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Há quarenta e dois anos atrás, as forças da Frente Sandinista de Libertação Nacional capturaram Manágua e acabaram com a ditadura de Somoza. (Getty Images)

Como os sandinistas fizeram a última revolução do século XX

UMA ENTREVISTA COM
Tradução
Mauro Costa Assis

O atual governo de Daniel Ortega é motivo de polêmica no interior da esquerda. Mas um fato é indiscutível: o triunfo da Frente Sandinista de Libertação Nacional contra a ditadura de Somoza mudou o curso da história latino-americana para sempre - e para melhor.

UMA ENTREVISTA DE

Nicolas Allen

Nos últimos meses, a Nicarágua esteve muito presente na mídia. O polêmico governo de Daniel Ortega divide as diferentes tendências da esquerda internacional. Membro fundador e atual presidente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), Ortega é também a face mais visível da longa e às vezes incompreendida – senão voluntariamente distorcida – história da Revolução Sandinista.

No 42º aniversário da tomada de Manágua pelo FSLN – 19 de julho de 1979 – Nicolas Allen, editor da Jacobin, conversou com o historiador Jeffrey L. Gould a fim de lançar alguma luz sobre a Revolução Sandinista, para compreendê-la em toda sua complexidade, suas virtudes e defeitos, e recuperar as lições que nos deixou a “última revolução social do século XX”.


NA

O senhor poderia nos contar um pouco sobre o governo Somoza, derrubado pelos sandinistas em 1979? Considerando as ditaduras latino-americanas da década de 1970, deve-se ressaltar que esta foi muito singular: um regime dinástico que controlou o poder político e econômico na Nicarágua por quase meio século e que durante seus primeiros anos passou a gozar de algum apoio popular.

JG

Como você disse, os Somoza foram uma ditadura familiar que durou quase 43 anos. Na minha opinião, o regime de Somoza tinha duas características distintas. Uma delas é que, durante os primeiros anos da ditadura, especialmente antes dos anos 1960, o governo tinha uma tendência bastante populista. O primeiro filho de Somoza se definia como o “velho trabalhador” e levou o rótulo a sério: em certa medida, ele fomentou o poder dos trabalhadores em sua organização. Claro, sempre foi um modelo de cima para baixo, principalmente interessado em garantir a lealdade ao regime. Mas, ao mesmo tempo, havia uma certa estrutura operária e um código de trabalho que permitia que os ativistas sindicais fizessem greve e se organizassem.

Na década de 1940, o governo Somoza estabeleceu muitas alianças mais ou menos vacilantes, e a esquerda – representada pelo Partido Socialista da Nicarágua (basicamente o Partido Comunista) – manteve uma espécie de aliança tácita com o regime. A aliança entre a esquerda e Somoza se explica, em parte, porque muitas franjas do setor anti-Somoza tinham laços com a oligarquia nicaraguense. Assim, a fronteira que separava Somoza – um aliado circunstancial da esquerda com considerável base na classe trabalhadora artesanal e no campesinato – dos estudantes de classe média que se consideravam “sandinistas” (ou seja, seguiam o legado anti-imperialista de Augusto Sandino) e dos oligarcas de direita, não era tão claro.

O que deve ser lembrado é que os Somozas – tanto o primeiro, Anastasio, quanto o segundo, Luís – governaram usando, em certa medida, o modelo clássico do populismo latino-americano, ao estilo de Vargas no Brasil e Perón na Argentina. Agora, em meu primeiro livro, To Lead as Equals, argumentei que o movimento camponês da Nicarágua exauriu o conteúdo populista do regime de Somoza, desafiando constantemente os limites desse estilo de política até a repressão das décadas de 1960 e 1970. Durante a segunda metade dos anos 1970, o regime de Somoza começou a se parecer cada vez mais com as brutais ditaduras dos países vizinhos da América Central e do Cone Sul.

