As armadilhas e contradições do Bitcoin

30/12/2020

Uma entrevista com
Edemilson Paraná

O sociólogo e economista Edemilson Paraná foi ferozmente atacado por anarcocapitalistas nas redes ao expor a dimensão oculta do bitcoin. Nesta conversa à Jacobin Brasil, ele explica a ligação da criptomoeda com o neoliberalismo de Milton Friedman e Friedrich Hayek, como o bolsonarismo utiliza da crise para se perpetuar no poder e o novo papel econômico da China e dos EUA no cenário pós-pandemia.

(Jirapong Manustrong / Getty Images)

Edemilson Paraná, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), autor dos livros A Finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016) e Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico (Autonomia Literária, 2020) — ambos traduzidos para o inglês; o último também para o espanhol –, é um dos destacados jovens pensadores brasileiros, dedicado a decifrar o enigma do capitalismo contemporâneo, sobretudo no que toca às novas tecnologias, a exemplo do bitcoin. 

Ao lançar seu último livro, foi duramente atacado nas redes por militantes anarcocapitalistas. Nesta conversa com Hugo Albuquerque, da Jacobin Brasil, ele explica por que sua tese incomodada tanto os neoliberais e aborda não só a problemática das criptomoedas, mas como isso se insere no contexto político e ideológico atual da pandemia da Covid-19, no qual o descolamento entre economia “real” e fictícia parece aumentar ainda mais, com banqueiros dobrando a aposta sobre a economia de especulação, a China avançando no cenário mundial, o Brasil às turras com o bolsonarismo; e um cenário sombrio em toda parte.

Essa miríade de assuntos gravitam em torno do que realmente interessa em sua obra sobre o bitcoin, que é justamente tratar a criptomoeda mais conhecida no mundo como um fio condutor para “entender o dinheiro em geral e particularmente a transformação das formas de dinheiro no capitalismo contemporâneo”, algo central para o que Paraná considera uma tarefa necessária — e uma esperança possível — para o nosso momento: “mapear da melhor forma possível a realidade para transformá-la”.


HA

Em seu livro Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico, você colocou a crença nas criptomoedas em dúvida e os anarcocapitalistas te atacaram nas redes sociais. O que isso diz a respeito da natureza bitcoin e, afinal, qual o motivo deles terem tanto medo dessa interpretação do blockchain e das tecnologias derivadas dele?

EP

Foi muito interessante por um lado, mas previsível por outro. Eu imaginei que isso pudesse acontecer em alguma medida. Como pesquisador, o que me interessa é entender o dinheiro em geral e particularmente a transformação das formas de dinheiro no capitalismo contemporâneo. Então, o bitcoin foi um fio pelo qual eu comecei a puxar esse novelo do dinheiro na economia capitalista mundial, tão instável, passando por tantas transformações, como é o caso agora. Então é claro que para mim a coisa é menos apaixonada, do ponto de vista político. Ocorre que essa postura não combina muito com o clima, o humor e o movimento em torno dos bitcoins, das criptomoedas e do blockchain. 

Primeiro porque isso tem um humor especulativo muito forte. Então se vamos falar dos interesses materiais que estão em jogo, falemos da cadeia especulativa em torno dessa história: [a ideia de] que esse dinheiro vai transformar completamente a economia mundial, vai substituir o dinheiro mundial, vai substituir o dólar, a moeda nacional de vários países… Tem toda uma hype, uma onda em torno disso. E, no mais, muita gente tem ganhado grana em cima disso, tem feito disso um modelo de negócio, um modo de vida e sobrevivência. Portanto, é natural que as pessoas fiquem um pouco irritadas, porque tem muita coisa em jogo. Então essa primeira onda especulativa é com o ativo em si, todo mundo quer que a onda cresça para que o valor do bitcoin suba e, assim, que se possa ganhar mais dinheiro em cima disso, atraindo mais pessoas para o ambiente do bitcoin — e das criptomoedas em geral — e, ao atrair mais gente, atrair mais investimento, mais capital e mais ganho, num ciclo que a gente conhece bem. 

O segundo é o efeito do “celebracionismo tecnológico”, da tecnofilia que tem por trás disso. Esse segundo ponto tem a ver, sobretudo, com o blockchain, que, na minha avaliação, é o que realmente há de mais interessante nessa história toda: uma tecnologia de organização, compilação e distribuição descentralizada e colaborativa de informações. Algumas pessoas hoje, no ecossistema do bitcoin, já estão dizendo “não, realmente, essa coisa de moeda, dinheiro, isso não vai pra frente, mas a tecnologia, aí sim, é isso que está fazendo com que o bitcoin ganhe a projeção atual, porque ele tem uma tecnologia profunda e extremamente promissora por trás dele”. Quando você apresenta esses aspectos todos, analisa de um lado esse fervor especulativo financeiro mais imediato e esse entusiasmo especulativo tecnológico, você deixa o rei nu, você demonstra quais são os interesses em jogo, quais são as possibilidades e impossibilidades, para onde isso vai, de onde isso veio. Quem está enfiado até a medula nessa história definitivamente não gosta de pensar criticamente sobre o assunto. 

