Garcia à Djibouti, são os parafusos de sua máquina de guerra. Elas fornecem suprimentos, apoio em logística e combate, que permitiram que os EUA transformassem o mundo em seu campo de batalha pessoal. Elas inferem em uma tendência ao conflito, e mais guerras levam à mais bases militares, em um ciclo vicioso de expansão imperialista.

“Coloquemos da seguinte maneira,” escreve Vine, “as bases frequentemente geram guerras, o que pode gerar mais bases, que podem gerar mais guerras, e assim por diante”.

Qualquer esforço de compreensão acerca do estado de guerra quase constante dos governos estadunidenses desde sua independência, deve considerar esta infraestrutura – não apenas em sua forma atual, mas olhando também ao passado, nos dias de doutrina do destino manifesto [Manifest Destiny], quando fortificações “estrangeiras” eram usadas como bases militares em terras de Nativos Americanos.

Embora pareça óbvia a ideia de que a expansão global de bases militares corresponda à expansão do império dos EUA, o livro demonstra que isso é tanto causa, quanto consequência. Vine, documenta de forma brilhante a forma como as posições militares disseminadas pelo mundo – que são sempre vendidas ao público como defensivas – são, por sua própria natureza, ofensivas, e se transformam em seus próprios ecossistemas de dominação.

Assim como o princípio de “demanda induzida” mostra por que a construção de mais vias e rodovias, na realidade, aumenta o trânsito, “United States of War” argumenta que as bases militares incentivam, por conta própria, agressão militar perpétua, golpes e intervenções. 

Do destino manifesto ao Império Global

A trajetória rumo ao império iniciou a partir da expansão da colonização branca dentro dos EUA.  Em 1785, o Exército norte-americano deu início ao que “se tornaria um programa secular, envolvendo todo o continente, de construção de fortes,” escreve Vine. Estes fortes eram utilizados para executar invasões violentas em terras indígenas, proteger vilas e cidades de colonos brancos e afastar os nativos para cada vez mais longe da Costa Leste.

Também foram usados para expandir o comércio de peles, que por sua vez, encorajava outros colonos a seguirem ocupando o oeste, com alguns fortes militares funcionando, em parte, como pontos de comércio. A famosa expedição de Lewis e Clark foi uma missão militar (Meriwether Lewis, era um capitão do exército e William Clark, ex-comandante de uma companhia de infantaria) para coletar dados geográficos que seriam utilizados para mais “construções de fortes, exploração de recursos naturais e expansão rumo ao oeste por colonos,” denota Vines.

Enquanto os EUA expandiam suas fronteiras, sua Marinha também buscava construir fortes no exterior, desde a Costa Berbéria no Norte africano até o Chile, frequentemente com o propósito de assegurar vantagens comerciais.  Nos trinta anos seguidos da guerra de 1812 – essencialmente uma guerra de expansão dos EUA – colonos seguiram ao oeste, construindo infraestrutura por onde passavam: ruas, trilhos e mais de 60 grandes fortes ao oeste do Rio Mississippi, até a década de 1850. Após a guerra dos EUA e México, bases militares foram construídas no território anexado. Fortes em Wyoming protegiam ferrovias, permitindo a expansão dos colonos ao oeste dos EUA. 

A violenta conquista e o massacre de indígenas não cessaram durante a Guerra Civil, acirrando-se nos anos de 1856 a 1898, quando “o exército dos EUA lutou em nada menos que 943 pontos de combate contra povos nativos, desde ‘pequenos atritos’ até batalhas maiores, em 12 campanhas separadas,” escreve Vine. Políticas de exterminação e supremacia branca eram explicitamente declaradas na Califórnia e constituíram bases por todo oeste. Após 1876, quando o presidente Ulysses S. Grant, “entregou” os indígenas ao Departamento de Guerra, o Forte Leavenworth foi transformado em um campo de prisioneiros de guerra para a tribo Nimi’ipuu.

Em mais de “quase 115 anos consecutivos de guerras estadunidenses contra povos indígenas,” como afirma Vine, os fortes militares dos EUA desempenharam um papel consistente na proteção de colonos brancos, sua expansão e suas pilhagens. 

Nos dizeres de Vine, a Guerra de 1898 fora “o início de uma nova forma de império estrangeiro” que “viu o país se expandir pelo continente com a ajuda dos fortes militares dos EUA e em guerra semi-contínua”. Em alguns casos, é possível relacionar diretamente a expansão dentro dos EUA com seus domínios no exterior.

Nelson A. Miles, General Comandante do exército dos EUA, liderou batalhas brutais contra as tribos Kiowa, Comanche, Sioux, Nez Perce e Apache, e ordenou a cavalaria do General George Custer a conduzir o massacre de 300 nativos em Lakota Sioux em 1890, e então derrotou violentamente a greve nacional dos ferroviários de 1894.

