A desinformação como método: Bolsonaro e o novo regime de verdade na pandemia

09/02/2021

Por
Letícia Cesarino

Marketing de massa, operações psicológicas militares e tecnologias cibernéticas sempre andaram juntos na história. O “caos como método” bolsonarista tem eficácia no atual estágio do capitalismo neoliberal, que dissemina incerteza e confusão em um mundo de crise permanente. Com uma narrativa antissistema ao mesmo tempo que depende do sistema para sobreviver, Bolsonaro insiste em uma auto-imagem de autoridade ao mesmo tempo que delega tudo para os outros.

Bolsonaro atua por meio de um padrão que tenho chamado de “hedging narrativo”, inspirada em uma analogia que ouvi para o caso do QAnon. Foto extraída da live.

O desenrolar da saga da vacina no Brasil colocou em evidência algo que sempre caracterizou o discurso de Bolsonaro na presidência, e que ficou ainda mais evidente durante a pandemia: a ambiguidade. Em outubro, Bolsonaro declarou veementemente que o governo federal não compraria a Coronavac, e reafirmou a decisão em resposta a seguidores nas redes sociais. Na iminência da vacinação começar no estado de São Paulo em janeiro de 2021, voltou atrás e ordenou a entrega dos lotes para o plano nacional de vacinação. Iniciada a vacinação, tornou a insistir no tratamento precoce e a lançar dúvidas sobre a eficácia da vacina. Após o Twitter marcar como duvidosa uma postagem do Ministério da Saúde, a comunicação oficial do governo e o Ministro começaram a falar em atendimento (ao invés de tratamento) precoce.

Não é, claro, a primeira vez que Bolsonaro se comporta assim: inicialmente, copiando Trump, negou a gravidade da doença como uma “gripezinha”, para então recomendar tratamentos à base de medicamentos sem eficácia comprovada. Também como o ex-presidente norte-americano, defendeu o uso da cloroquina, para depois afirmar que quem decide são os médicos. Desde o início, delegou a gestão da pandemia para governadores e prefeitos, ao mesmo tempo que alegava estar sendo impedido de agir pelo STF. Os vai e véns presidenciais se tornaram lugar comum ao longo dos meses de pandemia. Muitos associaram o comportamento errático a cortinas de fumaça, outros a incompetência ou receio de responsabilização legal. Teve quem arriscasse diagnósticos psicanalíticos. Não desconsidero que essas explicações possam iluminar aspectos importantes do curioso fenômeno. Olhando a partir de um outro ponto de vista, mais sistêmico, é possível observar, no entanto, um padrão no aparente caos epistêmico.

Caos como método

O padrão se aproxima do que Marcos Nobre chamou de caos como método, e Fernando Limongi, de presidencialismo de delegação. Essas noções descrevem o modo como o Bolsonaro governa de modo paradoxal: mantendo uma atitude antissistema ao mesmo tempo em que depende do sistema para que as coisas funcionem minimamente; insistindo em uma autoimagem de força e centralização de autoridade ao mesmo tempo em que delega tudo para outros. Hoje, Bolsonaro delega a articulação política ao Centrão; a gestão federal a seus caciques, a militares e conservadores; a luta contra a pandemia aos prefeitos e governadores e à própria máquina do Estado (notadamente, o SUS), que continua funcionando não obstante a ausência de coordenação central. Um dos efeitos desse modus operandi, que Nobre chamou de parasítico, é impedir a atribuição de responsabilidade ao presidente pelo que quer que seja. A falta de planejamento e o discurso ambíguo reforçam este efeito, pois impede que as pessoas tracem causalidades claras. Bolsonaro sabe, desde o início, navegar como ninguém o ambiente de caos informacional produzido, entre outros fatores, pela plataformização da internet.

É a partir desse pano de fundo que podemos compreender a racionalidade do comportamento aparentemente caótico do presidente. Bolsonaro atua por meio de um padrão que tenho chamado de “hedging narrativo”, inspirada em uma analogia que ouvi para o caso do QAnon. No mundo dos mercados, o termo hedging faz referência a uma estratégia de gestão de risco que visa compensar as perdas em um certo investimento apostando em outro ativo, que vai na direção oposta. Assim, minimiza-se as perdas totais: acontecendo um cenário ou o seu oposto, é possível ganhar de uma forma ou de outra. No caso de Bolsonaro, as perdas são a responsabilização por resultados negativos, e os ganhos são crédito por resultados positivos. Com isso, o presidente pode até não arriscar o suficiente para ganhar muito, mas pelo menos consegue manter o mínimo de popularidade – os 25-30% do eleitorado que, segundo Nobre e outros, Bolsonaro precisa para se manter vivo politicamente até 2022.

