Os EUA devem acabar com as brutais sanções contra Cuba

13/07/2021

Por
Ben Burgis

Tradução
Cauê Seignemartin Ameni

Com o início dos protestos em Cuba, alguns políticos e comentaristas estão pedindo intervenção. Isso seria um completo desastre – basta ver a situação do Haiti. A melhor coisa que os EUA podem fazer para ajudar o povo cubano é suspender seu embargo desumano, que já retirou US$ 130 bilhões da ilha socialista.

Segundo as Nações Unidas, o embargo norte-americano de quase 60 anos custou a Cuba US$ 130 bilhões.

No domingo, eclodiram em Cuba os maiores protestos antigovernamentais em pelo menos 27 anos. Milhares de pessoas marcharam nas ruas entoando palavras de ordem. Outros viraram carros da polícia ou saquearam lojas.

É muito cedo para fazer pronunciamentos definitivos sobre o caráter político desses protestos. Muito provavelmente, as pessoas nas ruas representam uma mistura de facções com queixas muito diferentes e agendas de longo prazo.

Mas está claro que é a escassez de alimentos, remédios, eletricidade e outros bens básicos foram a faísca imediata dos protestos. (As lojas que foram saqueadas são polêmicas porque vendem produtos caros para estrangeiros que podem pagar numa moeda que a maioria dos cubanos não possui.) Comentaristas e políticos que anseiam derrubar o governo cubano têm apontado essas condições quando pedem intervenção.

Por exemplo, a congressista democrata Val Demings, que representa o 10º distrito da Flórida, vinculou os apelos dos manifestantes por “liberdade da doença, pobreza e corrupção” à necessidade de “liberdade da tirania e da ditadura”. Para garantir essas liberdades, Demings argumenta: “A Casa Branca deve agir rapidamente”.

Mas que tipo de ação rápida ela deseja que Joe Biden execute? Ela não pode querer dizer que os EUA devam impor sanções econômicas paralisantes a Cuba ou que devam apoiar e fornecer refúgio aos terroristas que realizam bombardeios e assassinatos na ilha. Tudo isso está acontecendo desde o governo Kennedy. É difícil ver o que resta sobre a mesa, exceto a intervenção militar direta.

O prefeito de Miami, Francis Suarez, foi mais explícito. “O povo de Cuba”, diz ele, precisa de “algum tipo de ajuda internacional”, incluindo a intervenção dos EUA de “alguma forma, seja com comida, remédios ou militarmente”.

Cuba tem uma longa e heróica trajetória de envio de ajuda médica a outras nações. Enviar alimentos ou remédios para a ilha durante sua própria crise seria uma excelente ideia – especialmente porque a política dos EUA é uma das causas diretas da escassez. Mas uma intervenção militar seria um desastre em todos os níveis possíveis.

Os socialistas democratas valorizam a liberdade de expressão, eleições multipartidárias, sindicatos independentes e democracia no local de trabalho. Não devemos negar que a sociedade cubana tem falhas nessas e em outras questões. Nem devemos presumir que todo cubano frustrado que é levado às ruas é um fantoche da CIA ou um defensor da privatização do sistema de saúde de Cuba. Mas quem pensa que a intervenção dos EUA levaria a resultados melhores e não muito piores, perdeu o contato com a realidade.

Para ver que tipo de interferência os EUA poderia produzir, olhe para o vizinho Haiti, cujo presidente foi derrubado com ajuda dos fuzileiros navais dos EUA em 2004. Qualquer um que acredita que a intervenção dos EUA em Cuba traria uma democracia liberal estável e próspera precisa primeiro explicar por que o Haiti está destruído a níveis distópicos de pobreza, desigualdade, corrupção e violência política.

No mínimo, uma tentativa séria de derrubar o governo de Cuba para impor uma alternativa amigável aos EUA poderia acabar parecendo menos com as intervenções violentas, a curto prazo parecido com o Haiti e a longo prazo mais próximo da guerra no Vietnã. O governo de Cuba chegou ao poder por meio de uma revolução popular que ainda conta com uma base significativa de apoio. É um absurdo pensar que os EUA poderiam derrubar esse governo sem um grande número de pessoas pegando em armas.

A eterna guerra dos EUA no Afeganistão já dura quase duas décadas. As ondas de derramamento de sangue e caos causadas pela invasão do Iraque em 2003 ainda estão entre nós. Que alguém pudesse acreditar, em 2021, que intervir em Cuba tornaria as coisas melhores é uma prova arrepiante do poder cegante da ideologia.

Se as pessoas e o governo dos EUA realmente querem ajudar o povo cubano, há uma maneira fácil e óbvia: acabar com as sanções. Cada uma das faltas de que os manifestantes estão falando foi, pelo menos, agravada pelo embargo dos EUA. A resposta não é mais intervenção. É menos.

Os anticomunistas de direita frequentemente querem ter as duas coisas. Por um lado, eles negam que o embargo seja um fator significativo que contribui para as dificuldades em Cuba – argumentando que a escassez é quase inteiramente causada pelas falhas do sistema cubano. Por outro lado, eles insistem que é essencial que o embargo permaneça em vigor. Mas por que? Se realmente não tem grande efeito na economia de Cuba, como poderia ser uma ferramenta importante para pressionar o governo cubano a atender às demandas dos EUA? Se realmente não está exacerbando os problemas econômicos da ilha, por que não provar isso normalizando as relações comerciais?

No mês passado, as Nações Unidas votaram numa esmagadora maioria para que os EUA suspendesse o embargo. Apenas os EUA e Israel votaram não. (Ucrânia, Colômbia e Brasil de Jair Bolsonaro foram as únicas abstenções.) E 184 nações votaram sim.

É hora de ouvir a condenação do mundo. O embargo precisa acabar.

Sobre os autores

é professor de filosofia e autor de Give Them An Argument: Logic for the Left. Ele faz um quadro semanal chamado "The Debunk", no The Michael Brooks Show.

Sobre o autor

Ben Burgis é professor de filosofia e autor de Give Them An Argument: Logic for the Left. Ele faz um quadro semanal chamado "The Debunk", no The Michael Brooks Show.

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