As consequências do militarismo imperialista 20 anos depois do 11 de setembro

11/09/2021

Por
Luke Savage

O custo da “guerra ao terror” é impressionantemente catastrófico: 21 trilhões de dólares gasto para produzir 1 milhão de mortes e 37 milhões de pessoas deslocadas ao redor do globo, de acordo com os últimos relatórios. Imagine o que poderíamos fazer com esse dinheiro se o usássemos para necessidades humanas em vez de assassinar pessoas mundo afora.

Treinamento na Academia Militar dos EUA em West Point, Nova York, 2019. (West Point / Flickr)

Na semana passada, em uma entrevista coletiva marcando o fim da guerra no Afeganistão, Joe Biden fez o que é indiscutivelmente o comentário mais encorajador de sua presidência até o momento: “Esta decisão sobre o Afeganistão”, disse, “não é apenas sobre o Afeganistão. Trata-se de encerrar uma era de grandes operações militares para refazer outros países.” Dada a própria história de Biden, é claro, há boas razões para ser cético quanto à sinceridade dessas palavras – e, apropriadamente, muito do padrão da liturgia imperialista poderia ser encontrada em sua defesa pela retirada.

No entanto, mesmo enquanto o governo oficialmente lança uma mudança na lógica que orientou a política externa dos Estados Unidos desde 11 de setembro, é quase certo que o resíduo tóxico da “guerra ao terror” permanecerá. Representando um paradigma novo, destrutivo e sangrento na história do poder dos EUA, as últimas duas décadas viram uma cultura crescente de militarização que é indiscutivelmente sem precedentes.

Enquanto presidentes, tanto democratas quanto republicanos, projetavam o aterrorizante poderio militar dos Estados Unidos no exterior com um custo humano catastrófico, a postura de guerra aberta contra uma série de ameaças muitas vezes etéreas e vagamente específicas inegavelmente mudou o tom da vida doméstica também. Do crescimento de um amplo aparato de segurança interna a uma política de imigração cada vez mais brutal, o ethos marcial da guerra contra o terror se incorporou gradualmente às principais instituições da vida norte-americana e trouxe consigo um preço doméstico que acabou desviando trilhões de dólares em outras prioridades.

Embora estejamos inevitavelmente analisando esse legado nocivo para as próximas décadas, um novo relatório oferece alguns números concretos sobre até que ponto as políticas dos últimos 20 anos militarizam ainda mais a sociedade norte-americana – e vêm com um preço quase além da compreensão. State of Insecurity: The Cost of Militarization Since 9/11 [Estado de insegurança: o custo da militarização desde o 11 de setembro], publicado recentemente pelo Institute for Policy Studies, detalha as consequências humanas e financeiras de tirar o fôlego da guerra contra o terrorismo. Usando dados extraídos principalmente do Office of Management and Budget [Escritório de gerência e orçamento, o OMB], os autores Lindsay Koshgarian, Ashik Siddique e Lorah Steichen começaram a calcular o custo geral da militarização desde 2001. Sua principal descoberta – que os Estados Unidos gastaram impressionantes 21 trilhões de dólares em militarização interna e externa nas duas últimas décadas – por si só, faz o relatório digno de atenção.

Em muitos aspectos, no entanto, sua jornada para essa conclusão é igualmente reveladora. Observando corretamente que o custo financeiro da guerra contra o terrorismo não se limitou a gastos com tanques, drones e mísseis de cruzeiro, os autores incluem toda uma gama de despesas em seus cálculos: desde os do Departamento de Defesa (DoD) e da Agência Central de Inteligência (CIA) para assistência militar internacional, benefícios para veteranos e despesas militares incorridas por outras agências federais (a guerra contra o terrorismo, ao que parece, também convocou a Fundação Nacional de Ciências e a Administração Marítima).

Os gastos com segurança doméstica também estão incluídos, o que significa que a cifra de 21 trilhões de dólares, em última análise, incorpora fundos alocados ao Departamento de Segurança Interna (DHS) e Imigração e Fiscalização Alfandegária (ICE). Seu raciocínio é direto e convincente: “Incluímos a maioria dos programas no Departamento de Segurança interna”, escrevem os autores, “por causa das origens da agência na resposta pós-11 de setembro e por causa de sua missão central de salvaguardar o país e as fronteiras de ameaças externas.”

Ao todo, eles calculam que cerca de 16 trilhões de dólares foram para gastos militares (pelo menos 7,2 trilhões em contratos militares), com 3 trilhões indo para programas de veteranos, 949 bilhões para o DHS e outros 732 bilhões indo para a polícia federal. Como resultado, o orçamento do Pentágono agora é mais alto do que era no apogeu da Guerra Fria ou durante as operações no Vietnã, Coréia e Golfo Persa, constituindo em última instância mais da metade do orçamento federal discricionário em um ano típico. Embora esses gastos tenham atingido o pico em 2010 e tenham modestamente caído desde então, permanecem muito acima dos níveis anteriores a 2001 – e com certeza serão inflados nos próximos anos pelas operações em andamento na Somália e pela beligerância em relação à China (entre outras coisas).

Em outras palavras: a era da guerra contra o terrorismo pode oficialmente ter acabado, mas seu impacto na sociedade norte-americana e global continuará a ser sentido por anos, e possivelmente décadas por vir. Tendo causado quase um milhão de mortes em todo mundo, de acordo com uma estimativa, 20 anos de militarismo norte-americano também deslocaram 37 milhões de pessoas ao redor do globo.

Como os autores argumentam com razão, a adoção de prioridades diferentes poderia ter gerado uma realidade totalmente diferente daquela que vivemos hoje. Por uma mera fração do custo do que a guerra ao terror extraiu do Tesouro, os Estados Unidos poderia ter descarbonizado totalmente sua rede elétrica, quitado dívidas de estudantes, estendido o Crédito Tributário Infantil anti-pobreza da era COVID por dez anos, garantido uma pré-escola gratuita, financiado vacinas contra a COVID em todo mundo – e ainda teria dinheiro de sobra.

É uma visão surpreendente do tipo de sociedade que os Estados Unidos poderia ser se suas elites abandonassem seu compromisso com o militarismo e a guerra.

Sobre os autores

é colunista da Jacobin.

Sobre o autor

Luke é colunista da Jacobin.

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