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(Ilka Apocalipse / Flickr)

O trabalhador coletivo livre

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Do desenho ao canteiro: o arquiteto socialista Sérgio Ferro explica a Arquitetura Nova e a crítica marxista à construção civil.

O texto a seguir está na 3ª edição impressa da Jacobin Brasil. Adquira a sua edição avulsa ou assine um de nossos planos!


A teoria da arquitetura nova, ou Desenho/Canteiro, elaborada a partir de 1958-59, foi apresentada integralmente pela primeira vez no meu curso sobre a Estética do Projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) entre 1968 e 1970. Ela decorre de estudos e experiências desenvolvidos por Rodrigo Brotero Lefèvre e eu, logo associados a Flávio Império, todos arquitetos diplomados em 1961 pela mesma universidade.

O canteiro

“Ao contrário de uma sociedade de apropriação da força de trabalho e portanto de sua submissão ao processo de produção e de valorização do capital, seria uma sociedade no centro da qual se encontraria o processo de trabalho ele mesmo, como portador direto e explícito do laço social.”
Franck Fischbach, Depois da produção: trabalho, natureza e capital (2019).

O primeiro passo para a elaboração da teoria da Arquitetura Nova foi sair do campo limitado da atividade profissional para confrontá-la aos contextos materiais mais amplos nos quais a arquitetura atua. Antes, enfrentá-la com o canteiro de obras, complemento sem o qual inexiste, apesar de constantemente ignorado. Em seguida, situá-la na estrutura global da sociedade da qual participa. Mas respeitando nos dois casos a prioridade da análise da produção, como recomenda a crítica marxista.

O canteiro de obras de construção, sob o ponto de vista da técnica produtiva, é uma manufatura, distinguindo-se tanto do artesanato como da indústria. Distingue-se do artesanato pela divisão avançada do trabalho. E da indústria pela não exteriorização em processos automáticos (maquinários) de suas operações essenciais. Pode-se recorrer a produtos industriais (materiais, componentes, algumas máquinas secundárias etc.), mas o que o caracteriza fundamentalmente é que para realizar a operação a função essencial é a força de trabalho.

A força de trabalho na manufatura é, relativamente, mais numerosa que na indústria. A composição orgânica do capital caracteriza-se, também relativamente, por uma proporção maior do que na indústria de Capital Variável (CV), isto é, o custo total da força de trabalho com relação ao Capital Constante (CC), ou seja, os custos das instalações, dos materiais, dos instrumentos de trabalho etc. Como somente o Capital Variável gera mais-valor, ou seja, o valor produzido pela força de trabalho além do necessário para cobrir seu próprio salário e que é apropriado pela classe proprietária na forma de lucro, a manufatura em geral, sempre de forma relativa, fornece ao capital massa maior desse mais-valor. Considerada “atrasada”, a manufatura é mais rentável que a indústria “avançada”.

Imaginemos, por exemplo, um capital de 100 – em qualquer moeda. Na indústria, digamos, o Capital Constante representa 85% desse montante e o Capital Variável, 15%; na manufatura teríamos respectivamente 70% e 30%. Supondo uma mesma taxa de mais-valor de 100%, o mais-valor seria de 15 no caso da indústria e de 30% no da manufatura. A manufatura, portanto, fornece uma quantidade maior de mais-valor para um mesmo capital do que a indústria. A diferença fundamental é pouco notada entre nós, porque há a perequação das taxas de lucro: a taxa de lucro “normal” utilizada nos cálculos de preço é uma média das diferentes taxas de lucro setoriais. Na verdade, são os setores ditos “atrasados” que sustentam os setores ditos “avançados” da produção. (Os percentuais dos exemplos são hipotéticos, mas realistas.) Como afirmou o geógrafo David Harvey em seu livro Para entender o capital (2013): “setores com baixa composição de valor [alta quantidade de trabalho] acabam subsidiando setores com alta composição de valor [alta quantidade de Capital Constante].”

Essa característica da manufatura tem consequências importantes. Em particular, no caso da construção – em todas as suas formas: edifícios, ruas, estradas, pontes etc. – se pensarmos em seu peso enorme na composição do PIB. A massa extraordinária de mais-valor produzida nesse setor, além de sustentar a taxa média de lucro, serve ainda como fonte generosa para a acumulação de capital. É também um dos principais recursos, junto com o monopólio, o colonialismo e o imperialismo, para fazer frente ao pesadelo do Capital: a inevitável queda tendencial da taxa de lucros com o avanço ininterrupto das forças produtivas. O Capital Constante cresce com o custo maior do maquinário aperfeiçoado.

