Donald Rumsfeld foi um feroz guerreiro do “livre mercado”

08/07/2021

Por
Jonah Walters

Tradução
Marianna Deus Deu

O alto escalão de guerra norte-americano é repleto de megalomaníacos sanguinários. Mas poucos eram tão desequilibrados quanto Donald Rumsfeld, cujo apetite pela violência imperialista combinada com seu fanatismo pelo livre mercado, junto com Milton Friedman, produziu um dos mais espetaculares fracassos em toda história militar dos EUA.

O secretário de Defesa Donald Rumsfeld fala aos soldados em Fort. Bragg, Carolina do Norte, 2001. (Marc J. Kawanishi / Getty Images)

Em toda minha vida não vi nenhuma outra figura personificar de forma tão poderosa o militarismo vaidoso e cruel com uma arrogância derradeiramente autodestrutiva como Donald Rumsfeld.

Não apenas porque ele foi um monstro que conduziu os EUA a duas guerras inconcebíveis baseadas essencialmente em seu romântico desdém pela razão, mas pela sua relutância em reconhecer qualquer realidade para além daquela criada por suas próprias ações. Que ele era esse tipo de monstro, é verdade obviamente, mas dificilmente era o que o tornava único no establishment da política externa dos EUA, onde Rumsfeld foi como uma luz-guia por cerca de cinco décadas.

Rumsfeld simbolizou a patologia peculiar do moderno militarismo dos EUA melhor do que qualquer um porque, em aspectos fundamentais, o efetivo militar voluntário [All-Volunteer Force] foi um objeto deturpado de sua própria invenção. Obviamente ele não estava sozinho nessa elaboração. Mas as forças voluntárias foram concebidas sob as diretrizes de Rumsfeld, e trinta anos depois no Iraque, chegaram a um ápice, também sob sua supervisão.

As contradições expressas nas forças armadas modernas também estavam no homem que, desde 1975-77 e novamente em 2001-06, as comandou como secretário de Defesa. Não é coincidência que o fracasso épico das Forças Armadas norte-americana no século XXI também foi o fracasso pessoal que definirá para sempre o próprio Donald Rumsfeld. O pequeno homem e o poderoso exército foram ambos forjados pelas tensões intransponíveis, empalados na mesma espada.

Refazendo as Forças Armadas sob princípios de mercado

Pode ser estranho lembrar disso agora, mas no início de sua carreira política, Donald Rumsfeld, junto com Milton Friedman, foi um dos mais proeminentes opositores ao alistamento obrigatório nos EUA.  Tão cedo quanto 1966, quando ele ainda era um novato congressista de Illinois, Rumsfeld ficou próximo de uma coalizão de políticos e ideólogos conservadores que, segundo a historiadora Jennifer Middelstadt, “incorporaram os militares em uma visão mais ampla de governos enxutos e princípios de livre mercado.”

A mais duradoura contribuição da coalizão para a sociedade norte-americana, explica Middelstadt, foi “a redefinição das forças armadas como uma instituição de mercado”. E para pessoas como Rumsfeld, o alistamento obrigatório, ao criar pressões sociais externas ao livre mercado, era empecilho para aquele projeto idealista e obscuro.

Rumsfeld era contra o recrutamento obrigatório não porque era um crime horrendo, mas porque, da perspectiva do capital, na verdade, o alistamento isolava os militares da disciplina da sociedade de mercado.

Isso não significa dizer que as Forças Armadas que foram esculpidas por Rumsfeld eram auto interessadas, tal como é uma corporação; sua motivação não é puramente o lucro, apesar do que pode parecer devido às preocupações com racionalização de custos e a alta dependência de empresas privadas. Nem significa que as Forças Armadas de Rumsfeld foram uma arma objetiva e livre de encargos, que poderia ser livremente guiada pelos planejadores do capital norte-americano (apesar do que, novamente, parece ser o caso).

Para Rumsfeld, as Forças Armadas eram uma “instituição de mercado”, no sentido de terem se tornado um instrumento de regulação do mercado de trabalho e um campo de atuação ilimitada da elite. Rumsfeld era contra o recrutamento obrigatório não porque é um crime horroroso – uma prática frívola e cruel que deformou gerações inteiras ao desperdiçar incontáveis vidas – mas porque, da perspectiva do capital, na verdade, o alistamento isolava os militares da disciplina da sociedade de mercado.