Miles, também liderou uma guerra sangrenta contra insurgentes nas Filipinas, feita para derrotar seu movimento de independência. (Semelhanças entre a atual repressão a nível doméstico e internacional podem ser encontradas nas táticas de contra insurgência associadas aos armamentos e equipamentos militares usados pelos departamentos policiais dos EUA)

Trabalhadores organizados, imigrantes, escravizados recém libertos, povos indígenas do país e do exterior: todos estão subjugados pelas mesmas forças militares e policiais abrindo caminho para a colonização branca e a expansão de capital.

Após capturar colônias espanholas durante a guerra de 1898, os EUA começaram a buscar uma nova forma de imperialismo que fosse “menos dependente da criação de novas colônias formais e mais dependente de instrumentos políticos e econômicos informais – ainda assim violentos – apoiados pelo poder militar, incluindo bases no exterior,” escreve Vine. O EUA fortaleceu sua presença militar nas Filipinas com 70 mil soldados, usando estas forças para ajudar a acabar a rebelião Boxer na China, e usou seu poder militar para intervir impiedosamente no Panamá.

A Segunda Guerra Mundial viveu a dramática expansão de bases militares, uma era inaugurada em 1940, quando o presidente Franklin D. Roosevelt assinou um acordo com o Primeiro Ministro Winston Churchill, para a troca de navios contratorpedeiros por concessões de 99 anos em 8 colônias britânicas, todas localizadas no Hemisfério Ocidental. No imediato pós-guerra, o EUA diminuiu temporariamente seus gastos em efetivos militares e devolveu quase metade de suas bases no exterior.

Entretanto, a infraestrutura básica global de bases (muitas das quais foram construídas pelo trabalho colonizado) permaneceria entrincheirada – e foi estabelecido um “sistema permanente de guerra”, como afirma Vine. Durante a era de descolonização após a Segunda Guerra, o EUA usou sua rede de bases militares e influência econômica, e as converteu em novas instituições como Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, para proteger sua hegemonia.

Durante a Guerra Fria, a expansão de bases militares no estrangeiro se tornou central para objetivos de contenção e posicionamento adiantado, sob a premissa de que bases globais podem responder rapidamente a ameaças, realizar curtas intervenções e mobilização de militares, diante de crises. Enquanto fornece ilusão de mais segurança, estas bases, na realidade, tornaram guerras estrangeiras mais prováveis, argumenta Vine, pois, é mais fácil incentivar tais guerras. Por sua vez, conflitos desencadeiam a construção de mais bases.

A Guerra da Coréia, que matou entre 3 e 4 milhões de pessoas, suscitou um crescimento de 40% no total de bases dos EUA no exterior, aumentando preocupações acerca do sustento das bases no Oceano Pacífico. Que também foram espalhadas pela América Latina, Europa e Oriente Médio.

Igualmente, estações da CIA se expandiram junto ao aumento de bases militares, intervenções clandestinas e apoio de golpes tornaram-se a ferramenta preferencial do império estadunidense. Quando o EUA travou uma guerra brutal no Vietnã, Laos e Camboja, fora apoiado por “centenas de bases no Japão, Okinawa, Filipinas e Guam,” denota Vine. 

O destino de aproximadamente mil Chagossianos (descendentes de africanos escravizados e indianos em trabalho forçado [N.T. indianos trabalhadores indentured eram obrigados a servir o exército por um determinado período de tempo]), de Diego Garcia, uma ilha no Oceano Índico, demonstra a notável crueldade das conquistas dos EUA em seu período de abordagem à “ilhas estratégicas”, em que estabeleceram controle sobre pequenas ilhas colônia. 

Após realizar um acordo secreto com a Grã-Bretanha em 1966 para comprar direitos de construir bases militares, os governos do EUA e Reino Unido expulsaram os residentes, entre 1967 e 1973, os deixando encurralados nas Ilhas Maurício e Seychelles, sem emprego e sem casa, além de perderem suas posses para sempre.

Durante algumas fases da expulsão, residentes foram colocados em navios de carga, enquanto seus cachorros foram mortos. Em 1973, os EUA utilizava esta base para apoiar Israel na guerra deste país contra nações árabes.

“Até hoje,” escreve Vine, “Chagossianos e muitos outras pessoas expulsas estão tendo dificuldades em voltar para casa, conseguir alguma justiça e recompensa pelo que sofreram.”

Este ponto é o mais potente do livro de Vine: mostra os aspectos morais do império estadunidense. Envoltos pela abordagem neutra e estéril, típicas de think-thanks, ouvindo termos como “posicionamento adiantado”, “ação cinética” e “política de portas abertas”, consumidores da imprensa tradicional dificilmente seriam pressionados a conhecer o custo humanitário destas bases. Vine documenta a perspectiva daqueles que foram expulsos e privados de direitos.

