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Ursula Le Guin no campus da Universidade de Oregon, em 2013. Foto: Jack Liu

Uma guerra sem fim

POR
Tradução
Allan M. Hillani

Ursula Le Guin fala sobre opressão, resistência e sobre porque "o exercício da imaginação é perigoso."

Em homenagem à saudosa Ursula Le Guin, a Jacobin republica o ensaio abaixo, incluído originalmente na edição inglesa da editora Verso de Utopia, de Thomas More.


Escravidão

Meu país foi​​ unido por uma revolução e foi quase destruído por outra.

A primeira revolução foi um protesto contra uma exploração econômica e social desagradável e estúpida, mas relativamente moderada. Foi bem-sucedida de uma maneira quase única.

Muitos dos que fizeram a primeira revolução praticavam a mais extrema forma de exploração econômica e opressão social: eram proprietários de escravos.

A segunda revolução estadunidense, a Guerra Civil, foi uma tentativa de preservar a escravidão. Ela foi parcialmente bem-sucedida. A instituição em si foi abolida, mas a mentalidade do senhor e a mentalidade do escravo ainda permeiam boa parte dos pensamentos dos EUA.

Resistência à opressão

Phillips Wheatley, poeta e escravo alforriado, escreveu em 1774: “Em cada peito humano, Deus implantou um princípio, que chamamos de Amor à Liberdade; ele é intolerante com a Opressão e aspira à Libertação”.

Eu não negaria a verdade nisso mais do que negaria que o sol brilha. Tudo que há de bom nas instituições e na política do meu país se baseia nisso.

E ainda assim vejo que por mais que amemos a liberdade somos tolerantes com a opressão, e até recusamos a libertação.

Eu vejo perigo em insistir que nosso amor pela liberdade sempre supera qualquer força ou que a inércia nos impede de resistir à opressão e buscar a libertação.

Se eu negar que pessoas fortes, inteligentes e capazes vão aceitar e aceitam a opressão, eu estou identificando o oprimido como fraco, estúpido e inepto.

Se fosse verdade que pessoas superiores se recusam a serem tratadas como inferiores, a consequência seria que aqueles que estão embaixo na ordem social seriam verdadeiramente inferiores, afinal, se fossem superiores, protestariam; já que aceitam uma posição inferior, seriam inferiores. Esse é o argumento confortavelmente tautológico do proprietário de escravos, do socialmente reacionário, do racista, e do misógino.

É um argumento que ainda atormenta as considerações sobre o holocausto hitleriano: por que os judeus “simplesmente entravam nos trens”? Por que eles não “revidavam”? Uma questão que — assim perguntada — é irrespondível, e pode ser usada pelo antissemita para implicar a inferioridade dos judeus.

Mas o argumento apela também para o idealista. Muitos estadunidenses liberais e humanamente conservadores prezam pela convicção de que todas as pessoas oprimidas sofreriam de forma intolerável por conta de sua opressão, que deveriam estar prontos e dispostos a se rebelar, e que seriam moralmente fracos, moralmente errados, se não se rebelam.

Eu julgo categoricamente como errada qualquer pessoa que se considere superior a outra racialmente ou socialmente ou que imponha um status inferior a outra. Mas é outra coisa aplicar um juízo categórico contras as pessoas que aceitam um status inferior. Se eu digo que eles estão errados, que a moralidade exige que eles se rebelem, cabe a mim considerar que escolha real eles têm, se eles agem por ignorância ou por convicção, se eles têm alguma oportunidade de diminuir sua ignorância ou mudar sua convicção. Tendo feito essas considerações, como posso dizer que eles são culpados? São eles, e não os opressores, que agem errado?

A classe dominante é sempre pequena, os estratos inferiores grandes, mesmo em uma sociedade de castas. Os pobres sempre são amplamente mais numerosos que os ricos. Os poderosos são menos do que aqueles sobre os quais exercem poder. Homens adultos mantêm um status superior em quase todas as sociedades, mesmo sempre sendo superados numericamente por mulheres e crianças. Governos e religiões sancionam e sustentam a desigualdade, a hierarquia social, a hierarquia de gênero, e o privilégio, totalmente ou seletivamente.

A maior parte das pessoas, na maior parte dos lugares, na maior parte das épocas, são de um status inferior.

