O último communard

08/09/2021

Por
Gavin Bowd

Tradução
Marco Túlio Vieira

Adrien Lejeune foi o último guerrilheiro da Comuna de Paris a falecer em 1942. Sua vida se tornou objeto de mitos e lendas – e um símbolo dos trabalhadores parisienses que lutaram para estabelecer uma democracia radical em sua cidade.

Trecho extraído do livro O último communard: Adrien Lejeune, a inesperada vida de um revolucionário, publicado pela Verso.


Em 10 de novembro de 1989, um dia após a queda do Muro de Berlim, eu descobri o último communard. Sendo um jovem comunista por uma década, eu tentava limpar a minha cabeça da notícia cataclísmica do dia anterior e parei em um dos meus lugares favoritos para contemplação solitária em Paris, o cemitério de Père-Lachaise. Lá, andei entre folhas mortas e túmulos negligenciados, até chegar em uma esquina no lado sudeste do cemitério chamado Le Mur des Fédérés.

A própria atmosfera do lugar o distingue do resto da necrópole. É um reino de memória, com camadas sobrepostas de diversos períodos de história. Foi em frente a este muro, diz a lenda, que a Comuna de Paris terminou, quando, em 28 de maio de 1871, 147 membros da sua guerrilha cidadã, conhecidos como Fédérés (devido à Federação Da Guarda Nacional), foram baleados antes de serem enterrados numa cova rasa. Este massacre foi representado logo depois na pintura apocalíptica de Ernest Pichio, Le triomphe de l’ordre, que retrata jovens e idosos, mulheres e crianças, sendo ceifados e caindo em um abismo. Na verdade, o lugar tornou-se um santuário para o que foi visto como uma experiência trágica de democracia popular.

De frente para a parede, que dispõe agora  de uma placa comemorativa, estão vários monumentos relativamente discretos para os sobreviventes daquele episódio sangrento: os túmulos de Jean Baptiste Clément, autor da canção “Le Temps des Cerises”, em que as cerejas são comparados com gotas de sangue, assim como Paul Lafargue, marido de Laura Marx, com quem ela cometeu suicídio para escapar da debilidade da velhice em 1911.

Nesta seção do cemitério, eu vagava ao longo da grande avenida circular onde estão muitas sepulturas de comunistas e onde, até muito recentemente, o Partido Comunista Francês (PCF), enterrava quase todos os seus dignitários: o “Filho do Povo” Maurice Thorez; o líder do partido clandestino durante a Segunda Guerra Mundial, Jacques Duclos; o líder e fundador Marcel Cachin; o editor do L’Humanité Paul Vaillant-Couturier; e os escritores Henri Barbusse e Paul Eluard. Ao lado do túmulo de Duclos, notei pela primeira vez uma pequena lápide preta com um epitáfio simples:

Adrien Lejeune, o último communard, morreu em Novosibirsk; URSS; 1942

Lejeune na Comuna

Embora, por razões de saúde, Lejeune fosse incapaz de servir no Exército Francês, ele se juntou à Guarda Nacional para lutar contra o cerco de Paris pelas tropas de Otto von Bismarck. Ele era sargento na 2ª Companhia do 28º Batalhão. Em 18 de março de 1871, por sua própria conta, Lejeune “não hesitou nem por um instante” e subiu o Butte de Montmartre, a colina que domina o norte de Paris, para defender o canhão da Guarda Nacional. Ele estava, portanto, entre os que proclamaram a Comuna naquele mesmo dia.

Eles entraram no quartel para pegar armas que, não muito antes, haviam sido retirada deles. Ninguém se colocou no seu caminho: naquela manhã, o governo fugira para Versalhes com as tropas que ainda lhe eram leais, deixando os quartéis desprotegidos. Apesar deste sucesso inicial, de acordo com Lejeune, erros graves foram cometidos posteriormente.

Seus relatos posteriores defendiam uma análise marxista-leninista familiar, a de que os comunistas deveriam ter organizado uma verdadeira defesa da cidade, impedido o governo de deixar Paris e tomado as casas dos burgueses que haviam aderido ao governo de Adolphe Thiers em Versalhes.

