O conservadorismo só se preocupa com a defesa de hierarquias tradicionais

17/04/2021

Por
Matt McManus

Tradução
Everton Lourenço

Estudar os textos de Edmund Burke, o pai do conservadorismo moderno, revela algo importante: que o pensamento intelectual de direita não vai muito além de alguns pseudo-argumentos sobre a defesa de relações sociais convencionais e hierarquias tradicionais.

Edmund Burke (1729–1797), por James Northcote

Edmund Burke ocupa uma posição venerável na história do pensamento de direita, frequentemente descrito por amigos e inimigos como o pai do conservadorismo moderno. Sem dúvidas isso teria surpreendido o teimoso irlandês, que em grande parte via a si mesmo como um político prático, com nada além de desdém por pretensiosos autores intelectuais. Mas ninguém consegue decidir como vai ser lembrado pela História, e o legado mais duradouro de Burke provou ser seus extensos escritos sobre política e estética.

O burkeanismo é uma forma temperamental e até intencionalmente ambígua de abordar o mundo, que considera a capacidade humana de raciocinar como sendo fundamentalmente limitada e que, consequentemente, venera as relações sociais estabelecidas e a sabedoria supostamente embutida na tradição.

Em muitos aspectos, é fundamentalmente antimoderna, e marcou de maneira indelével a história do pensamento conservador.

O sublime e o belo

Apesar de sua posterior repulsa pelos filósofos “vagabundos” e “irresponsáveis”, Burke começou sua vida como uma espécie de intelectual boêmio. Ele viajou pelo continente europeu, envolvendo-se com as controvérsias da época. Contudo, ele sempre se sentiu desconfortável com as correntes mais radicais do pensamento contemporâneo.

O mais importante entre os primeiros livros de Burke foi Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e da Beleza (1757), uma obra de Estética que se tornaria influente o bastante para ser citada por luminares como Immanuel Kant. A priorização que Burke faz da Estética e a maneira como ele enxerga a influência do belo e do sublime sobre as paixões humanas é reveladora. Para Burke – ao contrário da galera do “os fatos não se importam com seus sentimentos” na atualidade – nossas emoções determinam muito sobre como apreendemos o mundo. E nossos sentimentos são agitados, de um jeito ou de outro, por ideias visceralmente estéticas.

Como o título indica, as duas ideias mais significativas que Burke discute no livro são a beleza e o sublime. Insistindo que a beleza “não é uma criatura da nossa razão”, Burke prossegue, descrevendo as coisas bonitas como sendo aquelas que obedecem às nossas finitas forças físicas e mentais. Em outras palavras, aquelas sobre as quais os seres humanos são capazes de exercer algum controle: pássaros, flores, músicas harmoniosas e assim por diante. O sublime nos enche de “espanto e horror” – algo tão titânico e poderoso que somos lembrados de como nossas forças são finitas, tanto mental quanto fisicamente.

Nossa ideia do sublime também excederia a razão; nossa ideia afetiva dela – a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir” – poderia nos dar alguma noção do poder transcendente e da infinitude do sublime, mas nunca seria suficiente para representá-lo totalmente. A poesia épica – por exemplo, as ruminações de John Milton sobre Deus e o infinito em Paraíso Perdido – seria provavelmente o mais próximo que podemos chegar.

As duas dimensões que Burke esboçou vieram a definir grande parte da teorização de direita. Às vezes, os conservadores ecoam as reflexões de Burke sobre a beleza por meio de uma crítica da modernidade como sendo indiferente ao que há de pequeno e local (o gigante Estado racionalista sendo um exemplo). Como colocou o jurista conservador Robert Bork em seu livro Virtude Coercitiva, a modernidade engole “a particularidade – o respeito pela diferença, pelas circunstâncias, [e] pela história”. As variantes nostálgicas de conservadorismo enfatizando as virtudes da vida rural, a conformidade com práticas e valores estabelecidos e o respeito pelas autoridades convencionais, todas apelam para este lado da estética de Burke.