Muito como a abolição do Estado de bem-estar foi pensada para libertar o capital de ineficiências socialmente impostas e acabar com o alistamento obrigatório tinha como objetivo liberar o Estado de segurança da infértil indecisão que Richard Nixon, mentor de Rumsfeld, pensava ser a característica definidora do “liberalismo da Grande Sociedade”. Tal como os líderes eleitos que eram contra a Guerra do Vietnã, soldados alistados eram, para Rumsfeld, amadores – e seu clamor indisciplinado na ponta de lança do poder durante e após a guerra se mostraram um contra-peso intolerável à discrição das mãos fortes dos planejadores estatais, que muito frequentemente eram forçados a limitar seu próprio poder ao ter que ceder perante demandas dos soldados por influência e pressões.

Rumsfeld confirmou, muitas décadas depois, em 2003, como ele se preparou para invadir o Iraque com uma força de combate considerada por ele muito mais confiável. Falando em oposição à um projeto de lei de restauração do alistamento (de autoria de dois Democratas, Charles Rangel, de Nova York e John Conyer de Michigan), Rumsfeld afirmou que o alistamento absorvia “pessoas sem opções… no efetivo” das Forças Armadas, que “depois vão embora, sem realmente acrescentar nenhum valor, nenhuma vantagem, aos EUA.”

O Secretário de Defesa Donald Rumsfeld responde perguntas durante um painel de entrevistas, em 6 Out. 1976. Robert D. Ward / Wikimedia Commons

O alistamento obrigatório durante o Vietnã se tornou uma vulnerabilidade política e um desperdício de dinheiro: “Foi necessário um esforço gigantesco em termos de treinamento”, disse Rumsfeld, “e depois eles se foram”.

Quando grupos de veteranos responderam indignados, Rumsfeld se desculpou pelo desastroso comentário, mas não por seu conteúdo,  afirmando “é reflexo de uma perspectiva que já tenho há algum tempo: que nós devemos prolongar os períodos de campanha e carreiras de nossas forças voluntárias”.

Na visão de Rumsfeld – compartilhada por Friedman e tantos outros – um aparato militar disciplinado pelas estruturas de livre mercado era uma máquina mais forte e enxuta, exonerada de custos excessivos e eminentemente alinhada com a direção da elite. Mas a contradição integrada na ideologia de livre mercado foi de vez amplificada ao ser aplicada nas Forças Armadas dos EUA. Na ausência do serviço militar obrigatório, as Forças Armadas tiveram que cativar soldados para se alistarem – e isso significava competir no mercado com empresas privadas por insumos humanos, qualificados ou não.

Os termos do serviço militar são árduos: além do problema moral óbvio em se tornar um soldado, há todo um período longe de casa; os longos períodos de treinamento; a submissão absoluta à estrutura de comando com poder de lhe dar voz de prisão; a possibilidade sempre próxima de uma destruição pessoal irrevogável. Portanto, atrair recrutas exigia a ampliação de benefícios sociais sistematicamente negados ao restante dos trabalhadores norte-americanos.

Isso resultou em um pacote de direitos e subsídios que Jennifer Middelstadt chama de “Estado de bem-estar militar”: creche, assistência de saúde, moradia, ensino superior, crédito preferencial, remuneração para cônjuges e muitos outros bens coletivos se tornaram a recompensa que substituiu a punição do serviço obrigatório. 

Muito como a abolição do Estado de bem-estar foi pensada para libertar o capital de ineficiências socialmente impostas, acabar com o alistamento obrigatório tinha como objetivo liberar o Estado de segurança da infértil indecisão que Richard Nixon, mentor de Rumsfeld, pensava ser a característica definidora do liberalismo da Grande Sociedade. 

Para criar uma instituição discreta das elites, sejam Forças Armadas ou uma corporação, é necessário ampliar privilégios para ao menos parte das massas barulhentas; este é o preço que um líder paga por limitar a liberdade de seus sujeitos. Rumsfeld e sua turba sabiam disso, compreendiam isso na mesma forma visceral que um chefe sabe que sua força de trabalho deve se reproduzir de forma duradoura por meio de salários adequados, mas ao mesmo tempo a detesta com um tipo de paixão que jamais se ajoelharia perante a razão.

