Da ciência à utopia

22/03/2021

Por
Ruy Braga

Erik Olin Wright, um dos marxistas contemporâneos mais dialéticos, deixou de legado aos socialistas uma teoria emancipatória radical para enfrentar os desafios do século XXI a partir da reconstrução atual das classes subalternas.

Eric Olin Wright (9 de fevereiro de 1947 - 23 de janeiro de 2019) (Foto: Wikimedia Commons).

Há dois anos, Erik Olin Wright nos deixou, legando-nos uma poderosa teoria do sujeito emancipador do século XXI. No intuito de realçar a importância desse legado, parece-me importante problematizar a transição da ciência à utopia na trajetória de Erik. Ao final, gostaria de propor uma leitura provocativamente “teleológica” a respeito do surgimento do programa das “utopias reais” como esteio a apoiar meu olhar a respeito dos legados sociológico e político deixados por Erik.      

Borges disse certa vez que “(…) cada escritor cria seus próprios pares. Seu trabalho modifica nossas concepções tanto do passado quanto do futuro de outro autor”. Nesse sentido, parece-me que a afirmação de Michael Burawoy segundo a qual: “Erik moveu-se de uma análise de classe sem utopia para uma utopia sem análise de classe” tem o potencial de marcar definitivamente as percepções sobre a trajetória de Erik, alterando nossa interpretação tanto do passado quanto do futuro de sua obra. Por essa razão é que devemos partir dessa atraente chave dialética proposta por Michael. 

O argumento é bastante claro: ao longo de sua trajetória intelectual, Erik teria modificado o sentido da análise das classes que o tornou mundialmente famoso: de um meticuloso trabalho de observação da estrutura social para um não menos meticuloso trabalho de garimpagem de “utopias reais”, isto é, projetos, instituições e processos capazes de desafiar o capitalismo. Segundo a sugestão de Michael, teria ocorrido uma espécie de “corte epistemológico” às avessas, isto é, ao invés de deslocar-se do humanismo crítico para a ciência da história como na conhecida interpretação de Althusser sobre o jovem Marx, Erik teria feito o caminho do marxismo científico ao marxismo crítico e humanista. 

Em síntese grosseira, é como se os dois marxismos sempre estivessem estado presentes na obra de Erik, porém, cada um deles teria se desenvolvido de maneira independente a partir de certo momento. Trata-se de uma interpretação que evidentemente capta de forma acurada a relação entre o marxismo científico e o marxismo crítico em Erik. Sobre essa base, proporia alguns argumentos complementares ao de Michael, mas que exigem um reposicionamento do ponto de vista do observador. É como numa paralaxe: o objeto de fato não se desloca, mas, o olhar capta um ângulo ligeiramente diferente da coisa observada. 

De início, diria que a ideia de “corte epistemológico” é, naturalmente, bastante sugestiva, porém, pode deixar escapar uma questão essencial tanto do movimento do pensamento quanto da superação política de Erik. Afinal, ao contrário do que pensava Althusser sobre o jovem Marx, nunca houve de fato uma ruptura entre o Marx crítico-humanista e o Marx cientista. A superação dialética identificável naquele Marx a caminho de suas “Teses sobre Feuerbach” foi, sobretudo, política e revolucionária, impulsionada pela descoberta por um jovem hegeliano alemão do movimento operário francês que acabara de se formar. Em relação à Erik, pode-se afirmar o mesmo: não vejo de fato uma “ruptura” na dinâmica de seu pensamento, mas, uma superação dialética dos limites de seu marxismo científico mobilizada por um deslocamento político da academia para a sociedade civil.    

Senão, vejamos. Sabemos que em nome do marxismo científico, Erik desafiou a sociologia nos termos postos pelo próprio campo acadêmico e foi incrivelmente bem-sucedido em sua missão. A maior prova disso é que em todo o mundo seus trabalhos elevaram-se à condição do cânone da sociologia da estratificação social. Esse fato levanta uma questão: mas, afinal, o que houve com aquela pulsão combativa de seus primeiros trabalhos sobre as classes sociais nos anos 1970 e 1980 que pretendia desafiar e derrotar a sociologia positivista? Michael notou que a relação do marxismo de Erik com a sociologia, ao menos no tocante ao tema das classes sociais, foi se pacificando aos poucos, tornando-se mais eclética e plural. Ou seja, ao se transformar no mais exuberante sociólogo marxista de sua geração, Erik parece ter se reconciliado com a sociologia. 

Em termos dialéticos, isso acontece quando o sujeito retroage e constata que nunca existiu de fato um conflito sério impulsionando-o à frente. Ou seja, quando se descobre que os oponentes, na verdade, sempre estiveram mais ou menos do mesmo lado. Assim, a reconciliação preserva os momentos anteriores, negando e conservando simultaneamente seus conteúdos ao elevá-los a uma nova síntese. Em minha opinião, é relativamente fácil perceber esse “mesmo lado” em se tratando de análise das classes quando penso na aliança entre bourdieusianos e marxistas em projetos coletivos como as revistas francesas Actuel Marx e Contretemps, por exemplo. Ou no “marxismo weberiano” tão importante para a teoria latino-americana da dependência. De fato, muitos outros exemplos de colaborações envolvendo marxistas, weberianos, etc. poderiam ser facilmente inventariados. 

