Uma guerra de solidariedade

27/04/2021

Por
Jorge Tamames

Tradução
Coletivo Leia Marxistas

Esse ano marca o 33º aniversário da batalha de Cuito Cuanavale, quando guerrilheiro cubanos se juntaram aos angolanos para derrotar o regime do apartheid na África do Sul.

Tripulação de tanque cubano em Angola. Wikimedia Commons.

Março de 2021 marcou o décimo oitavo aniversário da invasão do Iraque, uma guerra ilegal cujos autores têm ainda de responder à justiça. A fracassada tentativa de mudança de regime pelo governo Bush e os efeitos destrutivos do conflito por todo o Oriente Médio transformaram a Operação Liberdade do Iraque (Operation Iraqi Freedom) em um símbolo dos limites do poder estadunidense e da estupidez do intervencionismo militar – uma lição que o establishment da política externa de Washington insiste em ignorar.

Menos lembrado, mas tão importante quanto, é o trigésimo aniversário da batalha de Cuito Cuanavale, que entre março de 1987 e junho de 1988 testemunhou soldados cubanos e angolanos lutarem contra a Força de Defesa da África do Sul (SADF) no maior confronto militar da África desde o fim da II Guerra Mundial. O confronto subjugou o governo sul-africano, que foi eventualmente forçado a abrir mão de seu controle sobre o sul de Angola e aceitar a independência da Namíbia. Essas concessões, com o tempo, ajudaram a acabar com o regime do apartheid.

Além de uma batalha decisiva, Cuito Cuanavale também representa um final culminante para a política externa de Fidel Castro na África, que entre 1963 e 1991 testemunhou uma sucessão ambiciosa de intervenções em dezessete países, envolvendo centenas de milhares de soldados cubanos, médicos e assistentes sociais. Embora esses empreendimentos tenham sido imperfeitos, a sobreposição de ambos os aniversários oferece a oportunidade de contrastar a brutalidade estéril das intervenções ocidentais com uma tradição notável de internacionalismo.

Independência e Internacionalismo

O relato mais detalhado das intervenções cubanas na África é encontrado nos estudos de referência de Piero Gleijeses, Conflicting Missions and Visions of Freedom (Missões Conflitantes e Visões de Liberdade). Gleijeses aponta que o apoio de Castro aos movimentos de independência africana surgiu de uma combinação de realpolitik e idealismo. A disposição da União Soviética de contornar Havana e fechar um acordo com os EUA durante a crise dos mísseis de 1962 tornou os líderes cubanos dolorosamente cientes de que seu país poderia se tornar uma moeda de troca entre superpotências. Assim, buscaram impulsionar os movimentos revolucionários no exterior na esperança de que ganhassem poder e proporcionassem fontes alternativas de apoio a Cuba. Como explicou o líder revolucionário Víctor Dreke, “Cuba se defende atacando o agressor”.

Os vizinhos latino-americanos da ilha pareciam a escolha óbvia para exportar o foquismo, a teoria guevarista da revolução de guerrilha, mas esse plano logo encontrou dificuldades. Uma série de empreitadas decepcionantes, juntamente com a reticência da União Soviética em alienar os governos da região e o lançamento da Aliança para o Progresso de Kennedy, representaram obstáculos formidáveis. Com a captura e o assassinato de Ernesto Che Guevara em 1967 na Bolívia, o foco em uma revolução latino-americana chegou ao fim.

Ao mesmo tempo, Cuba estava se envolvendo mais na África. Interveio pela primeira vez na região entre 1961 e 1965, enviando suprimentos, instrutores médicos e militares para apoiar a Frente de Libertação Nacional da Argélia em sua luta pela independência e subsequente guerra de fronteira com o Marrocos. A experiência exemplificou a veia idealista da política externa cubana, atraindo a hostilidade de Charles de Gaulle em um momento em que os recursos da ilha eram escassos. “Foi como um mendigo oferecendo sua ajuda”, observou José Ramón Machado Ventura, que dirigiu a missão médica de Cuba, “mas sabíamos que o povo argelino precisava disso ainda mais do que nós e eles mereciam”.

A viagem de Che à África em 1964 demonstrou um compromisso cada vez maior com o continente, com cubanos apoiando movimentos anticoloniais na Guiné-Bissau, Cabo Verde e Congo, onde Guevara tentou organizar guerrilhas pessoalmente após o golpe contra Patrice Lumumba. Outras intervenções, como a assistência ao ditador da Guiné Ocidental, Francisco Macías Nguema, e o envio de 12 mil soldados para ajudar a Etiópia durante a guerra de Ogaden em 1978, pareciam ditadas pela dinâmica da Guerra Fria ao invés de um compromisso com a política emancipatória. De fato, as relações com Moscou – que fornecia apoio militar e logístico essenciais, bem como subsídios econômicos generosos – tornaram-se um fator determinante na política externa de Cuba. A União Soviética muitas vezes ditava as posições da política externa da ilha, como em 1968 e 1980, quando pressionou Havana a apoiar as invasões da Tchecoslováquia e do Afeganistão – este último um Estado não alinhado, numa época em que Cuba presidia esse movimento.

