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Sly Stone se apresenta durante o Harlem Cultural Festival de 1969. (Summer of Soul / Searchlight Pictures)

Summer of Soul é um retrato emocionante que chega com 50 anos de atraso

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Tradução
Guilherme Ziggy

Com a segurança feita pelos Panteras Negras das apresentações históricas de Stevie Wonder e Gladys Knight a Nina Simone e Sly and the Family Stone, o novo documentário de Questlove sobre o Harlem Cultural Festival de 1969 é um retrato comovente da cultura política radical da música negra estadunidense.

Achei Summer of Soul [Verão do Soul] tremendamente comovente – tanto estimulante quanto enervante. Seus resultados podem variar, mas você não pode achar nada menos do que incrivelmente interessante. O subtítulo entre parênteses do filme, … ou, Quando a revolução não podia ser televisionada, refere-se à incendiária canção de 1970 “The revolution will not be televised” [A revolução não será televisionada] do músico de jazz e poeta Gil Scott-Heron. Se refere também ao fato de que, até agora, nenhum público viu este filme desde que foi gravado há mais de cinquenta anos.

Dirigido pelo multi instrumentista Questlove, Summer of Soul reúne filmagens há muito perdidas do Harlem Cultural Festival de 1969 em Mount Morris Park, uma série de shows de graça durante seis semanas apresentando alguns dos talentos musicais mais incríveis do mundo: Nina Simone, Stevie Wonder, Mahalia Jackson, BB King, Sly and the Family Stone, Gladys Knight & the Pips, as Staples Singers e assim por diante. A riqueza da tradição da música negra estadunidense é quase esmagadoramente expansiva, abrangendo blues, jazz, gospel, pop, rock, funk – e as influências globais são tão vastas – que mesmo uma série de shows em sessenta partes não poderia abranger.

Os Panteras Negras forneceram a segurança, marginalizando a força policial. Com um público majoritariamente negro de até 300 mil pessoas – jovens e velhos, senhores idosos em ternos elegantes e chapéus e jovens descolados com seus afros gloriosos e jeans justos e decotados, e muitas crianças, famílias inteiras lá, algumas pessoas sentadas nas árvores para ter uma visão melhor – esse evento épico parece ter sido feito para que fosse lembrado.

E, no entanto, como os comentaristas atestam tristemente no final, tudo foi rapidamente esquecido. A filmagem foi feita com a intenção de fazer um filme-concerto – juntando-se aos clássicos como Woodstock, Monterrey Pop e Gimme Shelter – mas não atraiu os interesses dos produtores na época.

Por quê? Porque Woodstock aconteceu a menos de 160 quilômetros de distância, mais ou menos na mesma época, e era só sobre isso que a mídia estava falando. “Nós até tentamos chama-lo de ‘Woodstock Negro’”, diz o produtor e cinegrafista Hal Tulchin, “mas não adiantou”.

O festival foi criado com um orçamento tão apertado que eles não podiam pagar nem mesmo por um jogo completo de iluminação, então o palco teve que ser construído de frente para o forte sol do verão. O diretor e produtor do festival, Tony Lawrence, reuniu tudo isso por meio de puro carisma e habilidade comercial, além de um patrocínio que ele arrecadou do café Maxwell House – podemos ver no filme o embaraçoso anúncio comercial da marca naquela época, com sua exagerada ênfase “africana” – além de contar sobre o solo rico e profundo do “continente escuro” onde os grãos de café supostamente cresciam.

Ao longo do filme, Questlove interrompe as filmagens do concerto com sequências lidando com os muitos assuntos paralelos que são evocados pelo evento: as histórias dos performers, as memórias dos espectadores (muitos dos quais são entrevistados), o contexto social da época que era ao mesmo tempo extremamente volátil e extremamente trágico, com os assassinatos de Medgar Evans, Malcolm X e, muito recentemente, na época do concerto, Martin Luther King Jr. Estes são apresentados no centro do festival quando Jesse Jackson sobe ao palco para apresentar a lenda do gospel Mahalia Jackson e o saxofonista Ben Branch. Jesse Jackson lembra à multidão que Ben Branch estava com ele e o reverendo King no dia do assassinato, e que King havia pedido ao saxofonista para “não se esquecer de tocar sua música favorita”.

Foi uma verdadeira angústia, como era pra ser. Mavis Staples diz, em sua entrevista, que Mahalia Jackson – bastante idosa na época – não estava se sentindo bem naquele dia, e pediu que ela se juntasse e ajudasse nos vocais. Os intérpretes estavam bastante cientes do significado histórico do que estavam fazendo não apenas politicamente, mas também musicalmente, quando Jackson passou a tocha, na forma de um microfone, para Staples.