Por outro lado, não tem como analisar materialmente essa dinâmica sem olhar para a retórica política, ideológica e o conjunto de crenças e valores que estão por trás dessa história. E aí é onde a gente entra onde, talvez, seja o calo que mais dói nesse pessoal. Ou seja, uma crítica dessa cosmovisão anarcocapitalista ultraliberal do mundo. O bitcoin é baseado fundamentalmente na ideia de dinheiro neutro e exógeno do Milton Friedman, de que toda inflação é um fenômeno monetário, portanto, o monetarismo friedmaniano de um lado, e na utopia do dinheiro sem Estado de Friedrich Hayek do outro, com a ideia de que a moeda deveria ser emitida e utilizada privadamente, de tal modo que cada um concorreria no mercado com a sua moeda. Ele diz a mesma coisa da polícia. E esse pessoal realmente acredita nisso. 

Quer dizer que o blockchain e o bitcoin se resumem a isso? Definitivamente não. E é essa mesma análise material que demonstra isso, mas esse conjunto de crenças e valores são muito significativos na construção e no funcionamento da plataforma, do que é o bitcoin de fato, como ele aparece e etc.. Então se você pega, por exemplo, o paper do Satoshi Nakamoto, essa entidade misteriosa que ninguém sabe se é uma pessoa ou um grupo de pessoas, que descreve o funcionamento do bitcoin… É o paper que, digamos assim, inaugura o bitcoin na virada de 2008 para 2009. Bem, aquilo ali é praticamente um tratado de economia neoclássica, pois a visão do dinheiro ali presente é essa: toda emissão monetária é inflacionária, então demonstrar isso e apontar as fragilidades, as limitações dessa forma de ver e enxergar a economia em geral e de pensar o papel da moeda no interior dela a partir disso foi um dos exercícios a que eu empreendi nesse livro. 

O interessante disso, como o título do livro demonstra, é que há um discurso heróico, uma utopia. “Ah, olha aí, a gente vai se livrar da tirania do Estado”. Essa fraseologia da “tirania” aparece muito. “E o bitcoin é um instrumento fundamental para nos tirar da tirania do Estado, para possibilitar que nós façamos por nós mesmos as trocas no mercado sem a intervenção de uma terceira parte, de um agente externo, de bancos e do Estado”. Então há uma retórica rebelde que casa muito com o pós-crise de 2008/2009 em muitos aspectos, mas rebelde no sentido anarcocapitalista ultraliberal do termo. Então passar no raio-x, fazer uma análise detida desse discurso, dessa ideologia e seu conjunto de crenças e valores, de um lado, e avaliar quais são os interesses materiais, o modo de funcionamento, a dinâmica, a história, de outro, e colocar isso contra a parede teórica e fática do que é realmente o dinheiro na economia capitalista, o papel do Estado na sua administração, a importância do dinheiro como instrumento de poder, a relação entre dinheiro e política, realmente é algo que incomoda, eu entendo. Foi isso que gerou a fúria, a ira de muitos ancaps na internet, que vieram me pentelhar nas mídias sociais. Mas normal, isso é do jogo.

HA

Em uma entrevista ao jornalista Joemir Beting sobre a crise internacional da dívida do começo dos anos 1980, Fidel Castro demonstrava a natureza, sobretudo política, militar e ideológica que estruturava o sistema do dólar. Isso virou até livro, Os Juros Subversivos. O dólar já era uma moeda “fiduciária”, emitida sem qualquer lastro. Podemos, então, dizer que atrás de cada dólar há um soldado norte-americano. Qual o soldado que se esconde sob cada bitcoin?

EP

Definitivamente nenhum. E esse é um elemento central. A visão de Fidel é muito perspicaz e absolutamente verdadeira. Veja, qual é o lastro do dólar? Isso abre uma enorme discussão. O dinheiro é uma relação social, e uma relação social perpassada por poder, é isso que define, entre outras coisas, o dinheiro como tal. O dinheiro é a trocabilidade geral de todas as coisas, é o mecanismo abstrato de representação da riqueza, ou, melhor, o mecanismo universal de representação e realização da riqueza – caso você queira falar de um ponto de vista mais técnico, de representação e realização do valor, se há uma teoria do valor por trás disso. Mas o fato é que o lastro do dinheiro, se ele existe, é o lastro baseado no poder político e econômico do agente que o ampara, no seu espaço econômico, político, social, produtivo, que é, ainda, em grande medida, o Estado-nação. 

