Por que The Clash importa

16/10/2020

Por
Alexander Billet

Tradução
Letícia Bergamini

Por baixo de toda a pompa de kitsch e marketing, o The Clash ainda tem algo para nos ensinar sobre o poder da arte na luta política antifascista.

The Clash tocando ao vivo, 1980. Hulton Archive / Getty.

“A única banda que importa.” Há uma arrogância carismática nessa frase, uma declaração de fé radical. Foda-se o passado, o futuro está aqui e tudo na música será impiedosamente renovado em seu despertar. E quando essa descrição foi aplicada ao The Clash, foi fácil de acreditar.

Hoje, porém, é fácil tirar sarro. Desde a morte do vocalista Joe Strummer, em 2002, o The Clash ascendeu aos mitos do rock and roll. Nada menos que trinta livros, sobre Joe ou a banda, foram lançados. Alguns deles são maravilhosos. Outras são hagiografias rasas e descuidadas. A música do The Clash tem sido usada para vender tudo, de botas a smartphones. Centristas vestidos de progressistas, como Beto O’Rourke, recebem elogios por citar “The Clampdown” para Ted Cruz. Separar o que é mercadoria e espetáculo da contribuição real da banda está ficando cada dia mais difícil.

O mais recente produto na crescente lista de material biográfico é “Stay Free: The History of The Clash. Produzido pelo Spotify em colaboração com a BBC e narrado por Chuck D, do Public Enemy, é o primeiro podcast dedicado à história da banda. É um excelente trabalho, tanto em termos de substância quanto de estilo. O contexto social e cultural tem um papel proeminente na narrativa da história evolutiva da banda. Greves, revoltas, movimentos, explosões políticas e implosões informam claramente sua filosofia e práticas musicais à medida que o capitalismo global se reconstitui nas décadas de 1970 e 1980.

Todos eles destacam o significado das experiências musicais do The Clash: a incorporação cada vez maior do reggae, hip-hop e funk em sua paleta punk; sua insistência em vender álbuns duplos e até triplos a preços de álbuns únicos, para o desgosto de sua gravadora. Entrevistas originais e arquivadas com os membros e amigos da banda relatam o fluxo constante e a luta para manter uma visão. Ocasionalmente, Chuck D mudará de papel – de narrador para comentarista -, refletindo sobre como o The Clash impactou o próprio trabalho dele com o Public Enemy. As dores são tomadas para montar os elementos constitutivos da “resistência cultural” de tal forma que a frase realmente carrega peso.

É uma boa hora para isso. A nova geração de socialistas de hoje tem pouca memória coletiva do The Clash. Somos mais sábios que nossos antecessores em termos de produção estética e crítica. A indústria da cultura também é. Então, nesse caso, a direita também é. Fomos bombardeados com as promessas de como a internet e a tecnologia iriam democratizar a arte e as ideias, então vimos a ilusão cair com big data e algoritmos que criam “liberdade para escolher sempre o mesmo“.

Considerando tudo isso, estamos justificando francamente o nosso cinismo com relação ao tipo de adoração de herói que se segue ao The Clash. Como muitos erros cometidos ao observar a cultura e a sociedade, a falha fatal não está na resposta, mas na pergunta. A banda era excelente? É melhor perguntarmos o que constitui excelência, ou mesmo se a própria noção é útil.

John Berger certa vez descreveu o mal das celebridades como um reflexo de “uma sociedade que se moveu em direção à democracia, mas parou no meio do caminho”. Refratada pelo prisma do glamour, “a arte muda o mundo” baseada na genialidade individual, obscurecendo a natureza inerentemente social da arte e da música. É uma justificativa implícita para a existência da desigualdade baseada não no nascimento em berço de ouro, mas no mito da meritocracia. A ênfase de Berger na democracia também sugere que a criação e o significado são obrigados a interagir não apenas com a sociedade que as moldou, mas com o quão livre essa sociedade é, se sua ideia de liberdade é baseada na ilusão ou na realidade. Não é simplesmente a arte feita, mas como essa arte se posiciona sob circunstâncias – como alguém certa vez disse – que não a escolha do artista. E se olharmos por estes termos, então também somos forçados a procurar onde essas circunstâncias ainda persistem.

O podcast Stay Free se destaca no traçado desses paralelos, podendo embora ser ásperos. Uma quantidade generosa de tempo é dedicada às mulheres que ajudaram a promover e moldar o The Clash e a cena punk em geral. Paloma McLardy é entrevistada não como a única namorada de Strummer, mas como “Palmolive”, a baterista da banda fenomenal e criminosamente subestimada de dub-punk composta só por mulheres: as Slits. Dá-se uma atenção especial aos sets de abertura da banda na primeira turnê do The Clash, onde as performances ousadas e obscenas das Slits atraíram mais do que alguns acessos de raiva masculinos dentro e fora da cena punk.