E a maior parte das pessoas, mesmo agora, mesmo no “mundo livre”, mesmo na “pátria dos livres”, considera esse estado de coisas, ou certos elementos dele, como naturais, necessários, e imutáveis. Acreditam ser a forma como sempre foi e portanto a forma como deve ser. Isso pode ser convicção ou pode ser ignorância; geralmente é ambas. Através dos séculos, a maior parte das pessoas de status inferior não tinha meios para saber que qualquer outra forma de organizar a sociedade existia ou poderia existir — que a mudança é possível. Somente aqueles de status superior sempre souberam o suficiente para saber disso; e é o seu poder e os seus privilégios que estariam ameaçados se a ordem das coisas mudasse.

Nós não podemos confiar na história como guia moral nessas questões, porque a história é escrita pela classe superior, pelos educados, pelos empoderados. No entanto, só temos a história para seguirmos, e a observação dos eventos atuais. A partir dessas evidências, revoltas e rebeliões são coisas raras, e revoluções são extremamente raras. Na maior parte das épocas, na maior parte dos lugares, a maior parte das mulheres, dos escravos, dos servos, dos de baixo, dos excluídos, dos camponeses, dos trabalhadores, a maior parte das pessoas definidas como inferiores — isto é, a maior parte das pessoas — não se rebelaram apesar de serem desprezadas e a exploradas. Elas resistiram, sim; mas sua resistência geralmente é passiva, ou tão insidiosa, tão parte da rotina diária, que é praticamente invisível.

Quando as vozes dos oprimidos e das classes baixas são registradas, algumas são gritos por justiça, mas a maioria são expressões de patriotismo, saudações ao rei, votos de defesa da pátria, todos apoiando lealmente o sistema que os priva e as pessoas que lucram com isso.

A escravidão não teria existido por todo o mundo se os escravos constantemente se levantassem contra seus senhores. A maior parte dos senhores de escravos não é assassinada. Eles são obedecidos.

Os trabalhadores assistem aos executivos de suas empresas receberem salários trezentas vezes maiores que os seus, e resmungam, mas não fazem nada.

As mulheres na maior parte das sociedades sustentam as afirmações e instituições da supremacia masculina, deferindo aos homens, os obedecendo (publicamente), e defendendo a superioridade inata dos homens como fato natural ou dogma religioso.

Homens de status baixo — homens jovens, homens pobres — lutam e morrem pelo sistema que os mantém embaixo. A maior parte dos incontáveis soldados mortos nas incontáveis guerras travadas para manter o poder dos dominadores ou da religião de uma sociedade foram homens considerados inferiores por essa sociedade.

“Vocês não têm nada a perder a não ser as correntes que os prendem”, mas preferimos beijá-las.

Por quê?

Serão as sociedades humanas inevitavelmente construídas como uma pirâmide, com o poder se concentrando no topo? Será a hierarquia de poder um imperativo biológico que a sociedade humana estaria impelida a cumprir? É quase certo que a pergunta está mal formulada e, assim, fica impossível respondê-la, mas ela segue sendo feita e sendo respondida, e aqueles que fazem a pergunta geralmente a respondem de maneira afirmativa.

Se existir tal imperativo biológico e inato, será que ele é igualmente imperativo para ambos os sexos? Nós não temos evidências incontroversas de que haja alguma diferença inata de gênero nos comportamentos sociais. Essencialistas dos dois lados da discussão afirmam que os homens seriam inatamente predispostos a estabelecer uma hierarquia de poder enquanto que as mulheres, ainda que elas não criem essas estruturas, as aceitam ou os imitam. De acordo com os essencialistas, é certo que o projeto masculino prevalecerá, e nós deveríamos esperar encontrar essa cadeia de comando, os “de cima” comandando os “de baixo”, com o poder concentrado em poucos, como um padrão quase universal das sociedades humanas.

A antropologia fornece algumas exceções a essa suposta universalidade. Etnólogos já descreveram sociedades que não têm uma cadeia de comando fixa; nelas o poder, em vez de estar preso a um sistema rígido de desigualdade, é fluido, partilhado diferentemente em situações diferentes, operando por freios e contrapesos que sempre tendem ao consenso. Eles já descreveram sociedades que não estabelecem um gênero como superior, ainda que sempre haja alguma divisão do trabalho por gênero, e as ocupações masculinas sejam aquelas com mais chances de serem celebradas.