Como autor do principal livro em inglês acerca de Diego Garcia e apoiador do retorno dos chagossianos a sua terra natal, Vine, não esconde sua oposição frente esta profunda injustiça. Ele coloca suas críticas baseando-se no reconhecimento dos poderosos movimentos anti bases militares, incluindo os massivos protestos e greves que forçaram os EUA à se retirarem de todas as bases na Turquia, deixando “apenas” duas, em 1975, e o movimento No-Bases que expulsou o EUA das Filipinas em 1991 (embora posteriormente tenha retornado ao país).

A escolha foi bem concebida. O movimento global contra bases dos EUA – vistos em cooperação regional entre ilhas colonizadas do Pacífico, como Guam (cujo nome nativo é Guåhan) e Havaí, ou a solidariedade internacional construída pelos coreanos na Ilha Jeju – mesmo onde falte integração e estruturas para realizar um trabalho realmente coordenado, é uma força crucial na luta contra a dominação dos EUA.

Guerra ao Terror

Os EUA usaram bases militares que vão desde Diego Garcia até Oman, para invadir o Afeganistão em 2001 e, uma vez lá, estabeleceu mais bases e tomou controle de outras que eram soviéticas. Do mesmo modo, bases desde o Kuwait até a Jordânia, de Bahrein até Diego Garcia, foram fundamentais para a invasão do Iraque em 2003, onde o EUA começou a construir bases e outras instalações após a invasão.

Ainda que o governo Bush-Cheney tenha fechado algumas bases na Europa, os gastos gerais com bases militares “chegou a novos recordes” durante sua administração, escreve Vine. A guerra contra o Estado Islâmico contou com o retorno de tropas rumo ao Iraque e aquisição de bases, mesmo após o parlamento iraquiano ter rejeitado, em 2011, um acordo para que os EUA pudessem manter 58 bases no país.

Desde 11 de setembro de 2011, os EUA também expandiram sua presença na África, construindo “lily pads” [vitórias-régias] pelo continente – instalações militares menores, mais discretas e relativamente secretas, sugerindo que se portava como “um sapo pulando de planta em planta perseguindo sua presa”, escreve Vine. Bases dos EUA foram centrais para a guerra da OTAN contra a Líbia em 2011, ataques via drones no Iêmen e intervenções militares na Somália e Camarões.

“Os militares tem conduzido regularmente uma variedade de operações em pelo menos 49 países africanos,” ele afirma. “Podem estar operando em cada um destes.”

Enquanto isso, gastos com bases desempenharam um importante papel no aumento constante de despesas militares. Junto aos danos diretos que acarretam ao possibilitar guerras, as bases estão associadas a fraudes e desperdícios, e renovação de contratos com empresas privadas contratadas para as operações devido suas significativas contribuições políticas. Esta força política, esta lógica autônoma de expansões militares, é central para compreender como o “Complexo Industrial Militar” se assemelha a um “monstro Frankenstein, tomando vida própria graças ao orçamento que comanda”, descreve Vine.

O ethos da Guerra ao Terror, no qual o mundo inteiro é considerado como um campo de batalha dos EUA, em que o país se auto concede uma ampla latitude para lançar guerras antecipadas, veio a definir a política externa dos EUA. George W. Bush, falava sobre a importância de ter um exército “capaz de atacar instantaneamente qualquer canto escuro do mundo”, uma referência racista ao Oriente Médio, África e regiões islâmicas da Ásia, diz Vine. 

Atualmente, a guerra contra o Estado Islâmico – responsável por mortes significativas de civis – prossegue, assim como perigosas políticas com o Irã, cercos contra a China, a brutal guerra no Afeganistão e o apoio estadunidense na guerra no Iêmen, que por sua vez provocou uma profunda crise humanitária.

Bases militares, instalações, pequenas bases relativamente secretas [as lilly pads], permanecem como o alicerce deste império sangrento dos EUA, como foram desde os primeiros dias do Destino Manifesto.

Um chamado para ação

O esforço de Vine em mapear o papel das bases militares dos EUA no fomento de guerras, e vice-versa, é surpreendentemente ambicioso. Assim como deveria ser: o papel das bases militares dos EUA na história global e nos ciclos de guerras intermináveis é vasto e basicamente silenciado. O único caminho para explorar esta relação é fazendo as perguntas importantes e incômodas.

Vine, deve ser elogiado por se debruçar de forma hábil e inteligente nesta gigantesca tarefa, uma alegoria presente em todo seu trabalho. Em seu livro de 2015, “Base Nation: How U.S. Military Bases Abroad Harm America and the World, Vine também abordou uma questão simples, porém não menos importante: Como as bases militares dos EUA prejudicam pessoas e sociedades.