Em outras palavras, o hedging narrativo do presidente o protege ao evitar a atribuição de responsabilidade pelos efeitos negativos da pandemia, ao mesmo tempo em que mantém abertas chances de reivindicar para si, depois do fato, crédito por medidas com resultados positivos, mesmo que não tenham sido avançadas por ele. O maior exemplo disso talvez seja o auxílio emergencial. Originalmente proposto pela oposição no Congresso Nacional, foi reivindicado, de última hora, pelo presidente. Os efeitos dessa manobra – bem sucedida – na sua popularidade ao longo de 2020 foram óbvios. 

Um novo regime de verdade

Em um artigo anterior para a Jacobin Brasil, comentei sobre a tese dos antropólogos Jean e John Comaroff a respeito das mudanças superestruturais – notadamente, epistêmicas e temporais – associadas à financeirização do capitalismo neoliberal. Essas mudanças incluem um novo regime de produção de verdades que, desde as reflexões pioneiras de Michel Foucault sobre o assunto, é diferenciado de outros, como o do liberalismo político e da ciência nos moldes do século XX. Phillip Mirowski, por exemplo, destacou a virada epistêmica de Hayek na ciência econômica, que passou a ver o mercado não apenas como uma forma eficaz de alocar recursos (como no modelo clássico da mão invisível), mas como um poderoso processador de informação capaz de compensar os déficits cognitivos inerentes aos indivíduos. Nessa visão, o Estado que planeja políticas públicas a partir de valores e diretrizes externos à economia dá lugar ao Estado que existe apenas para apoiar o bom funcionamento dos mercados. A verdade neste modelo não pode ser conhecida de antemão, mas emerge a posteriori como resultado de interações que são opacas aos indivíduos. No lugar de procedimentos institucionalizados, paradigmas compartilhados, planejamento e previsibilidade, essa epistemologia trabalha com incertezas, apostas, probabilidades e oráculos. Neste contexto, com efeito, o hedging narrativo aparece como uma boa estratégia.

Como vêm destacando autoras como Wendy Brown e Wendy Chun, esse novo regime epistêmico deriva da contaminação, pela racionalidade neoliberal, de todas as esferas da vida – inclusive as mais íntimas, chegando mesmo à nossa própria cognição. Uma das principais vias de capilarização desse regime epistêmico é a internet plataformizada. O modelo do humano operante aqui não é o homo oeconomicus do liberalismo iluminista, mas o sujeito influenciável da economia comportamental e outras ciências emergentes que embasam a “arquitetura de escolha” das plataformas na internet contemporânea. Nessa arquitetura de controle, o usuário é concebido como influenciável justamente lá onde acredita ter mais protagonismo e mais escolha. Aqui, é possível a convivência entre manipulação e espontaneidade; liberdade e controle; slogans contraditórios como “acredite no plano” e “faça sua própria pesquisa”, como no caso do QAnon. É neste sentido que podemos ver não apenas o presidente, mas os próprios indivíduos, como também realizando cotidianamente um tipo de hedging epistêmico no modo como integram os pedacinhos de realidade que chegam até eles por vias algorítmicas.

O hedging epistêmico dos usuários

Em um ecossistema de mídia onde a segmentação de públicos e a temporalidade de crise permanente impedem a estabilização de verdades consensuadas, as realidades são não apenas pulverizadas mas, em última instância, personalizadas. São os indivíduos que, junto com a ajuda espectral dos algoritmos, integram as causalidades a partir do que faz sentido nos termos da sua situação de vida particular. Em um contexto de entropia informacional (ou alta equiprobabilidade), os usuários podem compor suas estratégias de ação fazendo também um tipo de hedging, que pode incluir a ciência, mas também outras formas epistêmicas.

O caso do chamado tratamento precoce é típico. Seria reducionista ver a adesão de pessoas leigas a essas supostas práticas de prevenção ou tratamento como puro negacionismo científico. Negar a ciência requer a certeza de uma posição não científica. Mas não é bem isso que se vê entre muitos que aderem ao tratamento precoce e outras narrativas cientificamente questionáveis. Pesquisas sobre o tema indicam que a maioria dos brasileiros confia na ciência. A questão é o que esse termo vago significa para cada uma delas em cada situação, e como o que ele representa entra em cálculos da situação de vida cotidiana de cada um. Alguns, por exemplo, acabam montando uma “cesta” que inclui um ou mais ingredientes do kit covid, muitos deles com poucos efeitos colaterais e amplamente disponíveis como invermectina, zinco ou vitamina D. Essas mesmas pessoas podem também usar máscaras em algumas situações (embora talvez não em todas), e evitar alguns tipos de aglomeração (e não outros). Provavelmente todos conhecemos alguém que age assim.

Em tese, não é muito diferente da analogia do queijo suíço feita por especialistas para descrever as múltiplas camadas de proteção contra o vírus que precisamos montar e gerir no nosso cotidiano – se alguma falhar, há outra, e assim por diante. A diferença é que, neste caso, as “fatias” também incluem causalidades não-científicas, e se ancoram em cálculos risco-benefício a partir de um ecossistema informacional personalizado. Os Comaroff falam da centralidade de causalidades encantadas e ocultas no capitalismo neoliberal, incluindo as da própria financeirização. No caso da pandemia, são comuns visões neste sentido: desde as mais amenas como a de que um bom equilíbrio emocional poderia garantir uma boa imunidade ou que Deus oferecerá proteção, até as mais messiânicas de que o vírus é sinal de algum tipo de renovação necessária da humanidade. 

