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Maurice Bishop, primeiro-ministro de Granada (segundo de L), caminha com (L-R) Michael Manley, primeiro-ministro da Jamaica; Kurt Waldheim, secretário-geral das Nações Unidas; e o presidente cubano Fidel Castro, durante cerimônias de chegada a Cuba em 2 de setembro de 1979, para a Cúpula de Países Não-Alinhados. (Bettman via Getty)

Como uma revolução na pequena ilha de Granada abalou o mundo

POR
Tradução
Guilherme Ziggy

O revolucionário Maurice Bishop nasceu neste dia em 1944. Ele foi responsável pela a revolução social mais notável da história moderna do Caribe anglófono. Hoje, lembramos não apenas a crise e a invasão norte-americana que pôs fim à Revolução Granadina, mas também suas tremendas conquistas.

Deixei Granada no final de setembro de 1983 para começar a trabalhar em minha tese sobre a revolução que estava ocorrendo lá como estudante de doutorado na Universidade das Índias Ocidentais em Mona, com a intenção de voltar a fazer pesquisas adicionais no ano seguinte, sem qualquer aviso prévio do desastre que se seguiria nas próximas semanas. Escrevo, portanto, com a perspectiva e inclinação de quem viveu e trabalhou na revolução em seus últimos dias.

Apesar de ser revigorante os novos escritos nos últimos anos, há, no entanto, uma certa estrutura narrativa da revolução estabelecida e solidificada que é mais ou menos assim: Em 1979, o Movimento New Jewel (NJM), liderado por Maurice Bishop, derrubou o regime de Eric Gairy e nomeou-o primeiro-ministro de Granada; quatro anos e meio se passam; então, houve uma crise de liderança que precisamos entender e atribuir responsabilidades; a própria crise explica a revolução. Podemos, portanto, encontrar os culpados e chegar a uma de duas conclusões: ou evitar a ideologia no futuro, as táticas, ou até mesmo as próprias pessoas que foram culpadas de espoliar o processo, ou, inversamente, evitar a revolução por completo, mais uma vez, se provando que nesse assunto, Saturno sempre devora seus filhos.

É claro que não há nada intrinsecamente errado em tentar entender as origens e o curso da crise de 1983. Isso é necessário e muito do meu próprio trabalho em Granada tentou, de forma angustiante, repassar esses momentos para tentar entender o que deu errado. No entanto, este exercício inevitavelmente obscurece a realidade do dia-a-dia de cerca de quatro anos e meio – mais de 1.670 dias do experimento social mais notável no Caribe anglófono desde sua emancipação em 1838. Meu argumento é direto: é que perdido nos detritos da tragédia de 1983, houve iniciativas que foram além de qualquer experiência tentada em qualquer lugar na história do Caribe anglófono. E se no futuro devemos repensar e reconstruir um Caribe que seja voltado para os interesses do povo, devemos aprender não apenas com o que a Revolução de Granada fez de errado, mas também o que fez de certo.

Vivendo a revolução

Primeiro devemos traçar o que chamo de momento sublime da revolução. Foi Marx quem considerou as revoluções as locomotivas da história, ou seja, o veículo mais rápido possível para instituir mudanças na linguagem descritiva (locomotivas) de seu tempo. E foi William Woodsworth quem, em suas conhecidas referências aos primeiros dias da Revolução Francesa, escreveu as famosas linhas:

Ventura, em tal alvorecer, era estar vivo
Mas ser jovem era o paraíso!

Claro, o que se seguiu à Revolução Francesa, a guilhotina, as guerras, Napoleão e a restauração da monarquia, é conhecido por todos. Mas o que significava viver em um momento real de convulsão popular, quando os pilares de uma velha sociedade se dissolvem e, por um momento, tudo que é sólido se desmancha no ar? O que significava acordar pela manhã e as possibilidades de um novo mundo, de mudanças dramáticas e transformadoras, serem colocadas à mesa pelos próprios líderes do levante, que proclamam que a revolução em curso é pelo trabalho, pão e dignidade?

Para muitos pobres, especialmente os jovens de Granada, a revolução de 13 de março de 1979 foi um novo dia. Vamos relembrar algumas de suas vozes.