Então quando o Fidel diz isso, ele quer dizer, me parece, que o dinheiro é perpassado, como a vida social em geral, por coerção e consentimento. É evidente que ele não é só imposto militarmente por meio da violência, ainda que também o seja. E, sobre isso, lembremos que a dita constituição do monopólio legítimo da violência física – para lembrar do Max Weber –, do ponto de vista do Estado moderno, pressupõe a constituição do monopólio da violência monetária, ou seja, a possibilidade de se ter o monopólio do instrumento de troca, da reserva de valor e da unidade de conta – para falar das três funções do dinheiro que estão nos livros-textos de economia por aí. 

Bem, isso, portanto, é um elemento fundamental, embora não se trate de uma imposição linear, direta, sem mediações. É que essa “imposição” está baseada também no poder ideológico, no soft power, como se diz na linguagem das relações internacionais. Há uma infraestrutura ideológica, transacional, econômica, que suporta, então, o poder em cima do qual o dinheiro se ancora. Mas é evidente que, em última instância, o poder material e a violência são utilizados para fazer prevalecer uma forma de dinheiro em detrimento de outras. Então se você olha, por exemplo, do pós-guerra para cá, a constituição de toda uma infraestrutura global do sistema monetário e financeiro internacional, sustentado nos Estados Unidos, primeiro no chamado padrão dólar-ouro, depois no dólar flexível, você vai ver uma determinada forma de governar a economia mundial, um sistema de governança, de instituições internacionais e uma certa predominância daquele hegemón

No caso da hegemonia dos Estados Unidos na economia mundial, isso se reflete, evidentemente, no poder norte-americano, que tem bases militares espalhadas pelo planeta inteiro, e que a qualquer momento não se furta a utilizar da violência física, militar, bélica para fazer valer os seus interesses. Vamos pensar na relação entre o dólar e o petróleo, por exemplo: a necessidade de manter a trocabilidade contínua entre o dólar e as principais commodities que são utilizadas na economia mundial, sendo o petróleo uma das mais, senão a mais, significativa. Então é evidente que quando você avalia o que é o dinheiro, como ele funciona na economia mundial, todas essas questões aparecem, e aparece a questão do poder político, do poder monetário-financeiro, da potência e importância de uma determinada economia. 

Então dado o maior PIB do planeta, o maior consumidor e produtor de mercadorias do mundo, é evidente que você tem o estímulo fundamental para que a forma de dinheiro desse Estado-nação seja utilizada como referência. Antes o padrão era a libra esterlina, mas com a queda hegemônica da Inglaterra passou a ser o dólar com os Estados Unidos. 

E assim como há em toda hegemonia um elemento ideológico, há uma ideologia do dinheiro, a ideologia que suporta esse dinheiro. Então o próprio dinheiro é suportado por uma ideologia, por um conjunto de mecanismos que misturam coerção e convencimento, amparados no poder econômico material direto de um Estado-nação ou de um conjunto de Estados (como no caso do euro). O dinheiro é amparado, evidentemente, por um poder político, entendido também como um poder militar. E veja que essas coisas não são tão fáceis de serem separadas analiticamente: poder econômico é também militar, se liga com o poder político, que, por sua vez, tende a se encontrar com o poder ideológico, como a gente vê ao menos pela história do capitalismo. 

Olhamos essa história toda, avaliamos o dinheiro, todo esse lastro econômico, político, ideológico, e percebemos que definitivamente não se trata de um “lastro” em uma coisa física ou em uma mercadoria, não se trata desse “metalismo”. É interessante a gente conversar sobre o metalismo que há por trás do bitcoin, uma inversão lógica muito interessante, típica de uma teoria econômica completamente ultrapassada, que é, por sinal, adotada pelos bitcoiners. A pergunta que você me faz, então, é essa: “Tá, mas o que tem por trás do bitcoin, o que o sustenta?”. Eu vou te dizer o que sustenta: o bitcoin é sustentado por uma demanda fundamentalmente especulativa e não transacional, porque ninguém usa, a não ser com raras exceções, um exemplo aqui outro ali, mas ninguém usa de maneira generalizada bitcoins para tomar cafezinho na esquina, para comprar no mercado, para receber seu salário, para pagar suas contas, ninguém faz isso, portanto a demanda pelo bitcoin não é transacional, a demanda é especulativa. Ele é um ativo especulativo, altamente volátil, de alto risco, e que as pessoas utilizam como uma forma de investimento num cenário econômico marcado pela financeirização generalizada. 

