Che Guevara no Nepal

09/10/2020

Por
David Seddon

Tradução
Deborah Almeida e Tatiana Roveran

Che Guevara foi covardemente assassinado neste dia em 1967 pelo exército boliviano a mando da CIA. As ideias do guerrilheiro argentino inspiraram revolucionários no mundo todo, inclusive em países que ele nunca visitou, como o Nepal, que é marcado até hoje pelo seu legado.

Um outdoor com a imagem de Che Guevara fora do escritório do Partido dos Trabalhadores e Camponeses em Bhaktapur, Nepal. Juha Uitto / Flickr.

Em seus longos anos como rebelde, Che Guevara nunca visitou o Nepal. Mas o país ainda está marcado por seu legado.

Vários líderes revolucionários nepaleses afirmam ter sido diretamente inspirados pelo exemplo de Che Guevara; e um deles, Ram Raja Prasad Singh, se lembra que realmente o conheceu (na Birmânia). Ele continua sendo um ponto de referência vital para os ativistas de hoje. As idéias de Che sobre a revolução funcionam como um fio condutor na tradição radical do país.

Singh, um ativista político nepalês que C. K. Lal descreve como “um guerreiro revolucionário”, nasceu em 1936 no distrito de Saptari no terai (planícies). Na época, a fronteira entre o Nepal e o Estado indiano de Bihar era praticamente inexistente. Singh cresceu no fermento político dos anos 1940, quando os apoiadores de Mahatma Gandhi enfrentaram uma repressão implacável e, às vezes, sangrenta durante seus protestos não violentos.

Ram Raja relembra um incidente particular de sua infância: durante uma manifestação organizada pelo Quit India Movement na fronteira de sua casa, ele testemunhou um tiroteio. Quando o manifestante morreu, alguns dos dissidentes aplicaram seu sangue na testa, gritando “Ele atingiu o martírio; ele é um mártir”. O incidente permaneceu vivo na memória de Singh muitos anos depois. Em suas memórias, ele escreveu: “Percebi como era sacrossanto o sangue de um revolucionário!”

Ram Raja também destaca o papel que seu próprio pai, Jay Mangal Prasad Singh – conhecido como Jangali Babu por causa de sua força física, temperamento explosivo e natureza destemida – que desempenhou um papel central durante o ataque à prisão de Hanumananagar.

Os líderes socialistas indianos, Dr. Ram Manohar Lohiya e Jaya Prakash Narayan, refugiaram-se na casa da família Singh enquanto treinavam seus membros em combate armado. As autoridades nepalesas os prenderam, aguardando transferência de volta para a Índia.

Um grupo de simpatizantes nepaleses atacou a prisão, libertou todos os prisioneiros e ajudou Lohiya e Narayan a escaparem. Ram Raja lembra que seu pai, preso e torturado, recusou-se a divulgar quaisquer detalhes sobre os revolucionários indianos que ele havia ajudado a libertar.

Jangali Babu permaneceu na Prisão Central de Katmandu por quase dois anos. A pressão dos líderes nacionalistas indianos e o crescente reconhecimento dos governantes nepaleses de que a independência indiana era inevitável finalmente levou à sua libertação. Enquanto o pai estava na prisão, Ram Raja e seu irmão, ainda menores, também foram detidos, embora nunca tenham sido formalmente presos ou acusados.

Após a libertação de seu pai, Ram Raja começou a frequentar um internato em Darbhanga, Índia, onde foi atraído pelo grupo fundamentalista hindu, o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), apesar dele insistir que nunca tenha se juntado à organização. Quando Nathuram Gode, um membro do RSS, assassinou Gandhi, todos os simpatizantes do RSS conhecidos foram presos. Ram Raja evitou a prisão graças à sua cidadania nepalesa. Ele ainda era apenas um adolescente.

Em seguida, seu pai enviou Ram Raja para a Banaras Hindu University (BHU), onde passou quatro anos estudando literatura inglesa e artes liberais. Mas depois de fazer parte de uma greve geral, ele foi expulso. Ele tentou outras escolas – incluindo a Aligarh Muslim University – mas acabou indo parar na Universidade de Delhi, onde se misturou com muitos tipos diferentes de militantes radicais e começou sua carreira revolucionária.

Em suas memórias, Ram Raja relembra sua amizade com uma garota sul-americana chamada Clara. Ele afirma que Clara arranjou para ele e alguns de seus amigos um encontro com Che Guevara em uma ilha na costa da Birmânia em 1961.

