Socialista, feminista e nordestina: a primeira prefeita da maior capital do Brasil

13/11/2020

Uma entrevista com
Luiza Erundina

Luiza Erundina saiu do interior da Paraíba, onde militava pela reforma agrária com movimentos católicos e lia Paulo Freire clandestinamente, para se tornar a primeira prefeita de São Paulo. Hoje, aos 85 anos, continua lutando por um mundo mais justo com o mesmo vigor de quando resistia à ditadura militar. Nesta entrevista, ela conta como a esquerda pode se renovar para destruir o bolsonarismo nas próximas eleições.

Deputada Luiza Erundina cercada e arrastada por policiais militares na reintegração de posse de terreno no Jardim Aurora em 1/10/1987. Foto de César Diniz / Estadão.

Extraído da próxima edição da Margem Esquerda (Boitempo 2020)


Aos 85 anos de idade, Luiza Erundina mantém a energia e o entusiasmo da juventude. Nascida em Uiraúna (Paraíba), formada em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba e mestra em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, exerceu diversas atividades ao longo da vida: foi professora, secretária de Educação e Cultura de Campina Grande (PB), prefeita da capital paulista, ministra-chefe da Secretaria de Administração Federal (no governo Itamar Franco) e deputada federal por seis mandatos. Participou das Ligas Camponesas e atuou firmemente na resistência à ditadura militar. Também passou por diferentes partidos políticos, como PT, PSB e hoje se encontra no PSOL. 

Erundina é atualmente candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa formada com Guilherme Boulos. A trajetória dessa nordestina combativa foi marcada por uma intensa militância a serviço das classes populares. Erundina sempre esteve do lado dos “condenados da terra” (como diria Frantz Fanon), dos negligenciados, dos oprimidos. Essa luta continua a movê-la hoje, e nem o avanço da extrema direita a faz recuar. Ao contrário, parece mais estimulada do que nunca a levar adiante o combate contra o obscurantismo e o reacionarismo de nossos tempos. 

Em setembro, ela concedeu esta entrevista à editora da Boitempo, Ivana Jinkings, e ao historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Bernardo Pericás, na qual falou sobre sua juventude, o regime militar, teóricos e personagens históricos que admira, amigos e correligionários, a situação dos partidos e sindicatos na atualidade e suas experiências na política nacional. Selecionamos aqui os melhores trechos desse bate-papo fenomenal.


ME

Falaremos aqui principalmente de sua trajetória pessoal, mas também da formação intelectual e política.

LE

Essas dimensões estão todas muito interligadas na minha vida. Uma determinou a outra. Sou professora universitária, lecionei muitos anos na PUC, na FMU e em faculdades no interior. Depois que entrei para a militância institucional, fui demitida. Foi na época da ditadura, em 1970, quando cheguei a São Paulo. Isso só para lhe dizer que a minha formação intelectual e o meu ativismo político estão muito ligados e têm uma referência muito forte na minha origem de classe.

ME

Como começou sua militância social na Paraíba? Alguém de sua família era de esquerda?

LE

Não, eu é que fui descobrindo. Ainda no curso ginasial frequentei a Juventude Estudantil Católica. Tinha a JEC, JOC, JUC. Esses movimentos formaram politicamente meu senso de justiça, de solidariedade, a consciência dos direitos. Já havia um vínculo com a luta dos camponeses lá no interior do Estado. E havia a luta de resistência à ditadura. Mas eu não era filiada a nenhum grupo político, só fazia militância social como assistente social, como militante católica que tinha consciência de que era preciso lutar para mudar aquela realidade. Foi em São Paulo, para onde fui como assistente social para trabalhar numa associação profissional, que passei a militar no movimento sindical. 

Aliás, o que me levou, num dado momento, a me juntar ao Lula e aos trabalhadores do ABC para fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) foi exatamente a militância através dessa associação. Foi a partir dela que nós organizamos politicamente os profissionais do serviço social em São Paulo. Isso gerou um movimento muito forte com os trabalhadores, com a população das periferias, e despertou a atenção dos militares, que viviam vigiando nosso trabalho. Foi aí que começou a minha militância político-institucional, com uma candidatura à vereadora pelo PT nas primeiras eleições de que ele participou, em 1982, com Lula candidato a governador. 

