Não precisamos nos entregar, precisamos compreender

13/12/2019

Por
Seth Ackerman

Tradução
Cauê Ameni

O resultado eleitoral no Reino Unido aponta para um profundo problema na política mundial hoje: a atração gravitacional de priorizar o combate cultural ao econômico – um resultado que divide consistentemente a esquerda e entrega a vitória à direita.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, posa para uma foto usando luvas de boxe com "Get Brexit Done" durante uma parada em sua campanha eleitoral em Manchester, Inglaterra. Frank Augstein - Associação WPA / Getty

Nos últimos meses, muitos de meus companheiros britânicos, agora de luto, perderam inúmeras horas de sua vida enfurecidos pelo ataques anti-Corbyn Labour – aqueles nostálgicos congênitos e ultrajados pelo status quo – assim como nós, yanks, nos EUA. Meu conselho aos meus amigos do Reino Unido é este: deixe de lado seus sentimentos amargos e parabenize os kamikaze Remainers e qualquer um que não seja corbynista por sua vitória. Eles ganharam de forma justa.

É verdade que nosso lado tinha propagandistas apaixonados, apoio da juventude britânica, alto nível moral e apoio da maioria às nossas idéias – não ao nosso candidato. Mas o lado deles – vamos ser honestos – tinha os bancos, os grandes varejistas, o exército, os Conservadores, os Democratas Liberais, as lideranças dos principais partidos políticos dos EUA e toda a mídia britânica. Política não é brincadeira. Como Max Weber escreveu, “a política é como a perfuração lenta de tábuas duras”, e você não pode negar que praticamente todas as tábuas na Grã-Bretanha se alinharam do lado deles.

Não há espirito esportivo em ser um perdedor ressentido, então parabéns a todos os vencedores lá fora, saboreando discretamente seu triunfo nos escritórios dos grandes jornais e nos think tanks de toda a Grã-Bretanha. Eles alcançaram o impensável: conseguiram convencer milhares de britânicos de que seu voto não importava. Para os vencedores vão os despojos – e nos próximos cinco anos, a espoliação será imensa.

Aqui nos Estados Unidos, embora Corbyn seja mais frequentemente comparado a Bernie Sanders, de uma maneira estranha ele se parece mais com Obama: ambos eram candidatos irremediavelmente improváveis ​​à liderança de seu partido, que prevaleceram apesar das probabilidades e mudaram irreversivelmente a política de seu país. E os dois também – você lembra, não lembra? – antisemitas endurecidos que representavam ameaças mortais à própria existência dos judeus, de acordo com uma série de porta-vozes credenciados e auto-credenciados do povo judeu (alguns dos quais eram judeus).

Apenas um punhado de manchetes deve despertar memórias: “Jeremiah Wright: Revisitando o pastor anti-semita de Obama”. “Por que os 7.000 incidentes anti-semitas de Obama foram amplamente ignorados?” “Foto de Obama e Farrakhan foi suprimida a pedido de deputados negros, afirma o jornalista”. “Anos de discursos e ações anti-semitas de Obama incitaram o tiroteio em Pittsburgh?”. “ Joe Lieberman diz que o Partido Democrata não é anti-judeu – mas alguns membros são”. E quem poderia esquecer: “A recusa de Obama em vetar Israel na ONU classificou o incidente mais anti-semita de 2016: o Simon Wiesenthal Center coloca a abstenção dos EUA no topo da lista anual.”

Mas é aí que as semelhanças terminam. Jeremy Corbyn é socialista, o que significa que as acusações de ódio aos judeus no seu caso foram divulgadas solenemente pela mídia, ecoadas por políticos rivais, tratadas com a gravidade de uma crise nacional. O candidato Obama teve o bom senso de não ser socialista, de modo que, quando o New York Times descobriu que ele “se tornara uma fonte de ansiedade judaica sobre Israel, Irã, anti-semitismo e raça” (na época, febris e-mails sobre Agenda da Irmandade Muçulmana circularia entre os idosos judeus do sul da Flórida, de tendência democrática), apologistas de Israel como Jeffrey Goldberg se apressaram em explicar (corretamente) que tudo isso era um grande mal-entendido. Logo, as alegações sobre o anti-semitismo de Obama começaram a emitir um cheiro ruim nos círculos do pensamento correto, enquanto a mesma acusação contra Corbyn – um homem que toda a sua vida irradiava positivamente a energia de um ativista da Batalha de Cable Street – tornou-se uma marca de seriedade e gravidade.