Aliás, já que citamos o marxismo latino-americano, vale lembrar que para essa tradição, as contradições entre o arcaico e o moderno, entre o centro e a periferia, entre o rural e o urbano, etc., significam apenas que, como nos lembram Florestan Fernandes e Chico de Oliveira, as potencialidades inerentes à nossa condição periférica não podem se expandir sem que a sociedade que lhes deu origem desapareça. Ou, em linguagem dialética: quando algo se transforma em seu oposto e contradiz a si mesmo, expressa sua essência. De maneira alusiva, parece ser esse o caso da relação entre ciência e utopia em Erik. Da ênfase no conhecimento das estruturas para o reconhecimento de que a reificação capitalista impede a realização de nossas potencialidades como sociedade e como espécie. 

Por que razão a transformação de algo em seu oposto, isto é, de um sofisticado e reconhecido mundialmente marxismo científico em um não menos atraente marxismo utópico simplesmente não deveria nos espantar? Em primeiro lugar, porque a utopia sempre esteve lá: Erik foi um radical em sua juventude, atraído pela combinação entre a luta por direitos civis, as mobilizações contra a Guerra do Vietnã e a ascensão da contracultura. Ou seja, o contexto político nos ajuda a entender a presença desse “estado negativo” que busca realizar potencialidades latentes por meio do combate a estruturas reificadas. Num primeiro momento, essa batalha surgiu aos olhos de Erik como um ataque à sociologia profissional positivista levado adiante no próprio campo sociológico. 

Não minha opinião, o fato de seu programa de pesquisa sobre as classes sociais ter se tornado parte do cânone da estratificação social demonstrou sua vitória nessa arena. Alguns dirão que seu desafio foi de alguma forma absorvido pela sociologia mainstream. Discordo: trata-se antes de uma capitulação da sociologia do que uma suposta absorção de Erik. No entanto, mesmo essa vitória não poderia representar uma revolução na relação de forças do campo, pois isso se efetiva apenas por meio daquilo que Gramsci chamou de “grande política”, isto é, das lutas capazes de “reproduzir ou transformar as estruturas sociais, fundar ou conservar Estados, etc.” (Cadernos do cárcere, vol. 3, p. 21). E foi para o domínio da “grande política” que Erik se deslocou no início dos anos 1990, munido de seu projeto sobre as “utopias reais”. 

E um notável programa de pesquisa empiricamente orientado, reflexivamente fundado e politicamente engajado nasceu no início dos anos 1990 justamente durante o ocaso do socialismo burocrático de Estado. Quando muitos radicais arrependidos tentavam se salvar do naufrágio do marxismo soviético renegando suas credencias socialistas, Erik deslocou-se do “Eu” para um generoso “Nós” onde colaborou com ativistas e intelectuais do mundo todo a fim de, juntamente com seus alunos, ajudar a reconstruir “o princípio esperança” da política socialista para o século XXI. Em consonância com Ernst Bloch, ao antecipar o futuro no presente por meio da construção coletiva de experiências politicamente abertas, Erik nos ensinou a “sonhar acordado” por meio de suas utopias reais. 

Nesse sentido, vale lembrar que, conforme uma certa tradição teórica do marxismo dialético, não são propriamente os intelectuais que “criam” arbitrariamente os conceitos, mas que a formação deles é, antes, um desenvolvimento subjetivo ao encargo dos intelectuais orgânicos capazes, nas palavras de Gramsci, de “elaborar e tornar coerentes os problemas colocados pelas massas”. Ou seja, com suas utopias reais Erik racionalizou experiências coletivas existentes com um flagrante potencial anticapitalista. Se esse potencial irá ou não se desenvolver a contento, revelando sua essência desalienante, não depende da vontade arbitrária do intelectual orgânico, mas, da atividade política das massas. Em última instância, trata-se de uma questão que apenas a luta de classes pode responder. 

De qualquer forma, é possível perceber na passagem da análise das classes para o programa das utopias reais uma superação dialética que conservou a radicalidade do trabalho de Erik, elevando-o a um patamar politicamente superior: afinal, as lutas não mais se dariam no interior do campo da sociologia, mas da própria sociedade. E, de fato, Erik jamais se propôs a “criar” arbitrariamente utopias reais, e sim “universalizá-las”, isto é, compreender sua “essência” emancipatória a fim de articulá-las em uma “totalidade” coerente. Mas, de que “totalidade” estamos falando? 