Como observa C. K. Lal, “não há como confirmar se a reunião aconteceu. Se Singh de fato conheceu Che, como ele afirma. Se for verdade, ele foi a única pessoa nepalesa que o fez”. Independentemente disso, Lal acrescenta que, “quase meio século depois dessa reunião, Singh ainda ficava animado com a memória do carisma de Che”.

Outras fontes sugerem que Ram Raja conheceu Che Guevara em outro lugar. Por exemplo, Indian Freedom Fighters behind Nepal Revolution relata que eles se conheceram enquanto Ram Raja estava estudando na Universidade de Delhi, e que Che lhe deu algumas ideias de como começar uma revolução.

Volta ao mundo do Che

Os detalhes das viagens internacionais de Che não confirmam nem impedem um encontro entre os dois. Em junho de 1959, Fidel Castro enviou o revolucionário argentino em uma viagem de três meses pela África, Ásia e Europa, onde visitou as nações do Pacto de Bandung. Essa viagem teria permitido que Che fizesse contato com líderes radicais e revolucionários em potencial nessas regiões.

Che deixou Havana em 12 de junho de 1959. Fez 31 anos em Madri e depois visitou o Egito, onde se encontrou com o presidente Gamal Abdel Nasser e também com Janio Quadros, presidente do Brasil na época. Depois disso, ele voou para Delhi, chegando a Palam na noite de 30 de junho. Enquanto estava na Índia, Che se encontrou com o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru e outros líderes políticos. Ele foi para o Paquistão Oriental (agora Bangladesh) e depois para a Birmânia antes de viajar para a Indonésia e o Japão.

Não existem detalhes sobre a visita de Che à Birmânia. Provavelmente, ele teria conhecido o general Ne Win, que até 1960 liderou um governo provisório ostensivamente socialista. (Ne Win voltaria ao poder em 1962, após derrubar o governo democraticamente eleito de U Nu.)

Em Jacarta, Che se encontrou com o presidente Sukarno para discutir a recente revolução indonésia e estabelecer relações comerciais entre suas nações. Os homens se uniram rapidamente. Sukarno foi atraído pela energia e abordagem informal de Che, e eles compartilhavam as mesmas ideias políticas revolucionárias e anti-imperialistas. De 15 a 27 de julho, Che negociou com o Japão na esperança de expandir ainda mais as relações comerciais de Cuba.

Na viagem de volta, Che visitou Cingapura e parou no Ceilão (atual Sri Lanka), depois iniciou suas visitas à África e Europa. Ao ouvir rumores sobre os problemas de saúde de Fidel, ele voltou a Havana em 8 de setembro.

Mas este não foi o fim de suas viagens pela Ásia. Em novembro seguinte, ele e outros delegados comunistas internacionais encontraram-se com o presidente Mao Tsé-Tung na China. Durante uma conversa de duas horas, os dois revolucionários tiveram a seguinte troca:

Mao: No ano passado você visitou alguns países asiáticos?
Che: Alguns países, como Índia, Sião [Tailândia], Indonésia, Birmânia, Japão, Paquistão.
Mao: Com exceção da China, você já esteve em todos os principais países asiáticos.
Che: É por isso que agora estou na China.
Mao: Seja bem vindo

No final daquele ano, Che também visitou a Tchecoslováquia, a União Soviética, a Coréia do Norte, a Hungria e a Alemanha Oriental. Em 17 de dezembro, ele assinou um acordo comercial em Berlim Oriental. Lá, Tamara Bunke, mais tarde conhecida como Tania, trabalhou como intérprete de Che. Anos depois, ela foi morta com ele na Bolívia.

Temos menos detalhes sobre as viagens de Che em 1961, ano em que Ram Raja afirma tê-lo conhecido. Certamente esteve em Cuba durante a primeira metade do ano, porque sabemos que esteve envolvido na Invasão da Baía dos Porcos naquele abril. Che não participou da batalha principal: um dia antes de 1.400 exilados treinados pelos norte-americanos desembarcarem na costa sul de Cuba, um navio de guerra transportando fuzileiros navais fingiu um ataque a oeste, atraindo os soldados sob o comando de Che. Apesar disso, os historiadores lhe dão uma parte do crédito pela vitória cubana graças a seu trabalho como diretor de instrução das Forças Armadas.

