A esquerda precisa parar de cair em campanhas de pânico sexual

10/12/2020

Por
Liza Featherstone

Tradução
Tatiana Roveran

As absurdas acusações contra o então candidato progressista ao congresso, Alex Morse, não passavam de uma farsa. No entanto, esse ataque foi bem sucedido por deixar eriçada uma esquerda propensa a cair em campanhas de pânico sexual sem sentido.

O prefeito e então candidato progressista ao congresso estadunidense, Alex Morse. Foto: @AlexBMorse / Twitter

Alex Morse, 31 anos, é exatamente o tipo de candidato democrata que os progressistas geralmente amam. O jovem prefeito gay de Holyoke, Massachusetts, desafiou um candidato centrista e corrupto, Richie Neal, para o Congresso estadunidense. Apoiado pelo Democratas da Justiça, que participaram das vitórias do “Esquadrão” de deputados (principalmente deputadas) progressistas, Morse é um defensor do New Deal Verde e do Medicare for All (Saúde para todos).

E a esquerda o amava – isto é, até que os Democratas Universitários de Massachusetts descobriram uma maneira brilhante de derrubá-lo: fazer acusações sexuais absurdas contra Morse e ver a esquerda perder a cabeça coletivamente.

Poucas semanas antes das eleições primárias, os Democratas Universitários – que receberam US $ 1.000 do deputado Neal, oponente de Morse, em abril – lançaram o escândalo com uma carta desconvidando Morse de todos os seus eventos futuros. A missiva, entregue ao Daily Collegian, jornal estudantil da Universidade de Massachusetts, fez três acusações contra o candidato insurgente.

Os Democratas Universitários alegaram que Morse, que se tornou prefeito aos vinte e dois anos, dava match com alunos em aplicativos de namoro. Eles também alegaram estar chateados com ele por “usar eventos do Democratas Universitários para encontrar estudantes universitários e adicioná-los no Instagram, acrescentando-os à sua lista de “Amigos Próximos” e enviando mensagens privadas a eles, o que deixou jovens estudantes universitários desconfortáveis … [e] pressionados a responder devido ao seu status …

O horror! Ele deu match com os alunos? Ele os adicionou na lista de “amigos próximos” de stories? Que monstro!

Ninguém jamais se apresentou como um “sobrevivente” de qualquer um dos atos hediondos de Morse no Instagram, mas em um caso, de acordo com a carta dos Democratas Universitários, um jovem conheceu Morse e descobriu mais tarde que ele era o prefeito e se sentiu estranho sobre isso. (Parece um uso comicamente ineficaz de seu “status”)

A carta também acusava Morse de fazer sexo com estudantes, alguns dos quais freqüentam a Universidade de Massachusetts, a grande universidade onde ele lecionou como professor adjunto. Ninguém o acusou de ter tais relações com nenhum de seus próprios alunos (As políticas da universidade têm pontos de vista variados sobre sexo entre alunos e professores que não possuem relação acadêmica; a Universidade de Massachusetts sensatamente exige que os professores mantenham um relacionamento platônico com os alunos que supervisionam ou ensinam).

A queda foi rápida. O seu colega no Democratas da Justiça, Jamaal Bowman, colocou em pausa seu próprio apoio a Morse, esperando para saber mais. O Twitter socialista estava cheio de condenações para Morse, com muitos na esquerda aparentemente convencidos de que qualquer diferença de idade entre os parceiros é “assustadora” e, talvez homofobicamente, equiparando o alegado desconforto dos jovens à vitimização.

Liberais em meios de comunicação como o Daily Beast negaram indignadamente que o ataque a Morse fosse homofóbico, insistindo que devemos tomar cuidado com as “dinâmicas de poder”. O diretório local dos ambientalistas do Movimento Alvorada (Sunrise Movement) parou de fazer campanha por ele, dizendo em uma declaração por escrito: “nos compadecemos e homenageamos as pessoas que sofreram danos pelas ações de Alex” e lamentando a “dinâmica de poder desigual” entre Morse e os homens mais jovens não identificados (um outro diretório do Movimento Sunrise na região, bem como o próprio grupo nacional discordavam; eles mantiveram seu apoio original a Morse e disseram que estavam esperando para saber mais sobre as acusações).

