“Não morreremos de vírus, nem de bala e nem de fome”

23/09/2021

Por
Rud Rafael

Militante do MTST, Rud Rafael, escreveu à Jacobin sobre como o movimento resistiu e se organizou na pandemia para distribuir máscaras, oferecer auxílio jurídico e psicológico, alimentar famílias e continuar lutando por uma moradia digna para todos.

MTST e movimentos sociais ocuparam a Bolsa de Valores de São Paulo num protesto contra a fome e o desemprego. Fotos: Ana Pessoa / Mídia NINJA

O texto a seguir foi publicado na 2ª edição impressa da Jacobin Brasil. Adquira a sua edição avulsa ou assine um de nossos planos!


Em pouco meses, a pandemia do coronavírus mudou radicalmente a experiência na Terra. A imagem das metrópoles como grandes formigueiros humanos deu espaço a uma experiência de intensivo isolamento social. O que virá ainda está em disputa. Quais são os muros que permanecerão de pé após esse evento inédito, mas que pode nos permitir passar a limpo séculos de relações sociais desiguais?

Gritos por justiça que ecoam nas mobilizações de rua e nas redes – “Vidas negras importam”, “Vida acima do lucro”, “Nenhum direito a menos” – foram criando rachaduras nos muros das diversas opressões que se coadunam com a brutal crise sanitária.

A pandemia escancarou a desigualdade nacional, que mesmo encoberta por barreiras discursivas, capazes de criar inúmeras zonas de conforto, não estava tão escondida assim. Em muitos casos, esses muros caíram ou sofreram abalos importantes, mas ainda existem aqueles que parecem ser intransponíveis. 

Somados a essa indignação, que tem em si distintos potenciais demolidores, algumas ações levaram esperança aos territórios populares sitiados cotidianamente pelo Estado, pelo Capital e por diversas forças políticas, econômicas e culturais. Daqui da periferia do capitalismo com profundas raízes coloniais, o MTST buscou conectar vários desses processos que ecoam pelas periferias do mundo. 

A realidade de óbito civil, decorrente da omissão do Estado, em que vivem as famílias trabalhadoras nos territórios periféricos, está ainda mais evidente com a estratégia genocida na reposta do governo de Jair Bolsonaro à pandemia. 

Mesmo diante desse cenário, a periferia parece fazer sinalizações ambíguas. A dinâmica dos bairros populares nos tempos atuais pode levar a questionamentos sobre como é possível, em um momento de crise, tantas pessoas ainda estarem na rua. Como se as pessoas não entendessem a gravidade da situação.

A necropolítica imposta através da desterritorialização forçada, das ausências de garantias básicas como água e comida e da ostensiva militarização ganhou uma resposta à altura em tempos de Covid-19. No vocabulário de resistência dos movimentos sociais: “Não morreremos de vírus, nem de bala e nem de fome”. 

As campanhas pela defesa do isolamento social, necessário para evitar a transmissão da Covid-19, se mostraram insuficientes diante das condições de vida nas periferias, onde a falta de água na torneira, comida na mesa, espaço e ventilação adequada impossibilitam o distanciamento e outras medidas necessárias.

Diante da constante dor, alguns muros são erguidos como autodefesa pelos próprios oprimidos. É comum ouvir de companheiras nas ocupações do MTST e assentamentos do MST que está tudo sempre bem: “Aqui na comunidade está tudo normal”. Basta insistir um pouco e as respostas mudam. Uma companheira comentava: “aqui, quem fica doente toma chá, come alho, limão, gengibre, porque sabe que não vai ser atendido no posto. A gente já vive com rato, barata e tanta coisa, já deve ter ficado imune”. As falas são sempre intercaladas com relatos de mortes de parentes e pessoas conhecidas. A resiliência inicial dá espaço a um panorama aberto de dores profundas, mas também de resistência.

Os casos conhecidos são inúmeros. Uma mulher que deu à luz na maternidade sem nenhum cuidado sanitário, um trabalhador ambulante que ganhava o pão vendendo na praia, mas que agora não pode sair de casa. Assim como as mulheres que comercializavam bebidas e alimentos no terminal integrado de ônibus e metrô próximo a uma das ocupações do MTST e que nem sequer conseguiram acessar o auxílio emergencial. Relatos de idosos e jovens companheiros lidando com depressão e alcoolismo tornaram-se comuns nos bairros periféricos. São tantas trajetórias possíveis, todas elas exigem uma resposta direta, mas nenhuma é necessariamente individual. Água, alimentação, saúde, cuidado, moradia e trabalho não são questões individuais. 

