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Os últimos movimentos populares e espontâneos na América Latina têm como origem a intersecção entre o universal e o particular, a partir da projeção política de identidades sociais. Foto de Kauê Scarim no primeiro comício do PT com o Lula livre no ABC.

Política de identidade de massas

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O tema do assim chamado “identitarismo” gera polêmicas acaloradas na esquerda. Mas o debate frequentemente tropeça numa compreensão politicamente desastrada da noção de identidade. Um projeto popular exige uma identidade de massas e é só a partir da diferença que poderemos construir um novo ciclo de lutas. A ação coletiva demanda um esforço de composição: um trabalho persistente de organização da diferença para um projeto comum.

Nenhum movimento político contemporâneo conseguiu passar ileso ao debate do identitarismo. A questão identitária ressurgiu com forças na eleição de Donald Trump, em 2016, e em seguida com o avanço mundial de movimentos reacionários, chegando ao parlamento ou aos governos – sendo o bolsonarismo um dos mais bem sucedidos.

Como resposta à ofensiva da direita, um fenômeno curioso passou a ganhar espaço no campo progressista: um rebaixamento conceitual na discussão sobre o papel da identidade no engajamento político, cuja consequência prática tem sido a recusa abstrata à “política de identidade”. Entre setores tradicionais da esquerda, o alvo preferencial é um mal-definido “identitarismo”, uma espécie de espantalho utilizado reativamente para preservar espaços de poder. Na tentativa desastrada de enfatizar o papel da classe, acabam acertando lutas populares e movimentos sociais legitimados historicamente, denunciando uma compreensão equivocada da própria noção de identidade. 

Será que o “identitarismo” pode ser considerado uma política de identidade? Se hoje este debate se apresenta como uma armadilha escorregadia, no Brasil temos um acúmulo histórico de lutas populares que nos permite pensar melhor a questão. É para essa rica herança coletiva que devemos nos voltar se quisermos, a sério, construir uma maioria popular para um projeto de transformação social efetivo. A luta política no nosso tempo nos exige não apenas compreender a identidade como algo inerente ao político, mas também defender uma identidade própria da classe trabalhadora, para que não nos sobre uma dada pelo neoliberalismo.

Uma classe universal

No início da sua formação histórica, o capitalismo avançou ao imbricar-se entre Impérios e estruturas de Estado, por meio de um modelo híbrido, de alto potencial de mistura. Foi assim na Europa, com as mudanças ainda no interior do feudalismo, e nas Américas, com a colonização, onde rapidamente o capitalismo impôs seu próprio funcionamento de maneira mais pura. Com a inauguração da força “livre de trabalho”, o capitalismo aprofundou sua penetração subjetiva, ao construir estruturas de  massificação da produção e, assim, do operariado, formando uma das primeiras noções identitárias da classe trabalhadora: a sua condição de maioria em uma sociedade estratificada pelo trabalho. 

A noção de massas foi essencial para entender como a própria classe trabalhadora enxergava a si e sua identidade, enquanto sujeitos explorados por um modelo econômico que explora muitos para privilégio de poucos. Identidade, estrutura econômica e organização social do trabalho modelaram-se juntas: se o capitalismo universalizou as relações de trabalho, a classe trabalhadora organizou-se em uma identidade universal.

Isto é, o capitalismo se universaliza através de um conjunto de ideias que se alinham a sua própria estrutura de produção, por meio de dinâmicas culturais que uniformizam a identidade dos trabalhadores e os aprisionam ao próprio girar da roda, reduzindo-os ao trabalho e somente à condição de produzir. Logo, essas posições são ameaçadas quando os trabalhadores se articulam para além da mediação do universo do trabalho, construindo experiências particulares na coletividade, quando se identificam enquanto uma classe. Entretanto, a noção de classe não se dá de forma homogênea e espontânea entre os trabalhadores, como bem explica E. P. Thompson em “Luta de classe sem classe“:

As pessoas se encontram em uma sociedade estruturada de maneiras particulares (crucial, mas não exclusivamente, nas relações de produção), vivenciam a exploração (ou a necessidade de manter o poder sobre os explorados), identificam pontos de interesse antagônicos, começam a lutar sobre essas questões e no processo de luta eles se descobrem como uma classe, e passam a conhecer essa descoberta como consciência de classe. Classe e consciência de classe são sempre as últimas, não as primeiras, fases do processo histórico real.