Mas todas essas são sociedades que descrevemos como “primitivas” — de maneira tautológica, uma vez que já estabelecemos previamente uma hierarquia de valores: primitivo = baixo = fraco, civilizado = alto = poderoso.

Muitas das sociedades “primitivas” e todas as sociedades “civilizadas” são rigidamente estratificadas, com muito poder atribuído a uma minoria e pouco ou nenhum poder para a maior parte. Será a perpetuação das instituições de desigualdade social de fato o mecanismo que impulsiona a civilização, como sugeriu Lévi-Strauss?

As pessoas no poder são melhor alimentadas, melhor armadas, melhor educadas, e portanto são mais capazes de se manter assim, mas isso é suficiente para explicar a ubiquidade e a permanência da desigualdade social extrema? Certamente o fato de que os homens são um pouco maiores e mais musculosos (ainda que um tanto menos duráveis) que as mulheres não basta para explicar a ubiquidade da desigualdade de gênero e sua perpetuação em sociedades nas quais tamanho e musculosidade não fazem muita diferença.

Se os seres humanos odiassem a injustiça e a desigualdade como dizemos que odiamos e como pensamos que odiamos, teria durado mais de quinze minutos qualquer dos Grandes Impérios e das Altas Civilizações?

Se nós estadunidenses odiamos a injustiça e a desigualdade tão apaixonadamente como dizemos que odiamos, poderia haver alguma pessoa nesse país sem ter o suficiente para comer?

Nós demandamos um espírito rebelde daqueles que não têm chance de aprender que a rebelião é possível, mas nós privilegiados permanecemos parados e não vemos mal nenhum nisso.

Nós temos boas razões para sermos cautelosos, para ficarmos quietos, para não chutarmos o balde. Muita paz e conforto estão em jogo. A passagem moral da negação da injustiça à consciência da injustiça geralmente tem um custo bem alto. Minha satisfação, estabilidade, segurança e meus afetos pessoais podem se tornar um sacrifício e nome do sonho do bem comum, da ideia de liberdade que eu posso não viver para partilhar, por um ideal de justiça que talvez ninguém nunca alcance.

As últimas palavras do Mahabharata eram, “de modo algum eu posso atingir um objetivo fora do meu alcance”. É provável que a justiça, uma ideia humana, seja um objetivo além do alcance humano. Nós somos bons em inventar coisas que não podem existir.

Talvez a liberdade não possa ser alcançada por meio de instituições humanas, mas deva ser mantida como uma qualidade da mente ou do espírito independentemente das circunstâncias, um dom da graça. Essa (se eu a compreendo) é a definição religiosa de liberdade. Meu problema com ela é que a desvalorização do trabalho e das circunstâncias estimula as injustiças institucionais que tornam o dom da graça inacessível. Uma criança de dois anos que morre de fome, de tanto apanhar ou por conta de um bombardeio não teve garantido o acesso à liberdade, nem a nenhum dom da graça, em qualquer sentido no qual eu consiga entender essas palavras.

Nós podemos alcançar por nossos próprios esforços apenas uma justiça imperfeita, uma liberdade limitada. Melhor do que nada. Mantenhamo-nos firmes a esse princípio, o amor à Liberdade, do qual falou o escravo liberto, o poeta.

O terreno da esperança

A passagem da negação da injustiça ao reconhecimento da injustiça não pode ser desfeita.

Os que seus olhos viram, viram. Uma vez que você tenha visto a injustiça, não pode nunca mais de boa-fé negar a opressão e defender o opressor. O que era lealdade agora é traição. De agora em diante, se você não resiste, você pactua.

Mas há um terreno intermediário entre a defesa e o ataque, um terreno de resistência flexível, um espaço que se abre para a mudança. Não é um lugar fácil de se encontrar ou de nele viver. Promotores da paz que tentaram lá chegar acabaram correndo em pânico para Munique.

Mesmo que cheguem nesse terreno intermediário, podem acabar não recebendo graças por isso. O Tio Tom de Harriet Beecher Stowe é um escravo que, por seu corajoso esforço para persuadir seu senhor a mudar de ideia e por sua firme recusa em bater nos outros escravos, apanha até morrer. Nós insistimos em usá-lo como símbolo de uma vergonhosa capitulação e servilidade.