Quando Rumsfeld foi nomeado secretário de Defesa pela primeira vez, em 1975, por Gerald Ford, o primeiro desafio que enfrentou foi o esforço nacional da Federação Americana de Empregados Governamentais (AFGE) para sindicalizar as Forças Armadas. Este impulso de sindicalização da AFGE se iniciou contra uma campanha travada por fundamentalistas do livre mercado, como Friedman, para eliminar totalmente as funções de bem-estar dos militares.

Friedman, junto com um influente povaréu que incluía alguns generais, entendia que a emergência de Forças Armadas sob um “Estado-babá” nos anos após a 2ª Guerra Mundial teria as desracionalizado, ao impor ineficiências externas. Este Estado-babá, de acordo com Friedman e outros, não apenas alienava a classe média branca ao inscrever um grande número de alistados “não-tradicionais” em carreiras militares, como também distraía agentes de todos os níveis de sua tarefa fundamental de planejar e conduzir guerras, que em vez disso eram forçados a administrar as excessivas burocracias do bem-estar social.

O ímpeto de sindicalização da AFGE, curto porém explosivo, forçou administradores do departamento de Defesa como Rumsfeld a responder uma inquietante pergunta: em que medida combater guerras, de interesse nacional, era um trabalho? Ou mais diretamente, em que medida poderia ser regulado por uma legislação, ou pior, por negociação coletiva?

Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa dos EUA, após um teste de voo em um Avião de Bombardeiro B-1B, 1976. (Wikimedia Commons)

Rumsfeld se equilibrou entre negar a aplicação de critérios do trabalho civil para carreiras militares e manter a valorização exclusiva e irredutível do serviço militar. Neste sentido, ele concedeu que soldados tivessem direitos à recompensas especiais indisponíveis para trabalhadores civis, ao mesmo tempo em que garantia que administradores militares não poderiam ser restringidos pelas regulamentações do trabalho civil.

Ele refreou a proposta da AFGE de que soldados seriam análogos às outras categorias de funcionários federais. “É possível comparar um soldado de infantaria com um programador de computação?” disse ele em 1976. “É insultante e degradante comparar um soldado de combate, à postos durante 24h por dia e potencialmente sujeito à morte e lesões, com um civil ‘9h-17h’.”

Para que a Força Voluntária funcione como uma corporação, como Rumsfeld pretendia, as pessoas inscritas deveriam se manter em um Estado de suspensão forçada –  elas teriam bem-estar sem direitos.

Pagar aos soldados o que “valem”

Mas ele não conseguia se conter. Junto com o restante da coalizão que ele compunha, Rumsfeld persistiu em seus esforços para integrar melhor os militares dentro do mercado – geralmente ao erodir as funções de bem-estar dos militares por meio de privatização e realocação de gastos com encargos de pessoal para a modernização de tecnologias e armamentos.

Seu ato final como secretário de Defesa de Ford foi alertar que a URSS estava no caminho para se tornar “a potência militar dominante no mundo” e propôs um orçamento militar com grande aumento de gastos, com aumento salarial e concessão de pensão para soldados da ativa e aposentados –  uma concessão para generais que, nas palavras de um historiador, “se preocupavam com as futuras Forças Armadas, potencialmente compostas em sua maioria por recrutas sub qualificados advindos de baixos níveis socioeconômicos”.

Apenas um ano antes, o orçamento de Rumsfeld em 1977 havia cancelado uma alocação de aproximadamente US$ 150 milhões no fundo de pensão das Forças Armadas, favorecendo gastos com novas aeronaves e sistemas de mísseis.

Alguns anos antes, durante sua audiência de confirmação em 1977, Rumsfeld esboçou sua teoria para o orçamento militar ao antecipar substituições contraditórias como esta. Se dirigindo ao Comitê do Senado para Serviços Militares que incluía figuras como Barry Goldwater e Patrick Leahy, Rumsfeld disse que “não há dúvidas que o serviço [militar] nos EUA é incongruente” ao aumentar salários e benefícios de militares se isso “resulta na drenagem de fundos necessários para armamentos e para a capacidade de defesa deste país”.