Nós tínhamos cinco candidatos a vereador em São Paulo, e eu me elegi com mais os outros quatro companheiros. Mas nessa época eu já atuava também na universidade, lecionava Serviço Social, Desenvolvimento Social e outras matérias para as quais tinha me credenciado com o curso de pós-graduação em Sociologia e Política. Trabalhava em várias faculdades à noite, militava na prefeitura, enfrentando a repressão política e social contra as pessoas que ocupavam a terra na cidade de São Paulo, organizando o movimento ligado às favelas, aos cortiços – não tanto exigindo moradia, porque eu não tinha força política para isso, mas ajudando-os a resistir aos despejos.

ME

Você quebrou muitos paradigmas desde que adquiriu a consciência de que precisava estudar e não seguir o padrão de se casar cedo e ter filhos. Algum livro foi especialmente importante para essa conscientização?

LE

Na infância, não. Adulta, lia principalmente os livros de Paulo Freire, que as pessoas que não faziam militância política aceitavam trazer clandestinamente do exterior. Começamos a nos rebelar na sala de aula. O curso de serviço social era bastante conservador, os profissionais não confrontavam o regime, e a gente servia, de certa forma não consciente politicamente, para a manutenção daquilo. 

Foi no contato com a repressão policial, contra os que ocupavam as terras vazias na cidade, que acabei me afirmando. Três dias antes do congresso nacional da categoria, nós nos rebelamos com 3 mil profissionais e assumimos a direção do congresso, substituímos a comissão de honra, que era formada por lideranças políticas de direita, como Paulo Maluf e outros que estavam no governo. 

O ministro do Trabalho tinha cassado também o Lula. Já havia o movimento pela anistia, o movimento contra a carestia, o movimento pelas creches. Houve uma agitação a partir da organização dessas pessoas para reivindicar esses direitos. A sociedade começou a reagir. Nós também fomos nos posicionando e sendo perseguidos, ameaçados e processados. Nessa época, eu era secretária do Bem-Estar Social, junto com um militar da reserva, Manuel Ávila, que, segundo diziam, tinha participado de torturas ou era um dos agentes da equipe do governo que torturava os opositores do regime. Então, imagine, esse coronel via-nos como uma ameaça, nos perseguia, porque a nossa luta era com o povo, e fazer o povo reivindicar direitos era uma subversão.

ME

Quando você teve contato com autores como Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, ou seja, intérpretes do Brasil que estudaram a nossa realidade e o processo de formação do povo brasileiro? Que impacto eles tiveram em sua formação?

LE

Comecei a me interessar pela obra desses autores logo que houve o golpe militar, em 1964. Eu já militava pela reforma agrária. Trabalhava na Pastoral da Terra, com o arcebispo da Paraíba, dom José Maria Pires. Ele era mineiro, negro, progressista, e encontrava muita dificuldade na relação com o clero. Atuei com ele na arquidiocese, junto com os camponeses que estavam vivendo os destroços das Ligas Camponesas. O massacre foi muito forte e eles temiam novos ataques, sobretudo no interior da Paraíba, numa cidade chamada Sapé. Era uma cidade marcada pela luta das Ligas Camponesas, e a Pastoral da Terra já atuava nessa época, mas não diretamente com elas. 

Foi nesse momento que me dei conta da realidade política do país e comecei, de certa forma, a ser perseguida. Imagine, eu trabalhava com um arcebispo progressista, numa igreja progressista, com camponeses que vinham das Ligas Camponesas, e nós continuávamos a fazer reuniões, retomando a organização, pela reforma agrária. Foi também quando tomei conhecimento da fundação da Sudene, para a qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil teve um papel importante. O Celso Furtado foi o cabeça da criação do Banco do Nordeste e da Sudene como instituição de captação de recursos para o desenvolvimento da região. 

