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Ilustração de 1812 de luditas quebrando um tear. (Chris Sunde/Wikimedia Commons)

Os ludistas tinham um plano

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Tradução
Gustavo de Almeida Nogueira

Os ludistas da Inglaterra são muitas vezes desprezados como tecnófobos excêntricos. Mas, na realidade, tratava-se de um corajoso movimento operário pré-marxista que dava prioridade às pessoas e à natureza em detrimento da propriedade privada.

O conto popular de Robert Hode, amplamente conhecido como Robin Hood, surge em fins do século XIII na floresta inglesa de Sherwood, que outrora cobria a parte ocidental de Nottinghamshire. Ali, o filho de um guarda florestal reuniu um alegre bando de salteadores de estradas que roubavam aos ricos e davam a si próprios — e talvez aos pobres, de vez em quando.

Durante este período pré-industrial, as florestas do coração de Inglaterra foram cercadas, colhidas e transformadas em pastagens para ovelhas, como parte do caminho da ilha para se tornar “um estado petrolífero para a lã”. Seis séculos depois, foi nesta mesma região cercada que surgiram os bandos de Luddites (Ludistas) para contestar os primeiros casos de automatização. Os donos de moinhos enriqueciam muito, enquanto todas as outras pessoas lutavam pela sobrevivência. Em resposta, os Ludistas nomearam um novo fora da lei mitológico:

Não cante mais suas velhas rimas sobre o ousado Robin Hood,
Às suas façanhas, guardo pouca admiração,
Vou cantar os feitos do General Ludd
Agora o herói de Nottinghamshire.

Em seu ensaio de 1984, intitulado “Is It OK to Be a Luddite”” (“É Aceitável Ser um Ludista?”), o romancista Thomas Pynchon traça a transformação mito-poética de um indivíduo da vida real numa fábula leviatânica. Após ter sido chicoteado por vadiagem, um aldeão chamado Ned Lud invadiu uma casa em Leicestershire, em 1779 e, “num acesso de fúria insana”, destruiu duas máquinas usadas para montar meias. “A palavra espalhou-se”, explica Pynchon: “rapidamente, sempre que um maquinário de tricô de meias era sabotado, as pessoas respondiam com a frase: ‘Lud deve ter passado por aqui’”.

Não era inédito. Sabotar deliberadamente um arado ou quebrar o jugo do gado sempre significou ganhar um dia de folga. O Rei Ludd (ou, por vezes, o Capitão Ludd) passou a encarnar a frustração tácita dos trabalhadores contra os seus patrões burgueses. Ludd tornou-se então “todo mistério, ressonância e diversão sombria”, escreve Pynchon, “uma presença sobre-humana, na noite, a vaguear pelos bairros de fabricação de meias da Inglaterra, possuído por um único truque cómico — sempre que ele vê um maquinário de tricô de meias fica louco e começa a destruí-la”.

A história tradicional toma o lado do dono do moinho ao insinuar que Ned Lud quebrou o maquinário de meias porque era uma besta, um King Kong rebelando-se contra o progresso e a civilização. Porém, como observa Pynchon, as máquinas de meias já existiam há duzentos anos, desde 1589, e a indolência de Ned — o seu “ataque de fúria insana” — é um relato de terceira mão. “A raiva de Ned Lud não era dirigida às máquinas”, argumenta Pynchon, “não era isso. Gosto de pensar nela mais como a raiva controlada, daquele tipo das artes marciais de um malvadão [badass] empenhado”.

Ocorrências no Moinho de Cartwright

Kirkpatrick Sale descreve a Batalha de Cartwright Mill em Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution (“Rebeldes Contra o Futuro: Os Ludistas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”). Em 1812, uma milícia de trabalhadores marchou sobre um moinho local onde, em seu interior, havia cinquenta “máquinas de corte” que podiam ser “acionadas sem esforço pela força da água do riacho ao lado”, explica Sale. “Cada uma delas podia fazer o trabalho de quatro ou cinco ceifadoras”.

Até então, a tecelagem, a cardagem e o tratamento da lã eram uma habilidade artesanal do comércio de algodão — a fábrica agora a centralizava e automatizava. Os lucros de toda a produção da região iam agora diretamente para o bolso de um proprietário de fábrica.

