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Manifestação em 2014 na Suécia, com grande presença de militantes do Partido da Esquerda ( Vänsterpartiet). Foto: Editorial do Avanti (Suécia)

Para além do modelo sueco

POR
Tradução
Everton Lourenço

Os debates contemporâneos ressaltam o legado da social-democracia no pós-guerra como uma época idílica. A Suécia é um bom exemplo para demonstrar a promessa e os limites do estado de bem-estar social.

UMA ENTREVISTA DE

Michal Rozworski

Entrevista por
Michal Rozworski

Muitos dos debates na esquerda contemporânea remetem ao legado da social-democracia. Alguns anseiam por um retorno a essa época aparentemente idílica, enquanto outros apontam o que ela tinha de inadequado e nos incentivam a olhar para além do Estado de bem-estar social.

Visto que a experiência sueca no pós-guerra foi a que chegou mais perto de cumprir os ideais social-democratas, ela é extremamente instrutiva nessas discussões.

Michal Rozworski conversou com Petter Nilsson, do Partido da Esquerda da Suécia ( Vänsterpartiet ), sobre a social-democracia em seu país e seu significado mais amplo. A entrevista foi condensada e editada para melhorar a compreensão.


MR

A Suécia ainda é vista por muita gente em todo o mundo como um modelo de Estado de bem-estar social, mas ela passou por mudanças drásticas durante as últimas duas décadas. Você pode dar um breve resumo do que significa olhar para a Suécia, como você já disse, “sem ilusões”?

PN

Nós temos uma piada na esquerda sueca de que todo mundo gostaria de ter o modelo sueco, e talvez os suecos gostariam de tê-lo mais do que ninguém. O que é considerado como sendo o modelo sueco atingiu o seu pico talvez no final dos anos 70, início dos anos 80 e, desde então, passou pelos mesmos desenvolvimentos que o resto da Europa com a onda neoliberal.

Como a Suécia começou esse processo partindo de um alto nível de compressão salarial e de igualdade em termos de gênero, ela ainda é muito igualitária em comparação com outros países europeus. Ainda assim, ao mesmo tempo, nós temos o crescimento mais acelerado das diferenças de classe dentro da OCDE.

Quando os sociais-democratas deram uma guinada à direita por volta de 1986, muitos dos desenvolvimentos ocorridos em outros países europeus chegaram à Suécia em uns poucos golpes rápidos. Em apenas alguns anos, tivemos grandes aumentos nas diferenças de classe e isso afetou nosso sistema universal de bem-estar social.

Esse sistema sempre foi baseado na alta compressão dos salários, que incluía a classe média no mesmo sistema de bem estar social que as demais pessoas. Seus membros sentiam que, como a qualidade dos programas de bem-estar era tão alta, eles estavam dispostos a pagar impostos para financiá-los. Mas assim que o financiamento para os serviços públicos é cortado, a qualidade cai e a classe média opta por migrar para soluções privadas.

MR

O que acontece quando se sai desse círculo virtuoso que cria igualdade e que conquista apoio para serviços públicos de alta qualidade? Como a sabotagem dos serviços públicos leva a um tipo diferente de círculo vicioso?

PN

Há um equívoco sobre o estado de bem-estar social nórdico, de que ele só teria sido possível devido ao alto nível de confiança da população. Nos últimos anos, pesquisas têm mostrado que na realidade um dos efeitos do sistema de bem-estar universal é que as pessoas passam a confiar mais umas nas outras e então o sistema de bem-estar social se torna um reflexo ainda mais profundo dessa confiança.

Mas se você olhar, por exemplo, para os trabalhos mais polêmicos de Milton Friedman, ele diz que se você quiser cortar o sistema de bem-estar social, você deve cortar os recursos e manter o sistema em déficit por alguns anos para que a qualidade caia – e então as pessoas não terão interesse em defender o serviço público.

Na verdade, é isso o que a direita normalmente faz quando chega ao poder: corta o financiamento para que, por exemplo, a qualidade das escolas públicas caia e depois propõem escolas privadas. As pessoas começam a dizer: “Bem, se as escolas públicas são tão ruins, então temos de ter uma alternativa privada para aqueles que podem pagar.” Isso é um ataque ideológico e uma estratégia explícita para minar a confiança no sistema público de bem-estar social.

Ao mesmo tempo, na Suécia, entre 80% e 90% do público diz que estaria disposto a pagar um nível mais alto de impostos para financiar níveis mais altos de bem-estar social. Portanto, a expectativa de programas de bem-estar social ainda é bem alta – eles apenas não estão sendo impulsionados por nenhum outro partido político além do Partido de Esquerda.

