O dia que abalou o mundo

07/11/2020

Por
China Miéville

Tradução
Heci Regina Candiani

A história de 7 de novembro de 1917 – o dia em que os bolcheviques mudaram a história mundial e instauraram o primeiro Estado operário a partir de um levante popular.

Lenin com um grupo de comandantes na Praça Vermelha, 25 de maio de 1919. Smirnov_N. / Wikimedia.

Trecho do livro Outubro: história da Revolução Russa (Boitempo 2017)


A alvorada do dia 25 se aproximava. Desesperado, Keriénski emitiu um apelo aos cossacos “em nome da liberdade, da honra e da glória de nossa terra natal […] ajam para ajudar o Comitê Executivo Central do Soviete, a democracia revolucionária e o governo provisório e salvar o Estado russo em perigo”.

Mas os cossacos queriam saber se a infantaria ia para as ruas. Quando o
governo deu uma resposta ambígua, todos – menos um pequeno número de
ultra legalistas – responderam que não estavam dispostos a agir sozinhos, para “servir de alvo vivo”.

Várias vezes, e com facilidade, o Milrevcom desarmou guardas legalista sem diversos pontos da cidade e lhes disse para voltar para casa. Na maior parte das vezes, era o que eles faziam. Os insurgentes ocuparam o Palácio dosEngenheiros simplesmente entrando pela porta. Eles entravam e se sentavam, enquanto aqueles que estavam lá sentados se levantavam e iam embora”, diz uma reminiscência. Às seis da manhã, quarenta marinheiros revolucionários se aproximaram do Banco Estatal de Petrogrado. Os guardas do Regimento Semenóvski que faziam a vigilância do prédio haviam prometido neutralidade:defenderiam o banco de ladrões e saqueadores, mas não tomariam partido entre reação e revolução. Nem interviriam. Eles se afastaram e deixaram o CMR assumir.

Uma hora depois, quando a aguada luz de inverno lavava a cidade, um destacamento do Regimento Keksgólmski comandado por Zakhárov, um cadete atípico da Escola Militar, juntou-se à revolução, dirigindo-se à Central Telefônica. Zakhárov tinha trabalhado lá e sabia como funcionava a segurança. Quando chegou, não teve dificuldade em dirigir suas tropas para isolar e desarmar os mal-humorados e impotentes cadetes de plantão. Os revolucionários desligaram as linhas do governo.

Esqueceram-se de duas. Com elas, os ministros do gabinete – escondidos e amontoados sobre dois receptores que ficavam entre as pilastras, as filigranas brancas e douradas e os candelabros da Sala Malaquita do Palácio de Inverno – mantinham contato com suas escassas forças. Eles emitiam instruções inúteis, brigando em voz baixa enquanto Keriénski olhava para o nada.


Meio da manhã. Em Kronstadt, assim como fi zeram antes, marinheiros armados embarcavam em tudo o que conseguissem achar e fosse navegável. De Helsingfors, partiram em cinco destróieres e um patrulheiro, todos enfeitados com bandeiras revolucionárias. Por toda Petrogrado, os revolucionários esvaziaram mais uma vez as prisões.

No Smolni, uma figura desmazelada invadiu a sala de operações bolchevique. Os ativistas olharam desconcertados para o recém-chegado, até que finalmente Vladímir Bontch-Bruiévitch gritou e correu para a frente com os braços abertos: “Vladímir Ilitch, nosso pai! Não reconheci você, meu querido!”.

Lênin se sentou para redigir uma proclamação. Ele estava se contorcendo de ansiedade, desesperado para que a queda do governo estivesse finalizada quando o II Congresso se iniciasse. Ele conhecia bem a força de um fato consumado.

Aos cidadãos da Rússia. O governo provisório foi derrubado. O poder do Estado passou às mãos do órgão do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, o Comitê Revolucionário Militar, que está no comando do proletariado e da guarnição de Petrogrado.
A causa pela qual o povo tem lutado – a proposta imediata de paz democrática, eliminação da propriedade sobre a terra, controle dos trabalhadores sobre a produção, criação de um governo dos sovietes –, o triunfo dessa causa foi assegurado. Viva a revolução dos trabalhadores, dos soldados e dos camponeses!

A esta altura já bastante convencido da utilidade do Milrevcom, Lênin não assinou pelos bolcheviques, mas em nome desse corpo “não partidário”. A proclamação foi impressa rapidamente em negrito, ao qual o cirílico se presta bem. Tão rápido quanto as cópias podiam ser distribuídas, elas foram coladas em muitos muros. Os operadores transmitiram suas palavras pelos fios telegráficos.

De fato, não era uma verdade, mas uma aspiração.


No Palácio de Inverno, Keriénski usou seus últimos canais de comunicação para se juntar às tropas que se dirigiam para a capital. No entanto, comunicar-se com elas não seria nada fácil. Ele podia fugir, mas o CMR controlava as estações.

Ele precisava de ajuda. O Estado-Maior fez uma longa busca, cada vez mais frenética, até finalmente encontrar um carro adequado. Implorando, conseguiram garantir mais um carro, o da embaixada dos EUA – um veículo com convenientes placas diplomáticas.