E daí há também as variantes mais grandiosas do conservadorismo, que não têm nenhum problema em apelar para o gigantesco. Um dos problemas que esses conservadores têm com humanistas liberais e de esquerda é precisamente o conceito de que qualquer coisa tão pequena quanto a vida humana poderia ter um significado sem alguma fonte de autoridade e de poder transcendental e que inspira reverência para justificá-la. A fonte de significado transcendental pode variar – o Deus patriarcal, o pai, a nação, a tradição eterna, a civilização ocidental – mas é preciso haver uma fonte do sublime.

O que une ambas as vertentes de direita é a sua suspeita com relação à razão como fundamento para a vida e a ênfase no afeto e, mais importante, no poder e na diferença. Burke admira o belo da mesma maneira que conservadores posteriores teciam loas sobre as virtudes do tradicionalismo rural; ambos incorporam uma forma de vida caracterizada pela regularidade, um senso de ordem e harmonia e uma compreensão de nossa razão e força limitados. Comportar-se de outra forma, defendem os conservadores, seria provocar o caos – ou, pior ainda, cair em uma espécie de arrogância luciferiana, questionando aquilo que deveria ser meramente reverenciado e obedecido.

O panorama político gótico de Burke

Uma das primeiros críticas a reconhecer a ligação entre a estética de Burke e sua visão política foi a filósofa inglesa Mary Wollstonecraft. Elaborando uma resposta ao livro Reflexões Sobre  sobre a Revolução na França, de Burke, Wollstonecraft o criticou por elevar “noções góticas de beleza” vagas acima da razão e da precisão analítica. Como ela colocou em seu Uma Reivindicação dos Direitos dos Homens:

“Percebo, de todo o teor de suas Reflexões, que você possui uma antipatia mortal pela razão; mas, se houver em sua declamação selvagem algo como um argumento, ou primeiros princípios, eis o resultado: – que devemos reverenciar a ferrugem da antiguidade e denominar os costumes não-naturais, que a ignorância e o equivocado interesse próprio consolidaram, como o sábio fruto da experiência: e mais que isso, que, se descobrirmos alguns erros, nossos sentimentos deveriam nos levar a desculpar, com amor cego ou uma afeição filial sem princípios, os veneráveis vestígios dos dias antigos. São noções góticas de beleza – a hera é bela, mas, quando ela insidiosamente destrói o tronco do qual recebe suporte, quem não a arrancaria?”

Foi uma observação inteligente. Como Corey Robin e outros observaram, muitos conservadores até os dias atuais enfeitam argumentações em nome da submissão à tradição e à autoridade com um verniz brilhante de uma profundidade incognoscível. Frequentemente, eles têm sucesso em inspirar simpatia, porque muitas pessoas sentem uma genuína sensação de perda diante da visão de hierarquias tradicionais sendo atacadas.

Entretanto, quando movimentos igualitários estão em marcha, instituições e credos sublimes, antes respeitados e defendidos, passam por escrutínio e críticas implacáveis. Desaparecem o clarão e o estrondo de retórica, que deixava as coisas bagunçadas e as obscurecia no incognoscível e transcendental. Como o mago titular em O Mágico de Oz, várias formas de poder tradicional são expostas como elites agarradas à defesa de seus privilégios. E os conservadores – a contragosto, como aponta Edmund Fawcett em seu excelente Conservadorismo: Uma Luta Pela Tradição – são forçados a entrar em ação, fornecendo defesas intelectuais àquilo que simultaneamente alegam não poder ser compreendido adequadamente pelo intelecto.

O aparente paradoxo dessa afirmação reflete uma crença conservadora de longa data sobre como, em última análise, teria sido melhor se ninguém tivesse questionado essas instituições e credos, em primeiro lugar. Não por acaso, Burke foi um dos primeiros a expressar uma complexa aversão ao intelectualismo, ao mesmo tempo em que reconhecia a necessidade de fornecer, contra seus inimigos, algum tipo de argumentação em nome do conservadorismo.