Nenhuma evidência independente indica que Che tenha visitado a Birmânia durante a segunda parte de 1961. Dito isso, ele já havia se tornado a face internacional de Cuba e estava viajando muito para ver como exportar a experiência cubana para ajudar os movimentos revolucionários em todo o mundo.

Descrevi anteriormente como Che tentou ajudar os revolucionários congoleses em 1965 e ficou claro durante minha pesquisa que ele havia passado um tempo considerável em outras partes do mundo durante o início dos anos 1960, identificando causas que se beneficiariam do apoio cubano.

Se ele tivesse visitado a Birmânia em 1961, como Ram Raja afirma, provavelmente teria falado com o primeiro-ministro eleito U Nu. Ele também pode ter conversado com jovens revolucionários de outros países. Sabemos com certeza que ele estabeleceu um legado duradouro na Birmânia após sua visita de 1959.

Muitos relatórios afirmam que a icônica dissidente política birmanesa, Aung San Suu Kyi, idolatra Che Guevara. Quando ela foi libertada da prisão domiciliar em novembro de 2010, a sede de seu partido exibia “pôsteres esfarrapados de Che Guevara… e de seu pai, Aung San, um lutador pela liberdade birmanês que ajudou a negociar a independência do país da Grã-Bretanha”.

A All Burma Student Democratic Front (ABSDF), que buscou mobilizar um movimento de resistência armada no final da década de 1980, também se inspirou em revolucionários como Che.

Seu legado persiste até hoje. Um perfil de Myat Thu, um dissidente birmanês forçado a fugir do país depois que os militares esmagaram os protestos nacionais em 1988, descreve o restaurante que dirigia em Mae Sot, uma pequena cidade na fronteira com a Tailândia, onde “tem retratos de Che Guevara e Aung San Suu Kyi na varanda. ”

Alguns continuam convencidos de que o relato de Ram Raja é correto. R. D. U. Lal escreve que Ram Raja “foi o único líder do Nepal que se encontrou com o líder revolucionário Che Guevara na Birmânia durante seus estudos de Direito, e acredita-se que o encontro trouxe inspiração republicana nele”.

Um grupo comprometido de revolucionários

Embora estivesse anteriormente relutante em se descrever como um marxista, Che explicou a ideologia de Cuba no Primeiro Congresso Latino-Americano em setembro de 1960: “Eu o definiria como marxista. Nossa revolução descobriu por seus métodos os caminhos que Karl Marx apontou.”

Em declarações posteriores, Che ecoou a Declaração de Independência dos EUA, descrevendo “verdades tão evidentes, tão parte do conhecimento das pessoas, que agora é inútil discuti-las. Devemos ser marxistas com a mesma naturalidade que somos ‘newtonianos’ na física ou ´pasteurianos’ na biologia”.

De acordo com Che, os “revolucionários pragmáticos” de Cuba visavam “simplesmente cumprir as leis previstas por Marx, o cientista”, mas ele também levava a sério o papel do compromisso moral. Nas palavras de C. K. Lal:

Na formulação de Che, tudo o que era necessário para ensaria uma revolução era um grupo comprometido de revolucionários. Uma força de guerrilha popular poderia então ser elevada a um nível suficiente para derrotar o governo em exercício. Ao contrário dos marxistas tradicionais, ele acreditava que a atitude do povo era mais importante e não havia necessidade de “condições especiais de guerra” para iniciar uma revolução. Finalmente, o campo era crucial como “área de base” para os guerrilheiros que lutavam nos países pobres.

Lal nos diz que “Singh traduziu alguns dos ensaios de Che para o nepalês, embora nenhum deles possa ser agora rastreado”. Ele também lembra que Ram Raja disse a Babu Ram Bhattarai, o principal ideólogo do Partido Comunista do Nepal (maoísta) e de sua Guerra Popular, “toda revolução é uma criação original. Nenhum revolucionário pode reproduzir a experiência do outro. Todo revolucionário tem que ser original”.

Não pode haver dúvida – porque eles já disseram isso – de que Bhattarai e outros líderes maoístas levaram a sério esse conselho quando decidiram lançar a Guerra do Povo em 1996. Mas a própria carreira revolucionária de Ram Raja Singh tomou um rumo diferente.