Por volta das onze horas da manhã do dia 25, exatamente quando a proclamação prefigurativa de Lênin começou a circular, os dois veículos passaram acelerados pelas barreiras do CMR, mais entusiasmadas do que eficientes. Um Keriénski arruinado fugiu da cidade com uma pequena comitiva para ir ao encontro de soldados leais.


Para muitos cidadãos, apesar da agitação, aquele parecia um dia quase normal em Petrogrado. Havia barulho e desordem, é claro, e era impossível ignorá-los, mas relativamente poucas pessoas estavam envolvidas na luta, e apenas em pontos-chave. Enquanto os combatentes se ocupavam do trabalho insurrecional ou contrarrevolucionário, reconfigurando o mundo, a maioria dos bondes estava em operação e a maioria das lojas estava aberta.

Ao meio-dia, soldados e marinheiros revolucionários armados chegaram ao Palácio Mariínski. Os pré-parlamentaristas, que discutiam ansiosamente o drama que se desenrolava, estavam prestes a se tornar atores dele.

Um comissário do CMR entrou na sala de surpresa. Ordenou que o presidente do Pré-Parlamento, Avkséntiev, evacuasse o palácio. De armas na mão, soldados e marinheiros abriram caminho e dispersaram os aterrorizados deputados. Atordoado, Avkséntiev reuniu rapidamente o maior número possível de integrantes do comitê. Eles sabiam que resistir seria inútil, mas partiram sob protestos e com tanta formalidade quanto era possível, comprometendo-se a se reunir novamente o mais rápido que pudessem.

Quando saíram no frio cortante, os novos guardas do prédio verificaram seus documentos, mas não os detiveram. O lamentável Pré-Parlamento não era o prêmio que, para a exasperação enlouquecida de Lênin, ainda lhes escapava.

Esse prêmio era o Palácio de Inverno, agora sem a presença de Keriénski. Lá, com o mundo desmoronando, as lúgubres brasas do governo provisório ainda ardiam.

Ao meio-dia, na grande Sala Malaquita, o magnata do ramo têxtil e kadet Konoválov reuniu o gabinete.

“Não sei por que esta sessão foi convocada”, murmurou o almirante Verderiévski, ministro da Marinha. “Não temos nenhuma força militar tangível e, consequentemente, somos incapazes de tomar qualquer atitude.” Talvez, postulou, eles devessem ter se reunido com o Pré-Parlamento – e, no mesmo momento em que falava, chegou a notícia da dissolução do órgão.

Os ministros recebiam relatórios e emitiam apelos a seus interlocutores cada vez menos numerosos. Aqueles que não eram afligidos pelo triste realismo de Verderiévski prolongavam as fantasias. Com os últimos resquícios de poder se esvaindo, eles sonhavam com uma nova autoridade.

Com toda a seriedade do mundo, como se fossem fósforos queimados contando histórias sinistras de incêndios que provocariam em breve, as cinzas do governo provisório da Rússia discutiam entre si a criação de um ditador.

Dessa vez, as forças de Kronstadt alcançaram as águas de Petrogrado em um antigo iate de lazer, dois navios lança-minas, um navio de treinamento, um antigo navio de guerra e uma falange de pequenas barcaças. Outra flotilha maluca.

Perto de onde o gabinete fantasiava sobre uma ditadura revolucionária, os marinheiros tomaram o Almirantado e prenderam o alto-comando naval. O Regimento Pávlovski montou guarda nas pontes. O Regimento Keksgólmski assumiu o controle ao norte do rio Moika.

O horário originalmente previsto para a tomada do Palácio de Inverno, meio-dia, tinha chegado e passado. O prazo foi adiado para as três horas, o que implicava a prisão do governo para depois das duas horas da tarde, horário de abertura do Congresso dos Sovietes – exatamente o que Lênin queria evitar. A abertura do congresso foi adiada.

Mas o salão do Smolni agora fervilhava de delegados dos sovietes da capital e das províncias. Eles exigiam notícias. Não podiam adiar as atividades para sempre.

Assim, às 2h35 da tarde, Trótski abriu uma sessão de emergência do Soviete de Petrogrado. “Em nome do Comitê Militar Revolucionário”, exclamou, “declaro que o governo provisório não existe mais.”

Suas palavras provocaram uma tempestade de alegria. As principais instituições estavam nas mãos do CMR, Trótski continuou, em meio à comoção. O Palácio de Inverno cairia “em instantes”. Outra grande aclamação: Lênin estava entrando no salão.

“Viva o camarada Lênin”, gritou Trótski, “conosco novamente!”

A primeira aparição pública de Lênin desde julho foi breve e exultante.

Ele não ofereceu detalhes, mas anunciou “o início de um novo período” e exortou: “Viva a revolução socialista mundial”.

A maioria dos presentes respondeu com prazer, mas houve dissidências.

“Você está antecipando a vontade do II Congresso dos Sovietes”, gritou alguém.

“A vontade do II Congresso dos Sovietes foi predeterminada pelo fato de que os trabalhadores e os soldados se insurgiram”, replicou Trótski. “Agora só temos de levar adiante esse triunfo.”

Mas, entre proclamações de Volodárski, Zinóviev e Lunatchárski, um pequeno número de moderados, na maioria mencheviques, se retirou dos órgãos executivos do Soviete. Eles alertaram sobre as terríveis consequências dessa conspiração.