Assim, ferreiros e outros comerciantes se juntaram a seus irmãos da indústria têxtil e formaram um grupo ludista em Cartwright. Lá, eles executaram uma ação direta que havia sido muito bem-sucedida nos condados vizinhos: invadir, quebrar os maquinários e deixar um bilhete dizendo que a destruição veio de ordens do Rei Ludd. Depois, era desaparecer e, aconteça o que acontecer, nunca revelar os nomes de seus companheiros Merry Men (ou “Alegres Homens”, em tradução livre).

O Cartwright Mill também marcou o primeiro caso de violência contra os ludistas. O proprietário do moinho passou semanas se preparando para o ataque, à espera com numerosos mercenários armados e um sistema de alarme: um sino para alertar a cavalaria próxima. Quatro ludistas foram baleados em um ataque malsucedido, e o grupo foi forçado a deixar dois para trás na fuga do local, certificando-se de avisar aos feridos para que não traíssem seus companheiros. De acordo com Sale, esses dois ludistas morreram em decorrência de seus ferimentos, mas não revelaram os nomes de seus co-conspiradores. Essa foi a primeira de muitas retaliações violentas contra os ludistas. Os confrontos entraram para a história como pontos de disputa violenta pelos meios de produção — e isso seis anos antes do nascimento de Marx.

“Eles eram rebeldes de um tipo específico”, escreve Sale, “rebeldes contra o futuro que estava lhes sendo imposto pela nova economia política”. A nova ordem dizia que aqueles que controlavam o capital podiam fazer quase tudo o que desejassem, estando protegidos pelo rei e pelo governo — uma ameaça que não poderia ser combatida por nenhum agricultor sozinho. “O verdadeiro desafio dos ludistas não era tanto o físico, contra as máquinas e os manufaturadores”, observa Sale, “mas um desafio moral, questionando, com base na justiça e na equidade, os princípios subjacentes do lucro irrestrito, da concorrência e da inovação em seu cerne”.

Em outras palavras, um golpe de karatê nos maquinários de tecelagem não era um ataque primitivo ou niilista. O ataque às máquinas pelos ludistas foi um ato de destruição criativa. Na década de 1810, o cercamento havia privatizado áreas e recursos comuns, como campos de pastagem, áreas que o campesinato inglês havia se utilizado livremente por gerações. A coleta e a caça nas florestas de Nottingham acabaram quando as árvores foram derrubadas e a terra foi dividida para pastoreio. Agora, o moinho usava o córrego para processar a lã, procedimento que seria ampliado por máquinas movidas a vapor, de modo que a maré baixa não afetava a produção, enquanto o ar era poluído com as primeiras emissões de carbono da Revolução Industrial. Foi assim que a mecanização da natureza enriqueceu apenas o proprietário do moinho e seus mercenários contratados.

“O sentimento público em relação às máquinas nunca poderia ter sido um simples horror irracional”, escreve Pynchon, “mas, provavelmente, algo mais complexo: o amor/ódio que cresce entre humanos e máquinas  — especialmente quando elas já existem há algum tempo — sem mencionar o grave ressentimento em relação a pelo menos duas multiplicações de efeito que eram vistas como injustas e ameaçadoras”. Um desses efeitos era o da concentração de capital financeiro que cada máquina representava. O outro era a capacidade de cada máquina de “valer” tantas almas humanas.

Pynchon argumenta que o Rei Ludd era mais do que um mero cartão de visitas. Esse personagem era a encarnação de um arquétipo, o “anarquista malvadão”, como a Criatura em Frankenstein de Mary Shelley, o King Kong ou os cowboys. “Há uma longa história popular dessa figura do Malvadão”, escreve Pynchon. “Ele é mau e é grande…‘Mau’ não significa necessariamente moralmente maligno, mas sim alguém capaz de maldades em grande escala”.

O Rei Ludd não era indolente ou tecnofóbico. Ele era uma expressão do poder proletário na Inglaterra do início do século XIX. Consequentemente, estava fundamentado nos profundos anseios religiosos de uma época mítica anterior, a Era dos Milagres. Nesta era anterior, a magia era possível, mas isso também foi encerrado por uma nova ordem tecnopolítica na Era da Razão. Desse modo, os ludistas eram retrógrados e, ao mesmo tempo, uma vanguarda proletária.