Esta identificação precisa ser articulada conforme pontos de interesses antagônicos, desencadeada por questões particulares. Na prática, a classe, fundamentalmente constituída por sujeitos, apresenta a diferença como um elemento intrínseco a sua composição, e possui uma pluralidade de identidades que se implicam num exercício irremediável de alteridade – o de relacionar-se com um outro. Com suas raças, gêneros e sexualidades, seus desejos e percepções distintas sobre a exploração, a classe trabalhadora não é uma categoria estática, sendo construída por demandas flexíveis e dinâmicas, mas também impostas pela própria realidade do capitalismo.

O caráter universal da ideia de classe, sua capacidade aglutinadora diante da espessura onipresente do capitalismo, é moldada pela união de segmentos particulares que a compõem. É por isso que não há uma luta de classes construída a partir de “lugar nenhum”. A classe não cai do céu pronta, como finalidade de si mesma enquanto vontade unitária dos trabalhadores. Essa classe una, eterna e idêntica a si mesmo não existe em canto algum, é uma abstração impotente: a classe mesma é sempre diversa, heterogênea, nunca inteiramente unificada, e sua capacidade de ação coletiva emerge da circulação e articulação das lutas concretas, a partir de uma multiplicidade de experiências.

A separação entre luta de classes e demandas particulares é uma ilusão, e, pior, pode funcionar como uma perigosa mistificação ideológica, negando a própria existência da subjetividade trabalhadora – e, de forma ainda mais arriscada, até sua humanidade. Sem uma concepção de que o particular gera lutas, sem uma noção consciente da identidade como uma mobilização primeira, não há composição política da classe. As opressões particulares, chamadas de forma imprecisa de “identitárias”, são, na verdade, parte constitutiva da luta universal dos trabalhadores: a luta pela própria existência – pelas condições materiais de seu auto-desenvolvimento e determinação.

A formação da classe trabalhadora brasileira

Reflexo da escravidão e da mistura da colonização com o capitalismo, a classe trabalhadora brasileira se formou de maneira traumática em meio às lutas pela liberdade do povo negro. A luta particular, no que se refere às pautas de sujeitos negros em uma sociedade em transição para uma organização política republicana, vinculou-se às demandas propriamente unificadoras da condição de “cidadão brasileiro” – principalmente a partir do iminente fim da instituição da escravidão no Brasil e o surgimento e incorporação dos negros à esfera do “trabalho livre”.

As revoltas ocorridas na Bahia, principalmente a Revolta dos Malês (1835) e a Revolta dos Haussás (1814), são exemplos de organização de massas que constituíram uma ação política direta e auto-organizada, estruturada na própria esfera do trabalho do século XIX, que tinha um único objetivo: a liberdade como elemento unificador de sujeitos. Levando-se em conta também as reações espontâneas de movimentos de libertação de negros e negras na virada deste mesmo século, o massacre de 17 de novembro, de 1889, no Maranhão, levou ex-escravizados libertos a organizarem um motim contra as forças policiais do Estado. O motivo? O medo que a república instaurasse novamente a escravidão em território nacional. 

O que se vê na organização contemporânea é uma reivindicação deste legado de lutas pela liberdade, como forma de fortalecer a defesa da existência do povo negro. O combate à violência policial, ao encarceramento em massa, a defesa da inserção de negros e negras nas Universidades, escolas e mercado de trabalho, são bandeiras de luta com lastro histórico e que compõem a identidade coletiva do povo negro brasileiro e, consequentemente, da classe trabalhadora.  

Em relação à luta das mulheres, percebemos um modo semelhante de organização. Grande parte do processo de combate à exploração feminina se deu a partir da concepção de que o trabalho reprodutivo foi um dos principais pilares do desenvolvimento econômico das sociedades, em especial na transição do feudalismo para o capitalismo, sendo uma “atividade integrada à economia política, e negada como atividade trabalhista”, conforme apresenta Eleonora Menicucci.