A impressão dos EUA de que Castro era um fantoche soviético, no entanto, estava longe de ser exata. Como assinala Gleijeses, “os líderes cubanos estavam convencidos de que seu país tinha uma empatia especial pelo Terceiro Mundo e um papel especial a desempenhar em seu nome. Os soviéticos e seus aliados do Leste Europeu eram brancos e, pelos padrões do Terceiro Mundo, ricos; os chineses sofriam da arrogância das grandes potências [. . .] Em contraste, Cuba não era branca, era pobre, ameaçada por um inimigo poderoso e, culturalmente, da América Latina e da África”. Castro também explorou sua fama pessoal e o histórico de Cuba como vitrine latino-americana do socialismo para alavancar a independência.

O melhor exemplo dessa autonomia veio em 1975, quando Havana se pôs a defender o Movimento de Libertação do Povo Angolano (MPLA) da ofensiva combinada de grupos armados rivais. A Operação Carlota – batizada em homenagem a uma escrava cubana que liderou um levante em 1843 – deu início a uma luta contra na África do Sul que durou até 1991, com a retirada das últimas tropas cubanas.

Angola conquistou a independência após a revolução de Portugal em 1974, mas o país foi dividido entre três grupos armados rivais. O MPLA, de tendência marxista, controlava a capital, Luanda, e era reconhecido por diplomatas e oficiais de inteligência dos EUA como a força mais competente. Mas enfrentou ataques da Frente Nacional para a Libertação de Angola de Holden Roberto (FNLA) e da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) de Joseph Savimbi. Apoiados pelo Congo de Mobutu, China, França e Estados Unidos, esses dois grupos estavam prestes a expulsar o MPLA de Luanda antes de 11 de novembro, o primeiro dia da independência. A SADF, que interveio militarmente para apoiar o avanço de Savimbi, esperava que sua marcha triunfal para a capital estabelecesse um regime amigável que salvaguardasse a ocupação da Namíbia pela África do Sul.

Contra esse cenário, Castro aprovou uma implantação emergencial de unidades de elite para defender áreas controladas pelo MPLA. Quando questionados pelas autoridades soviéticas sobre o momento da operação, os cubanos revelaram que seus navios e aviões – auxiliados pelos governos da Guiana, Barbados e Jamaica – já estavam a caminho. Eles haviam tomado a decisão sem consultar Moscou. “A intervenção das forças de combate cubanas foi uma surpresa total”, escreveu o frustrado Henry Kissinger, cujas ofertas anteriores de trégua foram substituídas por planos de contingência para “espancar” e “esmagar” a ilha, estabelecendo um bloqueio, minando seus portos e lançando ataques aéreos .

Como mostram documentos confidenciais tornados públicos, Kissinger temia um efeito dominó por todo o sul da África, com vitórias da esquerda em Angola e Moçambique pavimentando o caminho para o fim do domínio branco na Rodésia, Namíbia e África do Sul. Sua preocupação era bem fundamentada. A vitória do MPLA sobre a FNLA e a UNITA na batalha de Quifangondo – na qual as forças cubanas desempenharam um papel de liderança – galvanizou ativistas anti-apartheid na Namíbia e na África do Sul. “Na Rodésia, eles estão conversando e depois de dez anos não têm nada”, disse um homem negro de Soweto ao New York Times após a retirada da SADF em março. “Em Angola e Moçambique eles lutaram e venceram.” O levante de Soweto eclodiu apenas três meses depois.

Boxeando no fim do mundo

A guerra, no entanto, havia apenas começado. A África do Sul passou a década seguinte lançando ataques de suas bases na Namíbia para o sul de Angola, a qual transformou em uma zona-tampão. Savimbi manteve seu reduto em Jamba, no sudeste do país – uma região tão remota que é conhecida como a terra no fim do mundo. Dezenas de milhares de soldados cubanos ficaram presos mantendo uma linha defensiva no sul e sudoeste enquanto o MPLA lutava contra a UNITA e os remanescentes da FNLA. O impasse deixou Angola dividida e devastada pela violência.