MR

O que você acha que explica essa desconexão entre o alto nível de apoio ao sistema de bem-estar social e a disposição de pagar por ele, por um lado, e o que está realmente acontecendo politicamente, pelo outro?

PN

Na Suécia, os sociais-democratas estiveram no poder por mais de oitenta dos últimos cem anos. Eles tinham um projeto político. A ideia era formar uma população homogênea e igualitária. Havia também uma estratégia de verdade para eliminar capitais menos competitivos e, portanto, para transferir fundos para setores mais produtivos. A Suécia teve talvez a estratégia fordista mais bem-sucedida entre todos os países.

Isso produziu algo único. Nós tínhamos um partido social-democrata no poder com um Estado social-democrata que produzia pessoas com uma mentalidade social-democrata. No final da década de 1970, esse arranjo se chocou com contradições. Algumas coisas pararam de funcionar: os salários eram mantidos mais baixos nas empresas privadas que tinham a maior produtividade, para transferi-los para o setor público, mas as corporações acabaram tendo superlucros.

Os fundos dos assalariados foram uma proposta para resolver esse conflito. A Suécia havia alcançado a democracia política com o direito ao voto; tínhamos uma democracia pública, com o estado de bem-estar social; e então passaríamos a ter democracia econômica, por meio do que na prática seria a compra das corporações para a classe trabalhadora.

Para encurtar a história, os limites da estratégia fordista tornaram-se aparentes no final dos anos 1970. O estado de bem-estar sempre foi “comprado” com os ganhos de produtividade. A divisão entre os trabalhadores e o capital permaneceu basicamente a mesma, mas o nível de crescimento da produtividade era tão grande que era possível comprar ganhos para o estado de bem-estar social, embora o capital mantivesse o mesmo nível de lucros.

No início dos anos 70, houve uma onda de greves “selvagens” [por fora dos sindicatos estabelecidos]. Era um protesto contra esse modelo que funcionou tão bem entre, digamos, 1932 e 1979. Depois disso, os Sociais-Democratas se tornaram um partido tradicional, da social-democracia da Terceira Via. Eles estabeleceram uma meta de inflação, permitiram que o desemprego crescesse e a Suécia se tornou um país europeu tradicional.

O que acontece a seguir é que os partidos de direita, que nunca haviam sido capazes de se unir até então, o fazem. Eles obtiveram muito sucesso e venceram duas eleições consecutivas, o que era inédito. Isso polariza o sistema político sueco, e os sociais-democratas então sentem que precisam reconquistar os eleitores indecisos de classe média que foram para a coalizão de direita.

MR

Como é a luta pelo futuro do estado de bem-estar social sueco, então? Vocês estão voltando sem nostalgia por algo que já passou, ou será que terá de ser algo diferente?

PN

Acho que existe um perigo em ficarmos nostálgicos com o estado de bem-estar social sueco. Eu cresci no auge do estado de bem-estar social sueco e, em muitos aspectos, era uma sociedade melhor do que a que temos hoje. Ao mesmo tempo, ela estava repleta de contradições internas.

A Nova Esquerda de 1968 tinha muitas críticas ao estado de bem-estar social que não devemos esquecer: que era centralizado e burocratizado, que era difícil promover mudanças. Não devemos retornar a isso.

Ao mesmo tempo, os próprios sociais-democratas não entendem a genialidade do estado de bem-estar social: ele produziu uma sociedade que tinha uma subjetividade coletiva. Havia instituições dentro da sociedade que “interpolavam” (por falta de um termo melhor) as pessoas como uma entidade coletiva. Porém, se você tem privatizações e um modelo baseado no consumo, as pessoas passam a atuar como sujeitos econômicos neoliberais.Para avançar, precisamos defender o que resta do estado de bem-estar social como uma espécie de fronteira do que pode ou não ser privatizado e do que a direita política pode alcançar. Ao mesmo tempo, temos que começar a pensar em outros tipos de empreendimentos coletivos que possam produzir uma sociedade que, na próxima etapa, impulsione um Estado de bem-estar social mais coletivo e universal – e terão de ser novas formas. As grandes questões são: como produzir uma nova forma coletiva e universal de subjetividade? Que tipo de instituições serão capazes de produzi-la? E como elas poderiam sobreviver a derrotas eleitorais?

Sobre os autores

é membro do Centro para Estudos Sociais Marxistas e trabalha em Estocolmo para o Partido de Esquerda da Suécia.

pesquisa e escreve sobre sindicalismo. É co-autor, junto de Leigh Phillips, de A República Popular do Walmart (em breve no Brasil, pela Autonomia Literária).

Cierre

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Published in Austeridade, Economia, Entrevista, Europa, Política and Trabalho

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