Voltamos continuamente aos ludistas, formulando neoludismos, procurando respostas e soluções para nossas ansiedades tecnológicas no breve período de tempo em que eles estiveram por aqui, de 1811 a 1813. A história popular nos conta que a violência dos ludistas se resumiria aos próprios maquinários de tecelagem, quando na verdade as máquinas eram representantes da mais-valia roubada. Elas pertenciam a homens que não trabalhavam e que tinham todos os incentivos para se submeterem à burocracia e à pauperização, enquanto acumulavam o máximo de riqueza possível. Para Pynchon, é o arquétipo junguiano do Rei Ludd que retorna para nos ajudar a enxergar isso claramente:

Quando os tempos são difíceis e nos sentimos à mercê de forças muitas vezes mais poderosas, não nos voltamos, na busca de algum equalizador, nem que seja apenas em imaginação, em desejo, para o Malvadão — o djinn, o golem, o hulk, o super-herói — que resistirá ao que, de outro modo, nos dominaria?

Neoludismo

O grupo descentralizado de hackers denominado Anonymous teve início em 2003 e, por um breve período, prometeu ser o novo símbolo dos ludistas. Seus membros foram descritos como “Robin Hoods digitais” depois que o grupo realizou ataques cibernéticos contra governos estaduais, corporações e a Igreja da Cientologia. O Anonymous era relacionado à máscara de Guy Fawkes, que se tornou especialmente popular e padronizada pela adaptação cinematográfica de V for Vendetta (“V de Vingança”), de Alan Moore. No entanto, em vez de meias de lã, foram firewalls, servidores e paywalls acumuladores de informações que foram destruídos.

O Anonymous era Malvadão, na medida em que era mitológico no anonimato e certamente capaz de maldades generalizadas. O grupo de hackers apoiou movimentos globais como o Occupy e a Primavera Árabe. Desde então, a máscara de Guy Fawkes perdeu o brilho. Provavelmente devido a prisões e capturas de elite, hoje os membros do Anonymous realizam ataques contra a Rússia em nome do governo ucraniano, indistinguíveis de uma divisão cibernética da OTAN. O grupo tem recebido cobertura favorável em segmentos da MSNBC como uma força oculta, misteriosa e ousada.

Por mais corruptíveis que sejam, os movimentos políticos se unem sob símbolos. Pynchon termina seu ensaio “Is It Okay to be a Luddite?” comparando as promessas da Era do Computador com o que os ludistas buscavam ao olhar para trás, para a Era dos Milagres. Do ponto de vista de Pynchon em 1984, a tecnologia do futuro prometia magia: “com a utilização adequada do orçamento e do tempo do computador, curaremos o câncer, nos salvaremos da extinção nuclear, cultivaremos alimentos para todos, desintoxicaremos os resultados da ganância industrial enlouquecida”.

A Era do Computador deu origem a figuras mitopoéticas. Neo, do filme Matrix, é um malvadão destruidor de máquinas, por exemplo. Mas quarenta anos depois, a utopia digital parece atrasada ou permanentemente adiada. A inteligência artificial promete magia, mas o clima mudou.

Como observa Gavin Mueller em Breaking Things at Work (“Quebrando as Coisas no Trabalho”, em tradução livre), o puro otimismo tecnológico é uma marca registrada de nossa classe bilionária — e eles são um bando de mentirosos. Como argumentou Marx, as ideias dominantes de uma sociedade são as de sua classe dominante, e está se tornando muito difícil imaginar que Bezos, Musk, Gates e Thiel livrarão o mundo de doenças, alcançarão a civilização intergaláctica e/ou decifrarão o código da imortalidade. Mueller cita esse fato como uma oportunidade para a esquerda: “embora eu queira transformar marxistas em ludistas”, escreve ele, “também tenho outro objetivo: quero transformar pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”.

Para Mueller, o ethos ludista “inspirado nas lutas dos trabalhadores no ponto de produção, enfatiza a autonomia: a liberdade de conduta, a capacidade de estabelecer padrões e a continuidade e melhoria das condições de trabalho”. A sabotagem pelas mãos do Rei Ludd diz respeito à liberdade.

