Porto Rico se rebela

24/07/2019

Por
Fernando Tormos-Aponte

Tradução
José Carlos Ruy

Vazamento de mensagens de Telegram revelam: enquanto o povo lutava para se recuperar do furacão María, o governador conservador Ricardo Rosselló conspirava para esconder o tamanho da devastação e brincava a respeito da morte de rivais políticos. A população, indignada, exige agora a cabeça do governo.

Manifestação, em 16 de julho de 2019, em San Juan, pela renúncia do governador Ricardo Rosselló (Photo de Joe Raedle/Getty Images)

Uma crescente onda de indignação toma conta de Porto Rico. Pessoas de todas as classes sociais pedem a renúncia do governador conservador Ricardo Rosselló, do Partido Novo Progressista. Os porto-riquenhos usam as redes sociais e inundam as ruas para expressar a repulsa ao governador e seus principais assessores.

Os porto-riquenhos viram, no último mês, várias agências do governo sob investigação do FBI, incluindo o alto escalão que cerca Ricardo Rosselló. Em uma entrevista de rádio, em 24 de junho, o chefe da agência de arrecadação de Porto Rico falou da corrupção na agência que investiga, e que era controlada por uma “máfia institucional” de burocratas do governo que recebiam propinas em troca de favores, como cancelamento de dívidas e multas.

Na semana passada, o FBI indiciou a ex-diretora de educação Julia Keleher e a ex-diretora da administração de seguros de saúde Ángela Ávila-Marrero. O que levou a isto foi o vazamento de uma conversa entre o governador Rosselló e um grupo de seus principais assessores. Na quarta-feira (17), 889 páginas do chat vieram a público e outras mais podem estar a caminho, revelando a ação maquiavélica e inescrupulosa do círculo íntimo do governador. No chat ele instrui os assessores a mobilizar as mídias sociais contra rivais políticos ou dissidentes. Apoiadores do governador nas redes sociais foram instruídos a preencher pesquisas on-line para dar a falsa impressão de que a maioria dos porto-riquenhos aprovava as políticas e o desempenho do governador. Auxiliares abasteciam as linhas editoriais dos principais meios de comunicação locais, faziam perguntas aos repórteres e exigiam entrevistas individuais.

Eles brincavam sobre a morte de opositores políticos, fizeram comentários homofóbicos sobre a sexualidade de celebridades, piadas fatifóbicas sobre seus próprios partidários, piadas transfóbicas, referiram-se a mulheres da oposição como prostitutas, ridicularizaram os idosos em seu próprio partido. Ridicularizaram a campanha anti-bullying encabeçada pela primeira-dama de Porto Rico, Beatriz Rosselló, e se envolviam em bullying no chat. 

O governador compartilhou a imagem de um bairro pobre, que supervisionou de sua casa de campo em Cayey, com uma hashtag que se traduz em “não podemos pedir por um estado como este”. E se gabou por exemplo de acabar com uma comissão que havia sido criada para auditar a dívida do governo porto-riquenho. 

O bate-papo revelou que os assessores do governador discutiram documentos confidenciais com lobistas e solicitaram ao conselho de controle fiscal, criado pelo governo federal, que alterasse documentos prejudiciais à sua administração antes de publicá-los.

Talvez o que mais enfureceu o povo de Porto Rico, que ainda está se recuperando da devastação causada pelo furacão María (que atigiu Porto Rico em 2017), tenha sido saberem que os participantes do bate-papo colaboraram para esconder  notícias sobre mortes causadas pelo furacão, e até brincaram falando em usar as mortes para eliminaqr dissidentes. Logo depois do vazamento do bate-papo, um manifestante disse a um repórter: “Meu nome é Luis Alejandro Vázquez. Estou aqui por causa do meu pai. Eles o encontraram morto três semanas depois de María. Quando li que eles precisavam de um cadáver para alimentar os abutres, não aguentei a dor”.