Através destas lentes, ele traça histórias de povos expulsos de suas terras, de destruição ambiental, dependência econômica, de países que, ao hospedar essas bases, perdem sua soberania. Ao perguntar sobre questões que deveriam ser óbvias mas que são totalmente omitidas do discurso estadunidense, Vine se coloca junto a outros grandes escritores antimilitaristas, como a feminista Cynthia Enloe, cujo livro, “Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics, pergunta como a vida “privada” de mulheres modelam guerras e políticas externas.

Mergulhar no livro de Vine não é como ler uma teoria de causa-e-efeito da relação entre as bases militares dos EUA e as guerras, é mais como uma exploração da relação de simbiose entre o capital, o império dos EUA e o racismo mundial, e seu principal modo de interação: via bases militares.

A relação causal não está sempre nítida, mas isso acontece com a maioria dos ecossistemas complexos. Vine, em seu grande mérito, se debruça sobre esta bagunça. Além da contribuição com vastas informações e análises, aponta questões importantes sobre o suposto alicerce moral da “Pax Americana”.

A discussão de Vine acerca do papel da inércia e da corrupção envolvidas no Complexo Militar Industrial, deixa leitores famintos para saber mais sobre como opera esta máquina perpétua: Quais são os mecanismos, por quais lobistas, think-thanks, quais operações de persuasão e empresas militares e de segurança privadas que colaboram e conspiram para construção de apoio público e captação de gigantescos financiamentos e recursos para expandir o império dos EUA? Qual a influência em escala global de instituições do Departamento de Estado, como embaixadas e outras agências estilo USAID?

Na atual pandemia e sua relação com a crise econômica, mostrou que os militares, uma das instituições mais bem financiadas em nossa sociedade, não é apenas inútil em manter a população segura, mas, na verdade, está piorando a crise do coronavírus ao bombardear e sancionar países duramente impactados pela pandemia, e contribuindo com um Estado militarizado que sequestra recursos da saúde pública.

Poderia esta crise alterar a noção de que os militares garantem verdadeiramente “segurança” e, portanto, apresentar oportunidades para profundas mudanças? E como o rápido crescimento do movimento doméstico para o corte de financiamentos da polícia criou abertura para milhares de pessoas revisarem e se perguntarem sobre “segurança” a nível nacional e internacional?

A breve discussão de Vine ao final do livro sobre como corrigir as profundas injustiças detalhadas por ele, possui ótimas soluções políticas, mas, por vezes, parece um pouco desconectado da acentuada crítica que faz em sua própria análise histórica. Ele fala corretamente sobre a necessidade de reduzir o poder político do Complexo Militar Industrial, cortar orçamento do setor militar e fechar bases militares; e coloca a possibilidade de usar leis antitruste para romper o poder de empresas de armas, bem como introduzir leis proibindo que o Pentágono promova lobby no Congresso disputando recursos públicos. Ele fala em conceder direitos de cidadania a pessoas em colônias dos EUA, o que certamente promoveria uma melhora no status quo, mas como isso abarcaria movimentos de independência, em lugares como Porto Rico?

Ele argumenta que “o Congresso deveria criar um processo regular de revisão para averiguar a necessidade de manter todas as bases militares no exterior. Também deve ser exigido ao Pentágono um minucioso exame anual de todas suas bases”. Mas após ler os horrores descritos no livro, estas sugestões parecem muito incrementais e lentas.

Sua prescrição mais poderosa vem por meio da análise histórica em si. O leitor pode sair convencido de que o império dos EUA e sua rede global de bases deve ser desmantelada, caso tenhamos esperança de colocar um basta no ciclo devastador das intermináveis guerras e intervenções dos EUA.

Em última análise, Vine não dá ponto em todos os nós. E tudo bem – ele nunca prometeu isso. Este livro deve ser visto como o equivalente a um corredor de maratona passando o bastão, convidando outros a tomar parte na inquirição, rumo ao objetivo de se criar um mundo melhor.

“Aqueles que estiverem preocupados e com alguma esperança de encerrar o histórico de guerras dos EUA, devem buscar meios para pressionar essa mudança,” escreve Vine. Qualquer mudança deve incluir os blocos de construção do império estadunidense: as bases, instalações, pequenas propriedades que abrigam operações semi secretas, que estão ao redor do mundo, enfraquecem soberanias e fazem com que a guerra seja a opção mais fácil, mais atraente e mais lucrativa.

Para se opor a esta injustiça, devemos primeiramente reconhecer que ela existe, e contar sua traiçoeira história. O livro de Vine dá grandes passos rumo a este objetivo – o resto é por nossa conta.

Sobre os autores

é editora web do In These Times. Ela tem experiência em jornalismo independente e publica artigos no The Intercept, The Nation e Tom Dispatch.

Sobre o autor

Sarah Lazare é editora web do In These Times. Ela tem experiência em jornalismo independente e publica artigos no The Intercept, The Nation e Tom Dispatch.

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