No Brasil, o trabalho reprodutivo se juntou à escravidão de forma perversa, cuja mão de obra feminina e negra se mostrou a força específica da consolidação do capitalismo brasileiro, gerando uma exploração que daria sedimento não só ao cuidado como uma tarefa intrinsicamente feminina, mas também a perpetuação de uma elite escravocrata. Hoje em dia, o trabalho doméstico no Brasil é um produto dessas antigas dinâmicas raciais de exploração, especialmente através da categoria das empregadas domésticas. Se a abolição inaugurou um “trabalho com gênero”, deu vazão também à constituição de uma identidade mais determinada de si mesma, e que ligou intimamente as mulheres à sua condição social na estrutura da organização do trabalho. 

Apesar de sempre terem sido trabalhadoras, a grande parte das mulheres brasileiras foram por muitos anos apartadas dos espaços de organização trabalhista, o que moldou a particularidade de suas lutas, tipicamente ligadas às condições reprodutivas (vinculadas à maternidade) e coletivas de seus territórios, como os Clubes de Mães de diversas periferias do Brasil, e as organizações contra a carestia e a fome. Foram elas que constituíram a fundação dos principais movimentos por moradia e direitos básicos nas cidades (a própria luta pelo SUS), mas também pela defesa das terras no campo, construindo na prática um feminismo tipicamente popular e brasileiro.

Como uma bandeira antiga da classe trabalhadora no Brasil, a luta pela liberdade tomou outras feições durante a Ditadura Militar, nos movimentos em defesa da democracia. Foi neste período que os trabalhadores construíram um dos maiores ciclos de processos de massas da nossa história, dando início ao novo sindicalismo e produzindo como saldo organizativo os maiores movimentos sociais da atualidade. Em 1980 se dá o ápice de organização coletiva desse ciclo de lutas, com a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), um instrumento político-ideológico formado pelos próprios trabalhadores, numa aglutinação de diversos setores e movimentos populares brasileiros – ainda hoje o maior partido de massas da esquerda latino-americana. 

Apesar de ser um aparato político forjado por um conjunto diverso de movimentos de massas, a constituição do PT foi viabilizada por mobilizações determinantes, como as grandes greves do ABC, lideradas por um setor particular do operariado organizado: os metalúrgicos. Luta e identidade são indissociáveis. As maiores vitórias da classe trabalhadora brasileira apresentaram uma identidade particular e coesa à frente, usando suas experiências como meio de mobilização de massas. 

Esses eventos históricos mostram que a identidade da classe trabalhadora brasileira não é homogênea, mas sim condicionada por um conjunto de lutas enraizadas em realidades específicas. Por isso, o problema não está em recorrer à identidade como um instrumento de organização política, mas sim na atualização das lutas em si e, portanto, das identidades que se vinculam a elas – que precisam ser organizadas conforme às demandas contemporâneas multiplicadas (e fragmentadas) em meio ao neoliberalismo. 

Construir politicamente a identidade trabalhadora

A construção de movimentos e ações diretas populares da história brasileira revelam que a identidade social não esteve deslocada da luta popular por direitos. Sujeitos nunca pararam de formular e disputar suas identidades sociais – até porque seria impossível dissociar os projetos políticos da identificação, como mostra Stuart Hall. Se existe mundo social, lógicas de interação coletiva, disputa por produtos culturais, conflito direto gerado pela desigualdade, existem também sistematicamente identidades sendo constituídas. Soa estranho o argumento de que luta popular e identidade social são formas antagônicas de organização de uma prática política. 

O neoliberalismo, como um sistema político-econômico ideológico, não possui uma identidade própria, estática, ideal. Sua manutenção se alimenta justamente da decomposição da identidade da classe trabalhadora, destruindo direitos e organizando formas sistêmicas de exclusão e violência por meio do que chamamos “marcadores sociais da diferença” – ou seja, elementos que individualizam sujeitos pelas suas identidades, designando a eles posições subalternas. Ao contrário da identidade, o suposto “identitarismo” não produz relações de alteridade, uma vez que é um fenômeno potencializado pelo neoliberalismo e que reforça unicamente um individual suspenso de senso coletivo. Por isso, é um ciclo de identidade interrompido que não se completa por perder de vista o outro na formação do sujeito. É um fenômeno afeito ao mercado que não possui nenhum círculo de elementos que o contradiz.