“O perigo é a sociedade pensar que podemos ter os dois”, continuou Rumsfeld.

Não podemos. Ou pagamos as pessoas o que elas valem e assim temos os fundos necessários para os sistemas de armamento que são parte fundamental de nossa capacidade nacional, ou não. Mas não existe almoço grátis. Quando o Congresso decidiu se inclinar à uma força totalmente voluntária, temo dizer, o que aconteceu foi que as pessoas entenderam que elas poderiam ter ambas coisas.

O desdém de Rumsfeld por soldados da base era como o desdém do barão industrial do século XIX, enojado pela necessidade de pagar títulos para uso nas lojas da companhia: ele reconhecia a necessidade existencial de recompensar seus funcionários, mas também sempre desafiava e se queixava de tais recompensas.

Sob as objeções de Friedman, Rumsfeld foi indicado para se juntar a Ronald Reagan nas eleições de 1980. Ele usufruiu de uma longa estadia no serviço público, entrando na iniciativa privada para se tornar um pioneiro da doutrina do choque durante os anos 1980 e 1990. Mas mesmo na ausência de Rumsfeld, a tensão entre ampliar benefícios especiais e cortar gastos com pessoal continuava a levar um processo contraditório para dentro do departamento de defesa.

Como Middelstadt documenta, o Estado de bem-estar militar foi fustigado por repetidas ondas de privatização e cortes estratégicos nas décadas anteriores à Guerra ao Terror, e em resposta, uma ideologia paternalista de resiliência individual e superioridade social veio a dominar a cultura militar.

Mesmo no momento de sua concepção, os benefícios especiais do sistema militar de então, sempre esteve sob ataque. Geralmente este ataque era expresso ideologicamente, como uma espécie de preocupação paranóica sobre a suposta feminização das Forças Armadas.

“As Forças Armadas estão se envolvendo demais nos serviços de reabilitação social”, escreveu o representante Robin Beard (R-TN), em um influente estudo de 1978, que comparava as funções de bem-estar em serviço militar como de “babás”. “As Forças Armadas são uma máquina de combate ou apenas mais uma instituição social? Não podem ser as duas.”

Este tipo de crítica, que era muito difundida durante o mandato de Rumsfeld como secretário de Defesa ao final de 1970, se baseava no que se considerava uma fraqueza das Forças Armadas ao enfrentar adversidades, algo que conservadores como Beard e Rumsfeld, apontavam como culpada a má liderança e os efeitos amansadores da dependência do bem-estar das massas.

Mas mesmo sob Reagan, onde os direitos civis eram abandonados, as funções de bem-estar das Forças Armadas foram preservadas, em parte porque soldados e cônjuges conseguiram mobilizar uma ideologia cristã de obrigação familiar, compatível com a austeridade populista e escarpada de Reagan. Ao passo em que mesmo o liberal Jimmy Carter expressou graves preocupações acerca do tamanho do orçamento social militar, sob a direção de Reagan, onde despesas totais com cônjuges e outros benefícios seguiam crescendo. Em 1984, em uma proclamação definindo o 17 de abril como o Dia do Cônjuge de Militares, Reagan escreveu que cônjuges de militares, “como pais e cuidadores do lar… preservam o alicerce da força de nossa nação – a família americana”.

Forças armadas dos EUA. (Foto Sarg. Amy Picard)

Com Clinton no poder, velhas críticas tiveram uma nova repercussão com um especial desprezo pelo presidente, difundido por toda cadeia hierárquica de comando militar. Eles sentiam que Clinton demonstrou fraqueza em Somália e Ruanda, e sua excursão para Kosovo, de acordo com um artigo do New Yorker de 2006, deixou oficiais militares “profundamente céticos sobre o que chamavam de ‘operações que não sejam de guerra’”.

Que os oficiais atribuíssem à Clinton o suposto inchaço e ineficiência dos gastos com bem-estar dos militares, e não Reagan, ilustra a irracionalidade de sua crítica – de acordo com Middelstadt, a reestruturação orçamentária dos anos 1990 de fato “resultou em uma transferência sem precedentes dos serviços de apoio militar do setor público para o privado”.