Depois, há o Carnaval Contra os Nazistas (Carnival Against the Nazis). As imagens da performance do The Clash neste evento – realizado no Victoria Park em Londres, em abril de 1978, como um esforço conjunto entre Rock Contra o Racismo (RAR) e a Liga Anti-Nazista (ANL) – estão entre algumas das mais reconhecidas passagens políticas da história da banda. O Carnaval foi, sem dúvida, um momento divisor de águas na história cultural britânica. Muitas vezes, porém, as histórias que cercam o evento são desviadas, pintando esse evento e o Rock Contra o Racismo como assuntos de vaga “união” liberal.

Em Stay Free, fica claro que o RAR era um dos lados de uma luta que estava acontecendo tanto nas ruas quanto nas casas de show. A ascensão da Frente Nacional é recontada; assim como o discurso de Eric Clapton de “manter a Grã-Bretanha branca“, e as tentativas dos nacionalistas brancos de invadir e assumir shows punk, ambos catalisadores para a fundação da RAR. Foi preciso organização, uma luta para construir espaços de oposição, um fermento com consciência de gênero e solidariedade racial, para fazer algo como o Carnaval acontecer. A identificação contundente de Strummer, em uma entrevista da época, como “antifascista” é explicitada o suficiente para fazer um apoiador de Trump ranger os dente; mas o mais importante é estar ligada a uma fuga e vazão da hegemonia política e cultural.

Em outras palavras, a importância do The Clash não está em sua “genialidade”, mas em sua decisão de participar, como artistas, de um mundo caótico e sombrio, sem nunca esquecer a capacidade da arte e da música de mapear um futuro diferente. Além da interferência sonora super produzida no marketing, o The Clash estava disposto a mergulhar de cabeça em contradição e tocar na ferida até que elas estourassem.

Mais uma vez – e mesmo no caso de Stay Free – vemos a natureza desses gestos eliminados, com as principais análises do podcast elogiando o The Clash por possuírem algo que “falta” na música atual. A postura como o The Clash são raras hoje porque obstáculos são empilhados na frente deles por uma indústria cultural mais inteligente e insidiosa.

Algiers e Downtown Boys incorporam uma visão de mundo original e abertamente de extrema esquerda em seu som e letras, ganhando grande aclamação da crítica ao longo do caminho. Mas também não estão alcançando um público tão extenso como poderiam se tivessem os mesmos recursos que o lixo descartável do The Voice ou American Idol. Por outro lado, o espaço para dissidências dentro desses altos escalões do negócio da música é minúsculo, justificado e explicado com uma implicação sombria de que os mais famosos e adorados também são os mais talentosos – embora isso seja uma falácia.

E, naturalmente, nossa paisagem cultural não superou a censura ou a repressão à moda antiga. M.I.A. nos últimos 15 anos continuou a entregar repreensões provocativas e eletrizantes ao orientialismo. Ela também carregou o peso da Comissão Federal de Comunicações (FCC). Run the Jewels é uma das vozes mais importantes do hip-hop, e elas existem em um momento em que rappers estão indo para a cadeia por suas letras anti-policiais.

A questão então não se torna sobre se o The Clash era “a única banda que importava”, mas se nós importamos agora. Se uma esquerda nova e realmente existente pode reconstruir uma infraestrutura de dissidência capaz, entre outras coisas, de apoiar esses artistas, fornecendo-lhes espaço para florescer criativa e socialmente, bem como nutrir novos sonhos.

Esses espaços já existiram antes, na forma do Rock Contra o Racismo, ou a união de artistas lançada com a ajuda do Partido Comunista no auge do Projeto Federal de Arte (Federal Art Project). O nosso projeto será dramaticamente diferente. Dadas as diferenças dramáticas em nossa relação com a música, dado o quão adepto o capitalismo tardio está cavando culturalmente sua rota em nossas vidas diárias, eles terão que fazê-lo. Eles também terão que servir como lembrete vívido de que não é apenas a cultura, mas o mundo inteiro que precisa ser refeito.

Sobre os autores

é escritor, artista e crítico cultural que mora em Los Angeles. Seus escritos apareceram em Jacobin, In These Times, Chicago Review e outros meios de comunicação. Ele é editor da Locust Review e blogs da To Whom It May Concern.

Sobre o autor

Alexander Billet é escritor, artista e crítico cultural que mora em Los Angeles. Seus escritos apareceram em Jacobin, In These Times, Chicago Review e outros meios de comunicação. Ele é editor da Locust Review e blogs da To Whom It May Concern.

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