O pouso da Apollo na lua também ocorreu durante o festival – 1969 foi um ano em que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo – e Questlove projeta uma montagem reveladora das respostas de cidadãos brancos e negros a frente a esse acontecimento histórico. Como você pode esperar, a resposta branca é uniformemente entusiasmada, enquanto a resposta do negro é muito mais ambígua ou totalmente hostil. “Acho que é muito importante, mas este [festival] é igualmente importante”. “Não importa a lua, vamos conseguir um pouco desse dinheiro para o Harlem”. “É um desperdício de dinheiro, há pessoas passando fome em todo o Estados Unidos…”

Isto é extraordinariamente atual agora, com bilionários financiando foguetes para voar para o espaço, enquanto memes voam pelas mídias sociais citando a canção amarga de Gil Scott-Heron, “Whitey on the Moon” [Branquelo na lua]: “Eu não posso pagar nenhuma despesa médica/ mas o branquelo pode viajar pra lua”.

Há tanta coisa acontecendo no filme, que é difícil saber o que destacar, mas uma coisa que você não poderá ignorar são as roupas. Meu Deus, as roupas. Como apontam as vozes da narrativa, o visual associado à Motown, com ternos e vestidos elegantes, cabelos extravagantemente penteados, todos muito “elegantes”, estava em transição para cabelos naturais e roupas extremamente criativas – com franjas, babados, acessórios – em cores deliberadamente chocantes, frequentemente inspiradas nas influências africanas e latinas.

Um bom exemplo da transição entre as fases, musical e visualmente, é Stevie Wonder, apenas começando a expandir o estilo de desempenho da Motown que lhe trouxe fama como o menino prodígio Little Stevie Wonder, para se tornar mais ousadamente improvisado e também político. Ele está fabuloso em um terno marrom com a mais incrível gola alta, quase da altura do Conde Drácula, e uma camisa de babados amarelo-sol. E também há David Ruffin, que havia deixado recentemente os Temptations, subindo ao palco para cantar sozinho seu enorme hit da Motown, “My Girl”. Notavelmente alto e magro, ele deixou para trás os smokings de sua antiga banda por um terno preto estreito com uma camisa rosa e uma grande gola de pele como só Joan Crawford poderia ter usado um dia.

As roupas masculinas, em particular, se destacam nesse filme, rejeitando ou pelo menos enfeitando os ternos em cores monótonas que eram obrigatórias na “educada” sociedade estadunidense. O empresário Tony Lawrence usa uma série de camisas atraentes, sendo que a minha favorita é a de cetim rosa choque elaborada com babados, cortada – como costumavam dizer – até .

Então, é claro, há Nina Simone. Como uma testemunha atestou, “ela parecia uma princesa africana”, com uma torre de cabelo trançada, brincos de argola gigantes com desenhos complexos e um vestido frente única verde com estampas até o chão. Quando ela sai, se senta ao piano de cauda e bate nas teclas com tanta força que você vê os músculos de seus braços pularem. É de arrepiar os cabelos.

Ela está falando de uma verdadeira revolução, sem dúvida. A letra de sua canção de recrutamento “Are you ready?” [Você está preparado?] não está perguntando se você está preparado para o rock. Eles estão perguntando: “Você está preparado para fazer o que é necessário? Você está preparado para destruir coisas brancas, para queimar prédios, você está preparado?”

Quando Sly and the Family Stone sobem ao palco, eles permanecem sem pressa para afinar seus instrumentos para dar a todos tempo suficiente para absorver este conjunto multirracial que desafiava todos os tipos de convenções. “Ver uma mulher negra tocando trompete”, maravilha-se um fã de Cynthia Robinson, a formidável trompetista e backing vocal da banda. E em relação a Greg Errico, o baterista branco que vestia um traje ultrajante com estampa de leopardo: “O cara branco é o baterista?!”

Assistimos a enorme multidão esperar com a respiração suspensa para ver se Sly Stone realmente subiria ao palco ou não – você nunca sabia com certeza naquela época – mas quando ele finalmente surge, no maior estilo como sempre, ele joga sua cabeça para o alto para cantar aquele refrão fantástico de “Everyday People” [Pessoas comuns] – “amo as pessoas comuns, yeah, yeah,” – bem, eu quase chorei.

Também quase chorei, mas de uma forma diferente, ao olhar para a entidade produtora do filme, o Onyx Collective, que aparece nos créditos de abertura. Longe de ser um coletivo real de cineastas negros independentes, você deveria saber que a Onyx é, na verdade, uma “marca de conteúdo com curadoria da Disney” para “criadores de cores e vozes pouco representadas”.

Summer of Soul é o primeiro longa do coletivo. E qual o segundo? The 1619 Project, que será produzido por Oprah Winfrey.

Sim, a Disney é dona de tudo. E sua “revolução” definitivamente será televisionada.

Sobre os autores

é crítica de cinema da Jacobin e autora no Filmsuck, nos Estados Unidos. Ela também apresenta um podcast chamado Filmsuck.

Cierre

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Published in América do Norte, Arte, Cultura, Música and Resenha

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