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Apoiadores agitam bandeiras e aplaudem quando um comboio de caminhões passa em Rigaud, Canadá, em 28 de janeiro de 2022. (Christinne Muschi / Bloomberg via Getty Images)

O “comboio da liberdade” no Canadá é uma farsa reveladora

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A violência da extrema direita canadense é cada vez mais preocupante. Além de exportarem quadros supremacistas, agora querem cooptar os caminheiros para sabotar o combate à pandemia - desmascarando a falsa imagem progressista do país, que tem uma longa e sórdida história de racismo, xenofobia e imperialismo.

Nas últimas duas semanas, um suposto comboio de liberdade dos caminheiros canadenses contra vacinas têm dominado as manchetes no Canadá e internacionalmente. Como de praxe, os bolsonaristas e negacionistas como a jornalista Paula Schmitt de Poder 360 pegaram essas notícias de fora e mentiram ou destorceram os fatos, aplaudindo o movimento e pedindo que o passaporte de vacinação e outras medidas sanitárias sejam derrubados no Brasil. 

O “comboio de liberdade”, porém, trata-se de um movimento de uma pequena minoria de caminhoneiros canadenses com fortes influências na extrema direita nacionalista e racista do país.

Em outubro de 2021, o governo dos Estados Unidos exigiu que todos os visitantes, incluindo caminhoneiros, tinham que ser vacinados. Como resposta, o governo canadense de Justin Trudeau, anunciou em novembro que todos os caminhoneiros canadenses que cruzaram a fronteira a trabalho tinham até o fim de janeiro de 2022 para serem plenamente vacinados. 

Segundo a maior organização do setor, a Canadian Trucking Alliance, que reúne empresas e sindicatos dos caminhoneiros, 90% dos caminhoneiros que regularmente cruzam a fronteira se vacinaram com as duas doses e o reforço, deixando só 16 mil deles sem as vacinas.

A extrema direita canadense, que são contra não só o passaporte de vacinação, mas contra vacinas como um todo e outras medidas sanitárias em relação à pandemia, começaram a se organizar já em dezembro de 2020, lançando a ideia de um “comboio de liberdade” de caminhões da costa oeste do país até a capital, Ottawa.  

Segundo, Evan Balgord, diretor da Canadian Anti-Hate Network, o movimento foi organizado do início pela extrema direita nacionalista e racista. Os três principais líderes do movimento – Tamara Lich, Bem Dichter e Patrick King – nem são caminhoneiros. Aliás, todas as organizações do setor, incluindo sindicatos, estão contra o movimento.

Tamara Lich é secretaria do Maverick Party, um partido separatista do oeste do país com estreitos laços com supremacistas brancos. Foi ela que organizou uma vaquinha online que arrecadou Can$ 7,4 milhões (após uma decisão judicial só Can$ 1 milhão foi liberado). 

Ben Dichter falando no congresso da extrema direita People’s Party of Canada, em 2019, presidido pelo Maxime Bernier, um notório antissemita, avisou dos perigos de “islamistas políticos” e alegou com o Partido Liberal do primeiro-ministro Justin Trudeau foi “infestado com islamistas”:

“Apesar do que nossa mídia corporativa e líderes políticos querem admitir, entrismo islamista e a adaptação ao islamismo político estão apodrecendo nossa sociedade como sífilis”. 

Patrick King é líder do grupo Canada Unity que tem apoiado e organizado o comboio desde o início, arrecadando 240 mil assinaturas contra as vacinas e medidas sanitárias no país. Dois anos atrás postou um comentário nas redes sociais que a intenção de políticos canadenses “é despopulação da raça caucasiana, ou Anglo-Saxã. E esse é o objetivo dele, despopular a raça Anglo-Saxã pois eles são os que têm as linhagens de sangue mais fortes”. 