Ao longo de quatro, cinco décadas, temos assistido a um massivo processo de desregulamentação, liberalização, integração dos mercados, avanço das formas de interconexão e comunicabilidade, privatização, enfim, todo esse processo de financeirização e neoliberalização das economias. Esse cenário abre a possibilidade para o surgimento de inovações financeiras as mais diversas, e o bitcoin é mais uma delas, ainda que seja uma das mais interessantes. Então, de um lado, o bitcoin é sustentado por essas demandas especulativas enquanto, por outro lado, cumpre uma função social no interior da economia capitalista mundial de facilitar práticas como a evasão de divisas, criar outras formas de paraíso fiscal, ajudar na sonegação de tributos, isso pra não falar da economia do crime. 

Vale notar que um dos booms do bitcoin ocorre justamente relacionado ao advento da Silk Road, um mercado paralelo e sombrio da deep web em que eram transacionadas as coisas mais bizarras, desde substâncias ilícitas até pessoas, órgãos, tudo ao gosto anarcocapitalista, de que você deve ter liberdade dentro do mercado para comprar e vender absolutamente tudo, porque a autorregulação do mercado vai levar, necessariamente, ao melhor resultado em termos de utilidade para todos. A Silk Road, para se ter uma ideia, acabou desmontada pelo FBI.

Esse descolamento brutal entre a dimensão fictícia e real da economia, que ocorreu nas últimas quatro ou cinco décadas, demanda ainda mais inovações financeiras, mais instrumentos e espaços de especulação e evasão. O que é o capitalismo? O capitalismo é um conjunto de contradições que ficam girando loucamente em torno de si mesmas e se movendo de um lado pro outro. Eu acho que o aparecimento de uma coisa como o bitcoin é parte da dança maluca de contradições do capitalismo, e, particularmente nesse período, uma dança que ficou mais fatal, mais intensa, mais nervosa.

HA

As pessoas estavam entusiasmadas com o bitcoin há alguns anos, tanto que seu preço aumentou exponencialmente, mas houve uma reversão nas expectativas e ele sumiu do debate. Agora ele volta a se valorizar e as bolsas do mundo inteiro estão bombando. O que explica essa alta atual do preço do bitcoin? Isso tem relação com as altas das bolsas do mundo inteiro neste momento trágico?

EP

Há um padrão argumentativo curioso por parte dos defensores do bitcoin: se o bitcoin sobe de preço, eles dizem “é um sinal de que, tá vendo, olha aí, é um sucesso; ele tá subindo a cotação, as pessoas estão procurando, se elas estão procurando, é um sinal de que ele é bem-sucedido como forma de dinheiro e que, portanto, o futuro luminoso que se prevê para ele já está se realizando”.  Isso é dito todas as vezes em que há esses picos, como aconteceu em 2011, 2013, 2017 e, também, agora, quando ele já está em quase 25 mil dólares, depois de sair de 5 mil dólares em 2019, quando eu estava fechando o livro. Olha a montanha-russa! É como se você saísse com dinheiro para comprar um pãozinho e quando chegasse tivesse dinheiro pra comprar a padaria toda, e no momento que você fosse compensar a transação para comprar a padaria, na verdade nem aquele pãozinho você poderia comprar.

No entanto, quando o valor do bitcoin cai, o argumento é outro, mas igualmente entusiasmado: “Tá vendo, ele está se estabilizando, e, por que está se estabilizando, é sinal de que agora vai ser incorporado ao mainstream”. Então nada serve para refutar a viabilidade do bitcoin como forma de dinheiro. Se cai, é argumento de que ele será uma forma de dinheiro que irá suprimir todas as demais, se sobe é também um argumento de que ele vai suprimir todas as demais. 

O mesmo serve para a regulamentação. Quando vem um governo e faz alguma regulamentação proibitiva, como foi o caso da China, que produziu um crackdown ao impedir os Initial Coin Offer, os Icos, que impediu as exchanges de operar em seu território, arrebentou o sistema das criptomoedas, do bitcoin — lembrando que a China, até 2017, era a maior mineradora de bitcoins do mundo. Se vem uma restrição, uma regulamentação proibitiva, como a da China, vão dizer “tá vendo, o negócio é tão sério, é tão ameaçador para os Estados e é tão incrível que eles precisam lutar contra, mas isso só posterga o inevitável, porque é uma batalha inglória contra a liberdade, os mercados, a vontade geral. Os Estados nada podem e cairão, é uma questão de tempo”. Mas se vem uma regulamentação menos proibitiva, mais permissiva, que controla e organiza o ambiente, vão dizer “olha, tá virando mainstream, agora vai ser incorporado na economia como um todo e vai fazer parte do sistema econômico; é um sinal de seu sucesso”. 