Percebi que tinha de estudar, que era o estudo que ia me libertar daquela condição de dependência, de pobreza, de exclusão

Então veio 1964. O golpe foi muito forte contra lideranças como Celso Furtado e Paulo Freire. Na época havia um movimento de cultura popular e eu aplicava o método Paulo Freire na alfabetização dos trabalhadores rurais de Sapé. Comecei a ser perseguida, assim como a igreja progressista; tive de sair da Paraíba. Aí fui fazer mestrado em sociologia e política em São Paulo, com bolsa da Capes. Fiquei dois anos em São Paulo. Defendi a tese com o compromisso de voltar para a Universidade Federal da Paraíba, que não tinha professor de pesquisa social. Só que às vésperas de assumir a disciplina de Pesquisa Social veio a informação da diretora do Departamento de Ciências Sociais que eu tinha sido impedida de assumir pelo Comando Militar de João Pessoa. Isso foi em 1970. Eu já era funcionária do INPS, mas trabalhava na administração. 

Em 2021 completará cinquenta anos que fiz concurso para a prefeitura. Saí da Paraíba muito magoada, com uma sensação de ter deixado a luta para trás, mas como assistente social da Prefeitura de São Paulo, indo trabalhar nas favelas da periferia, vi que a luta era a mesma. Os que estavam nas favelas eram originários daquela mesma realidade latifundiária que estava mudando do modelo de plantação para o de criação de gado. Sobrava mão de obra que ia para onde? Para as cidades grandes como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A luta era a mesma.

ME

Na época da ditadura, como você via a luta armada? Qual era a sua opinião sobre líderes como Carlos Marighella?

LE

É um dos heróis que deram a vida para libertar o povo da miséria, da exclusão, e enfrentar as desigualdades, as injustiças, a repressão. Ele, assim como tantos outros, passou a ser referência para a minha geração naquele momento. O PT não tinha alinhamento com os grupos clandestinos de esquerda. Inclusive, o Lula depois mandou me convidar para participar desse congresso. Ele percebeu que uma parte estava resistindo à ditadura e tinha um ideal político. Ele mandou um assistente social me perguntar se eu não tinha vinculação com nenhum grupo clandestino. Naquele momento ele estava encaminhando o partido político e me convidava para estar com ele.

ME

Francisco Julião é pouco lembrado hoje, mas foi um personagem muito importante. Você poderia falar sobre ele e sobre as Ligas Camponesas?

LE

Naquela época, tanto na Paraíba como em Pernambuco, o foco da repressão eram as Ligas Camponesas e o clero progressista, com dom Hélder Câmara, dom José Maria Pires, dom Marcelo Carvalheira, que eram líderes religiosos católicos que tinham uma posição crítica ao regime e, por isso, eram bastante criticados pela própria Igreja. Veja quanto dom Hélder Câmara sofreu, quanto foi ameaçado e quantos atentados sofreu por suas posições contra o regime. 

A igreja conservadora tinha maioria e era conivente com a ditadura. Os bispos conservadores entendiam que a ditadura era necessária, porque em sua visão atrasada, reacionária e cheia de ignorância, era preciso combater o comunismo até em nome da fé. Era um desvio de compreensão da realidade, e foi daí que partimos, mas depois fomos contaminados pelo senso de justiça, solidariedade, fraternidade e igualdade. Nós já estávamos de certa forma tatuados com aquelas concepções que tinham a ver com a minha origem, a minha crítica. 

Do ponto de vista da desigualdade: por que a terra era tão concentrada? Por que não se divide a terra? Por que o trabalhador tinha de migrar nas piores condições? Por que não tinha terra para trabalhar? Por que a terra estava servindo para outros interesses, os interesses dos latifundiários que eram criadores de gado (porque plantar absorvia muita mão de obra). Depois, quando a coisa engrossou mesmo, os poucos bispos que tinham essa orientação mais progressista foram de certa forma isolados por um clero conservador. Mas o pessoal da Ação Católica descobriu os movimentos que estavam emergindo, orientando as lutas de resistência à ditadura.

ME

Foi quando descobriu o marxismo?