A outra característica distintiva do regime de Somoza é que era uma grande empresa familiar. Em 1979, quando a Revolução Sandinista triunfou, a família Somoza e seus amigos mais próximos controlavam cerca de 25% da economia da Nicarágua, incluindo 25% da terra e da indústria. Talvez a analogia mais próxima seja Rafael Trujillo na República Dominicana, mas não acho que algo semelhante tenha sido visto em nenhuma das ditaduras do Cone Sul ou da América Central. E esse enorme controle que tinham sobre a economia teve consequências diretas sobre o desenvolvimento da revolução e suas conquistas.

NA

Você disse que seu primeiro livro foca na relação entre os movimentos camponeses e o regime de Somoza. Uma das impressões que sua leitura me deixou é que, por um lado, os movimentos camponeses, com sua luta durante décadas contra os Somozas, parecem ter lançado as bases da Revolução Sandinista. Mas, ao mesmo tempo, essas duas forças – camponeses e sandinistas – não estavam predestinadas a se unir para derrotar o regime.

JG

Em minha pesquisa, preocupei-me principalmente com os protestos agrários no departamento de Chinandega, localizado no noroeste do país. Esse movimento cresceu e lutou desde a década de 1950 até meados da década de 1960. Em meados da década de 1960, o movimento camponês havia chegado a uma espécie de impasse, tanto pelas diversas formas de repressão quanto pela concessão de reformas agrárias limitadas pelo governo. Porém, mesmo depois que o movimento parou, esses militantes permaneceram integrados em uma espécie de rede informal.

Aconteceu então que, na segunda metade da década de 1970, a nova geração – ou seja, seus filhos – iniciou uma nova onda de lutas pela terra. Foi então que, pela primeira vez, as pessoas começaram a se relacionar com o movimento sandinista, à medida que este se juntava às lutas. É importante entender que, nos primeiros anos da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), fundada em 1961, os sandinistas praticamente não tinham ligação com nenhum movimento camponês. Isso se devia em parte ao seu isolamento e em parte porque tinham outras prioridades. Foi somente em meados da década de 1970 que alguns ramos da organização sandinista começaram a ter contato com essa nova geração de militantes camponeses do Ocidente.

Também começou a se desenvolver o vínculo entre o movimento inspirado na teologia da libertação e os camponeses militantes, que por sua vez participavam da Associação dos Trabalhadores Rurais (ATC), fundada em 1978 e bastante integrada à Frente Sandinista. Assim, os sandinistas conseguiram se relacionar muito estreitamente com os ativistas que vieram através da teologia da libertação e da ATC.

Se você considerar as pessoas presas – quando os militantes ainda não eram diretamente assassinados – que ocorreram durante essas lutas, é bastante claro que eram filhos de camponeses que lutaram nos anos 1950 e início dos anos 1960. Então era a nova geração do movimento camponês que estabeleceu laços mais estreitos com a Frente Sandinista.

NA

Antes de ganhar visibilidade na década de 1970, após uma série de operações espetaculares, o FSLN passou quase uma década nas sombras. Você poderia nos contar um pouco sobre os ideais que definiram o grupo e suas figuras mais importantes?

JG

Acredito que a ideologia da FSLN pode ser resumida na frase “nacionalismo revolucionário”. Os dois fundadores que conseguiram sobreviver aos primeiros anos de repressão – Carlos Fonseca, o principal líder, morto em 1976, e Tomás Borge – levaram o legado de Sandino muito a sério. Sua ideologia emergiu de uma espécie de formação nacionalista entrelaçada com influências marxista-leninistas e cubanas. O sandinismo foi um pensamento revolucionário único e altamente complexo.

Ao mesmo tempo, é importante entender que, em meados da década de 1970, os sandinistas se dividiam em três tendências, que provavelmente somavam menos de 100 militantes cada. Quando os primeiros levantes contra o governo de Somoza ocorreram em 1978, não havia tantos militantes envolvidos.

Foi a partir de 1978 que a organização passou por um processo de crescimento repentino e muitas pessoas começaram a se identificar com a Frente Sandinista. Isso porque a FSLN representava a única oposição popular ao regime de Somoza, ou seja, eram os únicos que estavam dispostos a morrer para libertar a Nicarágua. Essa demonstração de coragem deu-lhes uma vantagem enorme sobre a oposição burguesa, que, como diziam os sandinistas, estava sempre em busca de uma forma de construir um “somozismo sem Somoza”. Antes de 1979, a meta da burguesia local e do Departamento de Estado era eliminar Somoza enquanto preservava o sistema que ele ajudara a estabelecer.