Pela democracia

Depois de terminar seus estudos em Delhi, Ram Raja fez direito na Universidade de Bihar, retornando ao Nepal em 1964. Três anos depois, ele disputou uma das quatro cadeiras reservadas para graduados nas eleições para a assembleia nacional.

Seu panfleto esboçou seu argumento de que “a transformação política no Nepal teve que passar pelo processo de representação, persuasão, agitação e revolução”. “Os revolucionários”, declarou ele, devem estar preparados para “a aniquilação da velha ordem”. Dada essa visão apocalíptica, ele foi preso, impedido de participar da eleição e acusado de sedição.

Ele garantiu sua libertação por meio de conexões familiares com indianos e persuadindo o tribunal de que havia discutido apenas os estágios teóricos da revolução e, portanto, não era culpado.

Sua defesa se assemelha ao argumento que Nelson Mandela fez durante seu discurso de três horas no Julgamento de Rivonia em 1963-64, quando justificou a decisão do Congresso Nacional Africano (ANC) de lançar uma campanha de sabotagem e começar a treinar uma ala militar. Mandela explicou que, considerando as crescentes restrições à atividade política, o ANC decidiu abandonar sua dependência anterior de métodos constitucionais e da oposição não violenta.

Na década de 1970, Ram Raja e seu partido, o Nepali Congress Party (NCP), começaram a discordar sobre a melhor estratégia para construir a democracia no Nepal. A liderança do partido perdeu a fé na luta armada e entregou suas armas aos rebeldes no Paquistão Oriental. Em contraste, Ram Raja, junto com muitos outros no NCP e no movimento comunista nepalês, achava que uma reforma interna era impossível. Então, eles consideraram pegar em armas. 

Em 1968, Pushpa Lal, o fundador do Partido Comunista do Nepal (CPN), deixou o órgão principal para estabelecer um grupo separado, que ficou conhecido como PCN (Pushpa Lal). Mais agrupamentos comunistas se desenvolveram a partir dessa divisão original. Em 1971, um grupo de líderes do PCN – Manmohan Adhikari, Shambhu Ram e Mohan Bikram Singh – foi libertado da prisão e formou o Núcleo Central, que tentou se unir ao grupo de Pushpa Lal. Isso falhou e o próprio Núcleo Central se desfez.

Adhikari formou o Partido Comunista do Nepal (manmohan), que desenvolveu relações estreitas com o Partido Comunista da Índia (marxista); O grupo de M. B. Singh ficou conhecido como Partido Comunista do Nepal (4º Congresso); outros grupos dissidentes incluíam o Partido dos Trabalhadores e Camponeses do Nepal. Em 1975, o grupo de Pushpa Lal tornou-se o Partido Comunista do Nepal (marxista-leninista). O CPN original tornou-se apenas uma das muitas facções, eventualmente assumindo o nome CPN (Amatya) e adotando uma posição pró-soviética.

Ram Raja mais uma vez concorreu como candidato graduado do eleitorado para a Assembleia Nacional em 1971. Ele deu início a uma viagem turbulenta pelo país, promovendo uma plataforma que exigia o fim do sistema não democrático de panchayat. Seu panfleto inflamado, descreve C. K. Lal, “levou ao frenesi adolescentes que mal entendiam seu significado”.

Em 22 de outubro de 1971, o semanário Naya Sandeh relatou um discurso de Ram Raja feito em Biratnagar, escrevendo que o candidato “foi além dos limites” e disse ao público, “se o sistema panchayat não for abolido pacificamente… as folhas das árvores se transformarão em bombas, grãos de arroz se tornarão balas”.

Ele ganhou sua cadeira, marcando uma derrota significativa para o regime, que o impediu de prestar juramento e o prendeu. Depois que um tribunal especial o condenou, o rei Mahendra convidou Ram Raja ao palácio, um método que a monarquia usava para cortejar dissidentes. Mahendra concedeu-lhe um perdão real, permitindo-lhe ocupar o seu lugar na Assembléia.

Em 1975, ele viajou novamente pelo país, desta vez como ativista do NCP e deputado. Seus discursos empolgantes condenaram o controle não democrático do regime sobre a nação. Mais uma vez, ele foi expulso da Assembleia Nacional e preso. Na verdade, ele passou grande parte de seu tempo nos anos seguintes saindo e entrando na prisão.

Em 1976, ele estabeleceu a Frente Democrática do Nepal como um movimento político de esquerda; o partido mudou seu nome para Frente Democrática Multipartidária quando o rei Birendra convocou um referendo para decidir o futuro do sistema panchayat em 1980.