Os revolucionários haviam cometido erros de comédia-pastelão. Os marinheiros do Báltico chegaram atrasados aos seus postos. Alguns foram abandonados em um campo além da cidade finlandesa de Vyborg, graças a um chefe de estação legalista que forneceu um trem não confiável.

Às três horas da tarde, o ataque reprogramado ao governo provisório foi adiado novamente. Lênin ficou furioso com o CMR. Ele estava, recordou Podvóiski, “como um leão em uma jaula […], pronto para pular em cima de nós”. No próprio Palácio de Inverno, quando o moral dos cerca de 3 mil soldados famintos desmoronou, o gabinete se isolou e continuou a imaginar a história do futuro. Dan e Gots, do Pré-Parlamento, decidiram excluir os kadets de seu governo planejado; mas agora, em uma afronta epicamente insignificante para os mencheviques, o gabinete determinou que o novo líder seria do Kadet: o ex-ministro do Bem-Estar, Nikolai Mikháilovitch Kishkin.

Pouco depois das quatro horas da tarde, ele foi formalmente empossado. Assim começou o breve reinado do ditador Kishkin, todo-poderoso governante de um conjunto de salas palacianas e uns poucos edifícios periféricos.

O ditador Kishkin correu à sede militar para assumir o comando. Sua primeira ação foi demitir o chefe do Estado-Maior, Polkóvnikov, e substituí-lo por Bagratuni. Isso provocou a primeira fissura em sua autoridade absoluta: milagrosamente resistentes ao temível poder de Kishkin, os companheiros de Polkóvnikov renunciaram em massa para protestar contra o fato de ele ter sido feito de bode expiatório.

Alguns conseguiram passar pela esburacada defesa do CMR e voltaram melancolicamente para casa. Alguns se sentaram e ficaram olhando pelas janelas.

Seis horas. A chuva fria caía junto com a escuridão. Outro prazo do CMR para atacar o palácio havia terminado. A Guarda Vermelha observava com leve consternação enquanto, na Praça do Palácio, cadetes erguiam suas próprias barricadas.

De tempos em tempos algum revolucionário mais exaltado, ou coisa assim, disparava um tiro, apenas para ser repreendido por seus camaradas. Lênin enviou notas furiosas aos líderes do CMR, exigindo que dessem continuidade à operação.

Às 6h15, um grupo de cadetes de tamanho considerável decidiu que não tinha apetite para sacrifícios inúteis, particularmente de si mesmos, e escapuliu do Palácio de Inverno, levando seus rifles de grande porte. Os ministros se retiraram para os aposentos privativos de Keriénski para jantar. Borche, peixe, alcachofra.

Na Fortaleza de Pedro e Paulo, o comissário do CMR Blagonrávov decidiu que já era hora de atacar. Ele enviou dois ciclistas ao Estado-Maior com um ultimato: o canhão da fortaleza e as armas do Aurora e de sua embarcação irmã, Amur, disparariam em vinte minutos, a menos que o governo se rendesse.

Blagonrávov estava blefando. Ele havia descoberto que as grandes armas da fortaleza apontadas para o palácio eram inúteis: estavam muito sujas para disparar. Suas substitutas menores foram posicionadas às pressas, mas aí ele percebeu que elas não estavam carregadas. E ele não tinha munição adequada.

Os generais foram rapidamente ao gabinete para retransmitir a mensagem do CMR. O último telegrafista do Estado-Maior informou a Pskov que o prédio estava perdido. “Estou abandonando o trabalho”, acrescentou, “e dando o fora.”

Alguém quis saber o que aconteceria se o Aurora disparasse. “O palácio”, disse Verderiévski expressivamente, “vai virar um monte de ruínas.”

O ditador Kishkin apressou-se a implorar a alguns poucos cadetes trêmulos que ficassem. O gabinete, considerando que era seu dever não se retirar até o último momento possível, emitiu um último telegrama.

“Para todos, todos, todos! O Soviete de Petrogrado” – significativamente não os bolcheviques – “declarou derrubado o governo provisório e exige que o poder seja cedido sob ameaça de bombardeio […]. Decidimos não nos render e nos colocamos sob a proteção do povo.”

Às oito horas da noite foi a vez de duzentos cossacos abandonarem seus postos. Bagratuni renunciou e também saiu. No palácio, o restante das forças legalistas esperava a morte fumando morosamente sob a tapeçaria.

Um flanco estava mal guardado. Com determinação e sorte, qualquer um passaria pelos guardas nos corredores parcialmente defendidos. Uma série de revolucionários como Dachkiévitch e repórteres como John Reed iam e vinham, em nome da curiosidade, da solidariedade, do jornalismo. Tchudnóvski foi convidado a entrar por cadetes desesperados para sair dali, mas com receio e negociando sua própria segurança.

Os ministros desocuparam a Sala Malaquita e foram para um escritório menos vulnerável – onde havia um telefone que, milagrosamente, ainda estava funcionando. Os homens telefonaram para a Duma Municipal e pediram ajuda ao prefeito de Petrogrado, Grigori Shréider.