NA

Aparentemente, o triunfo da revolução implicou uma grande cota de contingência. Por exemplo, o terremoto de 1972 que, junto com outros fatores não necessariamente revolucionários, contribuiu para enfraquecer o regime de Somoza. Havia também os grupos econômicos que queriam expulsar Somoza do poder para ganhar influência após o triunfo da revolução. Ao mesmo tempo, como você acabou de dizer, as fileiras da FSLN ainda eram muito escassas. Todas essas circunstâncias em torno da revolução, mesmo que em última instância conspirassem para derrubar Somoza, minaram as aspirações mais revolucionárias dos sandinistas?

JG

A FSLN pode não ter tido muitos militantes, mas acabou ganhando o apoio dos camponeses, principalmente na zona oeste que mencionei antes, mas também nas zonas montanhosas, onde uma das tendências que vinha se desenvolvendo há muito tempo para recuperar o terreno da região de Segóvia e se reconectar com as antigas redes de Sandino. Mas eu diria que a maior parte do apoio veio das favelas da região metropolitana, principalmente Manágua e León. A participação da juventude urbana foi fundamental para o sucesso da FSLN.

Ao mesmo tempo, os sandinistas souberam aproveitar muito bem as circunstâncias, pois, taticamente, conseguiram triunfar muito rapidamente, muito antes de tomar o poder. Em 1974, eles intervieram nas celebrações de Natal de Somoza e libertaram muitos sandinistas que estavam na prisão. Seguiu-se a famosa tomada de posse do Palácio Nacional em 1978, onde sequestraram quase mil pessoas e conseguiram não só negociar a liberdade de todos os seus presos políticos – que eram muitos – mas também recolher um resgate substancial.

Essas ações foram muito inspiradoras: ficou evidente à medida que os grupos que transportavam os lutadores sandinistas saíam do Palácio Nacional rumo ao aeroporto e a multidão se inclinava na avenida para saudá-los, ou seja, imediatamente simpatizaram com o tremendo gesto revolucionário. Isso fez com que muitas pessoas se identificassem com a Frente Sandinista, que por sua vez era inteligente o suficiente para aproveitar o fervor e recrutar ativamente novos militantes e expandir a força de combate revolucionária e a organização sandinista.

Em suma, essas ações fizeram com que, principalmente entre fevereiro e julho de 1978, o movimento crescesse consideravelmente e aprofundasse sua dinâmica organizacional. Também tiveram muito apoio estrangeiro: da Venezuela, então governada pela social-democracia de Carlos Andrés Pérez; da Costa Rica, governado por Rodrigo Carazo; e, claro, de Cuba, que desempenhou um papel fundamental. O apoio estrangeiro foi um fator chave para o triunfo da Revolução Sandinista, assim como o fato de os Estados Unidos estarem sempre um passo atrás e ainda não estarem dispostos a se comprometer com uma intervenção militar, mesmo que não quisesse que os sandinistas triunfassem.

Às vezes, mesmo depois de derrubar Somoza, os sandinistas pensaram em dividir o governo com a oposição burguesa. Mas no final eles entenderam que não era necessário e basicamente assumiram o Conselho Nacional até ganharem as eleições em 1984.

NA

Como era a Nicarágua nos primeiros anos após a revolução? Alguns programas ganharam notoriedade, como a campanha de alfabetização, a reforma agrária e a nacionalização da indústria. Acho que o que quero perguntar é: quão revolucionários foram aqueles primeiros anos?

JG

Lembro que em 1983, quando me mudei para a Nicarágua, escrevi uma carta para meu orientador da faculdade. Lembro-me de fazer uma referência ao Tributo à Catalunha, de George Orwell, ao fragmento em que ele conta como se sentiu imediatamente após a revolução e como tudo mudou. Lembro-me de dizer a ele: “Não me sinto como Orwell”. Em 1983 não restava muito fervor revolucionário e já era evidente que as prioridades dos sandinistas convergiam para a defesa da contra-revolução (a Guerra dos Contra começou em 1981).