LE

Sim, devo à minha origem cristã, ao cristianismo militante: fé e política. Não há fé sem política nessa mudança da luta por direitos. Foi dessa fonte que bebi desde adolescente, e foi ela que me formou, até que eu descobri Karl Marx. A história toda da luta social do mundo, da luta operária, da luta de libertação dos trabalhadores. Enfim, aí eu fui me formando intelectualmente, sobretudo porque o curso que fiz me levava às fontes e eu podia enxergar a realidade, me posicionar e tomar posição. E tomei posição exatamente no momento em que os trabalhadores estavam levantando a cabeça, saindo do tacão da ditadura sob o qual tinham sido presos. Foi um momento de muita mobilização e força política, muita vontade de mudar a realidade. Eu me sentia também como alguém que poderia estar junto com os outros, como Julião, para mudar essa realidade, que é o que me inspira até hoje.

ME

Qual sua opinião sobre Che Guevara e Fidel Castro?

LE

Conheci Fidel quando ele esteve aqui. Eu era prefeita. Fui encontrá-lo, ele não podia ir a lugares públicos. Era uma figura impressionante. Mandela também, quando veio aqui, eu estive com ele. Foram momentos muito ricos que, de certa forma, alimentam até hoje o meu sonho de ver a humanidade em melhores condições. Por isso, mesmo nessa idade, ainda estou na luta. Isso é até incompreensível para alguns, e há um preconceito forte por causa da minha idade. Mas já passei por tantos preconceitos por ser mulher e de esquerda… Quando estava na prefeitura, dizia: “Só faltava eu ser negra para completar o quadro de preconceitos”. Agora acrescento: “Sou idosa. É só mais um preconceito”. Os preconceitos nunca me abateram. Pelo contrário, gostaria de ser negra, porque teria mais um motivo para lutar contra o preconceito. Considero o preconceituoso muito mais vítima do que a vítima do preconceito. É tão mesquinho, tão cruel, tão desumano. Enfim, é por tudo isso que estou ainda na luta, ajudando, quem sabe, a eleger uma jovem liderança para governar São Paulo e, a partir daqui, fazer resistência ao bolsonarismo, ao obscurantismo, ao golpe que sofremos.

ME

Ao longo do século XX, os militantes de esquerda discutiram a ideia da revolução brasileira. Esse era um debate muito intenso na esquerda brasileira. Hoje, aparentemente está voltando

LE

Caio Prado, né? Novas pesquisas em torno da revolução: por que não se fez a revolução brasileira no nível do capitalismo, nas relações de trabalho, nas relações sociais e econômicas? Houve pactos e alianças com a própria burguesia, que se manteve até nos chamados governos de esquerda, existe ainda e prevalece, ocupando cargos, dirigindo o país e beneficiando-se do Estado. Não houve a revolução popular. A ruptura se faz no curso da história. Não há um momento específico em que a revolução começa e termina. É um processo histórico-social, que se dá ao longo da vida, das gerações, e se concretiza a partir dos valores, das atitudes, das lutas que são travadas em nome de tudo isso. Nós já estamos fazendo a revolução na nossa vida e no seguimento dela. É uma luta histórica, de sempre. Há momentos piores e melhores. É uma semente que se planta e nunca mais morre. Ela vai resistindo aos invernos.

ME

Nós estamos lutando contra o bolsonarismo. É possível fazer uma frente ampla na qual teoricamente possam se juntar grupos distintos, até mesmo personagens de quem não gostamos muito? Ela seria circunstancial ou é importante que haja uma frente única?

LE

Lamentavelmente, nós não temos uma tradição de frentes políticas partidárias para enfrentar determinadas conjunturas. A dificuldade, primeiro, é que não faz parte da nossa cultura política e, segundo, que as esquerdas no Brasil não conseguiram construir um projeto comum em pontos estratégicos para unir as forças. Você não une pessoas, você une ideias, une pessoas com ideias e compromissos políticos que vão além do tempo de cada um. Mas isso a gente vai construindo ao longo do tempo. É como um trampolim: você sobe nele e ele lança você para a frente, ao invés de ser um obstáculo que impede você de caminhar e se lançar para o futuro. Ele cria musculatura, força, vontade, e você se organiza com pessoas, não necessariamente com partidos. O problema é que os partidos querem ter o seu protagonismo, têm os seus nomes, e ainda acreditam nesse poder.