Em suma, um verdadeiro poder operário deveria ter sido oposto aos versalheses, que começaram a preparar a ofensiva contra Paris. Em vez disso, em 26 de março, foram organizadas eleições para o Conselho da Comuna. Thiers, que havia rejeitado tentativas de mediação feitas por prefeitos republicanos moderados em Paris, não perdeu tempo em concentrar as tropas que Bismarck colocara à sua disposição desde o armistício que encerrou a Guerra Franco-Prussiana. Quando as eleições para o Conselho terminaram, Thiers estava pronto para a ofensiva.

Foi a população trabalhadora de Paris que fez a revolução e organizou a Comuna, apesar de não existirem ainda grandes fábricas que oferecessem emprego em massa, apenas pequenas oficinas. Muitos trabalhavam em casa. Não havia grandes lojas, apenas pequenas lojas espalhadas pela cidade. Lejeune afirmou em seus relatos posteriores que a imensa maioria de toda essa população trabalhadora simpatizava e apoiava a Comuna.

De acordo com seus escritos, Lejeune serviu na Guarda Nacional desde o início até o fim sangrento da Comuna, e parecia não ter medo de seguir, se necessário, o preceito implacável de Marat: “Eu fiquei de guarda nas fortificações de Paris e em frente das entradas da cidade. Fizemos rondas e revistamos casas suspeitas à noite. Foi assim durante a comuna.” Ele também afirmava ter muitas conexões, alegando ter conhecido, desde antes da insurreição, Théophile Ferré, chefe da polícia revolucionária; Alexis Trinquet, vereador do militante 20º arrondissement de Paris; e Aimé Félix Pyat, membro do Comitê de Segurança Pública.

No entanto, durante a Comuna, “cada um de nós estava no seu posto. Eu era apenas um homem da base, eles eram líderes e não tivemos tempo para nos vermos.” Lejeune também conhecia a famosa “Virgem vermelha”, Louise Michel, uma talentosa professora anarquista e poeta: “mas que comunista não a conhecia? Era uma mulher extraordinariamente empenhada na causa da revolução. Quantas calúnias e insanidades foram espalhadas sobre esta heroína?”

A Comuna era “acima de tudo guerra, guerra civil”. No entanto, Lejeune reconheceu que a Comuna introduziu algumas medidas progressistas durante o seu breve período de vida. O decreto que cancelava os aluguéis atrasados, por exemplo, era de “grande importância para a população trabalhadora”, juntamente com os decretos sobre a separação da Igreja e do Estado, e sobre a educação pública.

Porém, em uma situação de guerra civil, a principal preocupação da Guarda Nacional era não deixar os versalheses entrarem em Paris. Lejeune lembrou o papel traiçoeiro de Ducâtel, um capataz de obras de estradas da cidade, que, em 21 de maio, indicou aos versalheses que algumas das fortificações de Paris estavam desprotegidos. Tropas regulares, sob o comando do General MacMahon, cercaram a cidade e partiram para o ataque, rapidamente, tomando os beaux quartiers do sudoeste da cidade e obrigando os defensores da Comuna a recuarem para o centro. Barricadas foram erguidas em lugares seguros antes que as tropas invadissem.

Assim que Lejeune e os seus camaradas ouviram a notícia da entrada dos versalheses em Paris, correram para as barricadas e começou a luta final. Em retrospectiva, Lejeune prestou homenagem ao heroísmo romântico dos communards, ao mesmo tempo em que reconheceu as suas deficiências militares:

Havia um plano de defesa? Provavelmente havia. Havia também uma certa organização na defesa porque nos forneciam munições e até comida. Estávamos rendidos. Fomos descansar, dormir e depois voltamos aos nossos postos. No entanto, agimos antes como revolucionários que estavam prontos há muito tempo para o sacrifício, que decidiram morrer e não se render, em vez de militares servindo sob o comando de líderes.

Os communards defenderam as barricadas nos distritos de Paris, mas na noite de 24 de maio, as tropas invasoras tomaram o Hôtel De Ville. Após três dias de luta, os últimos focos de resistência estavam no norte, onde a insurreição parisiense começara.