Eu insisto que essas eram as suas prioridades, mas havia contra-tendências – tendências revolucionárias, poderíamos dizer – que sobreviviam e cresciam em todos os lugares. Não tenho certeza se é correto defini-las como “autônomas”, mas existia sim a ideia de que, a nível local, as chamadas organizações de massa deviam ter um papel importante na revolução e deviam ter poder de decisão sobre os problemas que os afetavam.

Essas tendências mais autônomas ainda existiam quando me mudei e eram muito importantes. Mas o tempo todo elas estavam lutando contra as diretrizes que vinham de cima. E a situação piorou à medida que a Guerra dos Contras crescia, já que toda a força estava concentrada na defesa. Ainda existiam organizações sociais muito dinâmicas, como o Comitê Sandinista de Defesa (CDS). Hoje, a Revolução Sandinista tende a ser menosprezada, mas devemos entender que para a maioria dos nicaragüenses ela foi muito importante: pela primeira vez, permitiu-lhes assumir o controle de suas vidas e se expressar de uma forma que lhes era proibida até então.

O entusiasmo no CDS e nos sindicatos urbanos e rurais era evidente e contagioso. Mas essas organizações foram perdendo dinamismo devido à hierarquia assumida pela defesa. A organização que mais manteve autonomia foi a União Nacional dos Agricultores e Pecuaristas (UNAG). A UNAG emergiu de um colapso da ATC durante os primeiros anos da revolução e era composta principalmente de pequenos e médios produtores e camponeses sem terra. Eles mantiveram um enorme nível de autonomia e um grande nível de democracia interna. Eu diria que a UNAG teve um papel fundamental no direcionamento da política agrária sandinista de distribuição de terras, mantendo a independência do controle estatal.

NA

Quando se trata da Revolução Sandinista – na verdade, quando se fala de qualquer revolução – parece haver duas tendências: ou é percebida como obra de um pequeno grupo de quadros, ou seja, de uma vanguarda, ou se pensa que a profunda transformação social que gerou a revolução partiu de organizações autônomas como as que você mencionou.

JG

Para ser justo com a liderança sandinista, acho que seus objetivos mais amplos desempenharam um papel fundamental nos grandes êxitos da revolução: a campanha de alfabetização e a melhoria acentuada das oportunidades educacionais, inclusive no nível universitário. Os sandinistas também implementaram uma grande revolução no sistema de saúde, que passou a garantir assistência médica a pessoas que nunca tiveram acesso a ela. Foram transformações muito radicais e essas iniciativas vieram de cima.

NA

Costuma-se dizer que a postura de cima para baixo adotada pela FSLN se explica pela Guerra dos Contras, ou seja, que a tática defensiva se tornou uma prioridade a ponto das iniciativas mais democráticas terem que ser relegadas. É assim? É possível especular o que teria acontecido se Ronald Reagan e a CIA não tivessem recrutado a Guarda Nacional de Somoza no exílio, para desencadear a guerra contra-revolucionária mais violenta da região?

JG

Acredito que a Guerra dos Contras é fundamental para entender o desenvolvimento da Revolução Sandinista. Mas também é verdade que todos os líderes sandinistas – os famosos 9 comandantes – subscreviam alguma versão do marxismo-leninismo. Então, suponho que seja possível argumentar que, se tivesse o controle total, a situação teria se encerrado em uma espécie de ditadura autoritária. Ainda assim, não é o que penso. Esse argumento é apoiado pelas supostas ideologias dos líderes, mas na prática as coisas eram muito diferentes.

Na liderança sandinista haviam três tendências políticas. Todas essas tendências, em certa medida, favoreceram desde o início o status de vanguarda da Frente Sandinista e argumentaram que era necessário que os sandinistas garantissem sua autoridade e controle em meio à revolução. Mas, além desse solo ideológico comum, três tendências divergentes estavam se abrindo.