Agora, neste momento, o argumento é “vem aí mais uma crise, os Estados estão na pior e estão fazendo o que sempre fazem: emitir mais dinheiro”. A emissão monetária no imaginário dos defensores do bitcoin é sempre inflacionária e, assim, eles dizem, “o bitcoin está crescendo por causa de práticas irresponsáveis como o quantitative easing, os governos é que estão ajudando a gente, em suma, sendo governos”. Porque ao emitir moeda, se estaria corroendo o poder econômico dos indivíduos por meio da inflação, que é uma forma de populismo monetário, de tirania do Estado, e, ao fazer isso, as pessoas necessariamente vão começar a procurar os bitcoins, e é por isso que o bitcoin está subindo, dizem.

O bitcoin, no imaginário dessas pessoas, é igual ao ouro. Aí cabe pensarmos um pouco mais sobre o “metalismo monetário” da retórica dos bitcoiners, que é algo interessantíssimo. Basta compararmos essa subida no preço dos bitcoins com a taxa de inflação, que está baixíssima; nós estamos vivendo, na economia real, um cenário deflacionário em muitos lugares. O lance é que, aí sim, você está diante de uma separação talvez sem paralelo na história entre economia real (produção, consumo e emprego) e economia fictícia — e eu gosto de separar o financeiro do fictício, pois o financeiro pode ter a ver com a atividade produtiva, aquele que financia a atividade produtiva. Mas o fictício, para deixar mais claro, é aquele circuito que vive da valorização constante de si mesmo, sem uma ligação direta com a economia real, a não ser uma ligação mais secundária e parasitária, vamos dizer assim. 

Bem, essa separação sem paralelo ocorre ao ponto de, enquanto as economias estão agonizando em todo o mundo — vamos olhar pro Brasil: alta taxa de desemprego, de desocupação da força de trabalho, atividade econômica em baixa, PIB lá embaixo; muitos países falando em crescimento negativo para esse ano, essa é a projeção para União Europeia, Estados Unidos — as estão bolsas subindo. E a elite continua enriquecendo. Então você tem um caminhão de dinheiro sendo jogado na mão do mercado privado, o sistema financeiro privado, que não se reverte, como já tem acontecido antes da crise, que não se reverte em investimento produtivo que chega na economia real. Essa montanha de dinheiro acumulado na mão de poucos do setor financeiro vai desaguar em novos instrumentos especulativos, vai desaguar na inflação, aí sim, de ativos e não na inflação monetária; o aumento do preço das ações, aumento do preço de instrumentos financeiros os mais diversos e, evidentemente, do próprio bitcoin. 

O bitcoin espelha o movimento dos ativos especulativos de risco no mercado. É claro que há um cenário de incerteza, no qual, muitos analistas ficam recomendando a diversificação ao máximo de suas opções de investimento. Então, o bitcoin virou mais um desses depositários de estratégias de diversificação de investimentos, mas o fato é que isso não tem a ver com a dinâmica monetária em si, mas sim com a dinâmica especulativa típica do modo de funcionamento do mercado financeiro atual ao qual o bitcoin se acopla.

Há programas massivos do Estado de injeção de liquidez, e uma injeção de liquidez que entra, sobretudo, por meio de atores que sentam em cima dessa montanha de dinheiro — como no caso do Brasil. É uma espécie de armadilha da liquidez, para lembrar de um termo do Keynes. Vamos pensar no que aconteceu no Brasil? Um pacote, mais de 1 trilhão de reais foi liberado para o sistema financeiro privado, agentes que sentaram em cima do dinheiro — com a conivência, nesse particular, dos bancos públicos, nesse momento, sob essa direção política — e não querem emprestar para os pequenos negócios, para as empresas que estão em situação difícil no momento da pandemia, nessa combinação de crise econômica com crise sanitária 

HA

E o que eles vão fazer com esse dinheiro? 

EP

Vão apostar no novo recorde do índice Bovespa, é isso que eles vão fazer. Vão reunir uma soma massiva de dinheiro para uma nova rodada de centralização e concentração de capital. Essas empresas menores vão quebrar, e essa montanha de dinheiro na mão de poucos vai sair varrendo o mercado como um todo e produzindo mais uma nova rodada de oligopolização numa economia já bastante oligopolizada, como é o caso da economia brasileira. 

HA

Aproveitando o gancho da hipercapitalização do mercado financeiro no Brasil neste momento, vemos um fenômeno semelhante ocorrer nos Estados Unidos e na Europa. Mas enquanto o Ocidente está em crise, tendo dificuldades enormes para lidar com a pandemia da Covid-19 e seus efeitos socioeconômicos, a China cresceu e mostrou uma enorme capacidade de resposta. Estaríamos vendo uma mudança no balanço de poder no mundo?

