Como os EUA tentam sufocar Cuba – ao invés de ajudar

19/07/2021

Por
Francisco Dominguez

Tradução
Cauê Seignemartin Ameni

Por 60 anos, Cuba viveu sob o cerco da nação mais poderosa do planeta, negando-lhe alimentos, remédios e material de construção. Sob Trump os EUA impuseram mais 243 sanções e hoje pelo menos 54 grupos de oposição ao regime são financiados pela USAID e NED – enquanto o país luta para diminuir os impactos da COVID e enviam mais de 3.700 profissionais da saúde para ajudar 39 países.

No mês passado, as Nações Unidas votaram numa esmagadora maioria para que os EUA suspendesse o embargo. Apenas os EUA e Israel votaram não. (Ucrânia, Colômbia e Brasil de Jair Bolsonaro foram as únicas abstenções.) E 184 nações votaram sim. (Foto de Observador)

Em uma ação evidentemente bem coordenada, em 11 de julho de 2021, grupos de opositores ao governo fizeram manifestações em várias cidades cubanas, notadamente em Havana. Segundos depois da manifestação, a grande mídia mundial estava a todo vapor divulgando os acontecimentos.

Essa explosão social é um acontecimento incomum em Cuba e ainda mais surpreendente foi a intensidade e a violência desdobrada pelos manifestantes (vandalismo, agressão a funcionários, saques e ataques a prédios públicos), que lembra os protestos na Venezuela em 2014 e 2017 e na Nicarágua na última tentativa de golpe em julho de 2018.

Ficou claro que esses grupos de oposição estavam executando a conhecida tática venezuelana de guarimba (distúrbios de rua violentos e orientados pela mídia). Os protestos foram imediatamente respondidos por mobilizações de massa em apoio à revolução em Cuba, imagens das quais foram apresentadas como antigoverno por meios de comunicação como o The Guardian (embora tenha, posteriormente, retificado o erro).

As razões para os protestos de rua foram a escassez de alimentos, medicamentos, fornecimento de eletricidade e combustível que sobrecarrega a vida diária dos 11 milhões de cubanos da ilha com graves dificuldades. Isso inclui filas de comida e combustível, apagões de eletricidade, queda na receita e dificuldades econômicas em geral.

Os cubanos têm preocupações genuínas com a deterioração da realidade socioeconômica em seu país, causada principalmente pela intensificação drástica do bloqueio dos EUA sob o governo do ex-presidente Donald Trump. Joe Biden, apesar das promessas eleitorais de restaurar as boas relações como fez Obama, não agiu para aliviar essa situação – e seus impactos aumentaram dramaticamente com a eclosão da pandemia Covid-19.

A pandemia dizimou o turismo em Cuba, a principal fonte de receita da ilha. Também interferiu no comércio e desacelerou a economia. Mas, além desses impactos na renda e nos alimentos, os cubanos também tiveram que enfrentar a escassez de medicamentos – gravemente afetada pelos efeitos do embargo – o que contribuiu para uma crise de saúde, notadamente em Matanzas.

A eleição de Donald Trump levou os EUA a reverter totalmente as decisões tímidas, mas positivas, de aliviar aspectos do bloqueio a Cuba sob o governo Obama. Sob Trump, os EUA impuseram 243 medidas coercitivas unilaterais adicionais (também conhecidas como sanções), incluindo o acréscimo de Cuba à lista dos Estados que patrocinam o terrorismo, o que representou uma intensificação brutal e totalmente injustificada da agressão dos EUA contra o povo cubano.

