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Gustavo Petro e Francia Márquez serão os candidatos de unidade do campo da esquerda para disputar a presidência da Colômbia em maio deste ano. Foto de Pacto Histórico.

A esquerda está finalmente em ascensão na Colômbia

Tradução
Cauê Seignemartin Ameni

A eleição da semana passada na Colômbia teve o melhor resultado para a esquerda em décadas e confirmou Gustavo Petro como favorito para se tornar o primeiro presidente socialista do país. É uma grande mudança em um país que é dominado há 200 anos por oligarquias familiares de direita apoiadas pelos EUA.

A coalizão de esquerda na Colômbia, Pacto Histórico, tornou-se o movimento político mais popular do país após as eleições parlamentares no domingo passado, 13 de março. Esta vitória histórica ameaça 200 anos de hegemonia da classe dominante, com a maioria dos representantes da coalizão vindo de origens camponesas e operárias. Dependendo do que acontecer na eleição presidencial de maio, essa vitória pode ter repercussões globais. E, crucialmente, o Ocidente pode perder a lealdade incondicional de seu aliado mais estável na região.

Gustavo Petro, o candidato presidencial da coligação, vem de uma família de trabalhadores rurais que, como muitos no país, foram obrigados a migrar para a capital para fugir da pobreza e da violência. Como esperado, Petro venceu as primárias da coalizão com mais de 4 milhões de votos. Francia Marquez, ativista negra rural dentro da aliança, também fez história com quase um milhão de votos – mais do que todos os principais candidatos receberam em suas respectivas primárias – e apesar de nunca ter ocupado um cargo político.

Embora a coalizão progressista seja a força política mais dominante no país atualmente, os partidos de centro e de direita estão agora formando sua aliança para impedir o avanço da esquerda rumo a presidência em maio. O que acontece a seguir depende da capacidade do Pacto Histórico de mobilizar eleitores de primeira viagem e convencer os partidos e líderes de centro mais populares a se juntarem à coalizão, um feito que Petro falhou nas eleições de 2018.

Os centristas que pretendem representar uma alternativa aos campos políticos polarizados do país são, em tudo menos no nome, parte das tradicionais elites conservadoras de direita do país. As moderadas propostas políticas de Petro, mais próximas do centro do que os centristas, alarmaram essas elites e seus aliados ocidentais. Petro e sua coalizão exigem uma redistribuição cautelosa da vasta riqueza do país e insistem que seu tipo de esquerdismo é diferente dos realizados em Cuba e na Venezuela. Ele recentemente brincou que os ricos não precisam temê-lo, pois ninguém foi “expropriado” durante seu tempo como prefeito de Bogotá.

No entanto, não são as políticas econômicas moderadas do Petro que as elites apoiadas pelo Ocidente temem, mas sim a possibilidade de abertura do espaço democrático. E eles estão certos em ser cautelosos. Por mais de dois séculos, a Colômbia se gabou de ser a democracia mais antiga e longeva da América Latina, nunca tendo experimentado os golpes de estado e ditaduras tão comuns na região. O que existe, no entanto, são dois séculos de ditadura oligárquica. As classes dominantes conseguiram monopolizar o sistema político do país com uma fachada democrática em que as famílias ricas da nação compartilham o poder através dos partidos liberais ou democráticos, ou na história recente, sus ramificações.

O Pacto Histórico, apesar de moderado, seria uma ruptura definitiva com dois séculos de domínio da elite, com consequências tanto para o país quanto para a região. Fundamentalmente, sua insistência em implementar adequadamente os acordos de paz de 2016 e a desmilitarização pode permitir que movimentos políticos mais radicais desenvolvam e contestem o poder político – algo que, até agora, foi reprimido usando força militar e paramilitar apoiada pelo Ocidente e desinformação estatal.

Colômbia e Ocidente

O Ocidente tem um interesse histórico na Colômbia, tanto pelo comércio quanto por sua importância geopolítica regional. Endividadas devido ao apoio financeiro durante a luta pela independência, as elites emergentes da Colômbia foram empurradas para relações comerciais e políticas desiguais com o Reino Unido e os Estados Unidos. A situação era tão grave que o líder da independência Simón Bolívar reclamou uma vez que essa relação havia gerado um “caos de horrores, calamidades e crimes… e a Colômbia é uma vítima cujas entranhas estão sendo rasgados em pedaços pelos abutres”.

