A Rússia no espelho do Ocidente

12/01/2021

Por
Lutz Brangsch

Tradução
Caue Ameni e Hugo Albuquerque

Ao falar da Rússia, os críticos ocidentais preferem chamar atenção para o caráter exótico e iliberal da liderança de Putin. Mas a configuração política russa é resultado da neoliberalização das últimas décadas. Por mais que se tente fugir disso, os problemas da Rússia e do ocidente têm a mesma raiz: o capitalismo e a fragmentação da esquerda.

A transformação neoliberal pavimentou o caminho para o putinismo. Imagens imago / ITAR-TASS.

Embora a Rússia esteja geograficamente próxima da Alemanha, a esquerda da Europa Ocidental tem dificuldades de entender não apenas a classe dirigente, mas toda a sociedade russa. Do lado europeu, as respostas aos acontecimentos de lá oscilam entre a indiferença, o interesse econômico, a justificada crítica a uma política interna repressiva, passando por ambições imperiais e pelo intervencionismo mais ou menos dissimulado. Fala-se tanto sobre a figura exótica de Vladmir Putin porque é a forma mais fácil de polemizar sobre a Rússia sem ter que se aprofundar nas contradições sociais internas e nas relações do país com o resto do mundo.

Em um artigo publicado recentemente na Wirtschaftswoche, o senador alemão Ralf Fücks, filiado ao Partido Verde, explorou a questão de como a “pseudo-gigante” Rússia deve ser “contida” e começa o artigo caracterizando o “regime putinista” como “politicamente inescrupuloso em termos de poder, juntamente com uma vontade irrestrita de enriquecimento”. Isso parece corajoso e consistente, mas o problema é muito mais complexo.

A questão é que não se trata de Putin, mas de um consenso peculiar que foi encontrado entre as várias facções da oligarquia dominante. Putin tem, na verdade, o mérito histórico de ter colocado a vontade irrestrita de enriquecimento um pouco em seu lugar. Esse modo de governar é, às vezes, chamado de “putinismo”. Com o advento do “trumpismo” nos Estados Unidos, passamos a entender que o quadro russo não se trata de um descarrilamento do capitalismo “ocidental de verdade”, mas que – apesar de todas as diferenças –  é algo da mesma natureza dele, senão a mesma coisa.

Seja Fücks, Joe Biden ou a sucessora escolhida de Angela Merkel, Annegret Kramp-Karrenbauer, todos querem negociar com a Rússia a partir de uma posição de força por meio de uma retórica de sanções. E, mais ou menos conscientemente, todos eles suprimem o fato de que a peculiar configuração política russa é, na verdade, consequência da contra-revolução neoliberal dos anos 1980-90. Os problemas da Rússia são, portanto, também os nossos problemas – talvez também lá possamos ver o nosso futuro, mesmo que não queiramos admitir isso.

Terapia de choque neoliberal

Depois de termos visto, brevemente, no início dos anos 2000 uma abertura a favor do Estado de bem-estar social na Rússia, essa esperança evaporou novamente durante o início da crise econômica global de 2007 em diante. Esse consenso, contudo, não pode ser resumido apenas à posição de Putin, mas a um complexo arranjo que envolve também os liberais, os quais são vistos normalmente como “a esperança contra o regime” pelo Ocidente, mas que são, na verdade, partes ativas dele.

Figuras-chave na terapia de choque da década de 1990, como Anatoly Chubais ou Alexei Kudrin, desempenharam um papel central na direção da política sob Putin. Ao lado de Yegor Gaidar, Chubais foi um dos idealizadores das reformas e atualmente é o chefe da Rosnano, empresa estatal especializada em inovações tecnológicas. 

Kudrin se afirmou em nível regional e desempenhou um papel fundamental na influência da política econômica de Putin: ele foi ministro das finanças e chefe de um dos mais importantes think tanks do governo, sendo que agora ele é presidente do escritório de auditoria. Também foi ele quem desenvolveu a ideia, no início dos anos 2000, de substituir o “capitalismo bandido” por um “império liberal”. Isso explica por que Sergei Udalzov, líder da Frente Trabalhista Unificada Russa, aponta esses dois liberais como oponentes políticos exemplares.

A visão de mundo da elite russa – amigável ou não a Putin – recentemente se tornou clara quando Putin quis instituir uma tributação de renda mais justa.

O governo tentou subir de 13% para míseros 15% a tributação sobre pessoas com renda anual acima de ₽ 5 milhões, algo próximo a R$ 350 mil, em um país cujo salário médio mensal é de equivalente a R$ 3.500,00 – e mesmo no seu dinâmico setor petrolífero chega apenas ao equivalente a R$ 10.000,00. Lembrando que Kudrin liderou a reforma que aboliu a alíquota de 30% sobre a renda para substituí-la por um imposto único, que favoreceu os mais ricos, em 2001. 