Constatando a falta de esperança de sua situação, eles sabiam que a causa da Comuna estava perdida, mas, como Lejeune lembra, “Lutamos, recuando de barricada para barricada, cobrando um preço pesado por nossas vidas.” Foi assim que Adrien Lejeune alegou ter acabado nas barricadas da rue des Pyrénées, em Belleville, na noite de 27 a 28 de maio.

Lejeune esteve, portanto, envolvido nos últimos dias de luta dos communards, que foram metodicamente esmagados por um exército muito superior em número, equipamento e treinamento. Apesar dos atos inquestionáveis de heroísmo e até mesmo de habilidade militar, esta guerrilha feroz e amadora de cidadãos estava condenada ao fracasso. Os bolcheviques de Lênin não hesitaram em tirar lições dessa derrota, constatando a falta de organização e a dureza insuficiente dos communards, apesar de terem feito reféns, das rondas e das buscas em que Lejeune afirma ter participado.

Os prisioneiros humilhados tiveram de enfrentar a ferocidade de uma multidão burguesa decidida a vingar-se após dez semanas do “populacho” no poder. Lejeune lembrou-se de um padre que passou por eles e começou a gritar: “Matem todos! Deus saberá distinguir entre os pecadores e os inocentes.”

A multidão, enraivecida, tentou arrancar os olhos dos communards com as pontas dos guarda-chuvas. Os prisioneiros foram levados pela rue Lafayette, nos beaux quartiers, antes de atravessarem o Bois De Boulogne onde lhes foi dito que parassem. Eventualmente, o General Galliffet, que desempenhou um papel notório na repressão da Comuna, aproximou-se deles. Lejeune descreve como ele os fez alinhar-se para poder ver todos, e começou a escolher:

“Você deve ter participado da Revolução de 48. Saia!”
“Você parece ser inteligente, saia!”
“Você, o ferido, saia!”

As mães e as esposas dos prisioneiros escolhidos imploraram misericórdia a Galliffet, mas ele simplesmente lhes disse: “As vossas lágrimas não me tocam. Não sou um deles.” Ele escolheu 25 homens. Lejeune não estava entre eles. Um oficial da polícia, que estava ocupado rastreando communards, marchou até Galliffet e, batendo continência, disse: “Excelência, peço a honra de comandar o pelotão de fuzilamento.”

O relato de Lejeune sobre os últimos dias da Comuna e as suas consequências certamente coincidem com os dois mais famosos relatos de antigos communards, Maxime Vuillaume, Mes cahiers rouges e a História da Comuna de Paris de 1871 de Prosper-Olivier Lissagaray, uma referência, ainda que seja abertamente partidário do evento detalhando as últimas resistências condenadas ao fracasso nas encostas de Belleville, as denúncias, o Jardim do Luxemburgo e outros parques pitorescos transformados em matadouros, a humilhação pública de prisioneiros pelos habitantes dos quartiers beaux, as execuções sumárias ordenadas por Galliffet, o encarceramento em prisões flutuantes e fortalezas na costa bretã.

Lejeune e outros communards foram colocados entre prisioneiros comuns, incluindo elementos repugnantes que, Lejeune afirma, que estavam determinados a fazer a vida dos communards miserável: “Um deles estava atrás de mim, e um dia, quando eu estava de pé perto da parede da cela, ele correu em minha direção para acertar uma cabeçada em minha barriga. Tive tempo para esquivar e a cabeça dele bateu contra a parede.”

O espírito de resistência deles não vacilou. Lejeune relata que, um dia, como um gesto revolucionário desafiador, alguém colocou uma pequena bandeira vermelha na parede de sua cela. O guarda veio e perguntou: “O que é isso? É para espantar as moscas”, responderam. Não havia nenhuma mosca.

Vida posterior

Em 1905, seguindo o movimento do líder comunista Edouard Vaillant, Lejeune juntou-se a Jean Jaurès e Jules Guesde no Partido Socialista Unificado. Em 1917, “saudou com entusiasmo a Revolução Socialista de outubro, que significava o triunfo das ideias da Comuna em um sexto do globo”.

Em 1922, com setenta e cinco anos, o velho comunista entrou para o jovem Partido Comunista Francês. Apesar da idade e da doença, sua mente ainda era “combativa”, o que significava mais conflitos com a polícia do governo reacionário. Um comitê internacional, criado especificamente para ajudar os sobreviventes da Comuna, conseguiu que ele se refugiasse na União Soviética. Em 1926, Adrien Lejeune deixou a França em direção ao que ele descreveria como seu “segundo país”.