Esta é Patsy Romain, vendedora, com 26 anos em 1981:

Em 13 de março, seguido da mensagem quando a revolução assumiu o controle da estação de rádio, marchamos até nossa Delegacia de Polícia local em Birchgrove – cerca de 200 de nós, a maioria mulheres – e pedimos à polícia para hastear a bandeira branca. Em seguida, assumimos posições em diferentes áreas, cozinhando para nossos soldados, transmitindo mensagens e mantendo guarda – e também ficando de olho em quaisquer planos contrarrevolucionários.

Participei de muitos simpósios e convenções para mulheres e comecei a notar que em Byelands as mulheres não eram organizadas, embora fossem partidárias da revolução. Então, organizamos uma reunião e formamos um grupo N.W.O [Organização Nacional de Mulheres] lá.

O grupo olhou para as necessidades e os problemas daquela região. Havia encanamentos sem torneiras, então, as mulheres tinham que carregar água por um longo caminho até suas casas. Por isso, fomos ao Ministério das Comunicações e Obras para solicitar torneiras e as recebemos em alguns dias. Esse foi nosso primeiro ganho concreto. Então, tivemos um problema com as estradas. Byelands tinha sido completamente negligenciada por Gairy, então nos juntamos à Associação de Agricultura, o N.Y.O, a milícia, o Grupo de Apoio ao Partido e fizemos uma reclamação conjunta ao mesmo ministério. Portanto, a estrada começou a ser consertada. E passamos nossas próprias manhãs de domingo em trabalho comunitário, limpando ralos e cortando galhos secos.

Aqui, o relato de Roy Cooper, um pedreiro de 40 anos:

Quando a revolução aconteceu, a saudei com glória. Foi o único processo democrático que conseguiu resgatar o povo da pobreza e do atraso. Depois, fui trabalhar na pedreira de Queen ‘s Park. Gairy havia fechado as obras, então o Partido decidiu dar trabalho ao povo. Tivemos que refazer tudo. Mas os trabalhadores estavam muito felizes quando reabrimos entendendo tudo muito melhor. E tivemos muitas melhorias. Há mais disciplina, os trabalhadores perceberam que deviam trabalhar duro para que a revolução prosperasse e seus filhos tivessem uma boa vida…

… Temos 75 mulheres trabalhadoras aqui e elas são particularmente gratas pela lei contra a exploração sexual. Tínhamos um capataz que tentou seduzir uma delas antes de lhes dar trabalho e, certa vez, bateu em uma trabalhadora no serviço. Nós demos uma coça nele e ele foi despedido imediatamente. As mulheres ficaram contentes. Elas viram isso como outra revolução!

E por último, Theresa Simeon, de 60 anos, que morava nos Estados Unidos e voltou para Granada:

Quando a Revolução aconteceu, eu estava nos Estados Unidos. Então voltei para cá, queria muito compensar por não ter estado aqui. Comecei a ir aos comícios. O primeiro que fui foi com Kaunda [presidente da Zâmbia], e fiquei tão impressionada que nunca tinha visto pessoas tão juntas e unidas assim antes em Granada.

Eu estava pensando em como poderia ajudar. Sabia que precisávamos de muito dinheiro e me perguntei como poderia levantar algum. Então, em novembro de 1979, ouvimos sobre a ideia do Aeroporto Internacional. Reuni todos os meus amigos, e vinte e dois de nós nos encontramos e decidimos formar o Comitê de Desenvolvimento do Aeroporto de St. George…

Todo esse envolvimento mudou muito minha vida, sabe, e todos os membros do Comitê falavam a mesma coisa. Estávamos muito mais envolvidos na revolução e sempre éramos chamados a ajudar.

Cheguei em Granada pela primeira vez no verão de 1981. A revolução tinha apenas dois anos, mas já havia passado por grandes desafios, entre eles o confronto com os Rastas em Tivoli, o fechamento do jornal Torchlight e, mais violentamente, o atentado em Queen’s Park, no qual uma tentativa de assassinato da liderança do Governo Popular Revolucionário (PRG) resultou tragicamente na morte de três meninas e centenas de outros feridos.