Assim é a vida. Como muitos jovens agora estão aprendendo, ser radical é fazer inimigos. A chance de nossos inimigos veio ontem à noite.

Não pretendo ser nenhum tipo de especialista em política britânica, mas eis como isso me parece de longe. Em 2017, Jeremy Corbyn obteve uma vitória moral, melhorando a pontuação do Partido Trabalhista em relação a 2015, centralizando um programa radical, porém, prático, para uma social-democracia. Isso ele conseguiu, apesar do barulho do drama do Brexit. Essa abordagem poderia funcionar desde que seu oponente fosse Theresa May, vista pelo eleitorado tão confusa e conflitante na questão do Brexit quanto Corbyn e os trabalhistas. Mas no momento em que Boris Johnson assumiu a liderança dos conservadores em julho passado, o terreno mudou de paradigma. Agora que os Conservadores eram um bloco de Brexiteers duros, a eleição dependeria não de qual posição os trabalhistas assumissem no Brexit, mas em qual dimensão a disputa seria travada em primeiro lugar: o NHS (Serviço Nacional de Saúde) e a social-democracia versus sado-austeridade e privatização? Ou nacionalismo da Little England versus Europhilia metropolitana?

Entre essas duas opções, não há dúvida de que briga foi mais vantajosa em termos eleitorais para os trabalhistas. Como o astuto e cientista político Matt Grossmann escreveu no Twitter:”Com o Brexit, os conservadores do Reino Unido transformaram a dimensão Esquerda-Direita para amenizar a questão econômica e focar na identidade nacional, uma estratégia de longa data para manter o poder com posições econômicas impopulares e crescente desigualdade”. E qual foi a resposta do Partido Trabalhista? Cacofonia e incoerência – porque os Europhiles trabalhistas estavam determinados a disputar a eleição precisamente no terreno mais fraco para os trabalhistas: o Brexit em vez do Serviço Nacional de Saúde.

A história ordenou: em muitos países, agora existe uma maioria de direita com nostalgia cultural e uma maioria de esquerda lutando por uma economia igualitária. Mas enquanto o primeiro bloco é politicamente unido e culturalmente compacto, o segundo é dolorosamente dividido entre dois segmentos sociais distantes e desconfiados: um urbano, jovem que defende Sanders-Corbyn, o outro mais velho, provincial e culturalmente divorciado da esquerda. Enquanto essa situação continuar, a direita continuará vencendo.

É um momento tão doloroso que me lembro, e não quero menosprezar, os perigos que a Grã-Bretanha enfrenta agora. A esquerda pode ficar no banco por alguns anos. Mas não posso deixar de sentir que, a longo prazo, há espaço para otimismo. Os jovens estão massivamente conosco, mesmo quando perdemos. Os mantras da década de 1980 ainda são desacreditados. E as expectativas políticas de milhões aumentaram a um tamanho que dificilmente será reduzido às dimensões risíveis do blairismo. A história não vai nos surpreender: foi o que o narrador de William Morris estava pensando em A Dream of John Ball, enquanto contemplava o herói das grandes revoltas camponesas de 1381 – uma rebelião contra o feudalismo que foi esmagada e, no entanto, acelerou o fim do feudalismo, acelerando a chegada do capitalismo:

Eu ponderei sobre todas essas coisas: os homens lutam e perdem a batalha, as lutas acontecem apesar da derrota, e quando as coisas acontecerem não como eles almejavam, outros homens têm que lutar por aquilo que eles defendiam só que outro nome.

Sobre os autores

é o editor executivo de Jacobin.

Sobre o autor

Seth Ackerman é o editor executivo de Jacobin.