Em 1936, ele doou suas escassas economias para os filhos dos republicanos espanhóis mortos na luta contra Franco. Em outubro de 1941, quando as tropas de Hitler se aproximaram de Moscou, Adrien Lejeune, com os estudantes e idosos de seu distrito, foi evacuado para Novosibirsk, na Sibéria. Fernand Chatel concluiu:

“Havia um cartão de racionamento para todos, exceto para o último communard vivo, cujas palavras de ordem foram lidas nas unidades do Exército Vermelho. Sua última carta, de 31 de dezembro de 1941, desejava um Feliz Ano Novo para os feridos do Exército Vermelho sendo tratados no hospital de Novosibirsk. Ele morreu em 9 de janeiro de 1942, com noventa e cinco anos de idade, naquela cidade siberiana, que ainda tem uma rua com o seu nome e onde não se passa um dia sem que algumas flores sejam colocadas em seu túmulo.”

O relato do L’Humanité apresentou Lejeune como a encarnação perfeita de um communard: de origens modestas, mas com um apetite feroz pela auto-educação, um livre-pensador, ativo em todas as revoltas e em todas as barricadas, presente até o triste fim.

Marcel Cerf, sobrinho-neto do comunista Maxime Vuillaume, biógrafo do “D’Artagnan da Comuna”, Maxime Lisbonne, e decano dos Amigos da Comuna, forneceu um relato um pouco diferente. Cerf me confessou que, apesar de ter sido apaixonadamente interessado pela Comuna desde o início, e ter seguido enorme o cortejo fúnebre de Zéphirin Camélinat em 1932, ele só ouvira falar de Adrien Lejeune após a guerra, e especialmente na época do centenário da Comuna. Não sendo nem comunista, nem anticomunista, Cerf ofereceu este juízo sobre o último communard:

Obviamente, não podemos negar que Adrien Lejeune lutou pela Comuna, mas teríamos de ver precisamente em quais condições. Durante o cerco, ele foi um membro da Guarda Nacional e até obteve o posto de sargento, mas após o armistício com os prussianos ele entregou suas armas. Quando a Comuna foi proclamada, ele não tinha nenhum desejo de retomar um papel militar na Guarda Nacional e conseguiu encontrar um emprego no serviço de fornecimento de alimentos na maire [subprefeitura] do 20º arrondissement.

Isso significava que ele podia evitar participar da Guarda Nacional. Então ele fez esse trabalho durante toda a Comuna, até o início da Semana Sangrenta. No início da Semana Sangrenta ele pensou que seria melhor sair de Paris. Ele foi preso às portas de Paris pela Guarda Nacional e levado para a prisão de La Petite Roquette, onde foi proposto-lhe ter de volta o seu papel na Guarda Nacional, porque se ficasse na prisão seria certamente considerado um traidor.

Ele, portanto, decidiu que seria melhor voltar a vestir o uniforme, e parece que ele lutou bravamente na rue du Faubourg St-Antoine, ou na rue Ramponneau, como ele mesmo conta. Em todo o caso, ele lutou até o último dia e foi preso em 28 de maio. […] Como combatente, talvez não fosse absolutamente exemplar, mas lutou pela Comuna e, por isso, merece a nossa homenagem.

Trata-se de um juízo diferenciado, baseado num conhecimento preciso de certos documentos, que outras provas em Moscou e de outros locais podem servir de complemento. Adrien Lejeune não era o heroico comunard da hagiografia comunista, mas um homem que desempenhou um papel modesto, mas fatídico em um evento cuja breve existência viria a assombrar a esquerda, e finalmente determinar o resto dos dias de Lejeune.

Sobre os autores

ensina francês na St. Andrews University. Ele é o autor de Last Communard: Adrien Lejeune, the Unexpected Life of a Revolutionary (Verso, 2016).

Sobre o autor

Gavin Bowd ensina francês na St. Andrews University. Ele é o autor de Last Communard: Adrien Lejeune, the Unexpected Life of a Revolutionary (Verso, 2016).

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