A Duma se reuniu imediatamente em sessão de emergência e enviou mediadores para o Aurora, o Smolni e o Palácio de Inverno. Mas os mediadores foram barrados pelo CMR ao se aproximarem do navio e rechaçados pelas pessoas que cercavam o palácio. Como a bandeira branca que carregavam não era sufi – cientemente visível, foram recebidos a tiros pelos últimos defensores do palácio, em nome do qual estavam ali. No Smolni, Kámeniev os recebeu com cortesia e lhes ofereceu uma passagem segura até o palácio, mas o grupo escoltado não teve mais sorte do que aquele que seguiu direto para lá.

Foi mais ou menos nessa hora que Keriénski conseguiu chegar ao front.


Blagonrávov estava tentando se preparar e percebeu com alívio que as armas de seis polegadas da Fortaleza de Pedro e Paulo estavam em condições de atirar, no final das contas. Mas as ridículas dificuldades que teve de enfrentar não haviam acabado. Os revolucionários concordaram que o ataque final ao Palácio de Inverno começaria quando os homens içassem uma lanterna vermelha no mastro da fortaleza – e ninguém, ele veio a saber, tinha tal lanterna.

Caçando uma lanterna nas dependências sombrias da fortaleza, Blagonrávov acabou caindo em um poço de lama. Quando, sujo e encharcado, finalmente encontrou uma luz adequada e voltou para erguê-la, descobriu, quase fora de si de tanta frustração, que “era extremamente difícil fi xá-la no mastro”. Foi só depois das 9h40 da noite, quase dez horas depois do prazo original, que ele superou os obstáculos e, finalmente, conseguiu sinalizar para que o Aurora disparasse.

O primeiro tiro do navio foi sem projétil. A explosão produziu um som sem fúria, mas bem mais alto do que o da munição viva. Um estrondo cataclísmico sacudiu Petrogrado.

À beira do rio, os espectadores curiosos se jogaram no chão, aterrorizados, e taparam os ouvidos. Atordoados e trêmulos com os relatos, dezenas de defensores do palácio perderam a confiança e abandonaram seus postos, deixando para trás apenas um núcleo duro engajado, corajoso, paralisado, exausto, estúpido ou medroso demais para fugir.

O ministro Semion Maslov, da direita SR, gritou ao telefone para um representante da Duma, que transmitiu suas palavras para a casa silenciosa.

A democracia nos pôs no governo provisório: não queríamos a nomeação, mas tivemos de aceitá-la. No entanto, agora […] quando atiram em nós, não somos apoiados […]. É claro que vamos morrer. Mas minhas palavras fi nais serão: “Desprezo e danação à democracia que soube nos nomear, mas não conseguiu nos defender”

Depois de quase oito horas de paralisação, os delegados do Soviete não podiam mais adiar. Uma hora depois daquele primeiro tiro, o II Congresso dos Sovietes foi aberto no Grande Salão de Assembleias do Smolni.

A sala estava carregada de fumaça, apesar dos alertas repetidos, muitas vezes pelos próprios fumantes, de que não era permitido fumar. Quase todos os delegados, Sukhánov recordou com um estremecimento, tinham “os traços sombrios das províncias bolcheviques”. A seus olhos cultos e refinados, eles pareciam “carrancudos”, “primitivos” e “soturnos”, “brutos e ignorantes”. Dos 670 delegados, 300 eram bolcheviques; 193 eram SRs, dos quais mais de metade da esquerda do partido; 68 eram mencheviques; 14 eram mencheviques internacionalistas. O restante eram não afiliados ou membros de pequenos grupos. A quantidade de bolcheviques presentes demonstrava que o apoio ao partido estava aumentando entre aqueles que tinham votado nos representantes – e foi reforçada por arranjos vagos, que lhes deram mais do que sua parte proporcional. Mesmo assim, sem os SRs de esquerda, eles não tinham maioria.

Mas não foi um bolchevique que tocou o sino de abertura, e sim um menchevique. Os bolcheviques se aproveitaram da vaidade de Dan, oferecendo-lhe a honra. Mas ele cortou imediatamente qualquer esperança de harmonia ou camaradagem.

“O Comitê Executivo Central considera supérfluo nosso habitual discurso de abertura”, anunciou. “Agora mesmo, nossos camaradas, cumprindo abnegadamente as obrigações que colocamos sobre eles, estão sob tiros no Palácio de Inverno.”

Dan e os outros moderados que lideravam o Soviete desde março desocuparam a mesa para serem substituídos pelo novo presidium eleito. Sob uma ovação barulhenta, catorze bolcheviques – entre os quais Kollontai, Lunatchárski, Trótski, Zinóviev – e sete SRs de esquerda, incluída a grande Maria Spiridónova, subiram ao palco. Os mencheviques, indignados, renunciaram solenemente a seus três assentos. Um lugar estava reservado aos mencheviques internacionalistas: em um gesto simultaneamente digno e patético, o grupo de Martov recusou-o, mas reservou-se o direito de aceitá-lo mais tarde.

No momento em que a nova liderança revolucionária se sentou, preparando- -se para os trabalhos, outro estrondo de canhão reverberou no salão. Todos congelaram.

Dessa vez, o tiro partiu da Fortaleza de Pedro e Paulo. E, ao contrário do tiro do Aurora, não foi inexpressivo.


O Neva refletia o clarão oleoso dos disparos. As granadas subiam, faziam arcos na noite e chiavam quando desciam na direção do alvo. Muitas – por pura misericórdia ou incompetência – explodiam, brilhantes e inofensivas, no ar. Outras mergulhavam nas profundezas do rio, espirrando água.