George W. Bush indicou Rumsfeld como secretário de Defesa pela segunda vez em 2001 como ponta de lança para a desclintonização das Forças Armadas. O diretor do Joint Chief of Staff [Chefes de Estado-Maior] chamou Rumsfeld de “o homem certo para o trabalho neste novo século”. Rumsfeld, por sua vez, afirmou que sua grande prioridade era “fortalecer o laço de confiança com as Forças Armadas americanas”. E para Rumsfeld, fortalecer este laço de confiança significava aprofundar a relação entre atores privados e serviços de suporte militar.

A parceria público-privada de guerra

Esta estratégia de governo estava expressa mais obviamente na Guerra do Iraque, durante a qual, quase todos os aspectos dos esforços de guerra, do espetacular ao mundano, era organizado por meio de redes que confundem a distinção entre os setores público e privado.

Em aspectos importantes, a invasão dos EUA no Iraque foi a primeira guerra travada inteiramente por meio da parceria público-privada. Se o principal objetivo de Rumsfeld era integrar guerra ao livre-mercado, então a invasão do Iraque, desastrosa e incontrolável que fosse, era algo como sua utopia ideal.

O secretário de Defesa Donald Rumsfeld, junto ao embaixador no Iraque, L. Paul Bremer, no Aeroporto Internacional de Bagdá, Iraque, 2004. (pingnews / Flickr)

No período, havia uma certa ironia no infame comentário de Rumsfeld, que “você vai à guerra com as Forças Armadas que você tem, não as que você deseja”. Pronunciado em uma base no Kuwait no primeiro ano da Guerra do Iraque, Rumsfeld estava respondendo aos soldados cujas questões sugeriam que, no Iraque, elites como ele podem ter administrado mal o negócio da guerra. “Por que nós soldados temos que cavar em aterros sanitários locais para encontrar pedaços de sucata para blindar nossos veículos?” perguntou um alistado. “Por que não temos os recursos que estão prontamente disponíveis para nós?”

O retumbante aplauso à sua pergunta carregou consigo uma enxurrada de outras perguntas, não pronunciadas. Por que seus Humvees [tipo de blindado] eram tão insuficientes? Os soldados queriam saber. Por que lhes negavam as blindagens necessárias para aguentar as explosões de bombas à beira da estrada? Por que suprimentos vitais como ração alimentar e sabonetes foram confiados a empresas pouco fiáveis? Por que os oficiais de comando eram tão despreparados para organizar uma operação coerente de contra insurgência? E por que tantos soldados sendo enviados “para lá do arame farpado” para morrerem – explodindo com essas Humvees porcarias – apenas para transportar o combustível que energiza o Burguer King, Pizza Hut e Cinnabon em suas bases de operação? 

A resposta de Rumsfeld foi previsível e deselegante: “Isso é uma questão de física, não uma questão de dinheiro”. Para as Forças Armadas, não é uma questão de desejo. É sobre produção e capacidade. Ele concluiu com a frase ouvida ao redor do mundo: ressoou no Kuwait, Fallujah, Kabul e dezenas de lugares em todos os continentes onde soldados dos EUA se perguntavam acerca dos interesses de seu líder em preservar sua segurança. Rumsfeld, que em 1975 disse para um subcomitê do Senado que esperar pagamentos adequados e armamentos avançados seria pedir por “almoço grátis”, agora disse para uma multidão de homens e mulheres vestidos com camuflados: “você vai para a guerra com as Forças Armadas que você tem, não as que você pode querer ou deseja ter em um momento posterior.”

No final, ele não tinha nem como se justificar e nem sentiu que deveria. As Forças Armadas agora estavam no mercado, eram do mercado. Ele as governou como um executivo que governa uma empresa – com absoluta discrição, responsável por assegurar eficiência e manter o controle. Se ele realizou isso por meio de parcerias mutuamente benéficas com empresas privadas, isso era sua prerrogativa. Qualquer falha nesta estratégia era o resultado de condições de mercado, não déficits de administração – e, como em qualquer disputa trabalhista, estas condições de mercado insatisfatórias eram um fardo a ser suportado pela classe trabalhadora, bem como pela que a empregava.

