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(Wikimedia Commons)

Carta aos homens das classes dominantes

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O revolucionário comunista Carlos Marighella nasceu neste dia em 1911. Nesta carta, ele explica as razões para aderir à luta armada após a traição nacional e a brutal repressão promovida pelos militares e a elite no golpe que instaurou a ditadura de direita que durou 21 anos.

Senhor, tomamos a iniciativa de dirigi-lhe a presente carta com o intuito de assinalar, para seu conhecimento, que a guerra revolucionária já está iniciada no país e que os gastos e implicações dessa guerra serão inevitavelmente tributados por nós às classes dominantes no Brasil.

É sabido e notório que os militares ocuparam o poder, pela violência, em 1964 e, não satisfeitos com isso, deram novo golpe fascista a 13 de dezembro de 1968, decretando o Ato Institucional nº 5 (AI 5). Além da força com que já contavam, passaram agora a ter no AI 5 um instrumento mais poderoso que qualquer outro para sufocar a liberdade de imprensa e as liberdades fundamentais, reprimindo o povo, paralisando o progresso e traindo os interesses da nação.

Os militares e as classe dominantes, das quais fazem parte, assumem assim a responsabilidade por tudo quanto de iníquo e pernicioso acontece no país incluindo o emprego sistemático da violência policial contra o povo. São, também, de sua responsabilidade o acelerado processo de corrupção, a desnacionalização e a entrega do Brasil aos Estados Unidos, país cujos interesses a atual ditadura defende com unhas e dentes em detrimento da nossa soberania. Não é de admirar, diante disso, que os revolucionários e patriotas brasileiros tenham tomado a decisão de iniciar a luta a mão armada para combater a ditadura e a política de traição nacional seguida pelos militares. Como decorrência dessa decisão, desencadeamos, em 1968, a guerrilha urbana, levando a efeito expropriações, captura de armas e munições e explosivos e praticando outros tipos de luta.

Em relação às expropriações que atingiram as classes dominantes o que fizemos foi instituir a cobrança do ICR, ou seja Imposto Compulsório da Revolução, destinado a manter a luta de libertação do povo brasileiro. O ICR é o contrário do ICM, ou seja Imposto de Circulação de Mercadorias cobrado pela ditadura para sustentar os militares no poder e manter sua máquina de repressão policial fascista. Com as expropriações iniciadas antes da vitória da revolução queremos demonstrar, desde agora, que uma vez vitoriosos, expulsaremos os norte-americanos do país e confiscaremos suas propriedades incluindo empresas, bancos e extensões de terras; confiscaremos o capital privado nacional que estiver associado ao capital norte-americano e se opuser à revolução; confiscaremos a propriedade latifundiária acabando com o monopólio da terra; confiscaremos as fortunas dos exploradores do povo.

No ano em curso, esperamos que, para não serem expropriados, venham ao nosso encontro os que desejarem cotizar-se e cumprir com sua parte de sacrifício na guerra revolucionária legitimamente deflagrada contra os traidores da nação.

Certamente de nossa parte não haverá um só momento de trégua, não descansaremos no combate ao AI 5 e na luta para derrubar a ditadura substituindo-a pelo povo armado. Ao finalizar, advertimos mais uma vez as classes dominantes de suas responsabilidades ante a gravidade da situação do país.

A causa que defendemos é justa. A ditadura é que se coloca contra o povo sem resolver nada do custo de vida, dos aluguéis elevados, dos salários mesquinhos e dos impostos extorsivos. Ela prende, espanca, tortura e persegue inocentes. Tem então de remar contra a maré aumentando o já incontável número de seus inimigos enquanto que a simpatia do povo vem para nós. Isso nos dá a certeza de que nenhum patriota deixará de ajudar os revolucionários e de contribuir para a libertação de seu país.

Sobre os autores

foi um político, escritor e guerrilheiro comunista marxista-leninista brasileiro. Um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira, Marighella chegou a ser considerado o inimigo "número um" do regime.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Imprensa and Militarismo

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