No entanto, vindo do primeiro ano de Edward Seaga e do triunfo do conservador Partido Trabalhista da Jamaica nas eleições jamaicanas em 1980, e da drástica guinada para a direita na política jamaicana, havia ainda uma sensação palpável de energia, entusiasmo e possibilidade de futuro no ar. A agenda diária e semanal de atividades era implacável. Houve a inauguração de novas instalações, como a construção das fábricas Sandino financiada pelos cubanos, a estação de rádio Beusejour, o novo sistema de transporte público do Serviço Nacional de Transporte e, abrangendo todos eles, as obras do aeroporto internacional de Point Salines, que estava transformando uma área incrivelmente montanhosa e pantanosa no sul da ilha, no que seria uma pista para jatos comerciais em tamanho normal.

Granadinos se manifestam em apoio ao novo Governo Popular Revolucionário, março de 1979. (Governo de Granada)

Tudo isso foi intercalado com conferências internacionais de solidariedade, entre elas a Conferência de Intelectuais de 1981, que reuniu escritores e pensadores caribenhos de toda a região da diáspora e chefes de Estado, entre eles o presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, Samora Machel de Moçambique, Daniel Ortega da Nicarágua, e (quando ele ainda estava no poder) Michael Manley da Jamaica. E também havia as personalidades famosas, entre elas Angela Davis, Harry Belafonte e o próprio George Lamming de Barbados. Nesse tsunami de atividades populares, em que multidões se misturavam à lideranças, tanto visitantes quanto locais, e em que os domingos de voluntariado para consertar estradas eram apenas mais uma desculpa para um comício, para trabalharmos juntos e nos unirmos, houve um afrouxamento perceptível da distância tradicional entre as formalidades do funcionalismo do Estado e o espaço de celebração do povo.

Se pensarmos na ideia de Mikhail Bakhtin sobre o carnaval como um espaço revolucionário, um espaço de transgressão e subversão, então, “a Revo”, como foi carinhosamente apelidada pelos apoiadores, era um carnaval de expressão popular e empoderamento por meio da mútua associação, da participação e do engajamento voluntário.

Em nenhum lugar isso ficou mais exposto do que na guerrilha. Digo isso com certa apreensão, sabendo que, de todas as dimensões da revolução de Granada, muitas das quais foram motivo de preocupação no resto do Caribe “decente, normal e parlamentar”, aquela que causou a maior consternação era a política de armar o povo. Vamos recapitular a história: as origens da força militar no Caribe seguem uma linha ancestral ininterrupta que remonta à escravidão e às plantações. A noção de que o Estado detém o monopólio da força e do uso legal da violência era considerada sacrossanta. Essa proibição foi revirada de cabeça para baixo na Granada revolucionária, onde o povo recebeu armas para defender sua Revo, sem que o Estado aparentemente tivesse medo de que isso pudesse colocar em risco sua própria sobrevivência.

Para ilustrar esse ponto, fui testemunha da “Manobra dos Heróis da Pátria” de 1982, que foi projetada para ajudar a defender um ataque mercenário antecipado contra o país. Depois de um fim de semana de mobilizações e árduos exercícios com o intuito de evitar um desembarque de forças hostis na praia, “os heróis” terminaram com um enorme comício armado que ocupou dois campos de futebol em Seamoon, perto de Greenville, na costa leste. Minha estimativa aproximada é que estavam presentes talvez 10 mil membros armados, ou cerca de 10% de toda a população de Granada, isso pode ser um pouco impreciso, mas não muito distante do que realmente foi.

No entanto, o que era perceptível em meio à euforia e atmosfera carnavalesca em Seamoon, era a disciplina e a ordem. Nenhum tiro foi disparado. Ninguém se machucou. Me lembro que pouco depois disso, viajei para Trinidad e vi como os jornais e a televisão transformaram esse evento em uma exibição selvagem de banditismo. A distância entre a percepção de Trinidad e o que eu percebi ser o verdadeiro clima em Seamoon era equivalente à distância que a revolução havia levado o povo de Granada para além dos horizontes limitados da democracia liberal da Westminster caribenha.

De uma posição de extrema alienação do Estado sob o autoritarismo gayrita, os granadinos foram um pouco além para eliminar por completo as fronteiras entre o povo e o Estado. O poder popular deveria ser determinado não pelo frágil processo eleitoral a cada cinco anos, mas, em parte, pela própria posse dos meios de poder pelo povo. Porém, em um ponto ao qual voltarei novamente, essa transição foi jovem e terna e ela mesma estava sujeita a uma certa fragilidade. E, eventualmente, iria ruir por causa disso.

