O líder sindical boliviano que deu sua vida pela democracia socialista

30/10/2020

Por
Olivia Arigho-Stiles

Tradução
Marianna Braghini

Orlando Gutiérrez, militante socialista e líder sindical, foi assassinado por uma milícia fascista na Bolívia. Ele deu sua vida na luta pela democracia, direitos trabalhistas e o socialismo. Seu legado deve ser lembrado pelo mundo mais justo que ele tanto lutou em defesa – mas que, lamentavelmente, nunca conseguiu ver.

A morte de Orlando Gutiérrez ocorre em meio a uma onda de violência contra os movimentos sindicais e camponeses após o golpe na Bolívia em novembro passado.

O carismático líder sindical do setor de mineração, Orlando Gutiérrez, morreu na Bolívia, dias após ter sido violentamente espancado por uma gangue de fascistas que protestava contra o resultado eleitoral, no qual triunfou o movimento de esquerda, Movimento ao Socialismo (MAS).

A morte de Gutiérrez, que tinha apenas 36 anos, aconteceu em meio uma onda de violência direcionada contra movimentos sindicais e campesinos, no período seguinte ao golpe ano passado. Em agosto, a sede da COB (Central Obrera Boliviana, em espanhol), a federação sindical boliviana, em La Paz, foi bombardeada por mandados de prisão contra sindicalistas, expedidos pelo regime golpista.

Gutiérrez, era secretário executivo da FSTMB (Federação Sindical dos Trabalhadores em Minas da Bolívia), o poderoso sindicato fundado em 1944 que domina a COB. Ele era a principal indicação para o novo ministério de mineração do governo recém eleito de Luis Arce. Semana passada ele foi atacado por uma gangue anti-MAS, deixando-o com sérias lesões. Ele estava sob cuidado intensivo em um hospital em La Paz durante alguns dias antes de morrer. A polícia e o Ministério Público abriram oficialmente uma investigação acerca de sua morte. A FSTMB declarou 90 dias de luto nacional.

A morte de Gutiérrez, ocorreu logo após a eleição presidencial neste mês, que por sua vez assinalou um dramático retorno à democracia para o Estado plurinacional e uma vitória esmagadora ao candidato do MAS. Gutiérrez era um apoiador ativo do MAS, acompanhando os candidatos em campanha por todo o país. Durante o ano, ele tinha liderado fervorosas críticas ao governo golpista por sua má gestão frente a pandemia da COVID-19, pelas prisões políticas e por adiar diversas vezes a eleição.

Um grande volume de mensagens chegou do movimento internacional trabalhista. Ian Lavery, que era trabalhador na mineração, ex-presidente do Sindicato Nacional de Trabalhadores em Minas e ex-presidente do Partido Trabalhista inglês, disse: “A solidariedade do movimento trabalhista ao redor do mundo deve estar hoje com a família de Orlando Gutiérrez, um homem assassinado apenas por lutar por dignidade e justiça para a classe trabalhadora.”

“Enquanto alguém que começou a trabalhar nas minas e viveu a Grande Greve de 1984-85, esta história em particular me deixou desolado – que aconteceu tão próxima a restauração da democracia na Bolívia este mês. Orlando não será esquecido. O fascismo não irá ganhar. Deve ser confrontado. Onde quer que exista.”

No último outubro, entre crescentes protestos anti-MAS, sindicalistas da mineração desceram rumo à La Paz, jogando dinamites insanamente barulhentas para protestar a favor do presidente afastado, Evo Morales, e do MAS. Recentemente, a COB e a FSTMB lideraram o movimento pela democracia, contra as tendências opressoras do regime golpista sob Jeanine Áñez. Em agosto, a COB e seus sindicatos associados chamaram uma greve geral por tempo indeterminado, com protestos, marchas e bloqueio de vias, deixando o país em um impasse, demandando novas eleições e pedindo a renúncia de Áñez.