A prioridade do neoliberalismo é desmantelar a identidade da classe trabalhadora a partir do seu principal pilar: o trabalho. Para isso, se articula num modo universal-particular: com a destruição da legislação trabalhista, enfraquecendo os sindicatos, aumentando a precariedade no emprego, destruindo políticas de direitos fundamentais, impondo a exclusão social e o trabalho reprodutivo às mulheres, de forma a afetar global e intimamente os sujeitos. 

Nesse sentido, identidades políticas muito bem sedimentadas nas dinâmicas de luta estão passíveis de serem incorporadas ao universalismo neoliberal, trazendo uma máscara progressista a um discurso de identidade que age na desarticulação da classe trabalhadora. É o que Nancy Fraser nomeou de “neoliberalismo progressista”, visto especificamente na nova onda feminista surgida nos EUA, onde políticas como Hillary Clinton se apropriaram de bandeiras feministas para serem eleitas, mesmo sem se comprometer concretamente com o avanço material dos direitos das mulheres.

O que se desenha aqui é uma estrutura que objetiva o esvaziamento. Se as questões particulares são elementos constitutivos da identidade do povo oprimido, a reorganização dessas identidades no interior do projeto neoliberal é a própria destruição da organização popular. Asad Haider também apresenta um diagnóstico semelhante do capitalismo contemporâneo, onde “as reivindicações identitárias perderam sua base em movimentos de massa” e por isso se desarticularam da realidade coletiva. Essa é a força neoliberal que retira dos oprimidos suas identidades particulares e enfatiza uma guerra das próprias organizações sociais contra suas próprias identidades particulares. 

Se a esquerda procura vencer o neoliberalismo, não será negando a identidade como uma pauta política – que seria efetivamente negar a própria existência da classe trabalhadora. Trata-se, na verdade, de fortalecer a ação coletiva e a luta de massas, rearticulando a classe trabalhadora a partir de seus elementos mais particulares, com o objetivo de construir em comum um projeto político abrangente de poder, capaz de ter apelo majoritário e ser de fato ameaçador às estruturas do capitalismo. Devemos repensar o projeto político da esquerda nacional tendo como experiência nosso histórico de lutas, relembrando do que é composta a classe trabalhadora brasileira e quais são suas demandas contemporâneas diante das estruturas atuais de exploração. Um projeto político popular precisa contemplar a diferença como um valor inerente a sua constituição – dado a nossa classe trabalhadora brasileira, profundamente diversa,  plural e democrática.

Temos bons exemplos concretos dessas articulações: os últimos movimentos populares e espontâneos na América Latina têm como origem a intersecção entre o universal e o particular, a partir da projeção política de identidades sociais. Seja o movimento feminista na Argentina, que após décadas aprovou o aborto legal e seguro em todo território; as populações indígenas na Bolívia, que combateram o golpe contra Evo Morales e reconquistaram a democracia; a Coalizão Negra por direitos, uma das principais organizações que articulou em Brasília a luta pelo auxílio emergencial; ou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), na mobilização nacional “Luta pela Vida”, realizando uma grande ocupação em Brasília em protesto às ações de Bolsonaro. Mas se deixarmos de organizar as identidades junto às lutas do povo brasileiro, a tendência espontânea é que elas sejam dissolvidas pelo neoliberalismo, restando unicamente classes sem luta de classes.

Se de um lado é necessário que os projetos coletivos de organização popular olhem para as identidades fora das tramas e labirintos neoliberais, de outro é essencial que os sujeitos movidos por suas identidades voltem seus olhos para a luta organizada de base popular e para os projetos coletivos. A luta de massas é um trabalho persistente de organização da diferença para um projeto coletivo em comum, o que exige um esforço de composição. Por isso, a tarefa de construir politicamente essa demanda – a de uma identidade de classe coletiva – cabe a todos que desejam alterar as atuais estruturas de poder. E para isso existem implicações práticas e conceituais, seja na materialidade das organizações políticas, seja na transformação simbólica do nosso imaginário coletivo. Precisamos reivindicar a diferença como um valor radical e inegociável de nossas práticas políticas. Somente a partir da diferença é que poderemos construir um novo ciclo de lutas coletivas e de massas.

Sobre os autores

é mestrando em Estudos Comparados de Literatura em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, na área de literatura afro-brasileira e masculinidades.

é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, História and Sociologia

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