O culto à inovação

05/10/2021

Por
John Patrick Leary

Tradução
Cepat

“Inovação” é uma das palavras-chave mais populares do capitalismo – e sua função é sustentar o mito de que o gênio empresarial cria a riqueza da sociedade.

O CEO da Apple, Tim Cook, fala durante um evento especial da Apple no Steve Jobs Theatre no campus Apple Park em 12 de setembro de 2017 em Cupertino, CA. Justin Sullivan / Getty

Este artigo foi extraído do livro Keywords: The New Language of Capitalism, de John Patrick Leary, publicado pela Haymarket Books.


Durante seus primeiros anos de vida, a palavra inovação foi usada em um sentido pejorativo e serviu para denunciar falsos profetas e dissidentes políticos. Thomas Hobbes utilizou a palavra inovador, no século XVII, como sinônimo de conspirador vaidoso. Edmund Burke denunciou publicamente os inovadores da Paris revolucionária por serem destruidores e malfeitores. Em 1837, um padre católico de Vermont dedicou 320 páginas à denúncia do “inovador”, o arquétipo de herético, que rotulava como “infiel e cético de coração”. O ceticismo do inovador representava uma conspiração destrutiva contra a ordem estabelecida, na Terra e no céu, e se o inovador se fazia chamar de vidente, era também um falso profeta.

No entanto, na virada do século passado, a prática da inovação começou a se desprender das associações com conspirações e heresia. Um grande ponto de inflexão talvez possa ter ocorrido por volta de 1914, quando Vernon Castle, o instrutor de dança mais famoso dos Estados Unidos, inventou uma versão estadunidense simplificada e “decente” do tango argentino, que chamou de “a inovação”.

“Estamos agora em um estado de transição para uma dança mais bonita”, disse Mamie Fish, a famosa integrante da jet-set nova-iorquina a que se atribui a invenção do nome da dança. Em 1914, explicou no Omaha Bee que “esta é uma dança particularmente bonita, que carece de todas as excentricidades e o abandono do tango, e que não é nada difícil de aprender”. Ao deixar de ser um pecado degenerado, a “inovação” tornou-se algo positivamente decente.

A onipresença contemporânea da palavra inovação é um exemplo de como o mundo dos negócios, apesar de continuamente reivindicar precisão racional e empírica, também invoca uma mitologia enigmática própria. Muitas das palavras que aparecem no meu último livro, Keywords, giram em torno disso e sua importância é determinada pela relação que têm com o poder da inovação.

O valor da inovação é tão amplo e tão aparentemente manifesto que questioná-lo pareceria estranho. Seria como criticar a beleza, a ciência e a penicilina, que são coisas, como a inovação, tratadas como se fossem valores humanos abstratos e coisas socialmente úteis que dificilmente podemos imaginar renunciar. Também é verdade que muitas das coisas consideradas inovações são verdadeiramente inovadoras no sentido estrito da palavra: processos originais ou produtos que satisfaçam alguma necessidade humana.

Um estudioso pode descobrir provas documentais que transformam nossa compreensão de um evento histórico, um engenheiro automobilístico pode desenvolver novos processos industriais que diminuam o peso dos carros, um executivo de negócios pode extrair valor adicional de seus funcionários automatizando a produção. Todas essas são novas maneiras de fazer algo, mas são “coisas” muito diferentes. Algumas dessas coisas requerem uma combinação de tenaz persistência e imaginação interpretativa, outras utilizam a experiência matemática e técnica e outras ainda uma visão e prática organizacional implacável.

Mas a inovação tal como se utiliza, hoje em dia, quase sempre vem acompanhada por um componente implícito de benevolência: quase nunca nos referimos a seguros de inadimplência inovadores ou armas químicas inovadoras, embora sejam claramente inovações. O antigo ceticismo destrutivo do falso profeta inovador se converteu na visão altamente lucrativa de um visionário tecnológico.

Na atualidade, a forma mais popular de inovação é a que se conhece como um conceito independente, uma espécie de espírito administrativo que abrange quase todas as esferas institucionais, das organizações sem fins lucrativos e os jornais às escolas e os brinquedos para crianças. O dicionário Oxford (OED, em sua sigla em inglês) define inovação como “a alteração do estabelecido pela introdução de novos elementos ou formas”. O primeiro exemplo oferecido pelo dicionário remonta a meados do século XVI. Por outro lado, o adjetivo “inovador” praticamente não era usado até os anos 1960, embora desde então sua popularidade tenha disparado.

Nos últimos anos, também houve um ressurgimento do verbo “inovar”. A acepção intransitiva do verbo (em inglês) é “incorporar ou introduzir novidades, realizar alterações em algo estabelecido, introduzir inovações”. Seu antigo significado transitivo (em inglês), “mudar (uma coisa) por algo novo, alterar, renovar”, figura como obsoleto no OED, embora recentemente tenha sofrido um tipo de renascimento. Esse era o significado ativo anteriormente associado a conspiradores e hereges, que inovavam a palavra de Deus ou o governo, no sentido de miná-los ou acabar com eles.