Com essa crise, entendemos como é essencial o trabalho dos profissionais de saúde, dos operadores do transporte público, das pessoas que construíram redes de solidariedade, que lutaram para o acesso aos serviços de infraestrutura. Estamos aprendendo também que tudo isso passa por organização política, pela articulação entre as necessidades sociais e o fazer coletivo cotidiano. Se em um momento como este não formos capazes de reconhecer a importância de tais vínculos, fracassaremos.

Há espaço para o florescer de uma Revolução Solidária em meio a tanta dor?

Para organizações de base territorial como o MTST não foi fácil reestruturar as formas de atuação e de organização da luta popular sem poder contar com o espaço das assembleias, das mobilizações de rua, das novas ocupações ou os encontros de formação política. Mas as respostas de caráter emergencial foram tecendo redes de solidariedade vigorosas. 

Ações como o Fundo de Emergência para Sem-Tetos afetados pelo Coronavírus, organizadas pelo MTST Brasil, distribuíram duzentas toneladas de alimentos nas periferias e para pessoas em situação de rua nos centros urbanos. Foram formadas cooperativas de costura para fabricação de milhares de máscaras; serviços jurídicos, de saúde e psicológicos foram oferecidos. Além disso, o MTST inaugurou 16 cozinhas solidárias em 10 Estados (AL, CE, GO, MG, PE, RJ, RO, RS, SE, SP e DF).

Cabe destacar o papel que diversos coletivos de juventude negra e mulheres vêm tendo nos territórios. Eles construíram diálogos entre si e têm contribuído nas diversas etapas de enfrentamento à pandemia, garantindo o direito à informação e realizando ações solidárias que culminam em processos organizativos e em mobilização política. 

As relações de vizinhança e solidariedade, que garantiram esses serviços essenciais, abriram novas discussões, como a economia de bairro, quais itens devem constar nas cestas básicas, formação de redes de distribuição nas periferias das cidades de alimentos orgânicos produzidos no campo. Assistimos à ressignificação do trabalho por uma crise que demonstrou a centralidade dessas alternativas de produção na estruturação da sociedade.

Para além da resistência defensiva que o momento exige, esse exercício de solidariedade de classe deve ser capaz de se desdobrar em organização política compromissada com as lutas antirracistas, antipatriarcais e internacionalistas.

Um desses exemplos, a experiência da Frente de Resistência Urbana latino-americana, foi decisivo para solapar as fronteiras nacionais. Em meio à pandemia, os Ollazos foram criados pelas organizações argentinas como a iniciativa Frente Popular Darío Santillán e a Cooperativa de Apoio Mútuo no Chile pelo Movimiento de Pobladores Ukamau. Os Ollazos levaram às ruas da Argentina mil pontos de distribuição com panelas cheias de comida para serem divididas entre as famílias nos bairros populares. Também a Minga Solidaria, realizada pelo Congreso de los Pueblos, levou alimentação às famílias que lutam pela paz nas periferias da Colômbia. Assim foram derrubados alguns muros do medo. E assim somaram-se sonhos e suor pelas periferias do mundo.

Em uma iniciativa, povos originários e movimentos populares convocaram e reuniram mais de 160 organizações de 16 países da América Latina. Outro encontro realizado por organizações do norte da África e Oriente Médio pediu o cancelamento da dívida externa e o abandono dos acordos de livre comércio. 

Discussões como a soberania alimentar e dos territórios, sem financeirização da natureza, o combate às desigualdades, a defesa dos comuns, o trabalho com direitos, o fim da repressão policial, a defesa do sistema público de saúde e a taxação das grandes fortunas aparecem cada vez mais nas pautas dos movimentos populares.  

Não podemos afirmar que o neoliberalismo será sepultado diante dos resultados catastróficos no combate ao novo coronavírus no mundo. No entanto, é inegável que os recentes levantes antirracistas, feministas e populares são capazes de produzir esperança. É preciso estarmos preparados para os longos processos de resistência que estão por vir e investir na formação de novos vínculos de produções progressivas com horizontes estratégicos criados a partir de uma pedagogia territorial, que leve cada vez mais em conta as experiências das periferias e das camadas mais populares do mundo.

Só a aposta na organização política, na solidariedade e no internacionalismo de classe é capaz de nos oferecer uma saída. É o que nos dá esperança de ocupar com vida todos os lugares separados por muros.

Sobre os autores

é coordenador nacional do MTST Brasil, integra a Frente Povo Sem Medo e Frente de Resistência Urbana Latinoamericana. É também educador da ONG Fase.

Sobre o autor

Rud Rafael é coordenador nacional do MTST Brasil, integra a Frente Povo Sem Medo e Frente de Resistência Urbana Latinoamericana. É também educador da ONG Fase.

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