Enquanto admiramos a rebeldia heroicamente inútil, zombamos da resistência paciente.

Mas o terreno de negociação, onde a paciência gera mudança, é onde Ghandi se firmou. Lincoln chegou lá, dolorosamente. O bispo Desmond Tutu, tendo vivido lá por anos com honra singular, assistiu ao seu país rumar, ainda que de modo desconfortável e incerto, ao terreno da esperança.

As ferramentas do senhor

Audre Lorde disse que você não pode desmantelar a casa do senhor com as ferramentas do senhor. Eu penso sobre essa poderosa metáfora, tentando entendê-la.

Para radicais, progressistas, liberais, conservadores, e reacionários, receber a educação dos conhecimentos do senhor é visto como algo que inevitavelmente resulta na conscientização da opressão e da exploração, e consequentemente no desejo subversivo por igualdade e justiça. Os progressistas e liberais apoiam e os conservadores combatem a educação universal gratuita, as escolas públicas, a discussão sem censura nas universidades exatamente pela mesma razão.

A metáfora de Lorde parece dizer que a educação é irrelevante para a  transformação social. Se nada do que o senhor usou pode ser útil ao escravo, então a educação nos seus conhecimentos deve ser abandonada. Desse modo, uma classe inferior precisa reinventar a sociedade por inteiro, alcançar um novo conhecimento, para poder alcançar a justiça. Se ela não o fizer, a revolução fracassará.

Isso é plausível. Revoluções geralmente fracassam. Mas eu vejo seu fracasso começar quando a tentativa de reconstruir a casa de modo que todos possam nela viver se torna uma tentativa de pegar todas as serras e martelos, fazer barricadas na casa de ferramentas do Sinhô, e manter os outros de fora. O poder não apenas corrompe, ele vicia. O trabalho se torna destruição. Nada se constrói.

Sociedades são transformadas com e sem violência. A reinvenção é possível; construir é possível. Que ferramentas podemos usar se não martelos, pregos, serras — educação, aprender a pensar, aprender a aprender?

Será que há ferramentas que ainda não foram inventadas, que devemos inventar para construir a casa na qual queremos que os nossos filhos morem? Será que podemos partir do que já sabemos, ou o que sabemos nos impede de aprender o que precisamos saber? Será que para aprender o que as pessoas não brancas, as mulheres, os pobres, têm a ensinar, para aprender o conhecimento de que precisamos, devemos desaprender todo o conhecimento dos brancos, dos homens, dos poderosos? Junto com o sacerdócio e a falocracia, será que devemos jogar fora a ciência e a democracia? Será que nos sobrará a tentativa de construir sem ferramentas exceto nossas próprias mãos? A metáfora é rica e perigosa. Eu não consigo responder às questões que ela levanta.

Somente nas utopias

No sentido de que oferece um vislumbre de alguma alternativa imaginada ao “modo como agora vivemos”, boa parte da minha ficção pode ser chamada de utópica, mas eu continuo a resistir à essa denominação. Muitas das minhas sociedades inventadas me soam como um aprimoramento de um aspecto ou outro da nossa própria sociedade, mas considero utopia um nome muito grande e muito rígido para denominá-las. 

Utopia, e distopia, são lugares intelectuais. Eu escrevo a partir da paixão e da brincadeira. Minhas histórias não são nem avisos alarmantes nem manuais sobre o que devemos fazer. A maior parte delas, creio eu, são comédias sobre os costumes humanos, lembranças das infinitamente variadas maneiras pelas quais nós sempre voltamos aos mesmos lugares, e celebrações dessa infinita variedade por meio da invenção de ainda mais alternativas e possibilidades. Mesmo os romances Os Despossuídos e Sempre voltando para casa [ainda sem publicação em português], nos quais trabalhei algumas variações nos usos do poder de forma mais metódica que o usual, variações que eu preferiria em comparação às vigentes no nosso mundo — mesmos eles são esforços tanto para expor quanto para subverter o ideal de uma organização social alcançável que acabaria com a injustiça e a desigualdade de uma vez por todas.

O que importa para mim não é oferecer uma esperança de melhoria específica, mas, ao oferecer uma realidade alternativa persuasiva ainda que imaginada, desalojar minha mente, e assim a mente do leitor, do hábito preguiçoso e amedrontado de pensar que a forma em que vivemos agora é a única forma que as pessoas podem viver. É essa inércia que permite às instituições da injustiça continuarem não sendo questionadas.