Duzentos anos depois, suas palavras ainda são válidas. Grande parte do PIB anual do país continua sendo desviado para pagar dívidas históricas com o Ocidente, e a economia continua a servir aos interesses de alguns, mas particularmente dos capitalistas ocidentais. E embora a Colômbia seja amplamente entendida como economicamente explorada e politicamente subjugada pelo governo e interesses empresariais dos EUA, a Europa também tem suas digitais nesses problemas: o Reino Unido tem mais de 100 corporações multinacionais no país, entre elas ninguém menos que a British Petroleum, que assinou um acordo multimilionário com o Ministério da Defesa da Colômbia para ajudar a proteger seus interesses comerciais.

O próprio governo do Reino Unido gastou dezenas de milhões em apoio às forças militares e policiais do país, apesar de décadas de violações dos direitos humanos. Quando a polícia colombiana e os assassinos de direita trabalharam juntos para matar e reprimir jovens manifestantes, foi exposto que as forças militares e policiais do Reino Unido lhes ofereceram treinamento e apoio. Além disso, embora a União Europeia (UE) há muito pretenda apoiar uma solução pacífica para o conflito, seus Estados membros continuam a fornecer financiamento e treinamento para o violento Estado colombiano. A Espanha, como o Reino Unido, ignorou o terrível histórico de direitos humanos do país e continua a alimentar a guerra interna do país ao lado do Estado, fornecendo-lhes equipamentos militares modernos, principalmente aeronaves.

Em 2017, a nação dominada pelo conflito tornou-se o primeiro parceiro latino-americano da OTAN. Este movimento foi justificado com base na cooperação de segurança. Mais recentemente, para evitar a suposta influência chinesa e russa, os congressistas de direita norte-americanos Marco Rubio e Bob Menendez propuseram uma cooperação militar ainda mais consolidada com a América Latina. Semanas depois, a Colômbia assinou a Lei de Aliança Estratégica EUA-Colômbia, cujo principal objetivo era a provisão de “benefícios adicionais nas áreas de comércio de defesa e cooperação em segurança”.

As elites colombianas e seus aliados ocidentais desconfiam com razão do Pacto Histórico nesse sentido. Sua postura pró-paz e antimilitarista ameaça seus interesses, não apenas na Colômbia, mas em toda a região.

Uma Nova Colômbia?

Por muitas décadas, a esquerda da Colômbia imaginou uma Nova Colombia, uma Colômbia que finalmente superou os legados coloniais sobreviventes e a violenta exploração capitalista das massas. O Pacto Histórico, com toda a sua importância histórica, ainda não pode dar origem a esse ideal. O que ele pode fazer é preparar o terreno. É a única esperança que os colombianos têm para uma solução pacífica para o conflito em curso. E a própria coalizão – composta por comunistas, socialistas, social-democratas, liberais e ativistas negros e indígenas – é um exemplo vivo da Nova Colômbia.

O ideário democrático liberal no qual muitos depositaram suas esperanças nas décadas anteriores, culminando na constituição de 1991, provou ser infrutífero na prática. À medida que isso fica mais claro para a população, o Estado responde com repressão gratuita. Com o apoio de poderosos aliados estrangeiros, a classe dominante da Colômbia fará tudo o que estiver ao seu alcance para frustrar a transição. Para que o Pacto Histórico chegue ao poder em maio, ele precisa ganhar mais espaço no eleitorado e estar pronto para enfrentar a máquina do Estado: guerra de informação, fraude eleitoral e agressões violentas de militares e paramilitares.

A Colômbia tem uma chance histórica de acabar com décadas de guerra e opressão de forma pacífica e democrática. Cabe a nós mobilizar o povo – e a classe dominante aceitar a inevitabilidade, eventualmente, de uma Nova Colômbia.

Sobre os autores

é doutorando e professor associado na Queen Mary, University of London. Ele é especialista em analisar o "poder civil" da União Europeia na América Latina e seu papel na manutenção do status quo neoliberal na região.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, História and Política

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