Tornando-se grande e mau

No último capítulo de How to Blow Up a Pipeline (Como explodir um oleoduto), intitulado “Fighting Despair” (“Lutando contra o desespero”), Andreas Malm toma nossa imaginação como uma faculdade fundamental na crise climática, pois ela

se desdobra por meio de uma série de absurdos interligados que estão embutidos nela: não só é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, ou a intervenção deliberada e em larga escala no sistema climático…também é mais fácil, pelo menos para alguns, imaginar aprender a morrer do que aprender a lutar, reconciliar-se com o fim de tudo o que se preza do que considerar alguma resistência militante.

Deveríamos ver um presságio histórico no fato de que a primeira atividade ludista começou com um clima de outono excepcionalmente quente depois de um “verão anormal”? Sale argumenta que isso levou a uma colheita ruim e a uma maior pressão econômica em Nottingham. Sabemos que a escala da miséria humana causada pela Revolução Industrial foi ruim, mas, ao encerrarmos a Era do Computador e iniciarmos a Era do Clima, já injetamos gigatoneladas de carbono na atmosfera — tudo graças aos descendentes imundos das máquinas que agitavam o moinho de Cartwright.

Malm observa que, na época da conferência climática COP1 de 1995, poucos cientistas previram que a terra e os oceanos ficariam em breve cheios de dióxido de carbono e metano. A zona norte de permafrost da Terra é um depósito subterrâneo de carbono congelado por centenas de milhares de anos. Quando o planeta se aquece, “o sólido começa a descongelar, os micróbios começam a trabalhar na matéria orgânica e a decompõem, liberando dióxido de carbono” e metano. Isso leva a ciclos de feedback positivo sobre os quais a maioria de nós não gostaria de pensar.

O que precisa ser feito para evitar isso é tecnologicamente muito possível. Poderia ser realizado se reorientássemos radicalmente toda a produção econômica e social humana.””Isso exigiria o controle centralizado dos principais setores econômicos”, diz o fatalista climático Roy Scranton, autor de We’re Doomed. Now What? (“Estamos Condenados. E agora?”). Precisaríamos de “investimentos estatais maciços em captura e sequestro de carbono e coordenação global em uma escala nunca antes vista”, o que Scranton não vê motivos para esperarmos.

Malm é crítico quanto ao fatalismo de Scranton, argumentando que este racionalizaria a inação. “A superação das metas de mitigação climática exige mais, e não menos, resistência”, escreve Malm. Não é tarde demais, pois a maioria dos fatores determinantes das emissões globais ainda não foi construída. E mesmo que fosse, “qual foi o objetivo de Nat Turner ou da revolta do gueto de Varsóvia?” — pergunta Malm. “O fatalismo do presente despreza as lutas derrotadas do passado, assim como o pacifismo estratégico: se alguém levantou uma arma e perdeu, foi porque levantou essa arma”.

Escrever “King Ludd wuz here” [“O Rei Ludd passou por aqui”] nos painéis das portas de SUVs parece um pouco inútil. Mas poderíamos ter algo de um renascimento do espírito ludista. Talvez isso seja inevitável. Para Carl Jung, os arquétipos compostos de imagens primordiais no inconsciente coletivo estão constantemente passando por nascimento e morte. Isso os torna, essencialmente, irreprimíveis. O Malvadão voltará.

Malm diz que temos de acolher este retorno. “eEis o que esse momento de milhões deve fazer para começar”, escreve Malm: “anunciar e fazer cumprir a proibição. Danificar e destruir novos dispositivos emissores de CO2. Colocá-los fora de operação, desmontá-los, demolir-los, queimá-los, explodi-los. Deixe que os capitalistas que continuam investindo no fogo saibam que suas propriedades serão destruídas”.

Um planeta habitável exige a proibição de novos emissores, a destruição dos atuais fornos carboníferos e uma nova revolução industrial em geoengenharia e reparo ecológico. Considerando os níveis de força de Goku, que tipo de personagem e que tipo de atitude poderiam ser adotados para essa escala de transformação social? Você sabe qual o tipo.

Sobre os autores

Devin Thomas O'Shea

já escreveu na NationProteanCurrent AffairsBoulevard e em outros lugares.

Cierre

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Published in Análise, DESTAQUE, Europa, História, Tecnologia and Trabalho

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