Havia a chamada tendência Tercerista, ou tendência da terceira via, associada aos irmãos Daniel e Humberto Ortega e definida por sua abertura a alianças com a oposição burguesa. Depois, havia a tendência da Guerra Popular Prolongada, com alguma influência maoísta e vietnamita, que acreditava no fortalecimento a longo prazo das bases camponesas das montanhas. E, por fim, havia a tendência Proletária, mais voltada para a importância revolucionária do proletariado urbano e rural.

Ao mesmo tempo, em cada uma dessas tendências, mas especialmente na tendência Proletária e entre os Terceiristas, havia grupos alinhados com a teologia da libertação. Depois do triunfo da revolução, acho que essas diferentes tendências se fundiram: independentemente de serem da tendência Proletária ou dos Terceiristas, aqueles que vieram da Teologia da Libertação tinham muito em comum.

Fuzileiros navais dos EUA com a bandeira capturada de Augusto César Sandino na Nicarágua, 1932. (Wikimedia Commons)

O que quero dizer é que as três tendências acabaram funcionando como duas, principalmente quando os Terceristas, o grupo de Ortega, começaram a dominar. Assim que a revolução triunfou, eles foram capazes de se posicionar bem no poder. Ao mesmo tempo, houve muitos eventos contingentes. Quando você analisa alguns dos relatos da revolução – os mais importantes são as memórias de Gioconda Belli e Sergio Ramírez – você percebe como Ortega assumiu o poder.

Novamente, o que quero dizer é que o retrato típico das “três tendências” da FSLN é muito mais complexo do que o que os relatos tradicionais nos dizem. Na verdade, havia outras tendências no partido sandinista: por exemplo, em seus escritos, o fundador Carlos Nuñez sempre enfatizou a importância da autonomia das organizações de massa, enquanto os demais dirigentes argumentaram na direção oposta, ou seja, que a Frente Sandinista deveria ser a única direção da revolução. De 1979 a 1981, grupos que chamaríamos de ultra-esquerda ainda estavam envolvidos na revolução: por exemplo, a Brigada Simón Bolívar, formada por trotskistas da América Latina, que acabou sendo expulsa.

Qualquer que seja o parâmetro tomado, esses grupos eram ultra-esquerdistas, mas o mais importante é que eles sustentavam movimentos de massa espontâneos que estavam sendo escanteados pelo processo revolucionário. Esses movimentos geraram grilagens de terras e cooperativas democráticas no campo, entre outras iniciativas desse tipo. Então, em certo sentido, esses grupos estavam ligados ao que era então a expressão mais revolucionária da revolução. Mas não durou muito, e em 1981 não apenas a extrema esquerda havia sido expulsa, mas muitos dos grupos que a extrema esquerda que tentava – geralmente sem sucesso – liderar também foram eliminados. Claro, nada disso foi feito com as tradicionais medidas repressivas, mas ainda assim foram suficientes para acabar com esses movimentos.

NA

Muitos são os intelectuais de cafeteria que, com o jornal de segunda-feira em mãos, especulam para definir até que ponto a Revolução Sandinista se extraviou, ou seja, se afastou das aspirações revolucionárias de seus dirigentes originais, não conseguiu transformar mais profundamente a sociedade nicaraguense, abraçou o autoritarismo ou fortaleceu oligarcas locais.

Em certo sentido, esses debates parecem ter duas versões contraditórias da história: ou que a revolução foi muito tolerante com as instituições políticas e econômicas burguesas, ou seja, que deixou intacto o poder da oligarquia nicaraguense e realizou eleições prematuramente, em 1984; ou que a tendência de cima para baixo acabou destruindo a vida interna do partido e enfraquecendo o apoio popular. Essas explicações fazem sentido ou devemos considerar uma perspectiva mais matizada da revolução?