A principal contradição que existe na história da palavra inovação surge entre sua anteriormente proibida conotação religiosa e o significado prático e benéfico que prevalece na atualidade. Benoît Godin apontou que a inovação foi recuperada como um conceito secular no final do século XIX e inícios do século XX, quando deixou de ser uma reflexão teológica para ser uma forma de práxis mundana. Sua designação gramatical evoluiu junto com seu significado. Em vez de ser uma irrupção discreta em uma ordem estabelecida, a inovação como um substantivo incontável [com o sentido em inglês de “em geral”] se tornou uma capacidade visionária que os indivíduos podiam alimentar e desenvolver de maneira prática no mundo. Da mesma forma, tornou-se o processo de implementação dessa capacidade (por exemplo, “O compromisso da Lenovo com a inovação”).

A inovação como substantivo contável [com o sentido em inglês de “em particular”] foi um produto desse processo (por exemplo, “o novo iPhone contém inovações como uma câmera de alta resolução”). No entanto, esse novo significado evoluiu lentamente. O antigo vínculo dessa acepção com a ideia de engano e conspiração o acompanhou até já adentrado o século XX.

Joseph Schumpeter, que articulou em 1911 uma teoria influente da inovação em seu livro Teoria do Desenvolvimento Econômico, publicado três anos antes do lançamento da inovação no tango, a tratava ao mesmo tempo como um processo e como um produto, sem nenhum traço da velha conotação de conspiração. Schumpeter utilizou a “inovação” para descrever a tendência do capitalismo em direção a turbulências e transformações. Um elemento-chave de sua concepção é a distinção que faz entre inovação como refinamento de um processo ou produto e invenção, que é a criação de algo completamente novo.

Schumpeter desconfiava da mitologia do inventor, embora o inovador, que era uma figura mais complexa, fosse central no processo que estava descrevendo. Schumpeter compreendia a inovação de forma histórica, como um processo de transformação econômica, mas esse processo histórico dependia em sua opinião de um agente criativo, privado, que a realizasse. O termo que Schumpeter usou para nomear esse agente foi o de “empreendedor”. Schumpeter escreveu mais tarde que inovar era “revolucionar o padrão de produção explorando uma invenção ou, em termos mais gerais, uma possibilidade tecnológica sem precedentes, para produzir um novo artigo”.

Na segunda década do século XX, a palavra começou a aparecer de maneira habitual em nomes de marcas e anúncios (e modas de dança passageiras) com a forma mais familiar para nós hoje em dia: como um produto ou processo novo ou melhorado. Um dos primeiros produtos importantes publicado como inovação foi o roupeiro Innovation, que as lojas de departamento Gimbel colocaram à venda, em 1915, para apelar ao desejo dos clientes pela quimera do novo. (Os roupeiros, cujas características inovadoras pareciam ser a durabilidade e a “construção espaçosa”, foram tão populares que “innovation trunk” passou a ser um nome genérico para qualquer roupeiro, como “Kleenex” é utilizado para todos os lenços de papel).

Embora a inovação tenha recuperado sua reputação e tenha se livrado inteiramente da ideia de subversão, ainda conserva seu antigo viés de visão profética individual, esse talento daqueles que, como disse Hobbes sobre os “inovadores”, em 1651, “se consideram mais sábios do que os outros”. Não é que a inovação tenha perdido sua antiga conotação moral, mas a inverteu: o que antes era considerado degenerado e enganoso agora é exaltado como visionário.

Em uma resenha escrita em 2011 sobre o falecido executivo da Apple, Steve Jobs, que provavelmente é o arquétipo do herói inovador de nossa época, um repórter do San Francisco Chronicle elogiou seu “constante desejo de inovar e correr riscos”. Nesse caso, o verbo aparecia sendo usado na sua forma intransitiva (em inglês), com seu significado mais moderno (isto é, sem complemento direto), embora não apareça de modo algum o mínimo indício de uma referência. Jobs já não inova sobre algo em particular, e isso permite que “inovar” soe como uma espécie de mantra.

“Se você não inova todos os dias e não tem um conhecimento profundo sobre seus clientes”, disse um executivo da indústria do queijo de Denver ao jornal Denver Post, em 2010, “você simplesmente não cresce”. E quando o autor de um obituário dedicado a Jobs escreveu no Wall Street Journal que o executivo da Apple era um “profeta secular”, que fez da inovação “uma forma de esperança totalmente secular”, realmente fica claro que o termo nunca perdeu sua antiga associação com a profecia.