ME

Você vê alguma chance de ser construída uma frente para as eleições municipais e, mais adiante, para as presidenciais?

LE

Acho que, no processo de redemocratização, nós conseguimos emancipar os municípios e os Estados, que não possuíam autonomia política. Foram conquistas que foram se dando, e em certos momentos algumas figuras se uniram. E aí, quando conquistaram o poder, fragmentaram-se de novo, porque cada um quer ser o protagonista. Falta uma concepção mais coletiva de país, de sociedade. Há episódios eleitorais, episódios de resistência, em que conseguimos juntar as forças para construir, para criar espaços, mas a ocupação desses espaços gera divisão. Há uma disputa pela hegemonia. A gente percebe que em alguns partidos importantes existe muita resistência. Você não consegue juntar duas lideranças para discutir uma chapa sem haver discussão sobre quem vai estar na cabeça e quem vai estar como vice. Por isso é que desta vez vou sair como vice: para dizer que em certos momentos não é preciso ser a cabeça para contribuir para a mudança.

ME

O que aconteceu na Argentina, por exemplo, foi inteligente e responsável.

LE

Foi fantástico, grandioso! Isso é visão coletiva da política. A política, como diz Hannah Arendt, é feita de sujeitos coletivos. Se o indivíduo se coloca como o principal, o único que sabe de tudo e tem condição de liderar, ele está perdido, porque vai ficar falando sozinho. A essência da política é a divisão política da ação. É projetar-se no tempo para além daquele momento conjuntural. É não ficar preso às eleições dentro dos marcos do capitalismo com suas determinações históricas. Por isso é que nunca fizemos uma ruptura verdadeira no regime de exceção para o regime democrático de fato. A redemocratização do país ainda não se concluiu. Os desaparecidos políticos nunca apareceram. Alguns cadáveres da vala clandestina de Perus nós tivemos a humanidade de devolver às famílias. São mais de 4.341 desaparecidos que não estão desaparecidos, estão escondidos. 

As ossadas dessas pessoas foram escondidas para não revelarem os crimes hediondos de um regime de 21 anos, que o governo que está aí nega que tenham sido cometidos e ainda defende a tortura. Um cara que defende tortura? O que é que ele quer? O que mais é preciso para enquadrar essa pessoa em caso de impeachment? É como se não houvesse crime nenhum. Ele prega o fechamento de um dos poderes. Mas não houve ruptura. Todos têm interesses, vão de um lado a outro, dependendo das conveniências. É uma cultura atrasada, individualista e competitiva, que não vê o conjunto. Não se vê o futuro, não se vê a nação, não se vê outro modelo de sociedade, de humanidade. É por isso que estamos sofrendo essa crise sanitária.

ME

Quais as maiores resistências no contexto atual?

LE

Existem grupos em formação. A experiência de solidariedade nas periferias das cidades, entre os pobres, tem uma força muito grande de articulação, de resistência coletiva. Há resistência ao coronavírus, ao fundamentalismo religioso, ao obscurantismo, ao enorme retrocesso que ocorreu na cultura, na educação, na liberdade de expressão. Esse é um prejuízo que vai longe. Além da questão econômica, do desemprego em massa. Vai ser um longo período, de qualquer forma.

ME

Qual seria o papel do ex-presidente Lula nessa luta política?

LE

O PT não é mais o mesmo. Os partidos são como entes vivos. As instituições não são uma pessoa, duas pessoas ou mil pessoas. É um corpo orientado por um projeto, por um ideal, por um compromisso maior. Num dado momento, alguém dessa instituição emerge como aquele que tem as melhores condições de liderar aquele momento, aquele processo. Aliás, Tolstói, no livro Guerra e paz, analisando a história de Napoleão, mostra que uma liderança, em dado momento, tem uma expressão de tal ordem que acha que conduz a humanidade, mas, ao contrário, é a humanidade que a conduz. É alguém com determinadas características e qualidades, determinado perfil, que catalisa a maioria da sociedade e vai empurrado numa direção. Portanto, eu penso o partido como algo que tem uma razão de ser em dado momento da história política do país, como foi o caso do PT. 