EP

Esses debates sobre, digamos, a queda da hegemonia norte-americana vêm ocorrendo, pelo menos, desde a década de 1970. Então ele apareceu na década de 1980 com o [crescimento do] Japão, Alemanha, e o que a gente viu é que em muitos desses momentos-chaves, ao menos desde o pós-Guerra para cá, o que aconteceu na verdade foi uma reconfiguração, uma reconstituição, uma rearticulação da hegemonia estadunidense. 

Hoje já está claro que a crise de 2008 não produziu a mesma a catástrofe que a crise de 1929, pois foram adotadas uma série de medidas que não foram adotadas naquele momento, fruto de experiência histórica, da compreensão da dinâmica econômica e uma série de outras coisas. O que aconteceu de 2008 para cá foi que se dobrou a aposta em um modelo econômico e regulatório que fracassou; em vez de usarmos daquela crise para uma reconfiguração do sistema monetário-financeiro internacional, da dinâmica do comércio internacional etc.. Doze anos depois da crise está ficando claro que a conta chegou. 

Já antes da crise sanitária, epidemiológica, do coronavírus, estava claro que a economia mundial entraria, sem demora, em outra crise — isso já havia sido aventado por um conjunto de analistas nas posições mais diversas do espectro teórico-político. Isso coloca a gente, então, diante de uma dúvida, que é a seguinte: será que, de fato, não estamos passando por um processo de reconfiguração mais profundo do que um mero rearranjo sistêmico?

Eu sempre fui bastante cético quanto a essa hipótese, mas apostar nela já não é mais algo tão ilógico, dadas as evidências que estão se amontoando para todo lado. Um dos elementos é, sem dúvida, a ascensão da China. Em paridade de poder de compra, ela já superou os Estados Unidos, mas ainda não superou em níveis absolutos, como a gente sabe, e, bem, se você olha para os dois países no caso específico dessa crise, fica muito clara a diferença, a divergência de tratamento desse momento. A disciplina, a organização, a eficiência, a clareza com que a China tratou todo esse processo, seja do ponto de vista macroeconômico, seja do epidemiológico, é claramente superior. O grau de coordenação chinês é muito superior, e não deixa dúvidas para o fato de que a China sai, sim, fortalecida desse processo e que os Estados Unidos saem, sim, enfraquecidos. Agora, o que significa o fortalecimento chinês de um lado e o enfraquecimento estadunidense do outro? Significa que a China vai superar inevitavelmente os Estados Unidos? Bem, eu acho que a gente não tem bola de cristal para dizer uma coisa dessas, mas uma coisa que a gente pode dizer é: a intensificação de conflito entre Estados Unidos e China vai ocorrer e isso já está bastante claro. 

Isso é um ponto de chegada e, também, um ponto de partida da análise, porque é uma evidência bastante significativa de que tem algo mais profundo acontecendo. Vamos pensar: a economia chinesa e a economia estadunidense são profundamente integradas, ambos são os maiores parceiros comerciais um do outro. Até 2010 se falava de uma cooperação competitiva ou de uma competição cooperativa, podemos dizer que isso chega até 2015, 2016… Até o governo de Donald Trump, fundamentalmente. É com Trump que a coisa começa a mudar de figura. E começa a mudar porque alguns conflitos vão se tornando inevitáveis. 

Um dos exemplos, veja, os Estados Unidos, nos últimos anos, começaram a utilizar o seu “privilégio exorbitante” – que você mencionou, o fato de sua moeda nacional ser o dinheiro mundial – como instrumento de guerra, então o sistema de pagamento controlado pelos Estados Unidos (o Swift e outros mecanismos análogos) e o dólar em particular estão sendo utilizados para sufocar adversários geopolíticos, como é o caso da Venezuela, do Irã. As sanções norte-americanas estão passando fundamentalmente pelo sistema monetário-financeiro internacional, que é controlado pelos Estados Unidos.

A China e a Rússia olham para esse negócio e falam “opa, pera aí! Isso não cheira bem!”. Vamos lembrar de um cenário em que a China foi, até há pouco tempo, a maior detentora de títulos do tesouro norte-americano. Enfim, esse cenário de cooperação, que foi fundamental para ascensão da China, parece estar sendo recomposto e reconfigurado. E isso aponta para uma série de conflitos: olhemos, por exemplo, para o mar do sul da China, que tem sido apontado como um dos espaços onde a possibilidade de um conflito, acidental ou não, é mais premente.