Além de mistificar a própria criatividade (que hoje parece mais uma explosão de inspiração intuitiva, uma epifania e menos um trabalho), a “inovação” confere à criatividade uma dimensão tanto profissional como de classe muito concreta. É quase sempre usada para atividades qualificadas e lucrativas, embora sua crescente popularidade nos ambientes educacionais sirva para refletir a progressiva influência que os modelos baseados no mercado têm nesse campo. Supõe-se que as organizações de qualidade a cultivam entre seus funcionários ao lhes dar a liberdade de trabalhar de forma independente e criativa. Raramente ouvimos dizer de um carpinteiro, encanador ou dona de casa que sejam inovadores, apesar da imaginação, improvisação e capacidades de gestão que todos possuem.

As publicações comerciais compilam listas dos “países mais inovadores do mundo”, um uso curioso que descreve: a) uma capacidade que se limita às fronteiras nacionais, como se a criatividade se dissipasse ou aumentasse quando se abandona o controle de passaportes, e, ao mesmo tempo, b) um talento humano intrínseco que não se limita a setores, indústrias ou meios concretos.

Outro exemplo da mistificação crescente da palavra é como acabou aceitando a construção tautológica “inovar na inovação”. “Quem é o melhor em inovar na inovação?”, perguntava-se a Harvard Business Review, essa mesma publicação patrocina também um prêmio generoso chamado “Desafio de inovar em inovação”. É possível que alguém possa “inovar” sem intervir em qualquer processo ou ideia, fora do ato em si da própria inovação. É possível que alguém possa inovar em círculos, para sempre.

A inovação é um exemplo de como a produção e a circulação de produtos assimilam propriedades fantásticas e até teológicas que não têm relação alguma com a mão de obra que os produz, ou no caso de muitos usos habituais do verbo “inovar”, que não têm relação com nenhum objeto. Nesse sentido, quando políticos liberais promovem uma “agenda inovadora”, incluindo o perdão da dívida estudantil para “criadores de startups”, como prometeu Hillary Clinton durante sua campanha presidencial de 2016, não fica claro a diferença de qualquer outra forma de ajuda pública a empresas. E quando políticos e CEOs conservadores lamentam que os sindicatos e a regulamentação pública do setor privado “atrapalhem a inovação”, podemos detectar não apenas uma ofuscação ridícula, mas também outro exemplo de desrespeito burguês pela mão de obra.

A inovação é, portanto, um conceito teológico que se tornou uma teoria da produção de mercadorias e que, ultimamente, se tornou uma mercadoria em si. Enquanto isso, o inovador continuou sendo associado a um carisma inovador e visionário. No entanto, quando antes a maioria das pessoas temia inovações por serem venais e destrutivas, agora a inovação é entendida como o refinamento de um processo técnico, no qual a criatividade se torna lucro.

No entanto, como mostra a figura mítica de Jobs, mais do que substituir a profecia por procedimento, os elogios modernos à inovação complementam uma coisa com a outra. Tanto no mundo empresarial como na educação e na política, a inovação é ao mesmo tempo espiritual e tecnológica, uma reação do indivíduo frente ao mal-estar burocrático e também o espírito de criatividade que essa mesma burocracia precisa cultivar. Consequentemente, a inovação é um conceito estranhamente contraditório, que é simultaneamente grandioso e modesto, açucarado e pessimista.

O significado profético que se encontra profundamente enraizado em sua história permite que a inovação represente quase qualquer tipo de transformação positiva e, no século XXI, sirva para o mesmo que “progresso” serviu aos séculos XIX e XX. Nos Estados Unidos, a inovação também sugere uma atualização tecnológica para o mito da “engenhosidade yankee” ou do “know-how” (aquele espírito de inteligência mecânica e energia empreendedora anteriormente associado à classe de artesãos da Nova Inglaterra). Se antes eram os míticos inventores da era industrial americana (Alexander Graham Bell e Thomas Edison, operando em suas oficinas), agora o cidadão-modelo da nossa era capitalista é o inovador.

Mas o objetivo da maioria das inovações atuais é um pouco mais evasivo: é possível tocar em um telefone ou em um fonógrafo, mas quem pode pôr suas mãos sobre o algoritmo da Amazon, nos seguros de inadimplência da dívida, em um fragmento do código patenteado da Uber ou em um acordo de livre mercado? A inovação, como traço intangível e individualista, próprio unicamente dos trabalhadores qualificados, redefine as cruéis vicissitudes de uma desigual economia global para determiná-las como os lógicos produtos do brilho criativo e visionário. Com esse novo aspecto, o inovador conserva tanto os traços do profeta, como indícios do homem de confiança.

Sobre os autores

é o autor de Keywords: The New Language of Capitalism.

Sobre o autor

John Patrick Leary é o autor de Keywords: The New Language of Capitalism.

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