JG

Antes de responder à pergunta, gostaria de voltar um pouco ao que disse anteriormente. Sabemos que a Guerra dos Contras foi decisiva para esmagar os aspectos mais democráticos da revolução. Por “democrático” não me refiro a eleições, mas sim à democracia de base. Aqui é importante fazer um esclarecimento. A Guerra dos Contra começou a se desenrolar em Buenos Aires, com a participação da ditadura militar e posteriormente com a participação da CIA (Israel também estava envolvido). O plano original, assim que triunfou a revolução, era instalar acampamentos militares em Honduras, na fronteira com a Nicarágua.

Acredito que cerca de quarenta ou quarenta e seis oficiais do Primeiro Exército Contra foram membros da Guarda Nacional de Somoza. Portanto, não há dúvida sobre as origens da Guerra dos Contra.

Mas, nesta discussão sobre os efeitos internos que a Guerra dos Contra teve na FSLN, é importante notar que a guerra também tinha vida própria e que o exército dos contra recrutou muitos voluntários entre os camponeses das montanhas. Quando a Gguerra Contra começou a se intensificar, boa parte de seus líderes eram basicamente cafeicultores que temiam ser expropriados, haviam sido expropriados ou foram levados pela propaganda anti-sandinista da Igreja Católica.

Assim, analisar as forças dos contras também nos leva a considerar os erros que os sandinistas cometeram contra a Igreja Católica. Até certo ponto, era inevitável: o Vaticano claramente tomou uma posição e colocou muita energia na luta contra a Teologia da Libertação. Essa oposição à Teologia da Libertação foi fundamental, tanto no sentido de que afetou a forma como a liderança sandinista tratava a Igreja Católica oficial, quanto no sentido de que pesou nas áreas rurais onde os contras recrutavam militantes.

Em outras palavras, acho importante considerar que os erros dos sandinistas também alimentaram a Guerra dos Contra. No caso da reforma agrária, por exemplo, há estudos que mostram que até as tentativas de eliminar certas práticas de exploração, como a de intermediários – que compravam produtos em áreas rurais remotas e depois os vendiam no mercado – deram certo. Houve também casos de expropriação que obedeceram menos a um programa revolucionário ou legal do que a certas formas punitivas de castigo contra os proprietários, dependendo de suas inclinações políticas.

Todas essas coisas combinadas acabaram apoiando os contras que, novamente, tiveram uma grande influência no curso da revolução, em todos os níveis, não apenas nas questões relativas à democracia.

Rebeldes Contra marchando por Jinotega, Nicarágua em 1985. (Wikimedia Commons)

No final da década de 1980, cerca de 60% do orçamento dos sandinistas era dedicado à defesa, e os grandes programas que prevaleciam no início da revolução – educação, alfabetização e saúde – sofreram as consequências da guerra.

Agora, sim, volto à sua pergunta: em que medida o programa de economia pluralista e mista do FSLN determinou seus fracassos. Tendo a discordar dos termos em que esse debate ocorre. Em parte porque o termo “economia mista” pode significar muitas coisas diferentes. O que aconteceu durante as primeiras etapas da revolução, as tensões entre esses movimentos subalternos e a tentativa de consolidar a revolução, foram devidos em parte ao fato de que o projeto dos sandinistas propunha manter uma aliança com o que eles chamavam de “burguesia patriótica”.

Esta aliança desempenhou um papel importante no desmantelamento dos movimentos camponeses e trabalhadores rurais que então se apoderaram das cidades. Desde o início, os sandinistas disseram: “Não, eles não podem tomar aquela fazenda porque o proprietário é um burguês patriota”. Acredito que a tensão aumentou em um nível fundamental, mas não concordo com a perspectiva de que o projeto democrático estava errado. Na verdade, se quisermos mergulhar na história “contrafactual”, sempre pensei que os sandinistas cometeram um grave erro ao convocar eleições apenas em 1984, em vez de 1980. Naquela época, eles argumentaram que não era desejável realizar eleições porque isso levaria ao renascimento da luta entre as diferentes tendências.

Minha opinião pessoal é que sim, é verdade que as diferentes tendências ainda tiveram alguma importância, mas mais em termos de clientelismo do que de política séria. Se os sandinistas tivessem vencido uma eleição popular em 1980, teria sido muito mais difícil desencadear a Guerra dos Contra. Acho que Reagan foi capaz de usar todas as instâncias antidemocráticas da Revolução Sandinista em seu proveito em termos de propaganda.