Para piorar as coisas, os cubanos discutiam frequentemente com os conselheiros militares soviéticos, que forneciam e treinavam as forças do MPLA. Liderados por um veterano da Segunda Guerra Mundial, pressionaram os angolanos a desenvolverem brigadas de peso e a prepararem-se para um confronto decisivo com Savimbi e a SADF. Jorge Risquet e Leopoldo Cinta Frías, que comandaram a missão cubana, consideraram as táticas de guerrilha necessárias para o MPLA vencer a guerra civil enquanto as forças cubanas protegiam o país das incursões da SADF.

A abordagem soviética revelou-se desastrosa, com ofensivas sucessivamente desmoronando devido a problemas logísticos e ao controle do espaço aéreo pela SADF. Esta dinâmica atingiu um ponto crítico em março de 1987, quando, contra os avisos cubanos, o exército angolano lançou outro ataque malfadado à Jamba. Incapacitado pela artilharia e ataques aéreos sul-africanos, que logo recuou para a aldeia de Cuito Cuanavale. Savimbi e a SADF, sentindo a oportunidade de uma vitória definitiva, pressionaram seus calcanhares. Enquanto o Conselho de Segurança exigia a retirada da SADF para a Namíbia, Ronald Reagan deu apoio diplomático à África do Sul. Cuito resistiu graças aos reforços angolanos e cubanos de última hora.

O cerco se arrastou de forma inconclusiva, e o destacamento cubano acabou aumentando para 55 mil – um enorme compromisso para um país de cerca de 10 milhões de habitantes. Castro, fazendo uma metáfora com o boxe, sugeriu transformar Cuito em uma armadilha para a SADF. “Indo para lá, nos colocamos nas mandíbulas do leão. Aceitamos esse desafio e, desde o primeiro momento, planejamos reunir nossas forças para atacar em outra direção, como um boxeador que bloqueia o golpe com a mão esquerda e com a direita ataca”. Enquanto o cerco prendia a maior parte da SADF no sudeste de Angola, as forças cubanas estavam se concentrando no sudoeste, preparando-se para avançar para a fronteira com a Namíbia.

A operação foi extremamente perigosa, com temores sobre as capacidades nucleares do regime sul-africano. Os soldados cubanos geralmente se moviam à noite em pequenas colunas para evitar a detecção. Após a construção da pista de pouso de Cahama, os pilotos cubanos puderam chegar à barragem hidroeléctrica do Calueque, que fornecia recursos essenciais para as operações da SADF. O bombardeio da barragem em 27 de junho de 1988 mostrou a superioridade aérea cubana e destruiu as esperanças de vitória militar da SADF .

O Acordo Tripartido, assinado por Angola, África do Sul e Cuba na sede das Nações Unidas em Dezembro de 1988, pôs fim ao envolvimento internacional em Angola. Também concedeu independência à Namíbia, de acordo com a Resolução 435 da ONU. Embora as perdas da SADF tenham sido modestas, a derrota teve um enorme custo estratégico. “Em Angola, as tropas formadas por negros – cubanas e angolanas – derrotaram as tropas formadas por brancos em transações militares, e essa vantagem psicológica, a vantagem que o homem branco gozou e explorou ao longo de trezentos anos de colonialismo e império, está se esvaindo”, escreveu um analista sul-africano na época.

Os líderes do Congresso Nacional Africano (ANC) concordaram com esta opinião. Ronnie Kasrils, chefe da inteligência do ANC, descreveu Cuito como “um momento decisivo histórico na luta pela libertação total da região do regime racista”. “Sem a derrota de Cuito Cuanavale, nossas organizações não teriam sido legalizadas”, reconheceu Nelson Mandela em uma visita a Cuba em 1991. “Cuito Cuanavale marca a divisão na luta pela libertação do sul da África.”

Representações convencionais da transição da África do Sul para a democracia muitas vezes sugerem que ela foi bem-sucedida graças à moderação de Mandela e sua disposição de aplacar seus antigos inimigos. As declarações de Mandela, no entanto, são um lembrete de que a luta para acabar com o apartheid exigiu um confronto violento contra o apartheid sul-africano. No Parque da Liberdade de Pretória, os nomes dos 2.070 cubanos que morreram em Angola permanecem inscritos ao lado dos de sul-africanos que morreram lutando contra o regime do apartheid.

A morte não foi em vão

Mas Cuba não estava apenas lutando contra a SADF. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, educadores e assistentes sociais prestaram serviços básicos aos angolanos. Missões médicas cubanas viajaram para as regiões mais isoladas de Angola para fornecer assistência médica. Cuba também acolheu refugiados angolanos e namibianos em internatos na Ilha da Juventude, um projeto educacional que acabou recebendo cinquenta mil crianças de quarenta e cinco países diferentes. Durante todo esse tempo, as autoridades cubanas mantiveram um perfil discreto – uma decisão tomada para evitar enfurecer os Estados Unidos, mas também para permitir que os africanos assumissem a liderança em suas próprias lutas.