“Os governos não são feitos em virtude de direitos naturais, que podem existir e que de fato existem em total independência dele, e existem com muito mais clareza e em um grau muito maior de perfeição abstrata; mas sua perfeição abstrata é seu defeito prático. Por terem direito a tudo, eles querem tudo […] A sociedade exige não apenas que as paixões dos indivíduos sejam submetidas, mas que mesmo na massa e no corpo, bem como nos indivíduos, as inclinações dos homens sejam freqüentemente frustradas, sua vontade seja controlada e suas paixões sejam colocadas em submissão […] Nesse sentido, as restrições sobre os homens, tanto quanto suas liberdades, devem ser considerados entre seus direitos.”

Esse tipo de pensamento teria uma enorme influência sobre os pensadores conservadores daí para frente. Mas Burke raramente fornece uma argumentação filosófica extensa para explicar por que tudo isso seria menos abstrato do que os princípios racionalistas aparentemente vagos de seus oponentes. Freqüentemente, ele meramente ridiculariza seus inimigos e afirma a obviedade de seus próprios princípios favoritos. Os argumentos muitas vezes se resumem a alegações de que seus preconceitos e práticas favoritas provaram seu valor ao longo do tempo, ao contrário das ideias novas e não testadas apresentadas por seus oponentes.

Os conservadores de hoje muitas vezes apontam como as profecias de Burke sobre a potencial violência da Revolução Francesa teriam se provado corretas, sugerindo que deveríamos lhe dar algum crédito. Mas também é importante observar que a maioria das instituições e preconceitos que Burke sentia serem necessários para uma sociedade ordenada – o respeito pela Coroa e pela propriedade aristocrática, a desconfiança em relação à democracia e às capacidades intelectuais da “multidão suína”, a subordinação política das mulheres aos homens – todos acabariam descartados rapidamente após sua morte. Seria difícil encontrar alguém, exceto os reacionários mais distantes da realidade, os defendendo agora. Enquanto isso, os princípios e ideais da Revolução Francesa e do mundo moderno que eles personificavam vivem e continuam a inspirar milhões de pessoas.

O bom, o mau e o feio em Burke

Os escritos de Burke contêm alguns elementos de verdade. Qualquer pessoa sensata deveria reconhecer suas limitações mentais e não assumir que seria capaz de possuir uma compreensão completa do mundo. Existem também muitas tradições e modos de vida que foram corroídos desnecessariamente (muitas vezes pelas forças do capitalismo); o erro inverso do viés de Burke em relação ao antigo é a fetichização do novo.

O problema fundamental com os argumentos burkeanos, como Wollstonecraft e outros autores têm argumentado, é que sua hostilidade à assim chamada abstração racionalista e seus apelos ao afeto e ao profundo desconhecido só são sustentáveis para aqueles que já se sentem dessa maneira. É por isso que o burkeanismo tem sido descrito menos como uma filosofia e mais como uma perspectiva ou uma atitude.

E uma atitude que gira em torno de sensibilidades estéticas não leva você muito longe. Como observa Ian Shapiro, uma pessoa pode se sentir profundamente ligada a uma tradição venerada, mesmo que misteriosa, enquanto outra pode vê-la como uma forma grotesca de dominação. A única maneira de descobrir quem está certo é deixando o reino etéreo da imprecisão estética e confiando em nossos limitados poderes para compreender o mundo como ele é.

Os conservadores que canalizam Burke sempre resistirão ao movimento rumo ao racional, pois, se pudermos entender o mundo como ele é, temos o poder de refazê-lo. Isso é exatamente o que eles não querem, e precisamente o que devemos fazer.

Sobre os autores

é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

Sobre o autor

Matt McManus é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

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