Sem sair de suas posições, os guardas vermelhos também disparavam. Suas balas salpicaram as paredes do Palácio de Inverno. Os remanescentes do governo se encolheram sob a mesa enquanto estilhaços de vidro caíam ao seu redor.

No Smolni, quando soaram os ecos ameaçadores do ataque, Martov ergueu sua voz trêmula. Ele insistia em uma solução pacífica. Fez um apelo rouco por um cessar-fogo. E pelo início das negociações para um governo interpartidário, unido e socialista.

Então houve um grande tumulto de aplausos na plateia. Do próprio presidium, Mstislávski, um SR de esquerda, ofereceu vigoroso apoio a Martov. Assim como a maioria dos presentes, inclusive muitos bolcheviques das bases populares.

Diante da liderança do partido, Lunatchárski levantou-se. E então, espantosamente, anunciou que “a fração bolchevique não tem absolutamente nada contra a proposta de Martov”.

Os delegados votaram o apelo de Martov. O apoio foi unânime.

Bessie Beatty, correspondente do San Francisco Bulletin, estava na sala. Ela entendeu os riscos daquilo que estava vendo. “Foi um momento crítico na história da Revolução Russa.” Uma coalizão socialista democrática parecia prestes a nascer.

Mas, enquanto aquele momento se prolongava, as armas do Neva soaram de novo. Os ecos sacudiram a sala – e o abismo entre as partes ressurgiu.

“Uma aventura política criminosa está acontecendo pelas costas do Congresso de Toda a Rússia”, anunciou Kharash, um oficial menchevique. “Os mencheviques e os SRs repudiam tudo o que está acontecendo aqui e resistem obstinadamente a todas as tentativas de tomar o governo.”

“Ele não representa o 12o Exército!”, gritou um soldado irritado. “O Exército exige todo o poder aos sovietes!”

Houve um bombardeio de protestos. Os SRs e os mencheviques de direita se revezavam para gritar acusações contra os bolcheviques e alertar de que se retirariam. A esquerda os vaiava.

Os ânimos se azedaram. Khintchuk, do Soviete de Moscou, tomou a palavra. “A única possibilidade de solução pacífica para a crise atual”, insistiu, “é negociar com o governo provisório.”

Caos. A intervenção de Khintchuk era ou uma subestimação catastrófica do ódio contra Keriénski, ou uma provocação deliberada. E atraiu a fúria não só dos incrédulos bolcheviques. Finalmente, em meio à balbúrdia, Khintchuk gritou: “Nós estamos deixando o presente congresso!”.

Mas, entre estampidos, insultos e assobios saudando a decisão, os mencheviques e os SRs hesitaram. Afinal, a ameaça de abandonar o congresso era a última cartada.

Do outro lado de Petrogrado, a Duma discutia o telefonema de Maslov. “Saibam os nossos camaradas que nós não os abandonamos; saibam que vamos morrer com eles”, proclamou o SR Naúm Bykhóvski. Liberais e conservadores se levantaram para votar que sim, que eles se juntariam aos que estavam sob tiros no Palácio de Inverno, que também estavam prontos a morrer pelo regime. A condessa Sofi a Panina, do Kadet, declarou que “fi caria na frente do canhão”.

Cheios de desprezo, os representantes bolcheviques votaram não. Eles também se juntariam, disseram, mas não ao palácio: ao Soviete.

Feito o registro, dois cortejos concorrentes partiram na escuridão.

No Smolni, Erlich, do Bund judaico, interrompeu os trabalhos para transmitir notícias das decisões dos deputados da Duma. Era hora, ele disse, de quem “não desejava um banho de sangue” se juntar à marcha para o palácio, em solidariedade ao gabinete. Mais uma vez, a esquerda praguejou, enquanto mencheviques, bunds, SRs e outros pequenos grupos se levantaram e, por fim, saíram. Deixaram bolcheviques, SRs de esquerda e inquietos mencheviques internacionalistas para trás.

Caminhando com dificuldade sob a chuva fria da noite, os autoexilados moderados do Smolni chegaram à Avenida Niévski. Na Duma, uniram-se aos seus deputados, aos mencheviques e SRs do Comitê Executivo dos Sovietes de Camponeses e, juntos, expressaram sua solidariedade ao gabinete. Os quatro grupos caminharam atrás do prefeito Shréider e de Serguei Prokopovitch, ministro do Abastecimento. Levando pão e salsichas para o sustento dos ministros, cantando a Marselhesa com vozes inseguras, o grupo de trezentas pessoas saiu para morrer pelo governo provisório.

Eles não formavam um bloco. Na esquina do canal, os revolucionários bloquearam o caminho.

“Nós exigimos passar!”, gritaram Shréider e Prokopovitch. “Nós estamos indo para o Palácio de Inverno!”

Um marinheiro, confuso, recusou-se a deixá-los passar.

“Atire em nós, se quiser!”, desafiaram os manifestantes. “Estamos prontos para morrer, se vocês tiverem coragem de disparar contra russos e camaradas […]. Nós enfrentaremos as armas!”

O peculiar impasse continuou. A esquerda se recusava a atirar, a direita exigia o direito de passar ou ser baleada.