Essas visões podem conviver, e efetivamente convivem, também com fragmentos de causalidades aprovadas pela ciência, ainda que as mais básicas: que o Sars-Cov-2 é um vírus, e a causa da Covid-19. A diferença é que, ao invés de serem amplamente mediadas pela confiança na autoridade do sistema de peritos e do próprio Estado, essas escolhas vêm sendo compostas pelos indivíduos a partir de diferentes fontes que chegam até eles, principalmente, por vias digitais. Este é, afinal, o modelo de produção de verdades implícito na arquitetura desses ambientes: a escolha final é do consumidor. O contexto da pandemia da Covid-19, onde alguns dos próprios consensos na comunidade científica global ainda estão em processo de estabilização, apenas reforça os efeitos de um regime de verdade emergente que lhe é anterior. 

Ambientes de testagem total

O fato de estarmos todos cada vez mais sujeitos a um regime de verdade que diverge do sistema de peritos que prevaleceu ao longo do século XX não significa que indivíduos ou grupos não possam ser apontados e responsabilizados pelo uso estratégico desse ambiente para difusão ativa da desinformação. Como muitos vêm notando, há coerência nos padrões de discurso e comportamentos do presidente, mesmo aqueles mais erráticos. Essa coerência torna-se mais clara, contudo, se a entendemos menos nos termos da racionalidade política convencional do que nos de outros domínios, como marketing e estratégia militar. A verdade do marketing, que subjaz a arquitetura das plataformas e da atual economia da atenção, é performativa. Evidências factuais são irrelevantes, pois não há formas institucionalizadas de veridicção, nem revisão por pares ou procedimentos universais e transparentes. Nesse novo ambiente de testagem total, que já está dado na internet contemporânea, quem tem organização e estratégia para a produção de influência e controle de narrativas, tem tudo.

É possível que, para além da lógica do marketing, a estratégia comunicativa do presidente seja informada por técnicas de psy-ops e guerra híbrida observadas em padrões comunicacionais de outros líderes da direita populista global. Não se trata de conspiração: como se dedicou a mostrar, entre outros, o documentarista Adam Curtis, marketing de massa, operações psicológicas militares e tecnologias cibernéticas sempre andaram juntos na história – estadunidense, principalmente. Como Piero Leirner vem apontando para o caso brasileiro, técnicas como a estratégia de “pinça”, onde os mesmos agentes jogam em duas pontas opostas, de fato se parecem muito com o tipo de hedging narrativo constantemente feito pelo presidente e outros no seu governo. Cabe lembrar, contudo, que apesar da intenção de domínio narrativo sobre o ambiente informacional, o controle nunca pode ser total pois há múltiplos jogadores no terreno, além da própria contingência. Como em todo hedging, a aposta sempre pode dar errado. 

O novo normal

Não é seguro, contudo, contar com as contingências da realpolitik, e tampouco suficiente (ou ético) combater fogo com fogo. A eficácia das narrativas bolsonaristas não vem apenas de uma tática comunicativa eficaz, mas do modo como elas encontram eco na realidade cotidiana de muitos brasileiros durante a pandemia – uma sensibilidade já moldada por décadas de precarização neoliberal, e séculos de abandono pelo Estado. Deste ponto de vista, o tratamento precoce aparece menos como mecanismo de desresponsabilização do que como fonte de esperança, lá onde ela parecia impossível. Como notou Victor Silva a partir de observações do movimento anti-lockdown, abraçar o tratamento precoce autoriza a mobilidade imediata, necessária à sobrevivência na correria diária do mundo neoliberalizado. Oferece, no lugar do desespero e desamparo, a coragem para ir à luta e não “ficar em casa esperando a morte”. Traz, ainda, a promessa de evitar a superlotação de um sistema público de saúde já em processo de desinvestimento pela agenda da austeridade.

Talvez uma lição da atual crise seja que soluções que dependam exclusivamente da confiança das pessoas no sistema de peritos podem não estar funcionando tão bem – nem politicamente, nem em termos sanitários. Paulo Freire nos ensinou que a luta pela liberdade e pela verdade nunca pode ser imposta, mas deve ser moldada a partir daquilo que move as pessoas, das realidades sociais dentro das quais as suas vidas e escolhas fazem sentido – por mais contraditórias que elas possam parecer. Neste momento de inflexão, é preciso, mais uma vez, parar e ouvir por detrás do ruído, ao invés de descartá-lo como negacionismo ou ignorância.

Sobre os autores

é antropóloga com doutorado em Berkeley e leciona na UFSC.

Sobre o autor

Letícia Cesarino é antropóloga com doutorado em Berkeley e leciona na UFSC.

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