Disso se seguiu uma gritaria por parte dos liberais russos, com os conhecidos cenários apocalípticos que são desenhados contra essas medidas em qualquer lugar do mundo. 

A precariedade do sistema de saúde, testado nesta pandemia, e o aumento do consumo do pão, causado pela queda do consumo de alimentos mais caros, demonstram isso. Um dos pioneiros da economia soviética e russa, Abel Aganbegyan, destacou recentemente que a economia russa não está em crise, mas em fase de estagnação. Uma crise passaria, mas a estagnação poderia durar para sempre.

Resistência fragmentada da esquerda

A remodelação governamental no início de 2020, o anúncio da redução do número de funcionários na administração, a dissolução ou amálgama de autoridades federais ou os relatórios diários sobre a detenção e condenação de funcionários por corrupção ainda não são sinais de mudança. Em vez disso, eles testemunham a busca de um caminho sustentável por parte dos grupos de elite governantes e concorrentes.

Mesmo que essa estagnação determine o clima na sociedade russa e os sindicatos militantes e a esquerda política sejam fracos, o espectro de resistência contra o caminho neoliberal é amplo. Profecias de um choque tremendo, como o que Sergei Udalzov previu por ocasião do aniversário da Revolução de Outubro, certamente não são realistas. Isso também porque, como esperado, a esquerda está fragmentada. 

O único grupo que tem mais ou menos condições de agir em campo ainda é o Partido Comunista da Federação Russa (KPRF em russo), o qual é representado na Duma e nos parlamentos regionais e elegeu governadores em várias regiões. Como um conglomerado de forças diferentes, ele une um espectro de esquerdistas que vai desde os mais “conformados ao sistema” até o campo stalinista. A frente de esquerda do ativista Sergei Udalzov vê seu objetivo no estabelecimento de uma sociedade socialista justa. Em torno das plataformas “A Esquerda Alternativa” (“Esquerda Alternativa”) e do recém-criado “Esquerda Radical” (“Esquerda Radical”) estão agrupados, como os nomes sugerem, esquerdistas que não podem ser atribuídos às correntes tradicionais, mais próximos das tradições trotskistas e não bolcheviques.

A esquerda é obrigada a se organizar principalmente de forma descentralizada, o que é feito principalmente através da Internet. Aqui encontramos toda a gama de iniciativas feministas, LBGTQ e ambientais, bem como grupos anarquistas e de esquerda radical, como os do “Ocidente”. Entre os sindicatos, merece uma menção especial a Confederação do Trabalho (Konfederacya Truda), uma associação de sindicatos regionais e filiais menores.

A esquerda acadêmica é representada por Alexandr Buzgalin e Boris Kagarlitsky, entre outros. Eles também trabalham através de seus canais online, como o Alternatvy ou Rabkor. Essas correntes também incluem expoentes da Casa Plekhanov em São Petersburgo, a Sociedade Econômica Livre (a maior organização econômica da Rússia) e outros acadêmicos em várias universidades do país.

O Partido Rússia Justa constitui a transição para o campo social-democrata e para a oposição liberal-burguesa. Essas correntes de oposição funcionam amplamente separadas umas das outras. A questão das possibilidades de ação conjunta é questionada repetidamente, por exemplo, no Fórum Social Russo de 2019. No entanto, isso permaneceu em grande parte inconclusivo. O fórum da sociedade civil russa deste ano, com mais de 20.000 participantes, também atraiu o público comum. Pela primeira vez, os temas de condições de trabalho e direito do trabalho, especialmente no que diz respeito ao home office e saúde, foram amplamente discutidos nesta nona reunião. Além disso, questões de segurança jurídica, eleições, política local e outras questões clássicas de direitos civis foram centrais.

A esquerda entre as frentes

Agora, o KPRF tentou formar uma frente única “patriótica de esquerda”. Aqueles que aderirem devem, no entanto, também concordar com as posições programáticas do partido. É questionável se a abordagem claramente “patriótica” pode atingir a esquerda mais jovem em particular. A razão pela qual o KPRF escolhe essa abordagem também pode ser explicada pela interação entre desenvolvimentos externos e internos. Porque a esquerda e mesmo a oposição liberal-burguesa (no sentido original da palavra) situam-se entre duas frentes. Por um lado, ela  está próxima de uma ideia de Ocidente, suas inovações e sua cultura, face ao contexto interno atrasado, o que une figuras como Dugin e Navalny. Por outro lado, ela se depara com as pretensões intervencionistas do Ocidente – de Biden aos democratas cristãos da Alemanha – que não oferecem alternativa além do modelo neoliberal de sociedade.