Esse quadro macroeconômico (extremamente simplificado) explica por que dificilmente assistiremos à industrialização total da construção – que não deve ser confundida com a pré-fabricação. Seria um desastre econômico.

A manufatura da construção tende, portanto, a permanecer como manufatura – com alguns aperfeiçoamentos marginais, como os da informática. Ora, esta técnica de produção tem características que determinam inexoravelmente a prática profissional dos arquitetos e outros responsáveis pela prescrição, em particular, a do projeto. Essas determinações são estruturais e no nosso atual regime independem em larga medida da vontade ou da posição social e política dos profissionais.

Os diversos operários da manufatura são distribuídos em equipes diferentes (pedreiros, pintores, eletricistas, etc), nitidamente separadas umas das outras, cada uma composta em geral por um operário qualificado, por ajudantes semiqualificados e por vários outros serventes sem qualificação determinada. Essas equipes, contratadas isoladamente, não formam, por si mesmas, nenhuma totalidade orgânica. A totalização, isto é, sua integração como momentos na formação do produto comum (o edifício, a ponte etc) é função exclusiva do Capital que comprou as várias forças de trabalho.

Uma observação distraída do canteiro faz pensar que a função totalizadora do Capital é uma decorrência da dispersão das equipes e dos trabalhadores. Mas tal pressuposição é historicamente falsa: a mediação do projeto, por exemplo, torna-se “necessária” porque os meios materiais de produção – ferramentas, insumos, matéria-prima – foram retirados e afastados dos operários, e concentrados nas mãos do capital. Essa expropriação, a chamada acumulação primitiva do capital iniciada ainda na Idade Média, permitiu a eclosão das forças produtivas.

Desde então, a expropriação é reproduzida pelo próprio funcionamento do capital, que obriga o trabalhador a vender constantemente sua força de trabalho. O que foi condição para a emergência desse tipo de capital torna-se seu próprio resultado. Por essa razão acreditamos cegamente que o projeto, tal como o conhecemos a partir do Renascimento, ou seja, desde que o capital domina a construção, é indispensável. No período da cooperação simples que precede o da manufatura moderna, como ocorre hoje com as raras cooperativas operárias que sobrevivem à pressão do capital, a totalização não precisa recorrer a nenhum poder exterior. De algum modo, o coletivo dos trabalhadores (o trabalhador coletivo, o corpo produtivo) dá conta dessa função por si mesmo.

O desenho

“A transformação do trabalho em capital é, em si, o resultado do ato de troca entre capital e trabalho. Essa transformação é posta apenas no processo de produção mesmo.”
KARL MARX, Para a crítica da economia política (1859).

Como dizíamos, a separação total entre trabalhadores da construção e as condições “inorgânicas”, ou seja, as necessidades de materiais e instrumentos para realizar o trabalho é posta concretamente pela manufatura desde o fim da Idade Média. Essa separação é pressuposta pela venda da força de trabalho ao capital – mas só se torna efetiva por ocasião da produção real. Antes deste momento, é somente uma possibilidade. Durante a produção real, faz-se o fundamento objetivo de relações de produção.

A separação entre o trabalho e as suas condições materiais é renovada, fortalecida e assegurada pela reiteração constante das mesmas relações de produção. É a evolução dessas relações, determinada pela evolução global do capital produtivo, que traça a história da construção – muito mais que a evolução marginal das forças produtivas. Há, nessa história, quase uma inversão do credo simplista divulgado por um marxismo duvidoso. Segundo tal credo, a evolução das forças produtivas exige a modificação das relações de produção, evolução imanente que não seria mais compatível com essas relações. Entretanto, o próprio Marx fornece inúmeros exemplos do contrário quando diz em Miséria da filosofia (1847) que “as greves regularmente levaram à invenção e à aplicação de algumas máquinas novas. As máquinas eram, podemos dizer, a arma que empregavam os capitalistas para abater o trabalho especial (qualificado) em revolta.”

A primeira e fundamental função do desenho é re-unir no canteiro o trabalho anteriormente disperso pelo próprio capital. Em diáspora por ter perdido seus meios materiais de produção, o trabalhador somente os reencontra concentrados sob o poder do capital – mas agora como arma de exploração que permite a ele (ao capital) a apropriação de mais-valor. A unidade do corpo produtivo é heterônoma, suas articulações produtivas dependem de uma força exterior e hostil. O trabalhador coletivo, fruto dessa unificação artificial, segue ordens exógenas; ele não tem em si mesmo as razões do que faz. O desenho, o projeto, é o principal instrumento para provocar a re-unificação. Elaborado fora do canteiro, indiferente à massa dos trabalhadores, o desenho empresta ligadura e coesão artificial à dispersão das competências dos operários. Sob esse ângulo de consideração, o desenho pode ser qualquer – desde que permita a re-união do que foi separado: uma forma de tipo-zero, no dizer de Lévi-Strauss em Antropologia estrutural (1958): “não é a primeira vez que a pesquisa nos apresenta formas institucionais de tipo-zero. Essas instituições só teriam uma propriedade intrínseca: introduzir as condições prévias à existência do sistema social do qual relevam e que se impõe como totalidade por sua presença – em si mesma desprovida de significação.”

O desenho do produto finalizado só afeta – relativamente – às etapas de circulação e de consumo. Antes do acabamento do produto, o desenho é o meio (mediação nada neutra, veremos) para canalizar para o produto acabado, para o momento em que se torna possível sua mercantilização, o trabalho dos trabalhadores parcelados. No nível do canteiro, o desenho é o molde onde o trabalho idiotizado – na expressão do filósofo André Gorz – é vertido. A configuração e o destino dessa cristalização não contam por enquanto; o que importa é a deposição (em todos os sentidos da palavra) dos trabalhos fragmentados no mesmo objeto em formação. Essa função pouco aparente do desenho é, entretanto, hegemônica.

Para desenvolver esta última afirmação, voltemos por um momento à produção manufatureira. Nela, o saber-fazer operacional não passou ainda para o maquinário – como acontece na indústria. São os operários os depositários desse saber e os responsáveis pelo andamento concreto das operações. Vendem ao capital sua força de trabalho, mas com o pressuposto de pôr à sua disposição o saber e o saber-fazer que incorporam – sem os quais a manufatura não funcionaria. Por isso, sua subordinação ao capital é somente formal. Sob o ponto de vista do trabalho concreto, fora graves deformações devidas à divisão excessiva das tarefas, o operário atuaria (quase) do mesmo modo em produções não subordinadas ao capital.

Essa característica do trabalho manufatureiro tem inúmeras consequências essenciais. Para o capital, a subordinação formal é precária. A dominação que exerce por ter-se apropriado de todos os meios materiais de produção tem uma falha: não inclui os meios subjetivos de produção, o saber e o saber-fazer operacionais. Essa falha enfraquece a dominação – a qual recorre então, para remediá-la, aos mais extravagantes recursos. Em O capital (1867), Marx afirma que “a habilidade de métier [ofício] permanecendo a base da manufatura, enquanto seu mecanismo coletivo não possui um esqueleto material independente dos trabalhadores, o capital deve lutar sem cessar contra sua insubordinação.”

Se os meios subjetivos de produção na subordinação continuam incorporados no trabalhador, em seu saber, seu saber-fazer e habilidade, eles podem ser utilizados como armas de resistência em sua luta contra o capital. Repito, sem esses meios a manufatura não funciona, sobretudo no caso dos métiers [ofícios] fundamentais como os da madeira e da pedra até o século XIX. A história da construção registra inúmeras greves pesadas que paralisam os canteiros por longos períodos, dirigidas por operários desses métiers. Os saberes, por serem propriedade exclusiva dos trabalhadores, podem servir como monopólios, potentes como os do capital – mas obviamente orientados em sentido inverso. Tal estorvo da subordinação formal provocará em parte a emergência do modernismo em arquitetura: a substituição dos materiais básicos como a pedra e a madeira pelo concreto e o ferro, materiais cujas sapiências passam para o lado do comando. Logo isso se generaliza e atinge todos os métiers. Seria o corretivo encontrado pelo capital para o estorvo: o substituto equivalente da industrialização para obter uma subordinação quase real.

Os recursos do capital contra a insubordinação inseparável da subordinação formal são variados, numerosos, extravagantes e aparentemente inexplicáveis se desconhecermos os embaraços intrínsecos da manufatura do capital. Entre eles, os do desenho.

  • O desenho separado de arquitetura é intrinsecamente contraditório. Originalmente feitos no canteiro enquanto auxiliares da produção, em geral em escala onze (fora esquemas sumários do conjunto ou maquetes), os desenhos não compõem ainda um todo orgânico. Separam-se dele como atribuição do mestre de obras e em pouco tempo tornam-se um suporte indispensável para a dominação do capital produtivo. Adquirem então uma identidade ideal, aqui chamada “o” desenho ou “o” projeto. Sua finalidade imediata é fornecer a forma do objeto a ser construído para assegurar seu posterior valor de uso e, portanto, sua determinação mercantil. Sua finalidade dinâmica, entretanto, passa a ser outra: impor desde o exterior a constituição do trabalhador coletivo, a re-união do trabalho disperso pela destruição da cooperação simples entre trabalhadores. Mas essa re-união tem que permanecer heterônoma e de modo algum corresponder ao que seria a reunião espontânea e racional da cooperação simples. Se correspondesse, o trabalhador coletivo teria seu fundamento em si mesmo, ou seja, seria autônomo em princípio, o que entravaria ou impediria a sua dominação pelo capital. Tal impasse conduz inevitavelmente à substituição do horizonte formal ou plástico da cooperação simples por um outro qualquer, desde que se afaste de vez desse horizonte. Esta tese vale desde o Gótico até hoje. Repito: o saber e o saber-fazer dos trabalhadores são os que elaboraram em condições de relativa autonomia – mesmo se hoje estão quase irreconhecíveis.
  • O desenho conveniente para a exploração do canteiro pelo capital, portanto, será necessariamente heterônomo e irracional sob o ângulo produtivo. Sua conveniência econômica para o capital pressupõe sua inconveniência técnica. A análise miúda, cuidadosa, da construção mostra que na maioria dos casos a tática de dominação mistura-se com técnica construtiva, conduzindo a constantes aberrações – mas não aberrantes do ponto de vista da dominação. Mesmo assim, o desenho põe-se como máscara, como ficção arquitetônica embaixo da qual a produção real é escondida. O desenho desse modo tem que atender a uma dupla injunção: ser a imagem de um valor de uso aceitável e relativamente sólido e a imagem de uma ficção construtiva que mente sobre sua formação. Viollet-le-Duc não cessou de criticar esta prática. Gaudí, que construía com correção absoluta, parecia doido no meio da mascarada habitual.
  • O desenho da arquitetura dominante entra num beco sem saída: ao abandonar a lógica de um canteiro autodeterminado, mas tendo que recorrer a ela e mascará-la, afasta de si, rejeita o que garantiria sua autonomia, sua verdade enquanto desenho para a produção racional. Recorre a astúcias formais vazias para criar a ilusão de totalidade plástica, sendo de fato gerador de incompatibilidades e incoerências. Como a subordinação só se põe na efetividade no processo produtivo, ensaia pôr em prática a tara do capital, o desejo de transformar o trabalhador em utopia, metade mecanismo (mecanismo: o que tem sua razão de ser fora de si), metade sujeito responsável por um saber e saber-fazer (que têm em si sua razão). O monstruoso concubinato entre heteronomia e autonomia; autonomia quanto ao meio, heteronomia quanto ao fim. Porque o objetivo final dessa embrulhada é somente, predominantemente, a extração de muito mais-valor. Queiramos ou não, o objeto construído, seja qual for, é mercadoria cujo valor-de-troca nasce na produção – e somente lá. E nosso desenho de arquitetura participa de seu fundamento desde que traiu sua origem ao separar-se do canteiro do qual era parte. O modernismo e o pós-modernismo agravam a mesma irracionalidade – mas montados na substituição da subordinação real; ver o caso das grandes construtoras atuais, como apontou Lúcia Zanin Shimbo.

Desenho para outras relações de produção

“O comunismo não é para nós nem um estado que deve ser criado, nem um ideal sobre o qual a realidade deverá regrar-se. Nós chamamos comunismo o movimento real que abole o estado atual. As condições desse movimento resultam das premissas atualmente existentes.”
Karl Marx e Friedrich Engels, A ideologia alemã (1846).

A sombria realidade produtiva nos canteiros de obra que descrevemos rapidamente pode e deve ser radicalmente superada. Em outras condições sociais, os mesmos parâmetros de nossa análise permitem outra modalidade produtiva, oposta à atual. Ela está entranhada em negativo em nossa crítica.

Quando cheguei na França em 1972, fui encarregado de alinhar as premissas para o novo programa da École d’Architecture, de Grenoble. Após o levante de Maio de 1968, nada havia sobrado dos programas anteriores. O documento que escrevi terminava assim:

  • 1) O atual modo-de-produção arquitetural, deformado e deformador, não pode servir como base de uma nova consciência da arquitetura nem como guia para a elaboração de um programa para a formação de arquitetos.
  • 2) A atual situação de crise e de transição impõe uma conduta metodológica específica e experimental, composta de três etapas fundamentais: a. Preservar e aperfeiçoar os meios-de-produção arquiteturais; b. Aprofundar a crítica radical do atual mododeprodução; c. Tentar, com critério rígido, novos modos-deprodução arquitetural na expectativa de uma determinação de um novo modo-de-produção social.
  • 3) As verdadeiras necessidades atuais, se examinadas racionalmente, estarão na origem dos modos-de-produção arquiteturais novos, próximos possivelmente daqueles requeridos por um outro tempo.

Essas premissas continuam válidas. E se a nossa hipótese sobre a manutenção da manufatura da construção pelo menos nos primeiros tempos após a transformação social for verificada, o primeiro cuidado deverá ser a crítica radical de sua atual conformação. Esse empenho crítico pode começar até certo ponto desde já. É o que a Arquitetura Nova propôs, na teoria e na prática. O passo mais importante e final dessa crítica prática implicará a eliminação de toda e qualquer forma de subordinação do trabalho. O que pressupõe evidentemente a morte do capital e da atual relação salarial. Reutilizar a atual forma degradada da manufatura de produção sem eliminar radicalmente a subordinação incrustada nela atualmente será cair no mesmo erro cometido por quase todas as experiências de “socialismo” feitas até hoje. De nada servirá a socialização dos meios de produção se não houver modificação profunda das relações de produção.

As carências sociais de hoje no campo da construção civil são pelo menos semelhantes às de amanhã, se as transformações sociais não demorarem demais. Muito provavelmente serão maiores. Portanto, tentar responder a elas hoje, alterando tudo o que for possível alterar no sentido de diminuir a subordinação e seus efeitos, inicia o que se completará amanhã. É o que a Usina (cooperativa de assistência técnica a trabalhadores sem-terra e sem-teto), em São Paulo, tem feito apesar de todos os entraves encontrados. Por exemplo, aproxima nos seus canteiros a formação do que será então o efetivo trabalhador coletivo livre – o fundamento de outros tempos. Evidentemente esse início tem limites. Mas é o que podemos fazer se atuarmos nos bolsões nos quais pelo menos alguns aspectos das relações sociais dominantes estão sendo criticados e transformados. Mas, mesmo limitadas, essas experiências já são parte da trajetória transformadora.

A contribuição maior da manufatura ideal da construção para a futura transformação social talvez seja a de possibilitar rapidamente a experiência de relações de produção livres e igualitárias. A simplicidade estrutural da manufatura serial ou heterogênea, se descontarmos as mazelas da subordinação e contarmos com o benefício da autogestão, permite ensaiar relações livres de produção muito mais facilmente do que a complexidade da indústria. Michael Löwy, na introdução de Luta de classes na Rússia (1894), de Marx e Engels, diz que “Rompendo com a ideologia liberal burguesa do Progresso […] seu interesse [o de Marx] recai sobre uma forma “arcaica” […] O socialismo do futuro será uma manifestação superior do coletivismo arcaico, capaz de integrar as conquistas técnicas e culturais da modernidade”. Marx sugere, em seus textos sobre as comunidades agrícolas tradicionais russas, a possibilidade de recorrer a formas “arcaicas” de produção (convenientemente adaptadas) para evitar passagens que o “etapismo” de alguns de seus seguidores considera inevitáveis. Podemos transpor essas considerações para a produção manufatureira e seu “arcaísmo”. Apesar de deterioradas e reduzidas ao mínimo indispensável para que a construção seja viável, as sobras de autonomia produtiva provocam uma reação instintiva contra a subordinação formal. Trata-se, para o que nos importa agora, de favorecer essa insubordinação potencial como aríete contra o maior crime do capital: impor autonomia como esteio da heteronomia radical. O potencial libertário imanente à produção manufatureira pode permitir “saltar” a etapa de heteronomia radical da subordinação real própria à industrialização talvez desnecessária.