“O que você vai fazer?”, gritou alguém para o marinheiro que se recusava obstinadamente a assassiná-lo.

O testemunho pessoal de John Reed sobre o que aconteceu a seguir é famoso. “Apareceu outro marinheiro, muito irritado. ‘Nós vamos dar uma surra em vocês!’, gritou energicamente. ‘E, se necessário, vamos atirar também. Vão para casa agora e nos deixem em paz.”

Aquilo não seria um destino digno para os defensores da democracia. De pé em cima de uma caixa, acenando com seu guarda-chuva, Prokopovitch anunciou a seus seguidores que eles salvariam aqueles marinheiros de si mesmos. “Não podemos deixar que nosso sangue inocente manche as mãos desses homens ignorantes! […] Está abaixo da nossa dignidade sermos abatidos” – que dirá levar uma surra – “aqui no meio da rua por guarda-chaves. Voltemos à Duma e discutamos formas melhores de salvar o país e a Revolução!”

Com isso, os autodeclarados morituri da democracia liberal deram meia-volta e iniciaram a viagem embaraçosamente curta de regresso à Duma, levando consigo as salsichas.


Martov permaneceu no Salão da Assembleia com a reunião de massa. Ainda tentava desesperadamente um compromisso. Agora, ele apresentava uma moção criticando os bolcheviques por antecipar a vontade do congresso, sugerindo – mais uma vez – que começassem as negociações para um governo socialista amplo e inclusivo. A sugestão era muito próxima da proposta que havia feito duas horas antes – à qual, apesar do desejo de Lênin de romper com os moderados, os bolcheviques não se opuseram.

Mas duas horas era muito tempo.

Quando Martov se sentou, houve uma comoção, e a fração bolchevique da Duma entrou no salão – para deleite e surpresa dos delegados. Disseram que vinham “para triunfar ou morrer com o Congresso de Toda a Rússia”.

Quando a ovação diminuiu, o próprio Trótski levantou-se para responder
a Martov:

Uma sublevação das massas populares não necessita de justifi cativa. O que aconteceu foi uma insurreição, e não uma conspiração. Endurecemos a energia revolucionária dos trabalhadores e dos soldados de Petersburgo. Construímos abertamente a vontade das massas para uma insurreição, e não para uma conspiração. As massas populares seguiram nossa bandeira, e nossa insurreição foi vitoriosa. E agora vocês vêm nos dizer: renunciem à vitória, façam concessões, comprometam-se. Com quem? Pergunto: com quem devemos nos comprometer? Com os miseráveis que nos deixaram ou com os que estão nos fazendo essa proposta? Nós os vimos por inteiro. Mais ninguém na Rússia está com eles. Supõe-se que um compromisso deva ser feito, como entre dois lados iguais, pelos milhões de trabalhadores e camponeses representados por um congresso que está disposto, não pela primeira nem pela última vez, a barganhá-los como a burguesia julgar melhor. Não, nenhum compromisso é possível aqui. Para aqueles que nos deixaram e para aqueles que nos dizem para fazer isso, nós dizemos: vocês fracassaram miseravelmente, seu papel terminou. Vão para onde devem ir: a lata de lixo da história!

O salão veio abaixo. Em meio ao grande e prolongado aplauso, Martov se levantou. “Então vamos embora!”, ele gritou. Quando se virou, um delegado interceptou seu caminho. O homem olhou para ele com uma expressão que ia da tristeza à acusação.

“E nós que pensamos”, disse ele, “que ao menos Martov permaneceria do nosso lado.”

“Um dia você entenderá”, disse Martov com voz trêmula, “o crime do qual você está participando.”

Ele saiu.

O congresso aprovou rapidamente uma denúncia rancorosa dos que partiram, inclusive de Martov. Tais farpas eram indesejáveis e desnecessárias, no que dizia respeito aos SRs de esquerda e aos mencheviques internacionalistas que permaneceram no salão – bem como para muitos bolcheviques.

Boris Kamkov foi calorosamente aplaudido quando anunciou que seu grupo, os SRs de esquerda, fi caria. Ele tentou reavivar a proposta de Martov, criticando delicadamente a maioria bolchevique. Eles não haviam conquistado o campesinato nem a maior parte do Exército, lembrou aos seus ouvintes. Ainda era necessário um compromisso.

Dessa vez, não foi Trótski quem respondeu, mas o popular Lunatchárski – que havia concordado anteriormente com a moção de Martov. A missão que eles tinham diante de si era difícil, assentiu, mas “as críticas que Kamkov nos faz são infundadas”.

Se, no início desta sessão, tivéssemos tomado medidas para rejeitar ou eliminar outros elementos, Kamkov estaria certo. Mas todos nós aceitamos unanimemente a proposta de Martov de discutir maneiras pacíficas de resolver a crise. E fomos inundados por uma enxurrada de declarações. Houve um ataque sistemático contra nós […]. Sem nos ouvir, sem nem sequer se importar em discutir sua própria proposta, eles [os mencheviques e os SRs] tentaram se livrar de nós.

Em resposta, alguém poderia ter lembrado a Lunatchárski que, durante semanas, Lênin insistira que seu partido deveria tomar o poder sozinho. E, no entanto, apesar de todo esse cinismo, Lunatchárski estava certo.