Afinal de contas, ninguém forçou os soldados a estarem ali. Eles também eram atores de mercado, Rumsfeld lembrar-lhes, e eles fizeram suas escolhas. Poderiam dizer o mesmo sobre seus irmãos, primos e amigos em casa? Ao ponto de Rumsfeld sugerir que se os descontentes soldados no Iraque fossem apontar culpas, não era da elite, mas de outros membros, mais ociosos, de seus próprios postos sociais.

Rumsfeld e seus parceiros desviaram a responsabilidade pela catástrofe da guerra para longe das elites como eles, direcionando-a para a população norte-americana, soldado e civil, que eles consideravam como o seu parceiro atrasado e efeminado.

Este desrespeito, idealizado em austeridade, pelo custo humano da soldadura, também se traduziu nas políticas de guerra de Rumsfeld. Mesmo quando membros do Congresso, generais, planejadores militares e outros, insistiram que milhões de dólares de alocações adicionais eram necessários para apoiar os esforços de guerra, que já fracassavam no Iraque, Rumsfeld se tornou famoso pelo que o New York Times chamou de sua “abordagem espere-e-veja”.

Por anos, conforme o conflito se arrastava, Rumsfeld manteve teimosamente esperanças de que a vitória territorial e a retirada de tropas eram iminentes. Nenhuma dessas coisas aconteceu com ele no Pentágono, é óbvio, mas sua intransigência ajudou a estabelecer o padrão difundido de stop-loss deployment (por meio do qual soldados eram compelidos a se manter em serviço ativo mesmo depois de concluídos os termos de serviço), o qual, para muitos membros, definiu a experiência aterradora de lutar no Iraque.

Assim como, na visão deturpada de Rumsfeld, a “clintonização” ameaçava um retorno à esterilidade da era Vietnã, a fraqueza covarde do povo norte-americano também ameaçava os esforços de guerra no Iraque. Sua mensagem para os soldados era condescendente mas direta: se as Forças Armadas não são grandes o suficiente, não são fortes o suficiente para cumprir o que demanda a elite, não olhe para as elites em busca de respostas. Em vez disso, olhe para aqueles ao seu redor que ainda não se juntaram à irmandade das armas – e os pergunte por quê.

Para o detrimento de nossa sociedade, esta mensagem ressoou no front doméstico também. Isso era parte do peculiar horror em ser jovem e norte-americano durante os primeiros anos da Guerra ao Terror. Você tinha que assistir seus companheiros serem mortos ou mutilados, ou obrigados a seguir em serviço ativo repetidamente, em uma guerra incoerente que não prometia nenhum resultado positivo. Enquanto isso, o secretário de Defesa em pessoa se colocava perante à nação com seu característico sorriso arrogante e anunciando que, se você ainda não tinha se alistado, o retumbante fracasso era culpa sua.

A culpa é da nação norte-americana

Este óbvio desprezo que Rumsfeld sentia pelos soldados não pode ser separado de sua posição no topo da hierarquia de comando que o garantia poder para agir sem censuras ou barreiras. Da crista desta hierarquia, ele administrava uma corporação vigarista que insistia na superioridade social de sua própria força de trabalho – intimidando um país inteiro em uma rotina de temor e alerta que era, para soldados, seu próprio tipo de direito de bem-estar – enquanto também exercia aquele status especial, como um cassetete.

Por meio deste truque, Rumsfeld e seus parceiros desviaram a responsabilidade pela catástrofe da guerra para longe das elites como eles, a direcionando para a população norte-americana, soldado e civil, que eles consideravam como seu parceiro atrasado e efeminado.

Se tomarmos alguma coisa do legado de Rumsfeld, deve ser que guerras não devem ser administradas por executivos não integrados nas operações supostamente tranquilas do “mercado auto regulatório”.

Foi isso que ele fez quando acabou com o ímpeto de sindicalização da AFGE nos anos 1970; foi o que ele fez em 2003 quando insistiu que o fardo de reproduzir os esforços de guerra deve ser distanciado de seu escritório e colocado em soldados individuais por meio dos destacamentos obrigados a permanecer em serviço [stop-loss deployments]; e foi o que ele fez durante sua carreira no serviço público, cada vez que ele insistia no direito inalienável do Executivo de conduzir as guerras sem qualquer afronta ou questionamento daqueles que cujas vidas estão risco.