As sanções visam todos os aspectos da economia cubana. Elas proíbem o comércio com empresas controladas ou operadas por e ou em nome dos militares; proíbe os cidadãos dos EUA de viajarem a Cuba individualmente e em grupos para intercâmbios educacionais e culturais; retira a maior parte de seu pessoal da embaixada dos EUA em Havana, levando, entre outras coisas, a suspensão do processamento do visto; permite que cidadãos norte-americanos entrem com litígios contra entidades cubanas que “trafegam” ou se beneficiam de propriedades confiscadas pela revolução cubana desde 1959; proíbe navios de cruzeiro e outras embarcações de navegar entre os EUA e a ilha; proíbe voos dos EUA para cidades cubanas que não sejam Havana; suspende voos fretados privados para Havana e impede que cidadãos norte-americanos permaneçam em estabelecimentos ligados ao governo cubano ou ao Partido Comunista; coíbe o envio de remessas dos EUA para Cuba (a Western Union teve que encerrar suas operações na ilha); procura bloquear o fluxo de petróleo venezuelano para Cuba aplicando sanções a companhias de navegação e companhias petrolíferas estatais de Cuba e Venezuela; proíbe as autoridades cubanas de entrar nos EUA por suposta cumplicidade em abusos dos direitos humanos na Venezuela e muito mais.

Tudo isso se soma às condições existentes que tornam muito difícil para as empresas internacionais que operam nos EUA de fazer negócios também com Cuba, o que significa que o bloqueio na realidade não é apenas uma questão de mão dupla. As sanções visam causar o máximo de sofrimento, exatamente como o bloqueio foi projetado para fazer no infame Memorando Estadual 499 dos EUA de 1960:

O único meio previsível de alienar o apoio interno é o desencanto e o descontentamento com base na insatisfação econômica e nas adversidades […] todos os meios possíveis devem ser empreendidos prontamente para enfraquecer a vida econômica de Cuba […] uma linha de ação que, embora tão ágil e discreta quanto possível, faz as maiores incursões na negação de dinheiro e suprimentos a Cuba, para diminuir os salários monetários e reais, para provocar a fome, o desespero e a derrubada do governo.

Em 2018, a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL) informou que o embargo financeiro e comercial dos EUA a Cuba custou à economia do país US$ 130 bilhões.

A pandemia da Covid-19, além disso, teve um impacto extra na economia cubana. As chegadas de turistas estrangeiros diminuíram em mais de 90% no período 2020-2021, causando estragos na economia. As receitas de divisas vitais foram cortadas, e o vibrante setor de serviços que surgiu com a expansão do turismo foi quase totalmente encerrado. O número total de chegadas de turistas estrangeiros em 2019 foi de 4.275.558, enquanto em 2020 foi de apenas 1.085.920; mas a queda em maio de 2021 foi em média de 96%.

Seria ingênuo, senão hipócrita, acreditar que, como parte da estratégia de sanções de Trump contra Cuba, funcionários e estrategistas da Casa Branca não incluíram um plano de desestabilização. Sem dúvida, estamos testemunhando parte disso hoje com a violenta manifestação de rua coordenada e combinada com uma ofensiva de mídia social liderada pelos EUA. Durante anos, muitos milhões fluíram dos EUA para o bolso dos oponentes da revolução cubana – sob Trump, esse número aumentou, e os impactos disso em um momento de crise mais ampla não podem ser subestimados.

A temida USAID e o National Endowment for Democracy (NED) financiaram, desde a chegada de Donald Trump ao cargo em 2017, pelo menos 54 grupos que se opõem à revolução cubana. O financiamento deles totalizou quase US$ 17 milhões, mas o número é provavelmente muito maior quando você considera que as “estratégias de construção da democracia” estão isentas de divulgação, se blindando na Lei de Liberdade de Informação dos EUA (FOIA).

O financiamento dos EUA para a “promoção da democracia” em Cuba está envolto de sigilo e os destinatários desse financiamento não são conhecidos, nem como eles o usam. A USAID e a NED financiam jornalistas digitais, grupos de promoção de “direitos humanos”, organizações de participação cidadã, cantores e rappers de hip-hop, acadêmicos, artistas e assim por diante. Não estão incluídos nos 54 grupos quem é contratado e subcontratado, nem quantos cubanos recebem dinheiro, mas o Diretório Democrático Cubano, por exemplo, informou ter pago 746 contratos diretos e 1.930 subcontratos em 2018.