A fantasia e a ficção científica oferecem na sua própria concepção alternativas ao presente do leitor, ao mundo real. Os jovens em geral saúdam esse tipo de história porque, em seu vigor e avidez por experiência, saúdam alternativas, possibilidades, mudanças. Tendo passado a temer até mesmo a imaginação de uma verdadeira mudança, muitos adultos rejeitam toda literatura imaginativa, orgulhando-se de não enxergar nada além daquilo que já conhecem, ou acham que conhecem.

Contudo, como se temesse seus próprios poderes inquietantes, boa parte da ficção científica e da fantasia são tímidas e reacionárias em suas invenções sociais, a fantasia se apegando ao feudalismo, a ficção científica à hierarquia militar e imperial. Ambas geralmente recompensam seu herói, seja homem ou mulher, somente por feitos extraordinariamente masculinos. (Eu mesma escrevi dessa forma por anos. Em A mão esquerda da escuridão, meu herói não tem gênero, mas seus heroísmos são quase que exclusivamente másculos). Na ficção científica particularmente, encontra-se com frequência a ideia que discuti acima, de que qualquer pessoa de status inferior, se não for um rebelde preparado para arrancar a liberdade através da ação audaciosa e violenta, é ou detestável ou simplesmente desimportante.

Em um mundo tão moralmente simplificado, se um escravo não é Espártaco, ele não é ninguém. Isso é impiedoso e irrealista. A maior parte dos escravos, a maior parte das pessoas oprimidas, são parte de uma ordem social que, pelos próprios termos de sua opressão, não lhes dá nem mesmo a oportunidade de perceberem a possibilidade de transformá-las.

Esse exercício da imaginação é perigoso para aqueles que lucram com as coisas como são porque isso tem o poder de mostrar que as formas como estão as coisas não são permanentes, não são universais, não são necessárias.

Tendo esse poder real, ainda que limitado, de questionar as instituições estabelecidas, a literatura imaginativa também tem a responsabilidade desse poder. O contador de histórias é o contador de verdades.

É triste que tantas histórias que poderiam oferecer uma visão verdadeira contentam-se com o lugar-comum patriótico ou religioso, com obras milagrosas da tecnologia, ou com pensamento idealista, seus autores não tentando imaginar a verdade. A distopia noir da moda simplesmente reverte os lugares comuns e usa o tom ácido ao invés do açucarado, ao passo que continua a evitar o engajamento com o sofrimento humano e com a possibilidade genuína. 

A ficção imaginativa que eu admiro apresenta alternativas ao status quo que não só questionam a ubiquidade e a necessidade das instituições vigentes, mas que também ampliam o campo de possibilidade social e de compreensão moral. Isso pode ser feito em um tom tão inocentemente otimista como nas três primeiras séries televisivas de Star Trek, ou por meio de técnicas e construções de pensamento complexas, sofisticadas, e ambíguas como nos romances de Phillip K. Dick e Carol Emshwiller; mas o movimento é distintamente o mesmo — o impulso de tornar a mudança imaginável.

Nós não vamos conhecer nossa própria injustiça se não pudermos imaginar a justiça. Nós não seremos livres se não imaginarmos a liberdade. Não podemos exigir que tente alcançar a justiça e a liberdade quem não teve a chance de imaginá-las como alcançáveis.

Eu gostaria de fechar e coroar essas inconclusivas meditações com as palavras de um escritor que nunca disse nada além da verdade, e sempre a disse silenciosamente, Primo Levi, que viveu um ano em Auschwitz, e sabia o que é a injustiça.

A ascensão dos privilegiados, não só no Lager mas em toda coexistência humana, é um fenômeno angustiante mas infalível: somente nas utopias ele está ausente. É dever dos homens justos travar a guerra contra qualquer privilégio imerecido, mas é preciso não esquecer que essa é uma guerra sem fim.

Sobre os autores

foi uma romancista estadunidense, autora de clássicos da ficção científica como Os despossuídos e A mão esquerda da escuridão.

Cierre

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Published in Análise, Arte, Cultura, Educação, homeIzq, Livros, Política, Psicanálise and Sociologia

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