Saí da Paraíba muito magoada, com uma sensação de ter deixado a luta para trás, mas como assistente social da Prefeitura de São Paulo, indo trabalhar nas favelas da periferia, vi que a luta era a mesma.

O PT foi uma grande novidade, uma grande esperança. Foi fantástico os trabalhadores conseguirem gestá-lo no pós-ditadura, ainda arcando com muitas sequelas da ditadura militar. Ele reconquistou as liberdades democráticas de organização, de participação, a liberdade política, mas com todas as desigualdades – e com desigualdades não há democracia plena. Lula catalisou a sociedade naquele momento, pelo papel que representava, pela sua origem de classe. E eu insisto nisto: a origem de classe é determinante na vida de uma liderança, de alguém que cumpre um papel histórico na sociedade. Mas o partido, como um ente, também envelhece, muda com o tempo, mescla-se com outras forças políticas. 

O PT ainda é um partido forte e grande, com apelo entre os setores populares, mas não é mais o PT de 30, 40 anos atrás, quando o Lula era historicamente a figura de proa e reunia as melhores condições para liderar o processo de resistência à ditadura militar, o processo de redemocratização, e disputar o poder nos marcos do capitalismo. Aliás, esse poder nos marcos do capitalismo, a meu ver, foi muito inconveniente. Foi inconveniente do ponto de vista dos compromissos originais do PT, que governou com os mesmos que apoiaram e ajudaram a ditadura. Eles tiveram de fazer muitas concessões e isso desvirtuou o projeto original do partido. 

Tudo isso tem um impacto tão profundo do ponto de vista das relações econômicas, sociais, culturais – enfim, das relações humanas de modo geral – que uma instituição de 40 anos atrás ou se recicla ou não será a mesma, porque a realidade demanda outras coisas. O partido, para ter sentido, precisa responder a uma demanda real, senão é apenas mais uma sigla.

ME

Como você vê personagens como Ciro Gomes e Fernando Haddad?

LE

Como uma tentativa de criar um substituto para o Lula. O Ciro não teve uma história muito de esquerda no Nordeste. Ao contrário, ele foi  da Arena, o que em si não é um desmerecimento. Ele é uma liderança importante neste momento, mas não podemos esperar dele um posicionamento mais firme. Ele até faz algumas críticas, mas as propostas dele não são para romper com o que está aí. Não temos ainda uma liderança assim. Ela emerge do projeto histórico-social, e nós estamos numa transição. Um novo ciclo histórico vai começar na humanidade.

ME

O MST é um movimento popular que ainda tem força?

LE

Ele continua sendo importante. Mas a questão da terra vem mudando por conta das relações de produção, que não têm mais tanto peso. O MST é importante na medida em que é necessário para a formação dos camponeses para a luta, que continua. E essas lideranças – como o Stédile e outras – são absolutamente indispensáveis. E vêm surgindo outras. Agora surgiu o Boulos, com o MTST, com a luta dos sem-teto nas cidades, que é talvez mais importante do que a luta pela terra. A luta urbana envolve mobilidade, terra na cidade, meios de produção.

Está surgindo uma outra liderança para disputar o protagonismo em favor dos oprimidos (nesse caso, dos trabalhadores sem-teto). Está se gestando uma nova força política que o Brasil inteiro está comentando. O quadro está interessante. Lidei com a luta da moradia nas favelas a vida toda em São Paulo e vejo que os movimentos não são os mais os mesmos que lutavam por moradia. Hoje também se luta pela casa, mas luta-se muito mais por outras coisas, como saúde, alimentação adequada, mobilidade, transporte público, educação, formação profissional. Portanto, o movimento tem as exigências de uma luta que nasceu em outro momento.