Com comícios em várias cidades ao longo do comboio da província de Colômbia Britânica na costa oeste à capital, Ottawa, membros dos Proud Boys e vários outros grupos da extrema direita estavam presentes. Os Proud Boys, que nasceu no Canadá, foi central na invasão ao Capitólio em Washington no 6 de janeiro de 2021.

A pauta original de proibir o passaporte de vacinação para caminheiros se transformou ao longo das últimas semanas em um movimento contra todas as vacinas e medidas sanitárias no combate ao Covid-19. Devido o aumento súbito de infecções, hospitalizações e mortes causadas pela variante Ômicron no Canadá, os governos federais, provinciais e municipais implementaram novas restrições e medidas sanitárias em janeiro de 2022.

Apoiadores, inclusive no Brasil, falaram que 50 mil caminhões e centenas de milhares de pessoas iriam convergir na capital no dia 29 de janeiro em uma das “maiores manifestações da história do país”. Simples mentira. Segundo várias fontes da mídia, a manifestação em Ottawa no sábado 29 de janeiro tinha no máximo 10 mil pessoas e no domingo dia 30, metade desse número. 

O teor racista, nacionalista e negacionista das manifestações no fim de semana passado foi mais que evidente. No sábado de manhã, centenas de manifestantes invadiram um shopping perto do Parlamento, o lugar do ato, sem máscaras. O shopping e todos os restaurantes e lojas na região central da cidade foram devidamente fechados desde então. 

Jornalistas foram agredidos e xingados com epítetos homofóbicos e racistas na manifestação ao investigar e fotografar várias pessoas com bandeiras da Confederação e suásticas. Palavras de ordem incluíram “Morte ao Trudeau”, o primeiro-ministro cujo governo foi eleito com uma maioria há apenas 5 meses. 

O governo do Partido Liberal do Trudeau não é da esquerda, mas ele tinha toda razão de sair do capital com sua família por causas das ameaças. Vale a pena lembrar que 5 pessoas foram mortas na invasão do Capitólio em Washington no ano passado. Em 2020, um militar armado bateu sua caminhonete contra o portão da casa de Trudeau numa tentativa de agredir o primeiro ministro.

A violência da extrema direita no Canadá contra minorias é cada vez mais preocupante. Exatamente cinco anos atrás, no dia 29 de janeiro, um racista entrou numa mesquita na cidade de Quebec, assassinando seis pessoas e ferindo mais cinco. Uma vigília planejada para comemorar as vítimas em Ottawa no sábado passado foi cancelada por causa do medo dos organizadores das milhares de manifestantes da extrema direita na cidade.

Talvez um dos acontecimentos que mais mostre a natureza das manifestações racistas foi quando, no sábado a noite, vários manifestantes, sem máscaras, entraram numa caridade religiosa que fornece refeições à população em situação de rua demandando comida. Com medo de agressão, os trabalhadores serviram comida para os manifestantes mas não antes deles agrediram fisicamente um homem sem teto e um dos seguranças da caridade enquanto gritaram xingamentos racistas. 

Talvez uma coisa boa sobre as manifestações da extrema direita nacionalista e nazista no Canadá esses dias é que desmascara a falsa imagem do país como um polo progressista. Canadá tem uma longa e sórdida história de racismo, machismo, homofobia e imperialismo. Os avanços indisputáveis vieram da luta do movimento operário, dos movimentos sociais e da esquerda. 

Temos que entender que o “comboio da liberdade” faz parte do movimento internacional de negacionistas da extrema direita que fez tudo para minar ao combate à pandemia, misturando posições pseudocientíficas em relação ao Covid-19 com o racismo, homofobia, machismo e violência. Tanto no Canadá quanto no Brasil, os sindicatos, os movimentos sociais e a esquerda têm que não só estarem preocupados, mas começarem mobilizar a favor da vida e das pessoas. 

Sobre os autores

é canadense e professor de História na Universidade de São Paulo.

Cierre

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Published in América do Norte, Análise, Política and Saúde

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