Jane Fonda e a solidariedade internacional

13/02/2021

Por
Jane Fonda

Tradução
Guilherme Ziggy e Hugo Albuquerque

No Dia Mundial do Rádio, relembramos o discurso histórico da atriz e ativista Jane Fonda na Rádio Hanói, em visita ao Vietnã do Norte em 1972.

Uma das várias fotos na bateria norte-vietnamita / Reprodução.

No auge de sua carreira, a atriz Jane Fonda foi uma das vozes mais ativas na denúncia contra a Guerra do Vietnã, que matou tantos jovens no ataque imperialista. Em 1972, arriscou sua vida e reputação ao ir, em pessoa, ao Vietnã do Norte para demonstrar solidariedade e expor ao Ocidente os horrores que ainda aconteciam naquele país. Paralelamente, nos EUA, o presidente americano Richard Nixon anunciava na televisão o processo de término da guerra – que só iria acontecer três anos depois.

Neste Dia Mundial do Rádio, a Jacobin Brasil publica uma transcrição de um evento memorável ocorrido no então Vietnã do Norte: o discurso para o povo vietnamita feito por  Jane Fonda, transmitido pela Rádio Hanoi em 22 de agosto de 1972 – um projeto ousado que se encarregou, durante os anos de resistência à invasão norte-americana, de levar ao povo do Vietnã e aos combatentes estrangeiros um pouco da verdade sobre o caráter neocolonial e genocida daquele conflito que, ao mesmo tempo, oprimia a classe trabalhadora norte-americana, usando-a como bucha de canhão e, simultaneamente, era carrasca de seus irmãos vietnamitas. 

A fala corajosa e a passagem de Fonda pelo Vietnã foram submetidas ao Comitê de Segurança Interna da Câmara do Congresso dos EUA, além de servir para uma ampla campanha de difamação, a qual até hoje serve para esconder os reais crimes e culpados de uma guerra injusta que matou milhões de inocentes — o total de vietnamitas mortos, civis ou militares, varia de 966 mil a 3,8 milhões, de cambojanos 300 mil e laocianos foram cerca de 62 mil. Já os norte-americanos estimam suas perdas em 58 000 soldados mortos, mais de 300 mil feridos e 1.626 desaparecidos em 1975.

Este é um dos marcos do uso do rádio para fins revolucionários, de resistência ou para libertação dos últimos cem anos, que se junta à eventos como a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, deflagrada justamente por uma senha enviada pelo rádio, o discurso final de Salvador Allende pela Rádio Magallanes, antes de tomar o golpe de 11 de setembro de 1973, as iniciativas revolucionárias cubanas, o contragolpe brasileiro da Rádio da Legalidade liderado por Leonel Brizola em 1961, dentre outros eventos.


Hanói, Vietnã do Norte, 22 de agosto de 1972. Aqui fala Jane Fonda. Durante minha visita de duas semanas à República Democrática do Vietnã, tive a oportunidade de visitar muitos lugares e falar a um grande número de pessoas de todas as esferas da vida – trabalhadores, camponeses, estudantes, artistas e dançarinos, historiadores, jornalistas, atrizes de cinema, soldados, milícias, membros do sindicato das mulheres, escritores.

Visitei o viveiro agrícola (Dam Xuac), onde também são criados os bichos da seda e são produzidos os fios. Visitei uma fábrica de tecidos, um jardim de infância em Hanói. O belo Templo da Literatura foi onde vi danças tradicionais e ouvi canções de resistência. Também vi um balé inesquecível sobre os guerrilheiros treinando abelhas no sul para atacar soldados inimigos. As abelhas eram dançadas por mulheres e faziam bem o seu trabalho.

À sombra do Templo da Literatura, vi atores e atrizes vietnamitas interpretarem o segundo ato da peça All My Sons de Arthur Miller, e isso foi muito comovente para mim – o fato dos artistas daqui estarem traduzindo e encenando peças americanas, enquanto os imperialistas americanos estão bombardeando o país deles.

Eu tenho carinho pela lembrança das garotas coradas da milícia no telhado de sua fábrica, encorajando uma de suas irmãs enquanto cantava uma música louvando o céu azul do Vietnã – essas mulheres, que são tão gentis e poéticas, cujas vozes são tão bonitas, mas que, quando os aviões americanos estão bombardeando sua cidade, tornam-se grandes lutadoras.

Aprecio a maneira como um fazendeiro evacuado de Hanói, sem hesitação, ofereceu a mim, uma americana, seu melhor abrigo antibomba individual enquanto bombas americanas caíam por perto. A filha dele e eu, de fato, compartilhamos o abrigo envoltas nos braços uma da outra, bochecha contra bochecha. Foi na estrada de volta de Nam Dinh, que testemunhei a destruição sistemática de alvos civis – escolas, hospitais, pagodes, fábricas, casas e o sistema de diques.

Quando saí dos Estados Unidos há duas semanas, Richard Nixon estava dizendo novamente ao povo americano que a guerra estava acabando, mas nas ruas cheias de destroços de Nam Dinh, suas palavras ecoaram sinistras… como um verdadeiro assassino. Como a jovem vietnamita que segurei em meus braços, agarrada a mim com força – e pressionei minha bochecha contra a dela — pensei, esta pode ser uma guerra contra o Vietnã, talvez, mas a tragédia é da América.

Uma coisa que aprendi, sem sombras de dúvidas, desde que estou neste país, é que Nixon nunca será capaz de massacrar o espírito dessas pessoas; nunca será capaz de transformar o Vietnã, do norte e ao sul, em uma neocolônia dos Estados Unidos bombardeando, invadindo ou os atacando de qualquer forma. Basta ir ao campo e ouvir os camponeses descreverem a vida que levavam antes da revolução para entender por que cada bomba lançada apenas fortalece sua determinação de resistir. Falei com muitos camponeses que falavam sobre os dias em que seus pais tinham que se vender aos proprietários praticamente como escravos, quando havia muito poucas escolas e muito analfabetismo, cuidados médicos inadequados, quando eles não eram donos de suas próprias vidas.

Mas agora, apesar das bombas, apesar dos crimes sendo criados – sendo cometidos contra eles por Richard Nixon, essas pessoas possuem suas próprias terras, constróem suas próprias escolas onde – as crianças aprendendo, sendo afabetizadas – o analfabetismo está sendo exterminado, não há mais prostituição como havia na época em que o país era uma colônia francesa. Em outras palavras, as pessoas assumiram o poder com suas próprias mãos e estão controlando suas próprias vidas.

Sobre os autores

é uma atriz, escritora, ativista, modelo, empresária e autora estadunidense.

Sobre o autor

Jane Fonda é uma atriz, escritora, ativista, modelo, empresária e autora estadunidense.

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