Porto Rico está em uma encruzilhada. A intensidade e amplitude do clamor popular tem poucos precedentes. A liderança do Novo Partido Progressista, de Ricardo Rosselló, parece acompanhar o público e seu desejo de mudança. Entre as desculpas que apresentou para os atos do governador, diz que todos cometem erros; que os outros partidos políticos também são corruptos; que o bate-papo deveria ser privado; e que o governador precisa de tempo e espaço para refletir. No entanto, o apoio ao governo de Rosselló diminui dentro de seu próprio partido, onde alguns pedem sua renúncia, outros pedem que ele não dispute a reeleição (decisão que Ricardo Rosselló já anunciou) e abandone a presidência do partido;  alguns mais timidamente pedem que ele reflita.

Rosselló conseguiu algo aparentemente impossível: unir contra ele a esquerda política e outros sem partido.

O resultado foi esmagador. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas e às mídias sociais para expressar sua indignação. Celebridades como Lin-Manuel Miranda, Bad Bunny, Ricky Martin e Ednita Nazario convocaram protestos pela renúncia do governador. Autoridades federais eleitas de todos os partidos pedem uma nova liderança. Incluindo o deputado do Arizona, Raúl Grijalva, e o senador da Flórida, Rick Scott, também pedem a mudança. Pessoas de comunidades tanto marginalizadas quanto  ricas, de diferentes etnias, gêneros, sexualidades, origens geográficas e ideologias, entoam “Ricky se demita e leve com você o Conselho Fiscal de Supervisão”.

Os manifestantes miram num alvo muito maior que vai além de Ricardo Rosselló. Eles estão cada vez mais conscientes de que os problemas que levaram a essa insurreição são sistêmicos e que as soluções devem ser elaboradas para enfrentá-los. Os manifestantes exigem medidas contra a corrupção do governo, maior transparência; a inclusão de uma perspectiva feminista no currículo do ensino fundamental. E também a declaração do estado de emergência em resposta à crise de violência contra as mulheres. Querem reformas na saúde e reforma eleitoral, a realização de novas eleições, o fim das negociações de falência em andamento, a auditoria e cancelamento da dívida de Porto Rico, e acabar com a Junta de Supervisão Fiscal imposta pelo governo federal.

Grupos como o Colectiva Feminista en Construcción defendem que a esquerda vá além da construção de uma resistência oposicionista. Querem a elaboração de uma agenda para um futuro emancipatório, que só se tornaria realidade através de mobilizações populares. Grupos como o Colectiva foram citados depreciativamente no bate-papo do governador, porque acusam o governo de negligenciar a violência contra as mulheres. No entanto, sua luta não se limita a esta questão. Pelo contrário, visa uma prática anti-sistêmica e  anti-neoliberal, anti-colonial, contra o capitalismo, o patriarcado e o racismo.

O que os porto-riquenhos testemunharam na conversa vazada do governador foi poder de classe e a conspiração para colocar o clube de meninos do governador e seus interesses no poder, mantendo o restante da população a serviço deles. Os movimentos e organizações criticados e desacreditados nas conversas vazadas estavam no alvo porque ameaçam este sistema. É nosso dever apoiar e desenvolver os esforços desses movimentos, que sofre ataques.

No rescaldo do furacão María, a hashtag #PuertoRicoSeLevanta foi muito difundida. A administração de Rosselló se apropriou da a frase e a usou com tanta frequência que ela acabou perdendo o significado. O público não foi capaz de observar qualquer indicação de que Porto Rico estava de fato se levantando após a destruição do furacão. Funcionários do governo continuamente elogiaram seus próprios esforços de reconstrução, auxiliados por operações multimilionárias de publicidade, enquanto em particular usavam seus chats para debater como enquadrar a seu favor a narrativa em torno da recuperação. Depois de meses manipulando a cobertura da mídia local, pesquisas, relatórios do governo e redes sociais, caiu o véu que protegia a imagem do governo Rosselló – e, finalmente, Porto Rico levantou.

Sobre o Autor

Fernando Tormos-Aponte
é de San Juan, Porto Rico. Estuda da Universidade de Missouri-St Louis (EUA).