Seja pela alegria da solidariedade, seja pela truculência da confusão, seja por outra coisa qualquer, a verdade é que os bolcheviques, assim como todos os outros partidos no salão, haviam apoiado a cooperação – um governo de unidade socialista – quando Martov trouxe o assunto à baila.

Bessie Beatty sugeriu que Trótski não foi sufi cientemente rápido para responder à proposta da primeira vez, talvez por “alguma memória amarga dos ultrajes que sofreu nas mãos daqueles outros líderes”. Isso é discutível, mas, mesmo que fosse verdade, os mencheviques, os SRs de direita e outros resolveram atirar esses votos na cara dos bolcheviques. Eles foram direto da votação para a oposição, denunciando aqueles à sua esquerda.

A questão de Lunatchárski era razoável: como cooperar com quem rejeitou a cooperação?

Como se quisessem enfatizar esse ponto, naquele mesmo instante os moderados que haviam abandonado a reunião rotulavam o encontro de apenas “um encontro privado de delegados bolcheviques”. “O Comitê Executivo Central”, anunciaram, “considera que o II Congresso não aconteceu.”

No salão, o debate sobre a conciliação se arrastou até altas horas. Mas agora a ponderação das opiniões cabia a Lunatchárski e Trótski.

No Palácio de Inverno, o jogo chegava ao fim.

O vento penetrava através das vidraças estilhaçadas. As grandes salas estavam frias. Os soldados, desconsolados e privados de propósito, passavam pelas águias de duas cabeças da sala do trono. Os invasores entraram nos aposentos privativos do imperador. Vazios. Dedicaram algum tempo ao ataque da imagem do homem, picotando a baionetadas o hirto e calmo Nicolau II em tamanho natural, que observava tudo da parede. Arranharam a pintura como animais com garras, desde a cabeça até às botas do ex-tsar

Vultos entravam e saíam, cada um inseguro de quem era o outro. Certo tenente Sinegub continuava firmemente comprometido a defender o governo. Ele patrulhou os corredores sitiados por horas sem fim, aguardando o ataque, à deriva em uma espécie de pânico entorpecido, extremo, uma exaustão narcótica, repassando as cenas como partes de uma história ouvida pela metade: um velho cavalheiro em uniforme de almirante, sentado imóvel em uma poltrona; uma central telefônica desligada, abandonada; soldados de joelhos sob os olhos observadores dos retratos da galeria.

Homens se enfrentavam nas escadarias. Qualquer rangido no piso de tábuas podia ser a revolução. Lá vinha um Junker seguindo para algum lugar, em alguma missão. Ele advertiu, com uma calma pomposa, que a pessoa por quem Sinegub acabara de passar – ele tinha passado por alguém, sim – provavelmente era um inimigo. “Bom, excelente”, disse Sinegub. “Atenção! Vou me certificar de uma vez.” Ele se virou e o imobilizou – o outro homem, ele viu, era mesmo do partido insurgente –, puxando o casaco dele para baixo, como uma criança em uma briga no pátio da escola, para que ele não pudesse mover os braços.

Quase duas horas da manhã, as forças do CMR entraram no palácio em número imprevisto. Desesperado, Konoválov telefonou a Shréider. “Temos apenas uma pequena força de cadetes”, disse. “Nossa prisão é iminente.” A ligação caiu.

Os ministros ouviram tiros inúteis nos corredores. Sua última defesa. Passos. Um cadete sem fôlego veio correndo para receber ordens. “Lutar até o último homem?”, perguntou.

“Sem derramamento de sangue!”, gritaram. “Vamos nos render.”

Eles esperaram. Um embaraço estranho. Qual a melhor forma de ser encontrado? Não, seguramente, hesitando envergonhados, com o casaco no braço como homens de negócios à espera do trem.

O ditador Kishkin assumiu o controle. Proferiu as duas últimas ordens de seu reinado.

“Larguem os sobretudos”, disse. “Vamos nos sentar à mesa.”

Eles obedeceram. E assim estavam, um quadro congelado de uma reunião do gabinete, quando Antónov irrompeu inesperadamente, com o chapéu de artista excêntrico empurrado para trás sobre a cabeleira vermelha. Atrás dele, soldados, marinheiros, guardas vermelhos.

“O governo provisório está aqui”, disse Konoválov com uma dignidade impressionante, como se respondesse a uma batida na porta, e não a uma insurreição. “O que você quer?”

“Informo a você, a todos vocês”, disse Antónov, “membros do governo provisório, que vocês estão presos.

Antes da revolução, em outros tempos políticos, um dos ministros ali presentes, Maliantóvitch, havia abrigado Antónov em sua casa. Os dois homens se entreolharam, mas não disseram nada.

Os guardas vermelhos ficaram furiosos ao perceber que Keriénski havia desaparecido. O sangue fervia. Alguém gritou: “Enfiem a baioneta nesses filhos da puta!”.

“Não permitirei nenhuma violência contra eles”, respondeu calmamente Antónov.

Dito isso, conduziu os ministros para fora, deixando para trás seus rascunhos de proclamações riscados, aqueles rabiscos sinuosos como os sonhos de ditadura em planos fantásticos. Um telefone começou a tocar.