Também acho que se os sandinistas estivessem menos interessados ​​em garantir a hegemonia do partido de vanguarda e mais preocupados em estimular o processo revolucionário, muitas alternativas diferentes teriam sido abertas. Eles poderiam ter permitido que a luta de classes se desenvolvesse no campo e nas cidades, com certos limites governamentais e legais. Eles poderiam ter alimentado essas lutas em todo o país, inclusive em áreas indígenas nas montanhas e na costa atlântica, onde acabaram perdendo muito apoio. Então, eu acho que realmente era possível desenvolver um projeto alternativo, mas decidiu-se não seguir esse caminho.

NA

Nada dissemos sobre Daniel Ortega que, como você disse antes, foi a figura mais poderosa desde o primeiro dia de governo da FSLN. Avançando um pouco na história, a FSLN perdeu as eleições de 1990 e Ortega acabou se tornando o líder indiscutível da oposição. Em 2007, Ortega retomou a presidência com a FSLN, embora, como dizem, com uma versão muito mais diluída da política sandinista original. Enquanto Ortega consolidava seu controle sobre o partido e conquistava apoio popular, muitos dissidentes sandinistas abandonaram a política partidária ou, em alguns casos, formaram exércitos eleitorais dissidentes, alguns dos quais recentemente censurados por Ortega. Eu me pergunto se o legado sandinista e a ideologia de Sandino ainda são importantes na Nicarágua.

JG

Infelizmente, este é um assunto muito complexo sobre o qual não me considero uma autoridade de forma alguma. Dito isso, acho que a tendência perdida em meados da década de 1990 foi composta por cifras que, se eu olhar para elas individualmente, são ótimas. Dora María Tellez, recentemente presa, e Edén Pastora foram figuras-chave durante a captura do Palácio Nacional em 1978. Tellez também desempenhou um papel central no ministério da Saúde na década de 1980. Mas quando criaram um movimento alternativo, o Movimento de Renovação Sandinista, eles tiveram muitas dificuldades para romper, especialmente por causa do forte vínculo que os sandinistas estabeleceram com certos setores pobres, urbanos e rurais, entre os quais se desenvolveram todos os tipos de lealdade.

Em certo sentido, é possível fazer uma ligeira analogia com Somoza, uma vez que ele também tinha uma base popular de apoio e a oposição tinha grande dificuldade em rompê-la. A posição de classe da oposição sandinista durante os anos 1990 era definitivamente de classe média ou “profissional”, e eles não conseguiram romper o muro de apoio que o grupo de Ortega havia construído. É verdade que Ortega perdeu as eleições de 1990, mas mesmo assim obteve 41% dos votos e isso permaneceu até Ortega vencer as eleições de 2006 com 38% dos votos.

De tudo isso, segue-se que boa parte da população manteve sua lealdade a Ortega e que a tendência dissidente do movimento sandinista nunca teve a possibilidade de fundar uma base popular ou articular uma posição antineoliberal. Ainda assim, não quero deixar de enfatizar a grandeza individual de algumas dessas pessoas e a coragem com que vivem.

Mas, voltando à sua pergunta, acho que o fato de muitos daqueles dissidentes sandinistas terem acabado mudando o nome do partido para UNAMOS é muito significativo, pois, implica que eles abandonaram a referência ao sandinismo. Parece-me que a repressão de 2018 realmente minou o valor simbólico do sandinismo, porque a Frente Sandinista, convertido na organização de Ortega, apoiou e legitimou a repressão. Claro, isso não quer dizer que a tradição sandinista em geral seja inútil. Falei com um dos líderes do novo movimento de oposição e ele me disse que, em uma das primeiras reuniões com um grupo de estudantes, todos confessaram que seus pais e todas as suas famílias eram sandinistas.