A transformação econômica

Se pouco tempo é gasto na literatura que reflete a própria revolução, menos ainda é gasto na observação da economia granadina como uma fonte de originalidade. Isso pode ser em parte devido ao triunfo absoluto das noções neoliberais nas décadas a partir de 1983 e às formas como as iniciativas tomadas em Granada as opuseram. No entanto, neste momento de colapso do castelo de areia neoliberal, vale a pena lembrar outro momento de recessão mundial no início dos anos 1980.

Quando todas as economias vizinhas estavam estagnadas, a economia granadina cresceu de forma robusta, reduziu drasticamente o desemprego e foi considerada, ironicamente pelo FMI e pelo Banco Mundial, um exemplo de desempenho. No entanto, não são esses indicadores surpreendentes em que eu quero me concentrar. Ao invés disso, gostaria de sugerir que há três lições a serem aprendidas com Granada: a primeira é a necessidade de vivacidade e flexibilidade na liderança; a segunda é a questão da credibilidade; e a terceira é a importância da democracia e da transparência.

Sobre a questão da liderança: quando o primeiro manifesto do NJM foi lançado em 1973, a agenda econômica sugeria, seguindo a influência do Grupo do Novo Mundo e da escola dependente, uma substituição de importações, abordagem baseada no desenvolvimentismo comunitário. No entanto, durante a década até 13 de março de 1979, ficou claro que tal modelo seria politicamente difícil de ser implementado e defendido em uma ilha acostumada a um nível de consumo relativamente alto.

Colocado de forma crua, um modelo tendendo para a autarquia provavelmente aliena a maior parte da base de apoio do PRG, interrompendo qualquer tentativa de mudança transformadora. A decisão a que se chegou foi passar para um modelo de desenvolvimento de infraestrutura liderado por investimentos estrangeiros, pela construção do aeroporto e seguido por estradas, porto marítimos, habitações e assim por diante. Isso foi sensato, pois não apenas era o sonho da maioria dos granadinos, mas também fornecia um objetivo concreto e alcançável em torno de quais empréstimos mobilizar do exterior e gerar mais apoio no país e na região.

Claro, havia inúmeras perguntas a serem feitas, por exemplo, o que aconteceria depois que o aeroporto fosse concluído e as linhas de investimento estrangeiras razoavelmente extensas acabassem? E, se a hostilidade de Granada aos Estados Unidos continuasse inabalável, de onde viriam os turistas nos novos jatos que agora poderiam pousar no aeroporto? A questão aqui é que a capacidade e a disposição da liderança para se adaptar as exigências da economia global, que renderam enormes benefícios na escolha do modelo de aeroporto em primeiro lugar, e essa flexibilidade era um bom presságio para o futuro.

Certamente, à luz disso, outras viradas em resposta a novas exigências seriam possíveis, considerando especialmente  o fato de que uma pequena ilha precisava de injeções de capital relativamente pequenas para mudar a economia. Tudo isso, é claro, se tornou discutível com a tragédia de outubro de 1983.

O segundo ponto de credibilidade do regime diz respeito a um aspecto central da revolução, embora seja insuficientemente iluminado: sua honestidade. Quando o PRG chegou ao poder, os funcionários públicos, acostumados com o autoritarismo e a arbitrariedade de Gairy, se prepararam para uma demissão, se não pior. Isso não aconteceu e, nos meses seguintes, muitos trabalhadores pós-Gairy apoiaram o PRG apenas por esse motivo. Paralelamente a isso, a decisão consciente de evitar o favoritismo mesquinho e a corrupção, como no caso do antigo apoiador do NJM Ralph Thomas, que exigiu um emprego e favores e foi prontamente expulso do partido como resultado, muitas vezes ganhou apoio relutante.

Isso ficou mais evidente nas negociações com o FMI e o Banco Mundial, que, como observou Claremont Kirton, que trabalhou como economista do PRG, sabiam por longa experiência quando os acordos estavam sendo feitos, mas isso nunca foi percebido no caso do PRG; e embora seja difícil de quantificar, não existe uma narrativa confiável de corrupção da liderança encontrada nos arquivos ou em qualquer literatura à respeito.

