Alípio Freire, uma ponte lúdica para a utopia

23/05/2021

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Há um mês falecia de Covid-19 o jornalista, artista plástico e ex-guerrilheiro baiano Alípio Freire. Brutalmente torturado na ditadura, Alípio manteve afiada sua inteligência revolucionária e esperança no futuro, convicto até o final que a transformação do mundo passa pela invenção de novos carnavais.

Alípio Freire em uma das saídas do Cordão da Mentira. Foto de Sato do Brasil / Jornalistas Livres.

Uma festa apinhada de gente, embalada por rocks antigos no som mecânico e a Cida Moreira no piano. O magrelo bigodudo curte – calça e camisa brancas, com botões abertos num decote frontal, paletó preto com estrela branca na lapela esquerda. É outubro de 1982, a reunião é da galera dos primeiros anos do PT, logo antes das eleições que garantiram os primeiros cargos ao partido.

O registro está no média-metragem documental “Nada Será Como Antes. Nada?” (1984), de Renato Tapajós. O baiano Alípio Freire, sobrevivente da ditadura ainda instalada no país, está solto – em todos os sentidos. 

Nós queremos a lua

Antes, Alípio havia feito parte da Ala Vermelha, dissidência do PCdoB que apostou na tática de guerrilha. Capturado aos 23 anos pela OBAN, foi torturado por três meses e ficou preso entre 1969 e 1974. Na festa gravada por Tapajós, o depoimento do comunista busca um sentido à luta daqueles dias:

“É construir uma ponte para utopia, uma sociedade em que em primeiro lugar serão expropriados todos os meios de produção, seremos todos os trabalhadores proprietários do meio de produção. Isso é necessário, mas isso não é suficiente. É necessário que desde já a gente recoloque a questão da felicidade, do prazer. Uma revolução radical na sociedade que não fale da felicidade, do prazer, que não fale da possibilidade de todos nós, reconhecendo todas as diferenças, podermos conviver enquanto trabalhadores, não terá cumprido seu papel.

Somos uma crítica viva e real ao socialismo existente, e a retomada de toda a raiz libertária que foi esquecida por vários movimentos, esquecida porque, a partir de um momento, a classe operária tomou o poder no Estado e o Estado virou uma razão para a classe operária. É preciso que o Estado seja destruído, que a gente esqueça a razão de Estado, nossa referência não pode ser a instituição, nossa referência deve ser a massa em movimento, e esse movimento não são somente os movimentos reivindicativos, são as festas, é importante fazer festa.

Existe hoje aqui um grande discurso, como houve um grande discurso do dia 21 no Largo Treze, que é um discurso do grupo, que é um discurso do conjunto, que é o discurso do grupo, e que é o discurso da utopia – é o discurso da felicidade. Temos que nos comprometer desde agora, desde já, a construir a ponte pra nós chegarmos nessa felicidade, não dá pra deixar esses temas pra depois.

Não dá pra tratar só da economia, é preciso tratar do que vai por dentro de cada um de nós, é preciso tratar de toda a ansiedade, de todos os desejos, de toda a perspectiva e de todos os sonhos que temos dentro da gente, e que a classe trabalhadora toda em conjunto tem dentro de si. Isso é fundamental pra gente chegar lá, do contrário viraremos uns burocratas, uns velhos. Teremos um Estado na mão, um aparelho, uma máquina. Teremos um Estado forte, faremos guerras – e não faremos nada além disso. Daremos mais um sapato pra João, mais um vestido pra Maria, mas a felicidade não é só isso, embora isso seja indispensável pra felicidade. Nós queremos o sonho. Como diria Calígula, nós queremos a lua, algo que seja aparentemente impossível. E nós teremos a lua.”

A festa em que Alípio elaborava essa nova proposição para um programa contra-hegemônico brasileiro era uma entre as muitas que viriam a se impor como a prática radical de organização política que desenhava o, então novo, Partido dos Trabalhadores (PT). Àquela altura, nos escombros do regime militar, a celebração de uma sociabilidade libertária de esquerda era já terreno minado. Afinal, as experiências do socialismo real de corte soviético, e suas limitações frente às experiências do sul global, pareciam se empilhar com os desafios de um Brasil que começava a se recuperar de uma ditadura que ainda nem havia ido embora. Ainda assim, se impunha a coragem de se ter um mundo novo à mão, a ser construído. 