O assassinato de Gutiérrez, indica uma crescente ameaça de grupos paramilitares fascistas. Em Cochabamba, o violento grupo armado Resistencia Juvenil Cochala (RJC) liderou protestos contra o resultado da última eleição, em Santa Cruz, o grupo civil Comitê Civil Pro-Santa Cruz emitiu um comunicado pedindo que as autoridades eleitorais suspendessem a contagem de votos devido à “fraudes”. A mobilização no ano passado das “pititas”, essencialmente grupos de classe média, urbanos e de direita, marcaram o início de um encorajado novo movimento de extrema-direita na Bolívia.

Em outubro de 2019, estes grupos protestaram ostensivamente sob o slogan de “democracia”, caluniando Evo e o governo MAS como ilegítimo e opressor. Com isso, eles esperavam capitalizar o descontentamento com a decisão de Evo em concorrer à um quarto mandato presidencial. Em seus gritos de ordem, difamavam Evo como um ditador e comparavam a Bolívia com a Venezuela “comunista”.

Quando o governo golpista de Jeanine Áñez, eventualmente sequestrou o poder, sombrias correntes fascistas proliferaram e por vezes ativamente apoiadas pelo regime. Após o golpe, diversos ex-Ministros e autoridades ficaram sujeitos à mandados de prisão e pediram asilo na Embaixada mexicana em La Paz. Em resposta, grupos de direita paceños da rica região Zona Sur, reuniram-se para atacar funcionários e veículos da embaixada com o apoio da polícia.

Conduzidos pelo Estado, o massacre de protestos contra o golpe em Senkata, El Alto e Sacaba, Cochabamba, coincidiram com o ressurgimento de atos racistas, como a queima da bandeira whipala, que representa os povos andinos indígenas. A demonização e perseguição sistemática do MAS subsequente tomou um viés altamente racista, com políticos de direita retratando povos indígenas como “selvagens” e inaptos para o poder político.

Gutiérrez ganhou proeminência em um movimento de trabalhadores reconhecido por sua militância e pelas duras condições de trabalho. O intelectual boliviano e fundador do Partido Comunista, Sergio Almaraz, disse uma vez que na Bolívia “o século XX chegou nos ombros da mineração de estanho.”

O movimento trabalhista boliviano – dominado pelos mineradores – historicamente tem sido um dos mais poderosos e organizados do mundo. Em parte, devido aos esforços do líder entre mineradores, Juan Lechín, a Revolução Boliviana de 1952 assistiu a nacionalização das companhias de mineração Patiño, Aramayo e Hochschild, que respondia por 1/4 da produção mundial de estanho no período. Isso colocou o setor de mineração sob o controle da Corporación Minera de Bolivia (Comibol) que foi dirigido pela FSTMB, apesar da catastrófica queda de estanho em 1985 ter enfraquecido o movimento de mineradores de forma irrevogável.

Posteriormente, a COB e a FSTMB exerceriam um importante papel nas lutas por democracia durante ditaduras nos anos 1970 e 1980, liderando greves gerais e bloqueios.

Gutiérrez nasceu na cidade dominada pela mineração, Colquiri, em La Paz e atuou no sindicato de mineradores até chegar a posição de secretário executivo em 2015. Angus McNelly, um pesquisador da Queen Mary, Universidade de Londres, que entrevistou Gutiérrez e passou um longo tempo com sindicatos de mineradores para sua pesquisa, lembra de um homem risonho, profundamente respeitado por seus colegas de trabalho e incansavelmente comprometido com a luta pela emancipação dos trabalhadores. De forma similar, o presidente eleito Luis Arce, escreveu um tweet dizendo que ele era um “grande líder dos mineradores que sempre defendeu os interesses do povo boliviano.”

A perda de Gutiérrez, nas mãos da violência fascista é um golpe arrebatador ao movimento de trabalhadores na Bolívia, à democracia, e as milhares de pessoas que conheciam e amavam o corajoso líder sindical. Seu legado agora deve ser o mundo justo que ele tanto lutou em defesa – e lamentavelmente nunca conseguiu ver.

Sobre os autores

é doutoranda que pesquisa movimentos indígenas do século XX na Bolívia. Ela é editora colaboradora da Alborada.

Sobre o autor

Olivia Arigho-Stiles é doutoranda que pesquisa movimentos indígenas do século XX na Bolívia. Ela é editora colaboradora da Alborada.

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