O último fator diz respeito ao surgimento de um novo tipo de economia, baseada na democracia e na responsabilidade. Mais do que em qualquer outro lugar do Caribe até aquele momento, a revolução buscou trazer as pessoas para o processo de planejamento e gestão econômica. Por meio de um processo em camadas críticas, propostas e respostas que começou nos conselhos zonais, subiu aos conselhos paroquiais e terminou nos debates sobre o orçamento nacional (dos quais três foram realizados), o ministério da Economia (e seu modelo econômico) estava lentamente sendo desvendado. Parte disso já está evidente nos trechos citados anteriormente, mas vamos retornar brevemente às vozes dos granadinos enquanto eles se engajaram no ato profundo para compreender sua economia e vida e ajudar a determinar seu próprio futuro. Primeiro, o resumo do “Relatório da Reunião do Conselho de Trabalhadores de St. Patrick, de 18 de fevereiro de 1982”:

Simpósio 1:

1. Mais trabalho comunitário deve ser feito nos finais de semana nas estradas do país. Materiais e mão de obra técnica devem ser fornecidos pelo PRG.

2. Mais alimentos locais devem ser cultivados, por ex. ervilhas, vegetais etc., visto que muitos destes estão agora a ser importados.

3. A produção de cocos deve ser aumentada. Novas plantações devem ser estabelecidas, assim como 1-2 acres de terra ociosa em grandes propriedades podem ser usados para esse propósito.

4. A preparação de um peixe salgado de textura mais macia deve ser considerada. Mais vendas podem ser alcançadas se isso for feito.

5. Deve-se fazer mais uso do composto para reduzir o uso de fertilizantes artificiais, economizando divisas.

E em segundo lugar, este “Simpósio 3 de Agricultores do Conselho da Paróquia de St. David, de 15 de fevereiro de 1982”:

1. O que foi responsável pela queda na fabricação, atacado e varejo de hotéis e restaurantes?

2. Para determinar se há crescimento ou declínio, de onde eles obtêm o primeiro valor?

3. Como o consumo conseguiu cair em 1981?

Sugestões:

a. Construir uma fábrica de cimento.

b. Ao invés de subsidiar o peixe salgado, subsidie as taxas de água, uma vez que o custo do peixe salgado é tão alto e o homem comum não pode comprá-lo.

c. Fiscalização e controle rigorosos sobre o uso do transporte público, pois afeta os agricultores nos termos de impostos.

d. Subsídios aos agricultores.

e. Os agricultores estão pagando muitos impostos.

Eu gostaria de poder continuar. Não é que todas essas sugestões fossem sábias e implementáveis, embora, de fato, muitas delas fossem. Em vez disso, o que é evidente é a erosão gradual da barreira entre os especialistas e as pessoas comuns, entre os produtores e pessoas designadas para gerenciar, de forma que empoderou ambos e começou a lançar as bases para um tipo diferente de economia. Isso significou uma transformação não apenas na noção de quem é capaz de tomar as decisões, mas também na divisão da responsabilidade pelas decisões boas e ruins que segue inevitavelmente com a divisão do poder.

Questões políticas

É de acordo comum, no entanto, que foi a política, não a economia, que levou ao fim da revolução, com frações no NJM, muitas vezes percebidas como decorrentes do desejo de poder, levando a tentativas fatais de reajustar o Estado na direção da noção falha de “liderança conjunta”, que viu uma disputa de controle entre o primeiro-ministro Maurice Bishop e vice-primeiro-ministro Bernard Coard. Todavia, quero seguir um caminho um pouco diferente ao tentar rastrear como a noção de vanguarda leninista passou a dominar o partido como estratégia política e como serviu ao momento insurrecional de 1979, mas como posteriormente se tornou seu oposto e contribuiu muito para o desastre de 1983.