Aquele foi o ano em que os brasileiros retomaram o direito de votar em seus governadores – algo que não acontecia desde 1965. Também era a primeira eleição, em muito tempo, que não se resumia apenas a ARENA e MDB. “Pela primeira vez na história recente do Brasil, nós, trabalhadores, podemos votar em um partido formado por trabalhadores”, anunciava um panfleto do PT, assinado por Luiz Inácio da Silva, Jacó Bittar e Airton Soares.

Dois anos antes, em artigo na Folha de S. Paulo, o então professor da PUC-SP Paul Singer havia aprofundado o significado da diferença entre o PT e os demais. Em relação a PMDB, PTB, PDS, PP, continuidade de diferentes movimentos políticos, o PT era uma novidade com base na sociedade civil. “O propósito do PT é outro, ou seja, o de integrar na atividade política legal camadas sociais que dela estavam marginalizadas, sobretudo após 1964.”

Além da da fundação do PT, Alípio participou e fundou o jornal Brasil de Fato e, mais tarde, já nos anos 2010, o Núcleo de Preservação da Memória Política, que produziu seu documentário “1964: um golpe contra o Brasil” (2013). Foi editor do ABCD Jornal (1975-82) e da revista Sem Terra, do MST. Alípio foi artista plástico, publicou e organizou livros, e curou as exposições “A Luta pela Anistia: 1964 – ?” (2009) e “Insurreições – expressões plásticas nos presídios políticos de São Paulo” (2013). Atuou também no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e na Associação Brasileira de Imprensa. Em 2005, foi enfim anistiado pelo Ministério da Justiça.

Sem perder a esperança

Seu apreço à alegria e à imaginação pode ser encontrado em outro documento: um relato entregue à Comissão de Indenização dos perseguidos pela ditadura no Estado de São Paulo, onde relata sua prisão e as consequências da tortura. Alípio escreve ali que, das marcas provocadas pelos torturadores, quase todas sumiram – graças às táticas para evitar provas.

Algumas coisas restaram. Entre elas, um calo ósseo na primeira costela superior esquerda em consequência de fratura, surdez parcial do ouvido esquerdo, perda do primeiro molar inferior direito, uma lesão traumática da coluna na região sacro-lombar. Mas restou também sua inteligência, que “continuou sempre a funcionar“, e a esperança que “não se perdeu, bem como um profundo senso e desejo de justiça e o amor pelo nosso povo e todos os povos”.

Embora a celebração de uma sociabilidade organizada em torno da vida, e da festa, e do desejo como invenção talvez possam remeter a pensadores canônicos da Nova Esquerda dos países do norte, como Fromm ou Marcuse, o pensamento de Alípio é coisa nossa. As fagulhas que ele ainda acende, o questionamento radical da burocracia e da ordem consumista do pós-guerra, é o viver libertário de alguém que sabe que sobreviveu ao pau-de-arara, à violência de uma ordem de controle que teima em alimentar a nostalgia de uma ditadura militar, e que, ao mesmo tempo, sabe que o pau-de-arara também sobreviveu – como ele fazia questão de denunciar.

É a paradoxal alegria e celebração da vida de alguém que sabe que essa violência está sempre a um fim de imaginação de distância. Que o risco está na normalização de uma subjetividade desidratada, domesticada, brutalizada. Na redução da existência social à lógica estrita do consumo e ao cinza do limbo entre o quase desperto do relógio de ponto. E que a ação para transformar o mundo só vale a pena na invenção de novos carnavais. Em novas, incondicionais, experiências de vida e de liberdade.

Sobre os autores

Crise Crise Crise é formado por Amauri Gonzo, André Maleronka, Tiago Soares e Vinicius Felix.

Sobre o autor

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