A China resolveu projetar poder político e econômico pelo mundo com a chamada Nova Rota da Seda. Ela precisa exportar capital e influência e, ao exportar capital, ela exporta influência política, numa tentativa de integração em torno de si. A presença chinesa na África, na América Latina, a guerra tecnológica em torno da Huawei e do 5G, isso tudo aponta para um cenário de conflito em um momento em que, relativamente, a China está se fortalecendo e os Estados Unidos se enfraquecendo; mas não vai ser fácil para ela.

Há também a questão russa, pressionada pela Europa no caso da Ucrânia, em que uma das respostas é marcar posição na Venezuela, aqui do lado.

Enfim, uma hegemonia em queda tende a ser um processo extremamente destrutivo e doloroso. Vimos duas guerras mundiais em razão de um processo similar. Não foi qualquer coisa. Viveremos tempos duros e é lamentável que o Brasil esteja nessa posição com Bolsonaro e toda essa maluquice. É difícil vislumbrar uma saída luminosa para esse problema, senão mais conflitos.

HA

No Brasil de hoje, testemunhamos um crime aparentemente perfeito, pois em março o governo estava cercado, mas Bolsonaro sobreviveu ao descalabro da pandemia e a má gestão sanitária do seu governo, conseguiu se livrar de Moro e, ainda, tem uma agenda ultraliberal que caminha nos seus termos, com o apoio ou tolerância do Centrão. Politicamente, como reverter isso? É possível? 

EP

Essa é uma pergunta importante e ao mesmo tempo difícil, por uma razão fundamental: hoje há uma virtual impossibilidade de qualquer alternativa política robusta e sólida a Bolsonaro, esse é o real problema. Foram fulminadas, talvez, todas as possibilidades de saída para esse cenário. Vamos pensar, do ponto de vista do espectro político, em uma das coisas que eu apontei na minha análise sobre as problemáticas de uma frente ampla: o que é essa frente ampla construída pelo “programa mínimo” do financismo selvagem — que não é nada mínimo, é máximo, no sentido de querer pilhar o Estado inteiro? Por que esse programa se impôs de maneira tão clara a todo o campo político? Por uma razão muito simples: porque o campo político está basicamente destroçado. 

Olha o que sobrou do PSDB. Vamos pensar naquela composição de forças de um tempo atrás, que era caracterizada pela antiga oposição, que brincou com o caos e está colhendo a própria destruição. Todo mundo ficou brincando com aquela frase da Dilma, “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”, mas a verdade é que ela estava correta, quase ninguém está ganhando com essa história a essa altura.

Então a política brasileira hoje está emparedada entre financistas, de um lado, e milicos, de outro, porque é isso que sobrou dos destroços do campo político brasileiro ao longo dessa longa marcha de desagregação política, institucional, que traz a gente, pelo menos desde 2015 até aqui ou, caso alguém queira retroceder um pouco mais, desde 2013 até aqui. 

Esse é o primeiro ponto: qual é uma alternativa política viável hoje? É o Dória? O Huck? Não tem liderança mais. O Ciro? Difícil, com todas as desorientações dele, arroubos aqui e ali. É o Lula? Fragilizado, enfraquecido. É o PT? É um problema político, um jogo, uma soma curiosa que ninguém consegue, sozinho, dar conta de resolver, mas também não há condições para que se construa uma aliança política ampla que seja capaz de recompor a dinâmica política brasileira. Então ficamos nesse impasse, nessa anulação mútua de forças de todos os lados em que o que sobra, de novo, é um campo político emparedado entre o financismo, a agenda liberal financeira de pilhagem do Estado, de um lado, e os militares, que, como dizem alguns, ficam balançando as armas sempre que a situação ameaça ir para uma direção, digamos, “indesejável” segundo sua avaliação.

Enquanto isso, essa agenda econômica vai, como disse o Ricardo Salles, passando como uma boiada. A pandemia dificultou um pouco o processo, em certa medida, com a história da liberação do auxílio a contragosto do governo, mas isso não alterou ou recompôs essa dinâmica. Muita gente diz “ah, o Bolsonaro vai cair!”, igual foi dito em relação a Michel Temer, naquele momento: vai cair, vai cair; e não cai. Porque esse é o cenário que está posto agora. Não há porque o Bolsonaro cair. O que vem depois de um Bolsonaro? Quem é capaz de entregar, do ponto de vista dessa anulação mútua de forças do campo político, o que ele tá “entregando” para esses dois setores, os militares de um lado e mercado financeiro do outro? Quem vai colocar um Guedes para dirigir a economia tão cedo? Vamos fazer uma frente ampla? Bem, fazer uma frente ampla é lidar com esse problema fundamental; são as condições materiais para possibilidade de uma frente ampla, porque esse papo gira numa chave muito idealista, como se fosse só questão de vontade política, bom caráter ou mau caráter de um e de outro, egoísmo de um ou de outro. “Ah, vamos trazer a Marina, o PT, o Ciro, o Fernando Henrique, todo mundo junto”, não, você precisa ter condições objetivas para produzir uma frente ampla dessas; onde vai estar o empresariado? E em que medida o empresariado vai apoiar? Vejam o que o Guedes fez com o pacote de liberação de liquidez para os bancos…