Acontece que a esquerda foi manipulada. Durante dias, os agoniados debates on-line analisaram o comportamento aceitável para adultos consentindo e reproduziram (vergonhosamente) estereótipos sobre gays predadores. Felizmente, Ryan Grim do Intercept interveio para revelar que não havia nenhuma “vítima” de “desconforto” ou “dinâmica de poder”. As mensagens que Grim obteve mostram que os Democratas Universitários planejaram tudo deliberadamente, já que um dos líderes do grupo esperava conseguir um estágio com o deputado Neal, o adversário de Morse.

Os Democratas Universitários atraíram Morse para um bate-papo no Instagram, no qual Morse trocou gentilezas amigáveis e saudáveis com um jovem. “Ignorem que eu o iludi”, comentou o jovem ao passar a troca de mensagens para seus colegas de faculdade. “Isso vai afundar a campanha dele”, escreveu seu colega em aprovação.

Acontece que não havia nem mesmo um padrão de Morse comparecer aos eventos do Democratas Universitários, muito menos de usá-los para se encontrar com homens. Os conspiradores rastrearam as atividades de seu aplicativo de namoro implacavelmente, procurando por algo incriminador e tudo o que descobriram era que ele havia dado match com algumas pessoas.

Obviamente, esses Democratas Universitários são canalhas corruptos – mas a esquerda não deveria ser manipulada tão facilmente.

Acusações desse tipo, que não poderiam ter sido mais bem calculadas para deixar eriçada uma esquerda propensa ao pânico sexual, jamais deveriam ter interrompido uma campanha para o Congresso, mesmo que fossem verdadeiras. Morse não foi acusado de agressão sexual; não foi acusado de predar crianças ou mesmo de sexo consensual com adolescentes menores; não foi acusado de fazer sexo com alunos em suas próprias aulas ou estagiários em seu escritório. O que a maioria das pessoas focalizou foi o seguinte: o jovem prefeito foi acusado de fazer sexo – e às vezes até de fazer amizade no Instagram! –  com pessoas que podem ter menos poder e status do que ele.

Espere até essas crianças ouvirem sobre heterossexualidade. 

Não vamos esquecer que pessoas de algumas raças e origens têm mais “poder” social do que outras. A esquerda deve ser contra o namoro inter-racial agora? 

Além disso, espere até que os Democratas Universitários ouçam sobre o capitalismo, um sistema no qual qualquer pessoa com acesso a mais riqueza tem mais poder. Cuidado por aí! 

Falando em capital – ele é um grande apoiador do Republicano Richie Neal. Como demonstrou a reportagem de Donald Shaw na Jacobin, as empresas de saúde gastaram centenas de milhares de dólares na campanha de Neal – um investimento compreensível, já que ele é um forte oponente do Medicare for All (Saúde para Todos).

Ele recebe ainda mais dinheiro da indústria de títulos e investimentos (o mercado imobiliário  vem segue de perto), com o Blackstone Group como seu maior contribuidor corporativo. Neal acumulou quase um milhão de dólares em “grandes” contribuições individuais. Ele foi acusado de práticas corruptas na arrecadação de fundos – como disse uma estação de rádio de Boston, “encher os doadores ricos de vinho e comida, alguns dos quais têm negócios perante o poderoso comitê do Congresso que ele dirige”.

A reportagem do Intercept não foi o suficiente para restaurar a sanidade da situação. Em uma disputa acirrada em que o candidato da esquerda enfrentava um oponente bem financiado, alguns dias de notícias prejudiciais, mesmo notícias falsas, podem causar muitos danos. A incapacidade da esquerda de deixar de fora seus sentimentos sobre este assunto acabou prejudicando a campanha de Alex Morse para derrubar Neal – os grandes vencedores foram essas indústrias predatórias e os membros do um por cento.

E quem saiu mais prejudicado dessa história? Qualquer pessoa sem “poder”.

Sobre os autores

é colunista da Jacobin, jornalista freelancer e autora de "Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart".

Sobre o autor

Liza Featherstone é colunista da Jacobin, jornalista freelancer e autora de "Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart".

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux