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(Mad Max: Fury Road / Village Roadshow Pictures)

Estamos vivendo no mundo do Mad Max

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Tradução
Luiz Fernando Lunardello

A série de filmes Mad Max de George Miller se tornou sinônimo do gênero pós-apocalíptico. Em sua essência, no entanto, os filmes não são tanto uma previsão do futuro, mas sim uma denúncia da barbárie climática do nosso presente capitalista e do individualismo implacável que o mantém.

Faz quarenta e três anos desde que Max Rockatansky apareceu nas telas no primeiro filme de Mad Max. Desde então, a visão pós-apocalíptica do diretor George Miller, explorada ao longo de quatro filmes profusamente populares, gerou um idioma comum para descrever um futuro devastado.

O diretor tornou-se a grande referência para cenários desolados, trajes pós-punk, armas e máquinas feitos de pedaços descartadas de nosso próprio mundo. O próprio nome “Mad Max” se tornou um apelido para um violento colapso social. Houve inúmeras homenagens e imitações, desde o quadrinho Tank Girl ao longa O Livro de Eli, e algumas até mais eruditas, como a película A Estrada [baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy].

Em 2015, Miller atualizou, e fechou com chave de ouro, a saga com sua obra-prima, Mad Max: Fury Road [Estrada da Fúria no Brasil], que adicionou um aspecto feminista denso e bem-vindo ao seu universo pós-apocalíptico. Os críticos o chamaram de o melhor filme australiano do século até agora.

O sucesso de Fury Road confirmou o quanto o gênero pós-apocalíptico cresceu em importância à medida que o colapso social se acelera no mundo real. Quando a série começou durante a Guerra Fria, as ansiedades causadas por um possível fim do mundo geralmente se concentravam na ameaça de uma guerra nuclear. Uma única ansiedade apocalíptica que agora foi substituída por muitas: colapso econômico, ressurgimento do fascismo, emergência climática – e, mais recentemente, pandemia global.

Isso explica a crescente popularidade do gênero. Assim como seu primo de primeiro grau, a ficção com zumbis, o gênero pós-apocalíptico é como uma experiência ressonante, até catártica, para os fãs que lidam com seus próprios dilemas existenciais.

“Daqui a alguns anos…”

É fácil esquecer que Miller não pretendia que o Mad Max original fosse um filme pós-apocalíptico. Lançado em 1979, o thriller de baixíssimo orçamento começa com a enigmática epígrafe “Daqui a alguns anos…” e permanece deliberadamente vago sobre o cenário de seu mundo inquietantemente anárquico, quase surreal.

No estilo clássico de Ozploitation [“Oz” é uma abreviação fonética de “Aussie”, que é uma variação de “Australian” – o nome original era “Aussiesploitation”], Miller se concentra quase inteiramente em ação e suspense – além das famosas acrobacias inovadoras e perigosas – enquanto, na maior parte do tempo, exclui sutilezas como drama e motivação dos personagens. Em meio a uma sensação geral de ausência de leis e distopia, seus personagens fazem coisas estranhamente comuns, como ir a cafés ou à praia.

“Com uma espécie de pânico científico que cresce lentamente, o relatório do IPCC da ONU alertou sobre o colapso da civilização já no final deste século.”

Isso pode parecer estranho para os fãs das etapas posteriores e mais sombrias da série. Mas, ao rever o Mad Max original hoje em dia, ele evoca brilhantemente uma sensação de colapso social ocorrendo ao lado da vida normal.

Miller tomou um caminho muito diferente na primeira sequência – o filme crucial da série. Conforme apresentado em seu prólogo memorável – uma montagem poderosa de protestos, revoltas e guerra reais de meados do século XX – Mad Max 2 [conhecido como The Road Warrior nos Estados Unidos e A Caçada Continua no Brasil] ocorre em um mundo pós-apocalíptico que é explicitamente definido como os restos despedaçados daquele onde vivemos.

Curiosamente, esse futuro imaginado não é pós-nuclear. Em vez disso, foi uma crise de energia que precipitou esse ciclo de destruição, seguido por um colapso econômico global e uma típica guerra mundial. O filme foi lançado apenas 8 anos após a crise do petróleo de 1973, explorando a persistente angústia do público. Parece ainda mais presciente hoje, tendo em vista a contínua e ameaçadora dependência do capitalismo com o combustível fóssil.

O cenário da próxima sequência, Mad Max: Além da Cúpula do Trovão, ocorre depois de uma guerra nuclear. As armas nucleares foram usadas entre o filme dois e o filme três? Ou o Além da Cúpula do Trovão é um reboot sutil? Miller sempre gostou de deixar essas perguntas sem resposta.

Trinta anos depois, Fury Road reiniciou a saga de forma mais descarada, atualizando simultaneamente o contexto social. Desta vez, temos um conflito intenso pelo acesso à água potável, refletindo a realidade contemporânea desde a Bacia Amazônica até Flint, em Michigan (EUA).

Apesar de sua desarticulação narrativa, os quatro filmes podem ser lidos juntos como uma sequência de tipos de colapso – começando com crescente desordem e crise, no primeiro filme; seguido por apocalipse em grande escala e, finalmente, tentativas dolorosas e desesperadas de reconstruir a sociedade.

“Por aqui, tudo machuca”

Miller não pretendia que Mad Max 2 fosse realista. É uma fantasia alegórica, descaradamente influenciada por diretores altamente estilísticos como John Ford e Akira Kurosawa. Os protagonistas, com exceção do anti-herói, Max, usam branco e outras cores claras, enquanto os vilões vestem preto – uma homenagem aos westerns de Hollywood. Os figurinos icônicos feitos por Norma Moriceau – looks de vanguarda e que não se limitam aos gêneros definem Mad Max na cultura pop – também desafiam o realismo.

Mas o humanismo de Miller contrabalanceia essa ênfase no estilo formal – especialmente seu compromisso em retratar os efeitos do colapso social nas pessoas. Assistindo Mad Max 2 novamente, hoje em dia, ficamos impressionados em como os personagens estão exaustos e traumatizados. Eles comem comida de cachorro. Eles não podem tomar banho. Eles não parecem saudáveis.

Sob o espetáculo da ação, de fantasias selvagens e veículos fodões, há uma sensação de que é assim que o colapso ambiental e social realmente seria. Você esqueceria o que era ser feliz; você estaria sempre à beira de desistir.

“O apocalipse não precisa se parecer com uma distopia de Hollywood – ele parece, na verdade, com o que está acontecendo ao nosso redor.”

Até os bandidos parecem feridos e debilitados – como na cena em que o vilão Humungus tenta acalmar o grande nemesis de Max, Wez: “Todos nós já perdemos alguém que amamos”. Para Fury Road, Miller fez um grande esforço para deixar o trauma de seus personagens o mais real o possível, contratando a escritora de Os Monólogos da Vagina, Eve Ensler, para servir de consultora aos atores, ajudando-os a melhor entender a escravidão sexual. Como a Imperatriz Furiosa diz a uma das refugiadas que transporta: “Por aqui, tudo machuca”.

“O mundo deles desmoronou”

Tendo esse humanismo como âncora emocional, pode ser inquietante rever os filmes de Mad Max à luz das crises atuais. Com uma espécie de pânico científico que cresce lentamente, o relatório do IPCC da ONU de outubro de 2018 – que desencadeou greves climáticas estudantis em todo o mundo – alertou sobre o colapso da civilização já no final deste século. Apenas um ano depois, a Austrália estava em chamas, com cidades inteiras amontoadas sob um céu vermelho-sangue e suprimentos de comida cortados.

Logo depois, a pandemia da COVID-19 veio e a economia mundial desmoronou. É cada vez mais difícil afastar a sensação de que estamos vendo a ficção se tornar realidade. O apocalipse não precisa se parecer com uma distopia de Hollywood – ele parece, na verdade, com o que está acontecendo ao nosso redor.

Como o professor Jem Bendell colocou em seu angustiante artigo de 2018 sobre a emergência climática: “Quando eu digo fome, destruição, migração, doença e guerra, me refiro à sua vida hoje”.

Mas o colapso não será um grande nivelador, como muitas vezes imaginado na ficção pós-apocalíptica, incluindo Mad Max 2. Mesmo em meio às ruínas, as estruturas sociais do capitalismo persistirão – provavelmente de uma forma mais brutal e autoritária.

Estados, não indivíduos, competirão por recursos cada vez menores, levando ao deslocamento em massa de refugiados, especialmente do Sul Global. Naomi Klein chama isso de “barbárie climática”, enquanto Jeff Sparrow usa o termo “eco autoritarismo” – “uma política centrada no Estado fazendo com que o ‘nosso modo de vida’ seja sustentável à medida que o meio ambiente se desintegra”.

Em outras palavras, o futuro provavelmente se parecerá mais com o filme Os Filhos do Homem do que com Mad Max ou A Estrada. Dificilmente é um pensamento reconfortante.

A economia política de Mad Max

A melhor coisa sobre Mad Max não é o que ele prevê, mas o que ele diz sobre o mundo de hoje. Isso se deve especialmente ao seu foco materialista.

Começando com Mad Max 2, os recursos – quer isso signifique “guzzolina”, metano, minério de ferro ou água – são cruciais para a sociedade e a principal fonte de conflito. Compare isso com O Livro de Eli, no qual diferentes facções lutam entre si em um mundo pós-apocalíptico por uma cópia da Bíblia – uma luta puramente idealista.

Enquanto os dois primeiros filmes de Mad Max favorecem um tropo tipicamente conservador sobre crime e anarquia, os dois últimos apresentam retratos mais complexos da hierarquia social com base na produção ou acumulação de recursos – em outras palavras, eles começam a mostrar classes sociais e lutas de classe.

Em Além da Cúpula do Trovão, Tia Entity controla Bartertown de uma residência arejada e elevada, enquanto trabalhadores e presidiários que se tornaram escravos (uma homenagem à história colonial da Austrália) refinam metano das fezes de porco no sombrio Submundo. Em Fury Road, o senhor da guerra Immortan Joe e uma pequena aristocracia, servidos por escravos com água limpa e comida fresca, governam, lá do alto, um oásis no deserto. Enquanto isso, uma classe de camponeses miseráveis está limitada a rações escassas. É uma fantasia que mostra o pesadelo do eco feudalismo.

“O heroísmo de Max é abertamente subvertido, esvaziando o arquétipo masculino em favor das mulheres.”

No entanto, comentários sobre o capitalismo moderno são inevitáveis, como os nomes satíricos das marcas e slogans deixam claro. Bartertown está “Ajudando a Construir um Amanhã Melhor”, enquanto Immortan Joe chama sua água de “Aqua Cola”. Neste mundo, os bandidos são aqueles que exploram e oprimem, enquanto os protagonistas – a tribo perdida de crianças, de Além da Cúpula do Trovão, e as matriarcais Vuvalini, de Fury Road – são coletivos igualitários.

De fato, Fury Road, corretamente celebrado por seu feminismo, identifica muito claramente uma base econômica para a opressão das mulheres. Na Cidadela, as mulheres estão totalmente subordinadas à produção. “Esse é o meu filho! Minha propriedade!” Immortan Joe grita com Splendid Angharad, uma escrava fugitiva grávida.

Soando como um marxista discreto, Miller diz que queria fazer com que os seres humanos cativos fossem o objeto da perseguição épica do filme “porque até certo ponto somos todos mercadorias neste mundo”.

Bens coletivos

Superficialmente, os filmes Mad Max retratam o individualismo. A imagem icônica de Max Rockatansky caminhando com seu leal cão blue heeler ao longo de uma estrada interiorana, de espingarda na mão, é uma reformulação pós-apocalíptica do mito do cowboy herói solitário.

Mas há um aspecto curiosamente descentralizado no papel de Max como herói que enfraquece o individualismo do mito. Como o crítico Adrian Martin aponta em The Mad Max Movies, Max é muito menos decisivo para a história do que o típico herói de ação – ele “quase nunca acerta ou atira em alguém diretamente”. Os planos de Max geralmente dão errado: sua espingarda falha, seu carro é destruído, ele é enganado para ser um chamariz.

O crítico Almos Maksay completa:

Em vez de ser um grande herói, Max pode ser mais corretamente caracterizado como o indivíduo comum preso no centro de forças conflitantes… mas que não exerce nenhum controle real sobre elas.

Isso é mais bem percebido em Fury Road. O heroísmo de Max é abertamente subvertido, esvaziando o arquétipo masculino em favor das mulheres.

Esse deslocamento do indivíduo cria espaço para enfatizar a ação coletiva — e esse é o maior valor da série, politicamente falando. Os esforços de Max para atacar por conta própria sempre terminam em derrota ou captura antes que ele eventualmente se junte a um coletivo para ajudá-los a combater a opressão e construir um novo mundo – uma bela representação da revolução na vida real.

A própria redenção de Max está sempre na solidariedade. Ao ajudar o coletivo, “neste lugar arruinado, ele aprendeu a viver novamente”.

Sobre os autores

é um escritor, DJ e socialista cujo trabalho é publicado no The Guardian, SBS, Overland Literary Journal e Junkee. Ele também é o apresentador do Classic Album Sundays Sydney.

Cierre

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Published in Análise, Ecologia, Filme e TV and Resenha

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