Para se preparar para a votação, outros ativistas proeminentes do NCP foram libertados da prisão. Todo o espectro de partidos comunistas – alguns dos quais, como o CPN (Quarta Convenção) ou o CPN (Masal) sob M.B. Singh se recusou a endossar o referendo, mas estava preparado para participar dele. O próprio Ram Raja começou a clamar não apenas por uma democracia multipartidária, mas também por uma assembleia constituinte. Enquanto isso, ele começou a mobilizar apoio para uma luta de guerrilha.

Guerrilha de Ram Raja

Ram Raja começou a recrutar lutadores da ala esquerda do NCP, enquanto buscava armas e apoio. Ele tentou estabelecer campos de treinamento em seu antigo reduto de Bihar e estendeu a mão para os lutadores pela liberdade tâmil e Tiger Siddiqui, sobrinho do primeiro-ministro de Bangladesh assassinado, Mujibur Rahman. Tudo isso foi em vão.

Então, ele foi a Chambal e comprou armas dos bandidos de lá. Um recomendou que ele usasse explosivos em vez de armas, e ele seguiu o conselho. Ele recrutou alguns ex-militares do exército do Nepal para treinar seus jovens guerrilheiros.

K. Lal observa que “não se sabe muito sobre o que Singh e seu bando de guerrilheiros fizeram entre 1980 e 1985 – ele afirma que estavam sendo treinados para lidar com armas de fogo e explosivos em diferentes locais ao redor do norte da Índia”.

O que quer que estivessem fazendo, eles se sentiam suficientemente preparados para agir no verão de 1985. Em maio daquele ano, o NCP havia convocado uma ação de desobediência civil, que ganhou o apoio de outros ativistas de esquerda, incluindo a maioria dos partidos comunistas. A mídia descreveu o evento como um sinal de uma tempestade se formando. Então, em 20 de junho de 1985, uma série de explosões coordenadas na capital e em outras cidades abalou o Nepal.

Pelo menos oito pessoas morreram, incluindo um membro do parlamento. Em Katmandu, as explosões ocorreram perto do palácio real, no Hotel de l’Annapurna, no gabinete do primeiro-ministro e perto da Assembleia Nacional, matando um político. Um membro da equipe do Annapurna Hotel também perdeu a vida.

Em Pokhara, o responsável pela bomba foi morto, junto com outra mulher em Birgunj. As bombas também explodiram no aeroporto de Bhairahawa, Nepalganj e Mahendranagar no oeste, e Janakpur, Biratnagar e Jhapa no leste.

Singh e seus guerrilheiros admitiram a responsabilidade, mas defenderam suas ações. Eles explicaram que haviam planejado o bombardeio na Assembleia Nacional para um feriado, acreditando que ninguém estaria lá. Infelizmente, a chuva levou algumas pessoas a se abrigarem, transformando-as em vítimas indesejadas.

Da mesma forma, os guerrilheiros deixaram o artefato explosivo no gramado do Annapurna Hotel, mas alguém inadvertidamente o depositou no saguão. Mais uma vez, os paralelos com as ações do ANC se destacam: Mandela explicou que eles pretendiam travar uma guerra contra o Estado do apartheid e não tinham intenção de matar ninguém.

Após as explosões, centenas foram presos. Ram Raja Singh foi acusado e considerado culpado à revelia. Ele, seus camaradas Laxman, Bisheshwar Mandal e Prem Bahadur Vishwakarma receberam a pena de morte; outros foram condenados à prisão perpétua e muitos tiveram seus bens confiscados. Esses líderes nomeados passaram à clandestinidade, mas cinco outros desapareceram enquanto estavam sob custódia.

Após os primeiros ataques espetaculares, o aparato de Ram Raja não pôde continuar. O Congresso do Nepal retirou seu apelo à desobediência civil, mas culpou o palácio pelas explosões. O primeiro-ministro Rajiv Gandhi expressou sua “profunda angústia e choque com as explosões de bombas” e reiterou sua forte oposição ao terrorismo.

Singh foi preso na Índia, mas o Estado posteriormente o libertou secretamente e permitiu que ele vivesse tranquilamente em Patna.