Em muitos aspectos, a Operação Carlota é um exemplo de guerra justa: empreendida por uma causa justa e travada com uma preocupação genuína com os países envolvidos. Mas, para realmente aprender com seu exemplo, devemos reconhecer que, como qualquer outro conflito armado, foi repleto de contradições e erros.

Um dos maiores enigmas da intervenção é o destino dos generais que a comandaram. Em 1987, Rafael del Pino, um renomado veterano que serviu como chefe das forças aéreas em Angola, voou em um monomotor Cessna com sua esposa e filhos para a Flórida, onde se juntou à oposição. Ainda mais chocante foi o caso de Arnaldo Ochoa, o herói de guerra que liderou o avanço em direção à Namíbia, mas foi condenado à morte em 1989. Durante um julgamento televisionado, Ochoa se declarou culpado de abusar de sua posição para contrabandear diamantes, marfim e cocaína, em colaboração com o Cartel de Medellín. Em seu relato de 1999, o escritor cubano Norberto Fuentes, anteriormente próximo dos irmãos Castro, sugeriu que as principais autoridades orquestraram os acordos de contrabando com os colombianos e que Ochoa foi usado como bode expiatório para intrigas políticas. Verdade ou não, o episódio lançou uma sombra sobre os líderes cubanos e desanimou seus cidadãos.

As guerras africanas de Castro geram sentimentos mistos entre os cubanos comuns. Embora muitos tenham orgulho das realizações internacionais de seu país, eles também veem essas guerras estrangeiras como um projeto messiânico: impulsionado por graus de ego e idealismo, enquanto ignoravam preocupações mais prosaicas em casa. É inegavelmente impressionante que uma política externa tão ambiciosa tenha sido conduzida com os meios modestos da ilha. Mas essa disparidade tornou-se dolorosa após a guerra de Angola, quando a União Soviética entrou em colapso e os cidadãos cubanos suportaram uma década de dificuldades extremas. Em muitos aspectos, esses contrastes são microcosmos da política da ilha em geral, com as grandes conquistas da revolução na saúde e na educação desafiadas pelo bloqueio econômico e pela estagnação.

O estado atual de Angola também é desanimador. Embora o MPLA tenha habilmente liderado o movimento de resistência contra as autoridades coloniais, ele foi esvaziado durante a guerra civil. Com a morte do líder histórico Agostinho Neto e a remoção de seu número dois, Lúcio Lara, o partido tornou-se cada vez mais corrupto – uma fonte recorrente de frustração para os cubanos no país. Um golpe de Estado fracassado e uma guerra civil sem fim – travada com crescente brutalidade e que durou até a morte de Savimbi em 2002 – tornaram os líderes angolanos insensíveis e autocráticos. Quando deixou o cargo, em setembro de 2017, José Eduardo dos Santos havia presidido um petro-Estado com extrema desigualdade por quase quarenta anos. Em 2013, sua filha Isabel se tornou a primeira mulher bilionária da África .

Em uma época em que o capitalismo governa de forma incontestável, muitos outros estados africanos optaram por minimizar os laços anteriores com Cuba e se associar a investidores ocidentais ou chineses. A maioria dos movimentos revolucionários também não corresponderam às grandes esperanças que criaram ao lutar ao lado dos cubanos. Na Argélia, o golpe de 1965 contra Ahmed Ben Bella abriu uma era de autoritarismo; na Etiópia, a ditadura de Mengistu levou à fome em massa. O ANC também é deslegitimado pela corrupção, repressão e incompetência .

Não deveria haver nada de surpreendente na constatação de que as intervenções de Castro na África foram imperfeitas. Mas no aniversário da invasão do Iraque, e com os Estados Unidos se preparando para novas e mais devastadoras guerras de agressão, o papel de Cuba em Angola deve ser visto como um exemplo – talvez o único na história recente – de uma política externa que foi orgulhosamente intervencionista, genuinamente comprometida com a emancipação e, em muitos aspectos, bem-sucedida. Se quisermos discutir o internacionalismo no século XXI, há poucos lugares melhores para se começar.

Sobre os autores

é editor da política exterior e candidato a doutorado na University College Dublin. Ele mora entre Madrid e Dublin.

Sobre o autor

Jorge Tamames é editor da política exterior e candidato a doutorado na University College Dublin. Ele mora entre Madrid e Dublin.

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