Fidel sem farda

13/08/2021

Por
Mariana Serafini

Ninguém capturou Fidel Castro tão “desarmado”, mesmo quando em combate, quanto Alberto Korda. O fotógrafo cubano largou seu estúdio de moda para acompanhar a revolução e congelou os melhores momentos do comandante e seus companheiros de luta – mostrando um líder completamente apaixonado pela vida, pelas pessoas, pelo presente.

Fidel Castro com duas crianças americanas, Jack e Jeff, cujo sobrenome também é Castro em 1959 | Foto: Alberto Korda

Apesar de seu trabalho mais reconhecido ser a clássica foto de Che Guevara com um olhar altivo, o fotógrafo barbudo de movimentos rápidos, Alberto Korda, soube ver, como poucos, o coração gigante por trás da farda verde oliva de Fidel Castro. E foi sua capacidade de congelar a leveza dos momentos que o tornou o “fotógrafo pessoal do comandante”.

O marco desta história é a icônica foto de Fidel com a estátua de Abraham Lincoln. Korda conta que, depois dela, nunca mais foi chamado por Fidel na redação do jornal em que trabalhava e sim, diretamente.

“Dei o nome a esta foto de ‘Davi e Golias’. A partir do dia em que a ofereci a Fidel, nunca mais ele me mandou chamar no jornal. Fazia que me contatassem diretamente. Mas não me tornei seu fotógrafo oficial. Não: eu era seu fotógrafo pessoal. Nunca tive cargo nem salário. Éramos como dois amigos. Desde então, não foi o dirigente dando ordens que procurei fotografar, mas um homem de abordagem muito fácil, muito humano, que se interessava por todos e por cada um”.

“Davi e Golias”, por Alberto Korda 

Mudando de vida

Com o triunfo da revolução, em 1959, Korda, que levava uma vida badalada entre as mulheres mais bonitas de Cuba, afinal, era o primeiro fotógrafo de moda do país, percebeu que a causa daqueles “barbudos” era justa e decidiu se unir à luta por uma Cuba livre. “Eu optara por uma vida frívola, quando por volta dos trinta anos, um acontecimento excepcional transformou minha vida: a Revolução”.

Neste caso, o marco foi a imagem de uma criança abraçada a um pedaço de madeira, porque não tinha uma boneca, que fez Korda perceber a real proposta da revolução de “superar tais desigualdades”. O fotógrafo se jogou por inteiro à causa e se tornou um dos principais jornalistas do Jornal Revolución.

Pronto para acompanhar o exército revolucionário em diversas expedições, Korda voltou com Fidel muitas vezes à Sierra Maestra – palco da derrubada da ditadura de Fulgência Batista – porque o comandante gostava de visitar as pessoas e se exercitar na mata.

“O gigante era um atleta completo que sempre quis ser o melhor em tudo: campeão de corrida, campeão de pingue-pongue, bom lançador de beisebol e capitão da equipe de basquete na faculdade de Direito”.

Otimismo revolucionário

Este jeito de “ser o melhor em tudo” foi que transformou Fidel num dos maiores líderes do século XX. O jovem de 30 e poucos anos que libertou a ilha, usada como quintal pelos Estados Unidos e garantiu dignidade e soberania ao povo cubano tinha uma autoestima invejável.

Depois de chegar à Sierra Maestra, em 1956 (três anos antes do triunfo da revolução) e ser imediatamente atacados pelo exército do ditador Fulgêncio Batista, os revolucionários que não foram mortos ou presos permaneceram dias escondidos na selva até se reencontrar.

O reencontro entre Fidel e Raúl mostra porque, mesmo com tão pouca estrutura, eles conseguiram derrubar a ditadura: “Quando Raul Castro se juntou ao irmão, em 18 de dezembro [1956], com cinco companheiros, Fidel perguntou: ‘quantos fuzis você tem?’. Ao saber que havia cinco fuzis disponíveis, exclamou com otimismo da determinação que o caracteriza: ‘Com os meus, temos sete. Ganhamos a guerra!’”, contou Korda.

O comandante otimista é também um tagarela de primeira, garante o fotógrafo: “Exceto quando lê, nunca fica cinco minutos sem falar com alguém. Não sabe ficar sem fazer nada, nem permanecer sozinho. Não sou que o digo, é o seu próprio irmão, Raul”. E esta simplicidade faz com que não seja “adorado como um chefe inacessível, mas amado com uma afeição comovente”, disse a artista francesa Anne Philippe em entrevista ao Le Monde.

Com o olho treinado pela moda, Korda não deixou passar as sutilezas da revolução | Foto: Alberto Korda

Korda conta que teve dimensão da grandeza de Fidel Castro quando o viu chegar em Moscou, durante uma visita oficial. “Os russos nunca tinham promovido festa semelhante para alguém, desde o retorno à Terra do primeiro cosmonauta, Yuri Gagarin”. E nem diante de outros chefes de Estado, o comandante perdia a capacidade de fazer piadas com tudo.

Entre as muitas habilidades de Fidel, uma delas é o mergulho, que ensinou ao amigo fotógrafo para ter companhia em alto mar | Foto: Alberto Korda

Durante um fim de semana na casa de campo do presidente Nikita Khrushchev, Fidel exibiu suas habilidades com uma Polaroid. O líder russo ficou maravilhado com aquele “aparelho mágico” e perguntou de onde vinha tamanha tecnologia. Com um grande sorriso no rosto, o cubano respondeu “Boston, Massachussets…”.

Fidel fotografa a família de Khrushchev com uma Polaroide | Foto: Alberto Korda

De todas as imagens que compõe o livro Cuba Por Korda, um imenso apanhado do trabalho de Korda na ilha comunista, a que mostra Fidel caído na neve enquanto brincava de esquis certamente é uma das melhores. E o fotógrafo fala sobre este episódio com graça e sinceridade comoventes.

“Fidel calçou esquis pela primeira vez com Nikita, quando voltou à URSS no ano seguinte. Saiu-se muito bem, rapidamente, em outro dia, viu esquiadores sobre um rio gelado. Chamou-os e pediu-lhes para experimentar. Tudo começou bem, mas de repente, catatráz! Transformou-se numa bola de neve! Quase morreu de tanto rir. Nunca me pediu para não publicar esta foto. E pensar que certas pessoas dizem que ele não tem humor!”.

Fidel castro em Moscou – Alberto Korda

Sobre os autores

é jornalista especializada em América Latina pela PUC-SP. Cobriu golpes e eleições para Carta Capital, Carta Maior e Revista Fórum. Foi editora de América Latina e Cultura no Portal Vermelho. Mora em São Paulo.

Sobre o autor

Mariana é jornalista especializada em América Latina pela PUC-SP. Cobriu golpes e eleições para Carta Capital, Carta Maior e Revista Fórum. Foi editora de América Latina e Cultura no Portal Vermelho. Mora em São Paulo.

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