E, no mais, essa é a real frente ampla silenciosa que já está posta, ela tem um programa, um conjunto de condições e forças materiais que a sustentam e em torno dela gravitam os agentes políticos que ficam disputando essa tensão, o seu apoio. Basta você olhar qual é o fórum principal hoje da elite política do país; são os encontros feitos por uma grande corretora de investimentos brasileira, em que eles aparecem lá, aqui e ali. Ninguém vai falar para nação, ninguém mais fala para o país, fala-se para o mercado financeiro, que é onde interessa, é o que importa. Quem vai tratar disso? Quem vai romper com esse tipo de coisa? A questão é essa. O que está impossibilitando objetivamente a reconfiguração do campo político brasileiro e a transformação da situação em que nós estamos enfiados é justamente a aplicação do programa que garante, para início de conversa, a sustentação política que ainda resta. Para onde você vai? A frente ampla que estão buscando construir é, então, aquela que mantém o mesmo programa que inviabiliza materialmente a própria possibilidade de uma frente ampla, entende? Essa é a frente ampla “pela negativa” que eu descrevi antes.

Está quase todo mundo irmanado na ideia de que vamos entregar a privatização do saneamento básico, vamos manter, fora da situação pandêmica, assim que voltar o “normal”, a Emenda Constitucional do Teto, vamos cortar o estado social o máximo que a gente puder. Esse é o programa hegemônico que está posto. Fica todo mundo se acotovelando para saber quem é o preferido desse programa; então é o STF dizendo da necessidade de apoiar a atividade econômica o tempo todo, você teve aquela organização do PIB contra o lockdown, inúmeros indícios que estão postos dessa situação e parece que há um mal-estar generalizado e ninguém quer falar disso, porque falar disso é chegar a uma conclusão um pouco trágica, e ninguém, definitivamente, quer encontrar mais uma conclusão trágica já em meio a tanta tragédia. Mas ela precisa ser dita para que possa ser encarada, e ela só pode ser encarada se a gente atacar de fato o que é fundamental. Todo esse programa precisa ser varrido, e isso precisa ser feito com mobilização popular. Aí você tem o quê, um Bolsonaro em torno dos 30%, 40%. Isso é um impasse.

HA

É possível ter alguma esperança neste momento?

EP

Eu acredito na possibilidade de mapearmos da melhor forma possível a realidade para transformá-la. É necessário compreender o campo de forças e o que está em jogo, e se mobilizar para realizar essa transformação. Eu creio que as esquerdas cederam ao conformismo; falta radicalidade na crítica e na proposição e particularmente na ousadia da mobilização política, é isso que a gente precisa atacar. E fazer isso é encontrar outras formas de se mobilizar, de se organizar, de construir disputa política e social. Há um espaço, sim, para radicalização, mas ela não virá do nada, ela precisa ser ativada pelas forças políticas que estão buscando isso. 

É evidente que estamos em um cenário que as forças políticas progressistas, de esquerda, estão em geral muito enfraquecidas, mas é possível, sim. Dado o grau de instabilidade e desagregação do terreno, o impacto que uma força política estruturada, bem organizada, pode ter é considerável. Então a má notícia é também uma boa notícia. O nosso poder de intervenção também pode ser considerável num cenário de desagregação se a gente souber interpretar, entender e lutar contra ele de uma maneira mais efetiva. Eu acho que a direita tem feito isso no último período. O bitcoin, o blockchain, é um exemplo disso, como tenho procurado demonstrar. Eles tiveram a inventividade e ousadia de pensar uma forma alternativa de organizar a sociedade e a economia com base num conjunto de valores e tentaram colocar esse negócio em prática. Eu acho que está na hora da gente alargar o horizonte de imaginação política da esquerda como um todo, repensar o papel da tecnologia, a dinâmica econômica em geral e rearticular o nosso programa político, as nossas utopias e as nossas formas de organização. Essa necessidade não é apenas abstrata, é prática e urgente, uma necessidade para a qual temos de dedicar o melhor das nossas inteligências e da nossa ação. 

Sobre os autores

é sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). É autor dos livros A Finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016) e Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico (Autonomia Literária, 2020).

é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

Sobre os autores

Edemilson Parana é sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). É autor dos livros A Finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016) e Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico (Autonomia Literária, 2020).

Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

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