ME

E qual o papel dos trabalhadores uberizados no contexto atual?

LE

Esse é um drama porque a ordem capitalista é inventiva, é criativa. Ela se ocupa de dar alternativas à força de trabalho excedente para que, na hora que for necessário, haja um exército de reserva. O tal do empreendedorismo é a política do neoliberalismo para dizer que as pessoas estão trabalhando, que estão criando seus próprios negócios e gerando riqueza. Balela! Você não cria riqueza numa relação capitalista de produção, em que os bens que entram no processo são apropriados individualmente por uma minoria porque não é necessária tanta força de trabalho e as tecnologias suprem e reduzem a força de trabalho como um dos produtos no processo de produção. Enfim, é um outro mundo, hoje é trabalho, nem é mais emprego! A flexibilização dessas relações traz, portanto, o trabalho informal, não normatizado, não legalizado. O trabalho sem direitos é o que predomina.

ME

Se eleitos para governar uma metrópole como São Paulo, o que seria possível fazer em termos de educação e cultura?

LE

Fazer o que Paulo Freire e Marilena Chaui fizeram. Paulo Freire revolucionou a educação na cidade nos dois anos e meio em que foi secretário e com a equipe que ele deixou depois. Hoje há educadores na cidade que têm uma visão social, uma visão de educação que aprenderam lá na época do Paulo Freire. Não é que aprenderam, na verdade assumiram. Há na rede de escolas públicas outros grupos também, mas existe um padrão de compreensão, de atitude e de postura muito diferente, que é fruto exatamente de uma política de educação que se preocupava com a formação continuada, com a reflexão promovida por Paulo Freire nos fins de semana, quando ele ia à periferia. E tem a Marilena Chaui. São dois veios com uma unidade transversal nas políticas públicas progressistas democráticas: radicalizar a democracia direta, a democracia participativa. 

É dividir o poder de fato com quem é detentor do poder: o povo. Governar lá onde o povo está. E quem vive num movimento como esse do MTST, que é um movimento organizado e está formando quadros, sabe que o Boulos na prefeitura vai ser gestor da forma como ele é liderança: ele partilha, ele divide, ele não é o único. Há vários quadros com ele que dividem a direção do movimento. É preciso fazer uma ruptura em relação ao método de gestão. Acho que o que diferencia um governo progressista democrático, nem digo de esquerda, mas progressista democrático popular é o método de gestão. É o método de gestão que estabelece como se exercita o poder na relação povo/governo, na relação Estado/sociedade civil, nas decisões estratégicas, na definição de prioridades, no controle social, submetendo o governo permanentemente lá nos lugares mais distantes onde está o cidadão, recebendo ou não os serviços públicos e as políticas públicas. 

Precisamos dar condição de o sujeito interferir, seja na definição da prioridade orçamentária, seja no controle e fiscalização da execução orçamentária. E ser chamado a decidir as questões estratégicas, e não apenas as questões secundárias. É assim que se formam as pessoas, se formam os movimentos.

Sobre os autores

é uma assistente social e política brasileira, filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e atualmente deputada federal pelo estado de São Paulo.

fundadora e editora da Boitempo.

é professor de História da USP e autor de vários livros, entre eles Che Guevara e o debate econômico em Cuba (Fundo Editorial Casa de las Américas, 2014) e Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórico (Boitempo, 2010). Conquistou o Prêmio Jabuti 2017 na categoria de melhor biografia com o livro Caio Prado Júnior: uma biografia política (Boitempo, 2016).

Sobre os autores

Luiza Erundina é uma assistente social e política brasileira, filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e atualmente deputada federal pelo estado de São Paulo.

Ivana Jinkings fundadora e editora da Boitempo.

Luiz Bernardo Pericás é professor de História da USP e autor de vários livros, entre eles Che Guevara e o debate econômico em Cuba (Fundo Editorial Casa de las Américas, 2014) e Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórico (Boitempo, 2010). Conquistou o Prêmio Jabuti 2017 na categoria de melhor biografia com o livro Caio Prado Júnior: uma biografia política (Boitempo, 2016).

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