O manifesto de 1973 do NJM, ao qual já nos referimos, concebeu uma estratégia política ao longo de linhas vagamente adaptadas da obra de C.L.R. James, como uma estratégia construída em torno de assembleias populares. Estas foram concebidas como órgãos de poder popular, localizados em aldeias e vilas, e apresentadas como uma alternativa ao aparato governamental tipicamente centralizado da democracia parlamentar ao estilo de Westminster. De contorno um tanto vago, uma característica se destaca: não havia lugar na estrutura para partidos políticos. Esse afastamento partidário, mesmo no momento da redação de um manifesto de partido, foi, imagino eu, adotado e se tornou uma tendência recorrente da esquerda caribenha à medida que evoluiu a partir do momento do Novo Mundo/Black Power da década de 1960.

Dessa perspectiva, mais do que implicitamente influenciada por James, os partidos políticos em geral eram parte do problema, não parte da solução. Então, foi a política bipartidária que dividiu o povo em facções guerreiras, ou tribos, se você preferir, e o propósito da política revolucionária era transcender essa divisão e unir as “tribos” como uma população inexpugnável. Os perigos do poder monolítico consubstanciado no ditado de que “o poder corrompe e poder absoluto corrompe absolutamente” estavam longe da imaginação dos jovens radicais que, particularmente no contexto granadino e gairyta, compreenderam exatamente como a democracia parlamentar poderia ser abusada e as eleições corrompidas para beneficiar as elites.

Uma segunda característica digna de nota foi a história da derrubada dos regimes democráticos pela CIA e pelas forças locais de direita na América Latina e no Caribe. Em 1954, Jacobo Árbenz na Guatemala e Juan Bosch em 1965 na República Dominicana eram conhecidos, mas os dois exemplos mais imediatos foram a derrubada de Salvador Allende no Chile em 1973 e solapamento em seguida do governo de Michael Manley por técnicas refinadas de desestabilização, seguidos pela punição com sanções econômicas até que uma derrota em eleições “livres e justas” fosse inevitável. Isso levou à visão dominante no NJM, mas também em outras organizações de esquerda e no Caribe, de que os partidos que não estivessem preparados para a mais completa e determinada resistência ao imperialismo iriam sofrer uma derrota vergonhosa.

Coloquemos essas inclinações ideológicas e táticas com combustível para uma história específica em Granada de dezembro de 1973 até a primavera de 1974, quando houve uma revolta contra a ideia de Gairy levar o país à independência, porque sentiam que seus abusos de poder, legiões sob os britânicos, teria agora um domínio ainda maior sem a presença da Coroa. Camadas enormes da população foram mobilizadas, o país parou, as pessoas foram brutalizadas e o pai de Maurice Bishop foi morto. No entanto, não apenas Gairy continuaria no comando, mas ele venceria e, contra a vontade popular, levaria o país à independência. A liderança do NJM estava convencida de que a tática de mobilização popular que os conduziu durante os anos turbulentos de 1973-74 foi insuficiente frente ao que consideravam uma ditadura em consolidação.

O que parecia fornecer as ferramentas organizacionais e táticas apropriadas era uma interpretação muito específica do leninismo, que incluía o seguinte manual.

Em primeiro lugar, de acordo com esta abordagem, a mobilização popular por si só não poderia derrotar Gairy, pois não havia funcionado antes. Em segundo lugar, embora a tática de contestar as eleições devesse continuar, Gairy nunca cederia à vontade popular por meio de um processo eleitoral sobre o qual ele tinha o controle final. Terceiro, portanto, formas clandestinas de organização deveriam ser postas em atividade para remover Gairy se e quando chegasse o momento apropriado. Não se podia esperar até este momento para iniciar o processo de organização. Quarto, para sustentar simultaneamente uma organização legal parlamentar e uma organização clandestina militar, particularmente no contexto da pequena e porosa Granada, onde todos sabiam de tudo, era necessário desenvolver um quadro secreto de membros do partido altamente disciplinados em quem poderia haver confiança absoluta. Quinto, como em qualquer organização insurrecional, a disciplina e a ordem deveriam sempre triunfar sobre a democracia e o debate.

Nada se ajusta mais apropriadamente a essa estrutura do que o leninismo, como veio a ser popularmente entendido, com sua ênfase na seletividade de quadros (“menos, mas melhor”), disciplina (centralismo democrático) e disposição para se engajar em táticas insurrecionais clandestinas quando necessário. A noção jamesiana de assembleias populares não foi tanto derrotada quanto posta de lado, porque não parecia fornecer um conjunto confiável de ferramentas para um momento de insurreição.