Rumsfeld será sempre lembrado como um dos grandes privatizadores do século XX – e com razão. Ele passou sua vida tentando integrar os militares no livre mercado por meio de cortes estratégicos em suas estruturas públicas. A enxurrada de interesses da iniciativa privada que correu para lucrar com as lacunas deixadas pelo dejetos do Estado, não era um efeito adverso deste processo, mas sim o princípio organizativo de todo o programa de Rumsfeld.

Muitos apontaram que o próprio Rumsfeld, assim como figuras como o ex-diretor da Halliburton, Dick Cheney, parece ter acumulado recompensas financeiras pessoais através da Guerra do Iraque. Mas a agenda de privatização de Rumsfeld era mais do que apenas um esquema para enriquecer seus amigos e aliados políticos.

Era também pura expressão de sua visão de mundo patológica e condescendente, a mentira que ele contava repetidamente para si e todos nós durante sua vida no serviço público: que guerras são travadas voluntariamente entre sociedades livres; que a violência nacional pode ser mobilizada através da infraestrutura neutra e apartidária do mercado; e que império e dominação são resultados naturais da agregação de decisões pessoais de pessoas auto interessadas, cada qual é fundamentalmente inviolável por uma entidade como o governo ou as Nações Unidas.

O que talvez nós chamemos de privatização é, para Rumsfeld, apenas o resultado de uma onda de guerra inevitável e irrefreável que emana do auto interesse natural do povo norte-americano – um tipo de momentum dirigido pelo mercado que ele, junto com outras elites, poderia direcionar e administrar, mas nunca poderia ser responsabilizado. 

O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, posa com membros de uma Unidade Policial das Forças Armadas dos EUA após chegar em Bagdá, Iraque, 2004. (David Hume Kennerly / Getty Images)

Em retrospectiva, agora é inegável que o corpo militar público-privado de Rumsfeld sempre foi uma projeção “utópica”, mais do que um objetivo viável. A devastação que o experimento de Rumsfeld levou ao Iraque e Afeganistão e aos milhares de norte-americanos enviados para lá lutar, seguirá viva nas próximas gerações. O The Guardian sintetizou Rumsfeld como o homem que “seguramente trouxe mais danos à reputação das Forças Armadas dos EUA do que qualquer outro secretário de Defesa”.

Mas mesmo esta crítica falha em capturar a tangibilidade das trevas no núcleo do legado de Rumsfeld. Como a hagiografia nos lembra, Rumsfeld foi o mais novo e mais velho secretário de Defesa na história dos EUA. Ele percorreu de lado a lado a Força Totalmente Voluntária [All-Volunteer Force]; quando jovem ele presidiu sua concepção, quando mais velho ele comandou o deteriorado navio, que rumava inevitavelmente contra as rochas.

As guerras no Iraque e Afeganistão nada conquistaram, mesmo de acordo com os critérios estratégicos do Estado de Segurança dos EUA. Se tomarmos alguma coisa do legado de Rumsfeld, deve ser que guerras não devem ser administradas por executivos não integrados nas operações supostamente tranquilas do “mercado auto regulatório”. Os homens que tentaram isso, Rumsfeld entre eles, produziram uma quantidade de morte e sofrimento que nenhum outro grupo de líderes políticos conseguiu igualar neste século. Nós ainda vivemos no mundo vil e traiçoeiro que eles produziram.

Rumsfeld morreu em 4 de Julho, um feriado cuja ostentação parece autorizar a cada ano o delírio da utopia no núcleo das Forças Totalmente Voluntárias [All-Volunteer Force]. Este ano, certamente, podemos esperar alguns momentos sóbrios de silêncio e a dramática salva de tiros para o ex-secretário de Defesa. Mas quando nos lembrarmos de Rumsfeld, também nos lembremos da inegável lição de sua vida no poder: guerras não podem ser dominadas, nem otimizadas, nem contidas. Elas apenas podem – e devem – ser prevenidas.

Sobre os autores

é doutorando em geografia na Rutgers, The State University of New Jersey.

Sobre o autor

Jonah Walters é doutorando em geografia na Rutgers, The State University of New Jersey.

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