Ou seja, uma organização de oposição entre os 54 conhecidos financiados pela USAID em Cuba informa ter pago mais de US$ 150.000 a mais de 2.500 ativistas. Este tipo de financiamento pode ajudar a explicar o alto grau de homogeneidade e coordenação exibida nas redes sociais dos locais onde a manifestação teve uma natureza não pacífica.

Não é surpresa que Cuba, como muitas outras nações latino-americanas antes dela, enfrente um ataque à sua soberania nacional. Afinal, vimos nos últimos anos como o golpe de Estado na Bolívia teve pleno apoio do Ocidente. Na maioria das vezes, esses acontecimentos são executados internamente, mas liderados, organizados e financiados externamente.

Além da USAID e o NED, políticos conservadores de direita, como Marco Rubio, Ted Cruz e as organizações republicanas de Miami nos EUA, assim como Bolsonaro, Alvaro Uribe e Luis Almagro no continente mais amplo, atacaram o regime cubano e defenderam os “manifestantes”. O objetivo é atuar como defensores da “democracia” e estabelecer narrativas na mídia internacional. Marco Rubio fez um apelo ao presidente Biden para intervir contra Cuba e criticou o movimento Black Lives Matter por emitir uma declaração de apoio a Cuba e condenando o bloqueio dos EUA.

Por outro lado, os governos da Argentina, Bolívia, Nicarágua, Venezuela, México, o grupo de países ALBA, mas também Lula, Dilma Rousseff, Pedro Castillo, o Grupo Puebla e o Foro de São Paulo deixaram claro que se opõem à interferência externa nos assuntos interno de Cuba. Exigiram o fim do bloqueio como condição para a necessária melhoria da situação econômica do povo da ilha. As fronteiras internacionais sobre este assunto entre progressistas e conservadores não poderiam ser mais claras.

Nunca uma intervenção dos EUA (sob qualquer pretexto) trouxe algo semelhante à democracia para a América Latina. Repetidamente, seus esforços resultaram em ditaduras, privatizações em massa e violência brutal contra os mais pobres. Em contraste, apesar de seus muitos problemas e imperfeições, em 60 anos a Revolução Cubana se tornou um farol de solidariedade e generosidade em todo o mundo – comprometendo-se a apoiar a causa da justiça mesmo quando suas próprias circunstâncias muitas vezes são difíceis.

Nos últimos anos, o programa médico conjunto de Cuba e da Venezuela, Operação Milagre, levou mais de 4 milhões de operações oftalmológicas gratuitas em pessoas pobres com catarata e doenças oculares relacionadas. Seu internacionalismo médico fez com que, até o momento, “Cuba tenha enviado cerca de 124.000 profissionais de saúde para prestar assistência médica em mais de 154 países” e, desde março de 2020, mais de 3.700 médicos, enfermeiras e técnicos cubanos se ofereceram para ir a 39 países (incluindo a Itália) para ajudar a combater a pandemia Covid-19.

A única solução de longo prazo para os problemas de Cuba é o abolição imediata e incondicional do bloqueio dos EUA. Essa é a demanda do mundo, expressa por todas as Assembléias Gerais da ONU desde os anos 1990, é a demanda do direito internacional e é a demanda mais justiça.

Sobre os autores

é chefe do Grupo de Pesquisa na América Latina na Middlesex University. Ele também é secretário nacional da Campanha de Solidariedade à Venezuela e coautor do livro "Right-Wing Politics in the New Latin America" (Zed, 2011).

Sobre o autor

Francisco Dominguez é chefe do Grupo de Pesquisa na América Latina na Middlesex University. Ele também é secretário nacional da Campanha de Solidariedade à Venezuela e coautor do livro "Right-Wing Politics in the New Latin America" (Zed, 2011).

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