O desenho adequado à manufatura seria ideal, isto é, sem vestígios de dominação, caracterizaria-se inicialmente pelo que meus alunos de Grenoble chamaram de estética da separação. Ou seja, um desenho que separaria rigorosa, evidente e logicamente os diferentes trabalhos de cada corps-de-métier (pedreiros, carpinteiros, pintores etc). No limite, o arquiteto deveria ocupar-se sobretudo das interfaces, dos nós em que se cruzam necessariamente equipes de diferentes especialidades. Fora dos nós, a autonomia produtiva das equipes poderia ser total. Esse gênero de desenho foi intensamente experimentado, na medida do possível então, pela Arquitetura Nova: talvez seja sua principal característica.

No caso mais simples e paradigmático, a cada componente arquitetural deveria corresponder um corps-de-métier. Uma das motivações que nos levou (os três da Arquitetura Nova) a adotar as abóbadas foi precisamente a de unir num só componente estruturalmente perfeito (fundação/ “parede”/cobertura formando uma catenária ultra-econômica) o trabalho habitualmente disperso (fundação/paredes/cobertura) de pedreiros ou outros profissionais. Trata-se de uma crítica e modificação das divisões operacionais atuais que não respeitam a organicidade das competências específicas das equipes de trabalho. As divisões operacionais atuais desrespeitam frequentemente a continuidade das intervenções das equipes de cada especialidade. Tal separação reformada deveria guiar o desenho, o qual articularia numa constelação aberta os diferentes componentes. Ou seja, proporia o inverso da totalização habitual, o qual impõe uma figura espacial unitária como se ela fosse a projeção de uma produção extraordinariamente harmoniosa – mascarando assim seu esfacelamento.

A real convergência do corpo produtivo autodeterminado, ao contrário da idolatria da unidade formal, privilegia a constelação da diversidade enfaticamente afirmada. Essa afirmação é um corolário da autodeterminação: para Hegel, a autonomia é a identidade da diferença e da diversidade. Se cada corps-de-métier puder afirmar sua especificidade propondo a melhor solução com os melhores materiais e execução perfeita sabendo que seu trabalho autodeterminado ficará aparente e que não encontrará quase nenhuma interferência negativa dos outros corps-de-métier, é evidente que o conjunto oferecerá uma plástica essencialmente contrária à plástica da enganação atual. Em outros termos, a abolição da subordinação implica a revisão total dos critérios dominantes no desenho arquitetural hoje.

Em nossas experimentações, apesar das limitações impostas pelas condições hostis a tais tipos de iniciativas, tínhamos somente com essa racionalidade produtiva radical cerca de 25 a 30% de economia. Nossos hábitos plásticos, fundamentalmente opostos a qualquer manifestação honesta da realidade produtiva, são altamente onerosos e contrários à razão construtiva. Transformar as relações de produção no sentido de reconhecer essa razão e a dignidade do trabalho sob todas suas formas será também atender de outro modo o que é simplesmente esperado de uma eventual industrialização da construção: a redução dos custos.

Estamos ainda no tempo da transformação de fundo: a revolução é um processo histórico, ora lento, ora acelerado, e não um acontecimento pontual. Nos bolsões em que o capital perde o pé e o real se afasta do habitual, abre-se espaço para outras práticas. Neles, já pode emergir o outro esperado. Quando nos referimos à arquitetura, em geral, pensamos somente nas estrelas presentes na mídia. Mas já há, numerosa, fértil e luminosa uma outra arquitetura, como a elaborada pela Usina no Brasil. Essa arquitetura não é mais uma coleção de objetos mortos – mas de esboços de assaltos ao céu. Como ela, centenas e centenas de iniciativas convergentes começam a ocupar bolsões e flancos que o capital não tem como engolir. Uma outra arquitetura já existe, a única válida pois atende às necessidades mais fundamentais dos marginalizados, os da beira negativa do sistema: a maioria. Seu lema: inverter o impossível em condição, a utopia no que deve ser feito agora.

Em La Plata, na Argentina, em 2018, reuniu-se um coro imenso de participantes desse levante na América Latina. No entardecer de um dia de inverno, junto ao monumento aos muitos estudantes de arquitetura mortos pela ditadura argentina, no calor da fraternidade, do engajamento e da generosidade, pude saudar com aprovação unânime o amanhã germinado através dessa outra arquitetura. E, com ele, a revolução continua seu caminho.

Sobre os autores

é pintor, professor e arquiteto marxista. Foi um dos fundadores
da Arquitetura Nova e mora atualmente na França.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Arquitetura, Capital, Capital cultural, Cidades and Revista 3

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