Outra coisa que não sei bem é de onde vem exatamente a força de Ortega, porque até hoje, segundo as pesquisas, ele ainda conta com o apoio de um terço da população, o que significa que a perda de apoio que sofreu foi mínima. Não tenho conhecimento de nenhum estudo sério que tente explicar esse fato; a maioria geralmente se contenta com algumas palavras sobre o bem-estar do governo e os métodos pelos quais ele usa qualquer recurso do Estado para apaziguar a multidão. Mas acho que não é o suficiente.

NA

Eu compartilho a mesma preocupação. Por outro lado, toda vez que Ortega se candidata, acaba ganhando mais votos, e as eleições, pelo menos aparentemente, são livres e justas. Mas os indicadores sociais da Nicarágua são desastrosos. Não tenho certeza de como explicar isso.

JG

Na verdade, eu acho que se você considerar o primeiro governo, de 2007 a 2011, os indicadores sociais melhoraram muito e possivelmente aconteceu a mesma coisa no governo seguinte. Ou seja, as coisas melhoraram para muita gente e, até certo ponto, isso deve explicar os 60% de vitórias.

NA

Gostaria de fazer uma última pergunta sobre o impacto internacional da Revolução Sandinista. Na América Central, o exemplo dos sandinistas influenciou diretamente os movimentos armados na Guatemala e em El Salvador. Em outras partes mais distantes da América Latina, os sandinistas inspiraram muitos grupos guerrilheiros clandestinos a realizar operações contra ditaduras militares. Há até contra-exemplos, como o Peru, onde o Sendero Luminoso, após constatar que o FSLN perdeu as eleições de 1990, decidiu redobrar seus esforços para a insurreição armada. O que você poderia nos contar sobre a influência dos sandinistas?

JG

Tanto na Guatemala quanto em El Salvador, havia movimentos camponeses e sindicais muito mais desenvolvidos do que aqueles que apoiavam a FSLN. Em outras palavras, não é que esses movimentos estivessem imitando os sandinistas. Por outro lado, a influência da Igreja popular ou da Teologia da Libertação sempre foi muito mais forte na Guatemala – especialmente em El Salvador – do que na Nicarágua. Se você observar o nível de organização operária e camponesa que existia em 1979 em El Salvador e na Guatemala, verifica-se que o movimento estava muito mais avançado do que na Nicarágua.

A outra diferença fundamental entre a Nicarágua e o resto dos países centro-americanos é dada por certas contingências: a saber, a burguesia, a elite agrária e o pequeno setor industrial da Nicarágua estavam politicamente divididos. Foi uma elite dividida que acabou colocando os Somozas contra todos os outros. Essas divisões não existiam em nenhum outro país da América Central.

Dito isso, o triunfo da revolução sandinista teve efeitos muito importantes, tanto em El Salvador quanto na Guatemala, no sentido de que promoveu uma espécie de perspectiva triunfalista entre o povo. A ideia era que, se a Nicarágua tivesse vencido, El Salvador também poderia vencer. Na verdade, o slogan era “A Nicarágua venceu, El Salvador vai vencer”. O mesmo aconteceu no caso da Guatemala. Nesses países da América Central, o exemplo dos sandinistas levou a guerrilha a aumentar o número de recrutas, convencidos de que triunfariam rapidamente, como a Nicarágua.

Sabemos que não foi assim em El Salvador ou na Guatemala: essa crença teve consequências terríveis, verdadeiramente trágicas. Mas, além da região da América Central, a revolução sandinista fortaleceu muito a esquerda latino-americana. A Nicarágua se tornou um ímã para exilados latino-americanos, especialmente argentinos e chilenos. Foi claramente uma grande inspiração. E, pelo mesmo motivo, a derrota eleitoral de 1990 foi vivida como o fim de toda uma era revolucionária na América Latina.

Sobre os autores

é professor de História na Indiana University e autor de vários livros, incluindo mais recentemente "Solidarity Under Siege: The Salvadoran Labour Movement, 1970-1990" (Cambridge University Press, 2019) e "Entre el Bosque y los Arboles: Utopías Menores em El Salvador, Nicarágua, e Uruguai" (Editorial Universidad de Guadalajara, 2020).

é editor contribuinte da Jacobin e editor-chefe da Jacobin América Latina.

Cierre

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