E a tática leninista aplicada em Granada teve, a princípio, resultados impressionantes. A vontade de adaptar as formas jurídicas e participar plenamente nas eleições levou ao surgimento do NJM como partido dominante na aliança que levou Bishop a se tornar líder da oposição em 1976. Enquanto ele, e o partido em geral, contestaram os resultados e argumentaram que havia fraude maciça, ele agora ocupava uma posição constitucional e tinha acesso à exposição nacional, regional e internacional sem precedentes. Quando foi alegado que Gairy havia planejado prender e encarcerar a liderança da Jewel nos dias que antecederam o 13 de março de 1979, o outro elemento da nova abordagem ganhou destaque: a força insurrecional clandestina foi mobilizada e o poder foi ocupado.

O apoio popular do NJM e a aversão generalizada ao gayrismo garantiram que nos dias seguintes à revolução o poder se consolidasse, com centenas de pessoas, como sugere Patsy Romain, tomando as ruas e colocando seus corpos em risco em apoio à Revo.

Aqui, entretanto, é onde o enredo devia ter mudado. Lênin, na conjuntura peculiar de tomada de poder em São Petersburgo em outubro/novembro de 1917, entendeu que o tamanho e a estrutura restrita do partido bolchevique, projetados inicialmente para operar sob a repressão czarista e a clandestinidade, não poderiam funcionar nas novas condições que estavam surgindo. Os requisitos para adesão foram afrouxados e milhares de novos quadros foram atraídos para o partido.

Em Granada, a percepção da necessidade de um modelo inteiramente novo veio muito tarde. O partido, por grande parte dos quatro anos e meio, agora era obrigado não apenas a governar a si mesmo, mas a governar um país com todas as suas complexidades, estava totalmente despreparado para isso. Apesar dos esforços heróicos, quadros sobrecarregados se cansaram e adoeceram. As tarefas muitas vezes não eram cumpridas. Outros deixaram o partido.

Em particular, em várias ocasiões no processo, mas com urgência crescente em 1982 e 1983, as mulheres do partido protestaram contra a falta de tempo disponível para elas passarem com seus filhos e famílias. Como argumentaram, era possível recrutar outras mulheres e homens para o partido quando o partido era cada vez mais percebido nas comunidades como irresponsável com sua própria casa em virtude de sua preocupação com os deveres partidários?

Foram os protestos das mulheres, junto com outros sinais de fracos esforços na vanguarda sobrecarregada, que levaram não a um repensar de toda a utilidade do vanguardismo, mas sim a uma redução dos próprios princípios que levaram o partido à sua ponte de desintegração em 1983.

Rangers do Exército caem de pára-quedas em Granada durante a invasão do país pelos Estados Unidos em 25 de outubro de 1983. (Exército dos Estados Unidos)

Foi, portanto, esta decisão falha de reafirmar a “correção” inflexível do leninismo que foi o pano de fundo para as reuniões do partido em meados de 1983 e para as propostas de liderança conjunta altamente falhas que levaram, pelo menos retrospectivamente, à prisão domiciliar de Bishop, os assassinatos em Fort Rupert e a invasão dos Estados Unidos.

As revoluções são, inevitavelmente, períodos carregados de grande perigo e incertezas. Em seu momento de triunfo, a velha ordem está temporariamente prostrada, mas uma grande hostilidade ao regime permanece, tanto interna quanto internacionalmente. As chances de consolidação inicial e sucesso são mínimas, e o próprio ato de afirmar a autoridade para sobrevivência se torna a assinatura definitiva e frequentemente negativa de uma revolução.

No entanto, se a breve história da Revolução de Granada deve servir de lição, então perdida em seu final trágico com a invasão dos Estados Unidos, é uma narrativa que remonta à emancipação e à luta pós-escravidão pela auto governança negra. Esta é uma história de criatividade, afirmação popular, autodeterminação e libertação que precisa ser lembrada e contada com urgência.


Todas as citações foram tiradas de dois livretos produzidos pela Fedon Publishers em Granada durante a revolução: “Is freedom we making” (editado por Merle Hodge e Chris Searle) e “To constructo from morning”.

Sobre os autores

é chefe de estudos da Africana na Brown University.

Cierre

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Published in América Central, Análise and Revoluções

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