Para além dos alcances e dos limites das utopias reais analisadas em Envisioning Real Utopias, isto é, as cooperativas de Mondragon, o orçamento participativo de Porto Alegre, o programa de renda básica universal e o Wikipedia, Erik legou-nos algo ainda mais precioso com seu novo programa: um esboço do sujeito político do século XXI capaz de totalizar os potenciais emancipatórios dessas diferentes experiências. De fato, não se trata da classe operária num sentido marxista ortodoxo. 

E, afinal, como poderia ser diferente se, com o colapso do fordismo internacional e a ascensão do neoliberalismo em escala mundial, o operariado fordista foi completamente desfeito, restando nos dias atuais um conjunto desarticulado de grupos subalternos lutando para redefinir os limites e os alcances de suas próprias fronteiras de classe? Inspirado em E. P. Thompson, tenho me referido a esse momento no qual a crise da globalização capitalista universaliza resistências populares aos avanços da acumulação por espoliação, sem, contudo, ensejar soluções politicamente progressistas de “luta de classes sem classes”. Talvez isso possa sugerir uma chave interpretativa para o deslocamento de Erik das classes em favor das utopias reais. Ele compreendeu que as classes estão se refazendo em escala global e decidiu abraçar o trabalho de construção das novas identidades classistas.   

Aqui chegamos ao manifesto de Erik: Como ser anticapitalista no século XXI?  Sem bem é verdade que a base do pensamento utópico é a contradição e a possível superação entre os estados reificados e as potencialidades emancipatórias, o anticapitalismo defendido por Erik não exclui os partidos políticos, mas os transformam no instrumento central da superação das contradições capitalistas. É claro que não estamos nos referindo aos velhos partidos comunistas do passado, mas aos novos partidos-movimentos que hoje em dia multiplicam-se mundo afora a partir das experiências do Podemos na Espanha, do DSA/Our Revolution estadunidense, do Bloco de Esquerda português, da France Insoumise, etc. No Brasil, temos na recente fusão entre o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) – condensado na transformação de Guilherme Boulos na principal liderança da esquerda brasileira – a revelação do potencial emancipador dos partidos-movimentos em um país do Sul global.  

Para Erik, a multiplicação de partidos-movimentos indica que a própria reprodução do capitalismo cria forças anticapitalistas imbricando interesses coletivos e valores morais, tais como a igualdade, a solidariedade e a liberdade. Além disso, a alienação capitalista impede o desenvolvimento das potencialidades humanas. Portanto, a questão está em como articular interesses e valores em um movimento capaz de enfrentar e superar o capitalismo. Na medida em que a experiência socialista de “esmagar” o capitalismo por meio de revoluções políticas foi se mostrando problemática e insuficiente, cabe a marxismo elaborar e tornar coerentes os problemas atuais colocados pelas massas a fim de avançar na tarefa de emancipar a humanidade da alienação mercantil.

Para tanto, Erik considerava essencial combinar duas grandes estratégias políticas. Por um lado, seria necessário domesticar e desmantelar o capitalismo por meio da combinação entre o fortalecimento das formas de economia mista com uma forte regulação do capital: proteção social, serviços públicos, regulação financeira, etc. Por outro, seria fundamental fortalecer a resistência e as experiências de “fuga” do capitalismo, isto é, impulsionar os movimentos sociais balizados pela ação direta e protagonizados por cidadãos, consumidores, ambientalistas, imigrantes, jovens, negros, cooperativas, sindicatos, trabalhadores rurais e sem-teto. Assim, seria possível sintetizar as duas lógicas de transformação social, isto é, a simbiótica que desmantela e domestica o capitalismo, e a intersticial, ou seja, que acumula forças e resiste à dinâmica da alienação mercantil, num amplo movimento de erosão do capitalismo. 

Apoiado sobre uma base social globalizada formada por trabalhadores colaborativos e desalienados, esse projeto articularia aspirações emancipatórias já existentes com uma visão clara a respeito do socialismo como uma democracia econômica autêntica, ou seja, uma utopia real. E quem faria essa articulação entre a base social e uma visão unitária e coerente do futuro emancipado? Os novos partidos-movimentos. Trata-se de uma proposta radical e contemporânea no sentido de atualizar aquilo que há de melhor na tradição democrática socialista do século XX, trazendo-a para o século XXI por meio de um desafio: construir o sujeito utópico da emancipação como uma necessidade histórica. Afinal, uma utopia real apenas pode reivindicar sua legitimidade nos dias atuais na medida em que a dramática experiência do socialismo burocrático exige ser negada e transformada.

É isso que o trabalho de Erik, o mais dialético dos marxistas analíticos, como costumo brincar, deixou para as novas gerações de radicais que, a exemplo dele próprio naqueles desafiadores anos 1970, se levantam hoje em dia contra o capitalismo, o colonialismo, o racismo e o patriarcado: uma robusta teoria do sujeito emancipador do século XXI a fortalecer a ideia de que sempre haverá razão para aqueles que aspiram a liberdade. 

Sobre os autores

é professor de sociologia da Universidade de São Paulo.

Sobre o autor

Ruy Braga é professor de sociologia da Universidade de São Paulo.

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