Assim, as demandas intervencionistas têm o efeito de que a repressão política doméstica na Rússia pode ser cada vez mais legitimada por ter que se opor à influência “de fora”. Depois de um pacote legislativo para reprimir o direito de manifestação e para dificultar o trabalho de ONGs e indivíduos locais com parceiros estrangeiros, estão planejados novos medidas para estreitar as possibilidades de ação democrática. Fazer protestos é quase impossível. No futuro, a participação financeira de organizações estrangeiras em ações públicas devem ser sancionada. Nas reportagens, os jornalistas devem assinalar expressamente que as partes envolvidas têm o estatuto de “agente estrangeiro”.

Tanto a esquerda russa quanto a burguesia literalmente liberal se deparam com a escolha entre duas variantes do neoliberalismo: seu próprio neoliberalismo, a aliança da burocracia estatal recém-criada após 2000, os oligarcas dos anos 1990 e setores da classe média ou o neoliberalismo ocidental, que é apresentado com gestos ameaçadores e sanções no contexto do colapso do antigo Estado de bem-estar. Isso leva partes relevantes da oposição ao discurso “patriótico”, o que explica a confluência delas com o governo, como pode ser visto com frequência, por exemplo, no caso do KPRF.

Os problemas são semelhantes – aqui e ali

Esse dilema também constitui o terreno fértil para as posições do conservadorismo russo. Recentemente, no Rossiyskaya Gazeta, o jornal oficial do governo russo, Sergei Karaganov vê o principal conflito do momento na contradição entre conservadores ou “gente comum” de um lado e os liberais do outro. 

Para Karaganov, não existem contradições sociais, as quais são aceitas como naturais. Disto ele deriva uma imagem da sociedade dirigida contra todo movimento emancipatório, se opondo a qualquer “universalismo” ao atacar expressamente o direito à autodeterminação sexual: os valores da família e do casamento (patriarcal) tornam-se virtualmente imutáveis. Por fim, Karaganov interpreta o questionamento desses valores por feministas e a comunidade LGBTQ como a transformação das pessoas em mankurts

Mankurt é um termo de origem quirguiz inserido na língua russa pelo escritor soviético, oriundo do Quirguistão, Chingiz Aitmatov em seu romance de 1980, Um dia maior que um século: ela representava os derrotados em guerras que eram escravizados e alijados de suas raízes e tradições, sofrendo lavagens cerebrais por meio da violência física e psicológica, fazendo-os perder a humanidade. Isso tinha total ligação com o protagonista do livro e a realidade histórica da Ásia Central.

Enquanto Aitmatov usava o termo mankurt como uma expressão da pessoa alijada de sua própria dimensão humana pelos poderosos que a dominaram, Karaganov considera como tal aqueles que desejam se libertar dessas mesmas amarras.

A semelhança com uma imagem de sociedade defendida por trumpistas e conservadores alemães e representantes do Alternativa pela Alemanha (AfD, na sigla em alemão) é óbvia. Até agora, a referência a essa semelhança foi repetidamente contestada pelo fato de que a capacidade corretiva das democracias ocidentais, ao contrário da Rússia, ainda funcionaria. Em vista dos desenvolvimentos dos últimos 30 anos e do estabelecimento do trumpismo como uma tendência estável nos Estados Unidos, entretanto, esse argumento está se tornando cada vez menos convincente.

Portanto, temos um problema comum na Europa Ocidental e na Rússia. A solidariedade com a esquerda russa, sindicalistas e ativistas em movimentos sociais, ambientais ou feministas, bem como uma rejeição à política cada vez mais agressiva do “Ocidente” em relação à Rússia, agora quase reflexivamente se transformam em apoio ao governo russo. Isso é favorecido pela ampla ignorância das discussões reais na Rússia, embora, por razões geográficas, elas devam ser consideradas pelo menos tão importantes para os europeus ocidentais quanto aquelas nos Estados Unidos. Embora seja bom a esquerda alemã compreender de alguma forma e às vezes imitar cada reviravolta do debate anglo-americano, o entendimento dos debates russos é amplamente reduzido ao que pode ser encontrado na grande mídia. Talvez seja hora de aprender russo também.

Sobre os autores

é economista e consultor de Estado e de Democracia do Instituto de Análise Social da Fundação Rosa Luxemburgo.

Sobre o autor

Lutz Brangsch é economista e consultor de Estado e de Democracia do Instituto de Análise Social da Fundação Rosa Luxemburgo.

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