A revolução terminou em menos de um ano, quase sem deixar vestígios. Em 2008, Ram Raja tentou explicar a decisão de seu grupo. Ele afirmou que os bombardeios tinham como objetivo reforçar a desobediência civil do PCN e comparou-os às atividades dos revolucionários armados que apoiaram os protestos durante o Quit India Movement.

Depois que G. P. Koirala se tornou o primeiro primeiro-ministro eleito da nova ordem democrática multipartidária em 1990, o Estado retirou todas as acusações contra Ram Raja. Ele até se candidatou ao PCN nas eleições de meio de mandato de 1994, mas perdeu feio e se aposentou.

O legado continua

Não persuadidos pelo potencial progressista da nova ordem democrática, os diversos partidos comunistas do Nepal lutaram durante o início da década de 1990 para encontrar um caminho para promover a transformação revolucionária. A facção de Keshar Jung Rayamaji se alinhou com o palácio; outro formou uma coalizão sob o nome de CPN (United Marxist Leninist). Este partido tornou-se amplamente conhecido como UML e participou das eleições, ocupando brevemente o cargo em 1994.

Em 1985, os maoístas, notavelmente o CPN de M. B. Singh (Masal), dividiram-se em duas facções principais: o CPN (Masal) e um novo CPN (Mashal). Ele se dividiu novamente, e um grupo de revolucionários mais jovens, incluindo Prachanda e Babu Ram Bhattarai, convocou a luta armada para atingir seus objetivos, formando o PCN (Maoísta) – o partido que lançou a Guerra Popular em 1996.

Ram Karki, um antigo trabalhador da Frente Democrática que se juntou à Guerra do Povo, levou Bhattarai e sua esposa Hisilia Yami para conhecer Ram Raja, que na época estava levando uma vida silenciosa de obscuridade. C. K. Lal comenta que “Singh não se lembra da data exata da reunião, mas acredita que foi algum tempo depois da ascensão de Gyanendra ao trono”, que teria sido em algum momento de 2001. Ram Raja, mais tarde, encontrou Prachandra em seu esconderijo em Nova Delhi.

Não pode haver dúvida de que esses líderes decidiram lançar sua insurgência armada em parte por causa de uma crença que compartilhavam com Ram Raja e Che Guevara: “tudo o que era necessário para fazer uma revolução, éramos um grupo comprometido de revolucionários”. Em 1996, poucos consideravam as condições adequadas para a revolução. No entanto, Bhattarai e seus camaradas começaram a Guerra do Povo e a continuaram no século XXI.

O próprio Bhattarai afirma que, quando era estudante, “encontrei um pequeno livro sobre uma pessoa de quem eu nunca tinha ouvido falar antes que abalou minha vida. Esta era a biografia de Che Guevara e, depois de lê-la, jurei fazer tudo ao meu alcance para ajudar meu povo a viver a verdadeira liberdade econômica e social ”.

A influência de Che Guevara sobre os revolucionários nepaleses continua. Em dezembro de 2010, a União Nacional de Estudantes Independentes Maoístas de Todo o Nepal – Revolucionária (ANNISU-R) convidou o filho de Manuel Abimael Guzman e a neta de Che Guevara para sua conferência junto com líderes estudantis maoístas de dezoito países.

Em 2015, Ranjit Bhushan descreveu Prachanda como membro da liga dos “grandes guerreiros clandestinos comunistas, uma espécie de Fidel Castro asiático ou Che Guevara”. Bhushan também cita o que ele chama de “uma rara entrevista” com Prachanda. Nesta conversa, Prachanda foi questionado se ele se considera um dos “heróicos líderes comunistas que lideraram revoluções, como Mao, Fidel Castro, Che Guevara e outros”. Prachanda respondeu: “No movimento comunista, foi estabelecido que uma revolução não pode ser repetida. A revolução só pode ser desenvolvida de acordo com a situação concreta de cada nação e de cada país. A revolução que Lenin liderou na União Soviética não pode ser repetida, nem a de Mao na China, nem a de Castro e Guevara em Cuba.”

Em outras palavras – na verdade, nas palavras de Che – “toda revolução é uma criação original; nenhum revolucionário pode reproduzir a experiência do outro; todo revolucionário tem que ser original”.

Sobre os autores

é o coautor Congo: Plunder and Resistance. Ele é o coordenador de uma série de ensaios para o site Review of African Political Economy.

Sobre o autor

David Seddon é o coautor Congo: Plunder and Resistance. Ele é o coordenador de uma série de ensaios para o site Review of African Political Economy.

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