Sinegub observou pelo corredor. Quando tudo terminou, quando o governo acabou e seu dever foi cumprido, ele se virou em silêncio e se afastou, sob a luz dos refletores.

Saqueadores investigaram o labirinto de salas. Ignoraram as obras de arte e levaram roupas e quinquilharias. Pisotearam papéis. Ao sair, os soldados revolucionários os revistaram e confiscaram os souvenirs. “Este é o palácio do povo”, disse um tenente bolchevique. “Este é o nosso palácio. Não roube o povo.”

Uma alça de espada quebrada, uma vela de cera. Os ladrões entregaram o butim. Um cobertor, uma almofada de sofá.

Antónov conduziu os ex-ministros para fora, onde encontraram uma multidão furiosa e exaltada. Ele se colocou na frente dos prisioneiros para protegê-los. “Não toquem neles”, insistiram ele e outros experientes – e orgulhosos – bolcheviques. “Isso não é civilizado.”

Mas a raiva das ruas não seria apaziguada tão facilmente. Depois de um momento de apreensão, por sorte o ruído de tiros de metralhadora na vizinhança dispersou as pessoas, alarmadas, e Antónov aproveitou para atravessar a ponte, empurrando e arrastando os detidos para a Fortaleza de Pedro e Paulo.

Quando a porta de sua cela estava prestes a se fechar, o ministro dos Negócios Interiores, o menchevique Nikítin, encontrou um telegrama da Rada ucraniana em seu bolso.

“Recebi isso ontem”, disse. E o entregou a Antónov. “Agora o problema é seu.”

No Smolni, foi o obstinado antagonista Kámeniev que deu a notícia aos delegados: “Os líderes da contrarrevolução abrigados no Palácio de Inverno foram detidos pela guarnição revolucionária”. Houve um alegre pandemônio.

Passava das três da madrugada, mas ainda havia negócios a fazer. Durante mais duas horas, o congresso ouviu relatos de tropas que haviam mudado para o seu lado, de generais que haviam reconhecido a autoridade do CMR. Também havia dissidências. Alguém pediu a libertação dos ministros do SR: Trótski os criticou duramente, chamando-os de falsos camaradas.

Por volta das quatro da madrugada, em um epílogo indigno para sua saída, uma delegação do grupo de Martov entrou timidamente no salão para tentar reapresentar o apelo em favor de um governo socialista colaborativo. Kámeniev lembrou que aqueles com quem Martov defendia um compromisso viraram as costas para a sua proposta. Sempre moderado, ignorou as críticas de Trótski aos SRs e mencheviques, deixando que caíssem discretamente no limbo processual para poupar embaraços, caso as negociações continuassem.

Lênin não retornaria à reunião naquela noite. Ele estava fazendo planos. Mas havia escrito um documento, que Lunatchárski deveria apresentar.

Dirigindo-se a “todos os trabalhadores, soldados e camponeses”, Lênin proclamava o poder do Soviete e se encarregava de propor imediatamente a paz democrática. A terra seria transferida aos camponeses. As cidades receberiam pão, as nações do império teriam autodeterminação. Mas Lênin também advertiu de que a revolução permanecia sob ameaça – de fora e de dentro.

Os kornilovistas […] estão se esforçando para conduzir as tropas contra Petrogrado […]. Soldados! Resistam a Keriénski, que é kornilovista! […] Ferroviários! Parem todos os escalões enviados por Keriénski contra Petrogrado! Soldados, trabalhadores, funcionários! O destino da revolução e da paz democrática está em suas mãos!

A leitura em voz alta do documento demorou, interrompida como foi pelos gritos de aprovação. Um pequeno ajuste no texto assegurou a aprovação da esquerda SR. Uma minúscula facção menchevique se absteve, preparando o caminho para a reconciliação entre o martovismo de esquerda e os bolcheviques. Não importa. Às cinco horas da madrugada do dia 26 de outubro, o manifesto de Lênin foi aprovado por expressiva maioria.

Um urro. Seu eco se esvaiu quando a magnitude da resolução ovacionada se tornou lentamente nítida. Homens e mulheres olhavam uns para os outros. Estava aprovado. Estava feito.

O governo revolucionário fora proclamado.

O governo revolucionário fora proclamado, e isso era o sufi ciente para uma noite. Era mais do que o sufi ciente para uma primeira reunião, com certeza.

Exaustos, ébrios de história, com os nervos ainda tensos como fios de arame, os delegados do II Congresso dos Sovietes tropeçavam ao sair do Smolni. Eles saíram da escola de boas maneiras direto para um novo momento da história, um novo primeiro dia: o de um governo dos trabalhadores, que amanhecia em uma nova cidade, a capital de um Estado dos trabalhadores. Eles entravam no inverno sob um céu de luz tênue, mas radiante.

Sobre os autores

é o autor de "Outubro: A história da Revolução Russa" (Boitempo), bem como de outros livros. Suas obras ganharam o World Fantasy Award, o Hugo Award e o Arthur C. Clarke Award (três vezes). Ele mora e trabalha em Londres.

Sobre o autor

China Miéville é o autor de "Outubro: A história da Revolução Russa" (Boitempo), bem como de outros livros. Suas obras ganharam o World Fantasy Award, o Hugo Award e o Arthur C. Clarke Award (três vezes). Ele mora e trabalha em Londres.

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